250px|thumb|Jair Bolsonaro segurando uma caixa de cloroquina em setembro de 2020.

O kit Covid, frequentemente referido como tratamento precoce, é uma designação utilizada para descrever a abordagem negacionista promovida pelo governo liderado por Jair Bolsonaro e seus apoiadores no que diz respeito ao uso de medicamentos que não possuem eficácia comprovada no tratamento da COVID-19. Este enfoque inclui a defesa do uso de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, bromexina, nitazoxanida, anticoagulantes e suplementos de zinco.

No início da pandemia, especificamente em março de 2020, a cloroquina surgiu como um possível tratamento para a doença com base em dois estudos de qualidade questionável. Notavelmente, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, endossou um desses estudos, desafiando assim as recomendações da Food and Drug Administration (FDA), o que levou a politização da questão. No Brasil, o então presidente Jair Bolsonaro rapidamente adotou esse discurso. Nos meses subsequentes, o governo brasileiro tomou medidas para promover a cloroquina e a hidroxicloroquina como tratamentos para a COVID-19. Isso incluiu a ordenação da produção, coordenação da distribuição e um gasto considerável de aproximadamente 90 milhões de reais na aquisição desses medicamentos. Além disso, o Ministério da Saúde, sob a liderança de Eduardo Pazuello, ampliou o uso dessas substâncias para tratar casos leves da doença.

O kit Covid gerou entre a população uma falsa sensação de segurança, sugerindo que a vida poderia retornar ao seu estado anterior, sem a necessidade de medidas de isolamento social. No entanto, essa abordagem resultou no aumento do número de infecções, hospitalizações e mortes. Além disso, o uso generalizado desses medicamentos, juntamente com seus potenciais efeitos colaterais, causou danos significativos aos rins e ao fígado de seus usuários. Essa abordagem foi amplamente criticada por organizações e especialistas em saúde devido à falta de embasamento científico e à potencial periculosidade associada ao seu uso. Não obstante, tornou-se objeto de ações judiciais e investigações relacionadas a possíveis favorecimentos envolvendo agentes públicos e privados em busca de ganhos financeiros.

Contexto Assumindo a presidência em janeiro de 2019, Jair Bolsonaro sempre manifestou interesse em estreitar laços com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No primeiro semestre de 2020, à medida que a pandemia de COVID-19 se intensificava, Bolsonaro adotou uma retórica semelhante à de Trump, minimizando a gravidade da disseminação da doença e defendendo pelo fim das medidas de isolamento social. Notavelmente, Trump também defendeu o uso da cloroquina com base em um estudo publicado pelo Instituto IHU-Méditerranée Infection, um estudo que foi objeto de considerável questionamento por parte de diversos cientistas. Em uma fase posterior, o diretor do instituto, Didier Raoult, foi acusado pela Sociedade de Patologia Infecciosa de Língua Francesa (SPILF) de promover indevidamente o medicamento. Pouco tempo após a defesa de Trump, Bolsonaro também enfatizou a eficácia da hidroxicloroquina, declarando que "aquele remédio lá, hidroxicloroquina, está dando certo em tudo quanto é lugar, certo? Um estudo francês chegou para mim agora".

thumb|250px|O presidente Jair Bolsonaro e o então ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta durante uma coletiva em março de 2020.

No início da pandemia no Brasil, o então Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, adotou as orientações sanitárias preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entretanto, ao longo do tempo, tornou-se evidente um aumento das discordâncias entre Bolsonaro e o ministro. O então presidente defendeu publicamente o uso da cloroquina e hidroxicloroquina, ao mesmo tempo em que se posicionava contrariamente ao distanciamento social. Em decorrência dessas divergências, Mandetta foi demitido e o oncologista Nelson Teich assumiu o cargo de Ministro da Saúde, permanecendo no posto até 15 de maio de 2020. Sua renúncia ocorreu devido ao desejo do governo de ampliar o uso da cloroquina no tratamento de pacientes com COVID-19 e à percepção de que não teria a autonomia necessária para liderar o Ministério. Subsequentemente, o general de divisão Eduardo Pazuello assumiu interinamente o cargo, sendo efetivado oficialmente quatro meses depois. Durante sua gestão, o Ministério da Saúde autorizou prontamente o uso da hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com casos leves de COVID-19.

Ao longo de todo o ano de 2020, tanto Bolsonaro quanto Pazuello, defenderam a utilização de fármacos cuja eficácia estava em questão. O governo federal, em colaboração com o Exército Brasileiro e o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), também coordenou a aquisição, produção e distribuição de hidroxicloroquina. Segundo informações da Agência Pública, somente no mês de março de 2020, o Exército Brasileiro fabricou e distribuiu 25 mil unidades de hidroxicloroquina. No total, ao longo daquele ano, foram produzidos 3,2 milhões de comprimidos deste medicamento.

Colapso sanitário de Manaus 250px|thumb|esquerda|Mayra Pinheiro prestando depoimento à CPI da COVID-19 em maio de 2021.

Em janeiro de 2021, em meio ao agravamento da crise sanitária no estado do Amazonas, o Ministério da Saúde exerceu pressão sobre a prefeitura de Manaus para que distribuísse os medicamentos do chamado kit Covid. Um ofício, assinado por Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, foi emitido pelo órgão, afirmando que a não utilização desses medicamentos seria considerada "inadmissível". Além disso, o ofício solicitava autorização para visitar as Unidades Básicas de Saúde com o objetivo de promover o tratamento precoce no município. Inicialmente, a existência deste ofício foi negada por Pazuello, mas posteriormente admitida pela própria Mayra Pinheiro.

