Interior de São Paulo ou interior paulista é a designação informal para se referir à região que abrange toda a área do estado de São Paulo fora da Região Metropolitana de São Paulo e do litoral paulista. O interior tem destaque por possuir um conjunto paisagístico, cultural, gastronômico, histórico e arquitetônico muito rico, inclusive com vários sotaques próprios e diferentes daquele da capital e do litoral paulista.
O turismo é um setor de destaque na economia do estado, com seu interior possuindo diversos atrativos que vão desde lazer, parques temáticos, esporte radicais e ecoturismo, graças às suas águas com propriedades terapêuticas em cidades como Águas de Lindóia, Águas da Prata, Águas de Santa Bárbara, Socorro e diversas cidades pertencentes ao Circuito das Águas, além de outras banhadas por represas, proporcionando belas praias de água doce, este é o caso da famosa Rifaina, até turismo histórico, arquitetônico, gastronômico e cultural.
Essa área é fortemente industrializada e caracteriza-se por sua economia de grande porte e bastante diversificada, sendo uma das regiões mais ricas da América Latina. Cerca de 1/4 do PIB do interior se concentra na Região Metropolitana de Campinas, que se consolida cada vez mais, como o cinturão do setor automobilístico brasileiro.
História
Século XVI - Início da exploração do território Quando da chegada dos portugueses, havia no interior de São Paulo uma variedade de tribos indígenas, predominantemente do troco linguístico macro-jê, como os caiapós, xavantes, caingangues e puris, mas também havia territórios habitados por povos guaranis.
Já na década de 1560, pouco após a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, os paulistas, em sua maioria mamelucos (filho de colonos portugueses com mulheres indígenas), passaram a percorrer o interior em busca de metais preciosos ou combater indígenas segundo o princípio da guerra justa. Data de 1562 uma dessas primeiras expedições dos paulistas, quando João Ramalho partiu ao Vale do Paraíba para combater os carijós que haviam cercado São Paulo pouco tempo antes. Na década de 1580, colonos das vilas de Santos, São Vicente e São Paulo partiram em expedições contra os carijós nos vales dos rios Tietê e Paraíba do Sul. Em 1585, o capitão-mor Jerônimo Leitão liderou pessoalmente uma bandeira em direção a Paranaguá em combate aos carijós após pedidos de outros colonos. Durante a década de 1590, foram organizadas varias expedições punitivas ao interior em retaliação aos ataques indígenas aos colonos e índios catequisados nos arredores de São Paulo. Apesar do caráter defensivo dessas investidas em retaliação a ataques indígenas, os colonos notadamente as utilizaram para obtenção de mão-de-obra escrava.
A partir do final da década de 1580, mas sobretudo na década de 1590, além das bandeiras de caráter punitivo, houve um aumento pela busca de metais preciosos no interior de São Paulo e do Brasil. Em 1589, Afonso Sardinha e seu filho de mesmo nome descobriram minério de ferro no Morro de Araçoiaba, o que ocasionou a construção da primeira fundição de ferro do Brasil. No mesmo local, foi fundada a primeira povoação do interior paulista sob o nome de Vila de Nossa Senhora de Monte Serrat, porém a mesma entrou em decadência devido ao fracasso da descoberta de ouro no local, com seus habitantes sendo transferidos para a região do Itavuvu, onde hoje fica Sorocaba, em 1611, por ordem do governador-geral do Brasil D. Francisco de Sousa. Tal povoação também tem vida curta. Em 1596, o português João de Sousa Pereira, de alcunha Botafogo, partiu de São Paulo acompanhado de, pelo menos, 25 colonos brancos e um enorme número de índios em busca de ouro e pedras preciosas no vale do rio São Francisco, passando pelo Vale do Paraíba durante o trajeto, combatendo também os índios hostis na região.
Século XVII - Povoamento da região e século do bandeirantismo
No final do século XVI e início do século XVII, o povoamento do território paulista, até então restrito ao litoral e ao Planalto de Piratininga, se expandiu para os vales dos rios Paraíba do Sul e Tietê, o que provavelmente está relacionado à demanda por novas terras e ao bandeirantismo.
