A língua movima é uma língua falada na região do Yacuma, na Bolívia amazônica. O movima ainda é considerado uma língua isolada,Jolkesky, Marcelo Pinho de Valhery. 2016. Estudo arqueo-ecolinguístico das terras tropicais sul-americanas. Doutorado em Linguística. Universidade de Brasília. visto que não apresenta nenhum parentesco com outras línguas da região, apesar de algumas similaridades lexicais com o itonama. O idioma conta com cerca de 1 452 falantes, em sua maioria de forma bilíngue juntamente com o espanhol. A UNESCO aponta o movima como uma língua “em perigo severo”, isto é, falado por gerações mais velhas, entendido por gerações adultas e não transmitido para as gerações mais novas. O idioma é uma das línguas indígenas oficiais da Bolívia, desde a promulgação do Decreto nº 25894 no ano 2000.
Língua e Sociedade
Falantes A língua movima é falada pelo povo Movima, um povo indígena que vive na Amazônia boliviana e teve seu primeiro contato com “os brancos” (europeus jesuítas, ou karayanas, como eram chamados pelo povo) por volta de 1621.
Os falantes de movima se preocupam com a língua, fato evidenciado pelo cuidado com a preservação da pureza linguística do idioma, e pela inexistência de code-switching. Há, entretanto, uma grande variedade de empréstimos do espanhol na língua movima, principalmente em termos que demonstram aspectos culturais europeus.
Apesar desse fato, de uma população total de 6 516 pessoas, 76,4% dos Movima possuem o espanhol castelhano como língua única, 22,5% é bilíngue em movima e castelhano e apenas 0,5% é monolíngue em movima, em sua maioria acima de 45 anos. Isso provavelmente é reflexo das reformas educacionais de 1955, quando as crianças passaram a ser educadas em espanhol, o que levou muitas pessoas a não passarem a língua para seus filhos. Assim, há pessoas entre 20 e 40 anos que entendem a língua mas não são capazes de reproduzi-la. No entanto, desde a reforma de 1992, os infantes bolivianos devem aprender suas línguas ancestrais na escola, o que é uma esperança para o povo, mesmo que não sejam visíveis resultados muito efetivos ainda.
Distribuição Geográfica miniaturadaimagem|Província do Yacuma, no Beni O movima é falado, principalmente, na região de Santa Ana del Yacuma, no departamento do Beni, na Bolívia. Há muitas comunidades movimas espalhadas entre os distritos de Santa Ana del Yacuma, Exaltación, San Joaquín e San Ignacio, além de ao longo de alguns rios. A área habitada por esse povo é próxima da original, anterior ao contato europeu; ela é coberta, além de uma parte da floresta Amazônica, de savanas e pântanos. Os vizinhos mais próximos dos Movimas são os Mojos ao sul, com sua língua moxo, da família arawak, e os cayuvava e canichanas ao norte e leste, com línguas isoladas.
Etimologia O termo movima (pronunciado [mo’ima] em espanhol) refere-se, originalmente, ao grupo étnico que fala a língua (mowi:maj, pronunciado [m'wi:mah] no idioma nativo). Em movima, a língua é chamada de chonsine (traduzido como 'língua nativa'), ou mais especificamente de chonsine di’ mowi:maj ('língua nativa Movima').
Movima é o único nome conhecido para a língua, contando apenas com algumas diferenças ortográficas na literatura. Já foi chamada de moyma ou moima, no primeiro registro escrito, de 1621, e também de mobima, por Créqui-Montfort & Rivet, em 1914. Todas essas formas de representação do nome encontram-se próximas em pronúncia, visto que <v> e <b> no espanhol representam o mesmo fonema.
Não foi detectada nenhuma variação ou dialeto da Movima.
História Os primeiros materiais que podem ser encontrados sobre o movima são listas de palavras e frases: Hervás y Panduro, de 1787; D'Orbigny, de 1838; Heath, de 1883; Cardús, de 1886; Chamberlain, de 1910; Créqui-Montfort & Rebite, de 1914; e del Castillo, de 1929.
Ao longo da década de 1960, o idioma foi estudado por Robert e Judith Judy do SIL International. Suas contribuições incluem uma lista de palavras com um esboço gramatical (1962a), um esboço do inventário de fonemas (1962b), dois artigos sobre temas específicos (J. Judy 1965 e R. Judy 1965), e uma gramática tagmêmica (1965 e 1967).