No mesmo período, o Ministério da Saúde lançou um aplicativo de celular chamado TrateCov em caráter de teste, com o objetivo declarado de auxiliar profissionais de saúde, embora fosse acessível a qualquer pessoa. O aplicativo gerou controvérsias significativas ao sugerir a prescrição de diversos medicamentos sem eficácia comprovada contra a COVID-19, inclusive para recém-nascidos e animais. Em resposta às críticas e à falta de embasamento científico das recomendações, o aplicativo foi retirado do ar no dia seguinte ao seu lançamento.

Em 21 de julho de 2021, o Jornal Nacional revelou a existência de documentos obtidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito da COVID-19 (CPI da COVID-19), que indicavam a intenção do setor governamental em persuadir médicos e pacientes a utilizarem os medicamentos do kit Covid. Conforme a reportagem, o Ministério da Saúde teria financiado, em janeiro, a viagem de 11 médicos a Manaus com o propósito de instruir os profissionais de saúde locais a prescreverem medicamentos sem eficácia comprovada contra a COVID-19. Esses médicos enviados elaboraram relatórios que sugeriam a implementação de "tendas de tratamento precoce" como meio de ampliar a disponibilidade dos medicamentos e incentivar a prática de automedicação do kit Covid.

Gabinete paralelo Após a criação da CPI da COVID-19 em abril de 2021, informações sobre a condução do governo federal no enfrentamento da pandemia começaram a ser reveladas. Logo no primeiro depoimento, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, revelou a existência de um "assessoramento paralelo", posteriormente conhecido como gabinete paralelo. O propósito desse grupo era aconselhar o governo federal a adotar uma postura contrária à vacinação, defendendo em vez disso o tratamento precoce e a busca pela imunidade de rebanho. Mandetta também relatou enfrentar concorrência interna no governo, com assessores, filhos do então presidente e médicos chegando a propor um decreto que incluiria o tratamento da COVID-19 na bula da cloroquina, informação posteriormente confirmada pelo então diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres. Conforme as investigações progrediram, nomes como o deputado federal Osmar Terra, o ex-assessor do governo Arthur Weintraub, a médica Nise Yamaguchi e o empresário Carlos Wizard foram mencionados pela comissão como possíveis integrantes do gabinete paralelo. Documentos da Casa Civil também revelaram que pessoas identificadas como potenciais membros desse grupo participaram de pelo menos 24 reuniões para discutir estratégias do governo no enfrentamento da pandemia.

Em 4 de junho de 2021, o portal Metrópoles divulgou um vídeo de uma reunião na qual Bolsonaro se encontrou com alguns profissionais da saúde, incluindo Osmar Terra, Nise Yamaguchi e o virologista Paolo Zanotto. Durante essa reunião, Zanotto chegou a sugerir a criação de um "shadow cabinet" (gabinete das sombras em tradução literal) para aconselhar o governo em relação à pandemia. Nesse encontro, os participantes também apresentaram ao então presidente opiniões contrárias às vacinas e favoráveis ao uso da hidroxicloroquina.

Interferência política na Conitec Em julho de 2021, durante a gestão de Marcelo Queiroga, o Ministério da Saúde reconheceu a ineficácia do kit Covid. Essa decisão foi fundamentada em uma análise conduzida pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), um órgão de assessoramento do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, mesmo com essa posição oficial, Bolsonaro e outros membros do governo continuaram a defender o tratamento precoce.

Em 21 de setembro de 2021, durante a 76.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque, Bolsonaro usou a ocasião para defender o tratamento precoce. No mês seguinte, a Conitec retirou da sua pauta a análise de um estudo que se posicionava contra o uso da cloroquina no tratamento de pacientes com COVID-19. O Ministério da Saúde justificou essa decisão, alegando que o próprio grupo de especialistas da Conitec optou por retirar o documento de pauta com o intuito de aprimorar o relatório. No entanto, essa mudança súbita causou surpresa entre os membros do órgão e levantou suspeitas de possíveis interferências políticas. De acordo com informações da rádio CBN, Bolsonaro teria demonstrado insatisfação com as informações técnicas contidas no documento e com a iminente posição da Conitec contrária ao tratamento precoce. Como resultado, teria exercido pressão sobre o Ministério da Saúde para que fossem feitas alterações no relatório.

Nota do Ministério da Saúde Em 7 de dezembro de 2021, a Conitec aprovou um parecer no qual não recomendava o uso da cloroquina, azitromicina, ivermectina e outros medicamentos sem eficácia comprovada no tratamento da COVID-19. Após a aprovação desse parecer, o relatório foi encaminhado à Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde. No entanto, foi posteriormente bloqueado pelo secretário Hélio Angotti Neto. Nessa mesma ocasião, o Ministério da Saúde emitiu uma nota que erroneamente classificou a hidroxicloroquina como eficaz e a vacinação como ineficaz no combate à COVID-19. Essa nota gerou uma ampla reação negativa, sendo repudiada por especialistas e entidades científicas. Cinco dias após a divulgação da nota, o Ministério removeu a tabela com informações falsas, mas manteve a decisão de rejeitar as diretrizes da Conitec.

Os fármacos Cloroquina e hidroxicloroquina