Na primeira metade do século XVII, houve um grande aumento no número de expedições de bandeirantes. Patrocinados pelo governador-geral D. Francisco, em 1601, o bandeirante André de Leão adentrou o Vale do Paraíba em busca de pedras preciosas na direção no rio São Francisco, seguido um ano depois por outra expedição de grande porte levada a cabo por Nicolau Barreto, dessa vez em direção às minas do Vice-Reino do Peru, para isso descendo o rio Tietê. Não tendo encontrado metais preciosos, a bandeira de Nicolau Barreto devassou o vale do rio Paranapanema, escravizando por volta de 2 mil indígenas. Diversas outras bandeiras cruzaram o interior paulista neste período, seguindo o curso do rio Tietê, como as de Manuel Preto (1606), Belchior Dias Carneiro (1607), Martim Rodrigues Tenório de Aguiar (1608) e Antônio Raposo Tavares (1628). Essas bandeiras tinham como principal objetivo a captura de indígenas para escravizar nas missões jesuíticas espanholas no Guairá, Paraguai e Sete Povos das Missões.
A partir da década de 1640, a diminuição no abastecimento de cativos guarani fez com que os colonos paulistas reorientassem sua expedições de apresamento em direção ao Vale do Paraíba, contribuindo para a elevação à vila das povoações de Taubaté (1645), Guaratinguetá (1651) e Jacareí (1653); pelo mesmo motivo, foram elevadas à categoria de vila, ao oeste e noroeste, as povoações de Jundiaí (1656), Itu (1657) e Sorocaba (1661). Com uma pequena economia agrícola baseada no trabalho indígena, essas vilas abasteciam as bandeiras que por ali passavam, além de servir de base para novas expedições. Apesar da elevação à categoria de vila a partir da década de 1640, tais povoações surgiram anos, ou até mesmo décadas antes: Taubaté fora fundada pelo bandeirante Jacques Félix no ano de 1639 com a construção de uma capela em honra a São Francisco das Chagas; o próprio Félix também teria sido o fundador de Guaratinguetá em 1630, com a construção de uma capela dedicada a Santo Antônio; Jacareí surgiu em 1652 com nome de Nossa Senhora da Conceição do Paraíba, fundada por Antônio Afonso; Rafael de Oliveira se instalou onde hoje é Jundiaí na década de 1640 e seu filho homônimo construiu uma capela em homenagem a Nossa Senhora do Desterro no ano de 1651; Itu surgiu com a construção, em 1610, da capela em honra a Nossa Senhora da Candelária pelo bandeirante Domingos Fernandes (este, inclusive, havia participado da bandeira de Belchior Dias Carneiro, em 1607); por fim, Sorocaba já tivera duas povoações primitivas que não vingaram (Nossa Senhora de Monte Serrat e São Felipe do Itavuvu) antes de ser fundada de forma definitiva com a construção da capela de Nossa Senhora da Ponte (hoje mosteiro de São Bento), no ano de 1654, pelo bandeirante Baltasar Fernandes.
Ainda no século XVII, os paulistas também formaram os povoados de Araçariguama (1605), Pindamonhangaba (1643 ou 1672), São Roque (1657), Atibaia (1665) e Araritaguaba (hoje Porto Feliz, 1693).
Na segunda metade do século XVII, o foco das bandeiras não era mais a captura de indígenas para escravizar, mas sim a procura por pedras preciosas no interior da colônia, sobretudo nos atuais territórios de Goiás e Minas Gerais. Dentre os nomes de bandeirantes que procuravam por metais, os mais conhecidos eram o de Fernão Dias e Borba Gato.