Houve uma campanha de alfabetização em 1995, o que renovou o interesse sobre a língua. Colette Grinevald, que liderava o projeto, publicou um artigo sobre classificadores de substantivos em movima. Foram feitos workshops, os quais colaboraram para a formação de um alfabeto para o idioma e resultaram na publicação de uma coletânea de histórias em movima (Ministerio de Desarrollo Sostenible y Planificación 1998) e em um curso livro de introdução ao alfabeto (Ministerio de Educación et al. 2003).
Katharina Haude fez sua dissertação de doutorado sobre a língua, estudando ao fundo suas formações, e passou a ser uma base muito forte de estudo acerca do Movima.
Fonologia
Vogais Há cinco vogais em movima: +Vogais do movima Anterior Central Posterior Fechada Média Aberta As vogais /e/ e /o/ possuem qualidades que recaem entre abertas e fechadas. /e/ está mais perto de [ε] do que [e], e /o/ se aproxima mais de [ɔ] do que de [o].
Há dois tipos de duração de vogal em movima: a primeira, alongamento causado por fatores prosódicos, ocorre na penúltima sílaba da palavra, e a segunda, duração fonêmica, ocorre quando uma vogal longa é colocada em uma posição onde é esperado haver uma vogal curta. (Também há o caso de uma vogal curta ser colocada em uma posição longa). Consoantes
+Consoantes do movima LabialAlveolarPalatalVelarLabiovelarGlotalsimp.lab.Nasal Oclusivapulmônica () implosiva AfricadaFricativa () Fricativa lateralAproximante Aproximante lateralVibrante A consoante /p/ é realizada como [p], mas, em coda, pode realizar [pʔᵐ]. Do mesmo modo, /t/ é [t], mas em coda, assume [tʔⁿ], e /k/ é [k] mas assume [ʔɤ].
/f/ e /g/ aparecem apenas em palavras e fonemas derivados do espanhol, e são pronunciados [f] e [g].
/kʷ/ [kʷ], /tʃ/ [tʃ], /b/ [ɓ], /d/ [d], /β/ [β], /s/ [s], /h/ [h], /ɬ/ [ɬ], /m/ [m], /n/ [n], /l/ [l], /r/ [r] ou [ɗ], /w/ [u], e /j/ [i] possuem, no geral, apenas uma posição.
Outro som possível é o glide palatal glotalizado, o /jʔ/ [jʔ], o qual ocorre apenas em coda e normalmente após a vogal /a/.
Estrutura Silábica Há duas estruturas silábicas fundamentais: CV (aberta) e CVC (fechada). Duas consoantes adjacentes podem ocorrer se distribuídas entre duas sílabas, em caso de, por exemplo, coda e onset. Uma exceção seria quando o demonstrativo da final de uma consoante é combinado com o determinante encliticizado /s/, que é realizado como [h]. No caso de palavras espanholas que possuem duas consoantes adjacentes em uma mesma sílaba, há a adição de uma vogal epentética, assim como o marco oblíquo /n/, com uma só consoante.
Haude afirma que não há elementos iniciados por vogais em movima, visto que em todas as palavras com vogais no início há a oclusiva glotal, mesmo naquelas vindas do espanhol.
a. /'a:na/ ['ʔa:na] (meu irmão [neutro] mais novo) b. /'e:an/ ['ʔε:ɬan] (teu nome) c. /empa'na:da/ [ʔεmpa'na:ɗa] (empanada)
Quando duas vogais se encontram juntas, elas são separadas por uma oclusiva glotal.
a. /'salna=n--us/ ['salnanus] (Você procura por ele.) b. /'salna--us/ ['salnaʔus] (Eu procuro por ele.)
Estrutura de palavras independentes Todas as palavras precisam ter tamanho mínimo, mas não há, realmente, restrições contra o número máximo de sílabas. Partículas e conjunções podem ser monossilábicas. Palavras que expressam conteúdo normalmente são dissilábicas, a primeira sendo pesada foneticamente.
a. /ban/ (mas) b. /tʃot/ (muito/mesmo) c. /tʃe/ (e) d. /bo/ (porque) f. /ta.na.ri.sa.tʃa.'je:.pa/ (cabeleireiro) g. /'to:mi/ ['tɔ:mi] (água) h. /'hu:e/ ['hu:βε] (buraco)
Elementos supra-segmentares Sílaba tônica. O estresse normalmente recai sobre a penúltima sílaba da palavra, salvo os casos terminados em oclusiva glotal ou plosivo anasalado, quando o estresse recai sobre a última sílaba. O estresse secundário é mais complicado, já que as qualidades morfológicas das palavras influenciam nessa característica.