Século XVIII - Bandeiras de mineração e mudanças econômicas Desde a última década do século XVII, inúmeras bandeiras saíam principalmente de Taubaté em direção ao rio das Mortes, em Minas Gerais, comandadas por taubateanos como Tomé Portes del-Rei e seu genro Antônio Garcia da Cunha, descobrindo importantes jazidas de ouro no vale desse rio nos primeiros anos do século XVIII, como nas cercanias de Tiradentes (1702) e São João del-Rei (1704). A oeste, utilizando-se do rio Tietê e partindo de Porto Feliz, os sorocabanos Moreira Cabral e Miguel Sutil descobriram ouro nas proximidades de Cuiabá entre 1718 e 1722. Partindo de São Paulo e passando por Jundiaí, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva (filho), o Anhanguera, descobriu ouro em Goiás no ano de 1725, formando, pelo caminho, núcleos de apoio que se tornariam as povoações de Campinas, Mogi-Guaçu, Casa Branca, Batatais e Franca.
Durante a primeira metade do século XVIII, o trabalho escravo ainda continuou predominantemente dependente de mão-de-obra indígena, que passaram a ser categorizados como "administrados" para burlar a legislação que cada vez mais coibia a escravidão indígena. Somente no final do século é que houve a transição completa da mão-de-obra indígena para a africana. Os indígenas trabalhavam nas fazendas de algodão e outros produtos, especialmente aqueles de reabastecimento das bandeiras rumo ao interior do Brasil, como já era feito no século anterior. Porto Feliz, por exemplo, servia de ponto de partida para as monções para o Mato Grosso, com índios trabalhando também na manufatura das canoas e no transporte em si.
A partir da segunda metade do século, durante o governo do Morgado de Mateus, houve uma expansão econômica da capitania de São Paulo, com a introdução do cultivo de cana-de-açúcar no interior, mas sem prejudicar a diversificada produção de gêneros, como o milho, o feijão e o arroz. Novas vilas foram fundadas, como São José dos Campos (1767), que até então era um aldeamento indígena; também no Vale do Paraíba, foram elevadas à categoria de vila as povoações de São Luiz do Paraitinga (1773), Cunha (1785) e Lorena (1788). Na região de Jundiaí, as freguesias de Mogi Mirim (1769) e Atibaia (1769) subiram para a categoria de vila, além de Campinas (1774) ser elevada a freguesia, junto com Bragança Paulista (1765) e Piracicaba (1767). No sudoeste, região de Sorocaba, surgiram Itapetininga (1770) e Itapeva (1769). Nesta região, predominava a pecuária, com o transporte de muares entre as cidades de Sorocaba e Viamão, no Rio Grande do Sul, sendo de grande importância para as vilas e freguesias no caminho, fazendo também com que ocorresse regularmente as feiras de muares de Sorocaba. Na região de Itu e Jundiaí, além da produção de açúcar, as vilas e povoações serviam de abastecimento das caravanas que iam rumo a Mato Grosso e Goiás nos caminhos abertos no começo do século. No Vale do Paraíba, além da cana-de-açúcar, as vilas da região abasteciam a região mineradora na capitania de Minas Gerais. No final do século, o "Quadrilátero do Açúcar", uma área delimitada pelas vilas de Sorocaba, Piracicaba, Mogi Guaçu e Jundiaí, ganhou destaque devido à produção de açúcar voltado para a exportação.
Até o final do século XVIII, a língua franca usada na capitania de São Paulo era o tupi meridional, conhecido como língua Geral Paulista, utilizada no dia-a-dia da população predominantemente mameluca, fato que foi notado até pelo Bispo de Olinda ao criticar o bandeirante Domingos Jorge Velho, que havia sido contratado para acabar com Quilombo dos Palmares, afirmando este ser basicamente um índio "tapuia" que nem português falava. Com o decreto do Marques de Pombal, em 1757, proibindo seu uso, a Língua Geral Paulista foi caindo em desuso com o decorrer do tempo em favor do português, sendo falada pelos mais velhos ainda no século XIX e extinta apenas no início do século XX. Apesar disso, sua influência é até hoje presente no dialeto caipira, que emprega palavras de origem tupi e também sua fonética.
Século XIX - O ciclo do café No final do século XVIII e primeira metade do século XIX, com a decadência da mineração de ouro em Minas Gerais, muitos mineiros se fixaram no nordeste paulista, ali desenvolvendo a agropecuária. Esses colonizadores fundaram povoados, embriões de importantes cidades da região, como Ribeirão Preto, Barretos e São José do Rio Preto.