Duração. Há duas regras gerais: quando a penúltima sílaba de uma palavra é aberta, ela é alongada; todas as outras sílabas são curtas. Exceções, no entanto, são comuns (como quando há cliticização interna à penúltima sílaba).
Entonação. A entonação em movima é muito importante na parte das perguntas, principalmente. Muitas não são sinalizadas com uma marca específica escrita, e sim na entonação.
Ortografia Uma ortografia foi desenvolvida por falantes da língua Movima em um workshop de alfabetização em 1994, a qual é apresentada a seguir. Originalmente, um modelo de ortografia foi proposto por Judy e Judy, em 1962, e esse modelo foi base para esse workshop.
Vogais VogalOrtografia/.i/⟨i⟩/e/⟨e⟩/a/⟨a⟩/o/⟨o⟩/u/⟨u⟩
Consoantes ConsoanteOrtografia/p/⟨p⟩ quando [p] ⟨ḿ⟩ quando [pʔᵐ]/t/⟨t⟩ quando [t] ⟨ń⟩ quando [tʔⁿ]/k/⟨k⟩ quando [k] ⟨’⟩ quando [ʔ]/b/⟨b⟩/d/⟨d⟩/ʔ/⟨’⟩/jʔ/⟨y’⟩/kw/⟨kw⟩/tʃ/⟨ch⟩/β/⟨v⟩/s/⟨s⟩/h/⟨j⟩/ɬ/⟨ɬ⟩/m/⟨m⟩/n/⟨n⟩ quando [n] ou [η]/l/⟨l⟩/r/⟨r⟩/w/⟨w⟩/j/⟨y⟩
Outros Casos Alguns processos morfológicos podem ser representados ortograficamente, como a cliticização externa (--), a interna (=) e a reduplicação (~). Normalmente, a duração de uma vogal é representada, ao contrário do estresse das palavras.
Gramática
Unidades e processos morfológicos
Raízes e Bases. Raízes são morfemas lexicais que têm o potencial de serem os únicos elementos lexicais de uma palavra. As raízes verbais não podem ocorrer independentemente, precisando ser combinadas com outro elemento para formar uma palavra ou com o -’i. Já as raízes nominais podem representar palavras sozinhas, quando possuem duas ou mais sílabas. Já as monossilábicas e algumas dissilábicas precisam ser combinadas com o elemento -’i, reduplicadas ou adicionadas ao sufixo -kwa. Muitas palavras podem possuir mais de uma raiz, como resultado de composição ou incorporação, ou mesmo para a formação de verbos frasais.
Elementos lexicais vinculados. Há um grande número de morfemas vinculados que trazem conteúdos lexicais às palavras em movima. Alguns deles podem ser raízes de substantivos, quando também funcionam como o primeiro elemento lexical de um nome; porém outros não suportam essa característica, precisando ser conectados a outra base. Há, ademais, os casos da formação desses elementos a partir do truncamento de substantivos independentes, e os casos desses possuírem uma caracterização verbal, por indicarem um evento (nesse caso, são mais encontrados em verbos frasais e não admitem um sufixo).
Afixos. Afixos são morfemas gramaticais que criam palavras segundo as regras fonéticas de estresse e alongamento. Sua maioria são sufixos, mas há um prefixo (o marco oblíquo n-), um infixo “real” e dois sufixos que podem funcionar como infixos (-a e -ka). Muitos afixos podem ser reduplicados, e, normalmente, quando combinados, o afixo e a base mantêm seus formatos fonológicos.
Composição. Composição é uma forma muito utilizada em movima. Ela ocorre quando as palavras possuem mais que um elemento lexical, a primeira parte sendo uma raiz (de substantivo, verbo ou adjetivo), e a segunda parte sendo uma raiz ou elemento vinculados ou um substantivo completo. Quando o segundo elemento não possui significado sozinho, a fonologia da palavra é bem evidente. Entretanto, quando os dois elementos possuem significados independentes, o estresse é secundário no primeiro.
Incorporação. A incorporação de substantivos é usada produtivamente em movima, existindo dois tipos: a incorporação de um argumento ou de um modificador. Normalmente, o primeiro caso se dá quando se adiciona a marca de voz direta a um verbo, mas usa-o intransitivamente (in sal-a-ka:na [Eu procuro por comida.]), e o segundo pode aparecer com qualquer marca de voz, podendo ser confundido com adjetivos certas vezes (raɬ-a-pin [Eu rasgo x ao meio.]).