Teresa de Portugal (ou Tarasia), também conhecida como Matilde (ou Mahaut) (Coimbra, — Veurne, Medieval Lands - Terras Medievais) foi uma infanta portuguesa, que, em virtude dos seus dois casamentos, se tornou Condessa da Flandres e Duquesa da Borgonha.
Influente desde cedo, ajudando o pai e o irmão na governação após o desastre de Badajoz (1169), foi a primeira princesa portuguesa a casar no Além-Pirenéus. Mais tarde, combinaria o grande património e riqueza que herdou do primeiro esposo com a sua grande influência na corte francesa por forma a granjear-lhe bastantes vantagens, como o apoio da França na questão das heranças depois da morte daquele. Permitiu-lhe ainda trabalhar, com sagacidade, na projeção europeia dos seus sobrinhos, sobretudo Fernando e Berengária, que casariam respetivamente na Flandres e na Dinamarca.
Primeiros anos
Nascida em 1151, provavelmente em Coimbra, Teresa foi a terceira filha (e segunda rapariga) do primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques e de Mafalda de Saboia. Teresa terá recebido o seu nome em homenagem à sua avó paterna, Teresa de Leão.Sancho e Teresa entre seus irmãos e na política de Afonso Henriques após o Desastre de Badajoz. Órfã de mãe com apenas seis anos, a pequena infanta ainda presenciaria as mortes de vários irmãos, de entre eles o infante herdeiro, Henrique em 1155 e a infanta Mafalda (prometida a Aragão) em 1162. Deste modo, por volta de 1170, Teresa era um dos três filhos legítimos de Afonso Henriques que tinha atingido a idade adulta.
Teresa foi criada, ao contrário de alguns irmãos, na própria casa do rei, e teve por colaça (e também futura dama de companhia) D. Elvira Gonçalves de Sousa, filha de D. Gonçalo Mendes de Sousa. A ligação de Teresa Afonso e de sua família com as ordens religiosas, principalmente a dos cistercienses e a dos hospitalários irão, de qualquer forma, definir muito das ações da futura condessa de Flandres. Teresa começa a surgir na documentação a partir de 1161, sendo-lhe atribuído, não muito mais tarde, o senhorio de Ourém.
A regência em Portugal
Após o Cerco de Badajoz de 1169, na qual o rei teria ficado gravemente afetado em resultado de uma ferida numa perna, e num documento desse ano surge com bastante frequência, junto ao seu nome e do seu irmão Sancho, e portanto de estatuto equivalente ao dos infantes legítimos, um bastardo, Fernando Afonso, mas é o infante Sancho que começa a exercer funções de regente. Várias confirmações de Sancho ainda em vida de Afonso Henriques denunciam a presença forte deste bastardo e o desejo, por parte da nobreza de corte, de inutilizar Fernando e consolidar a regência de Sancho. Em setembro de 1172 Fernando passa a servir o regente, segundo uma doação a Monsanto nessa data, na qual Afonso I sugere pela primeira vez uma sucessão por via feminina em Teresa. A partir de 1173, Afonso Henriques parece concretizar em parte esta possibilidade ao entregar a regência conjunta do reino a Sancho e Teresa, declarando-os co-herdeiros e com casa própria. Teresa aparece constantemente na documentação desde esta data, chegando a fazer doações sozinha.
A partir de 1174, Afonso I afasta-se definitivamente dos assuntos do reino, muito provavelmente por doença, sobressaindo ainda mais a partir desta altura o papel dos corregentes. Teresa e Sancho partilhavam o governoː Teresa desempenhava funções administrativas e Sancho encarregava-se da atividade bélica. E é esta atividade de rainha que desempenhava quando chegaram a Portugal os emissários de Felipe de Flandres para obter de Sancho o consentimento para o casamento da irmã com um dos mais importantes nobres franceses. Contava por essa altura trinta e três anos, e só não casara mais cedo devido à função que teve de desempenhar no Reino face à incapacidade do pai. O seu casamento com qualquer príncipe peninsular poderia significar a perda da independência de Portugal, mas mesmo para esta proposta vinda de fora do ambiente peninsular fez acordo com Sancho para o deixar como único sucessor.
Os casamentos e a política europeia
O primeiro casamentoː condessa da Flandres
Recebidos os emissários, aceite a proposta e acordados os trâmites, Teresa partiu para a Flandres. Pensa-se que a frota que a acompanhava foi atacada por piratas normandos, que terão roubado à infanta várias joias e outras posses preciosasMatilda of Portugal
O casamento com Filipe da Alsácia, Conde da Flandres (talvez um dos mais importantes aristocratas franceses da época) terá ocorrido em agosto de 1183, na Catedral de Nossa Senhora de Tournai em Bruges, e desta forma tornou-se Condessa consorte da Flandres. No centro da Europa, talvez por ser difícil a pronúncia do seu nome pelas gentes locais, acabou por ficar conhecida como Matilde. Poderá inclusive ter adotado este nome quando casou. O ambiente onde entrou não fora dos melhoresː Filipe enviuvara de uma poderosa condessa, Isabel de Vermandois, que para além de não ter dado descendência ao conde, teria cometido adultério com Water de Fontaines, que fora castigado mortalmenteGislebertus (of Mons), Chronicle of Hainaut, transl. Laura Napran, (The Boydell Press, 2005), 34 note138. .
O matrimónio de Teresa deveu-se sobretudo à urgente necessidade de Filipe de gerar um herdeiro para que o seu condado não caísse nas mãos do rei de França. Teresa levou consigo um grande dote, o que teria ajudado o marido a prosseguir a guerra por mais alguns anos, antes de fazer a paz com a França e o Condado de Hainaut em 1186, num acordo onde ficou estipulada na cessão do Condado de Vermandois, herdado da primeira esposa do conde, ao rei, embora fosse permitido manter o título de conde de Vermandois. O dote terá sido mais tarde aumentado pelo marido e pelo próprio rei Filipe Augusto, doando à nova condessa várias cidades flamengas,Wolff, p. 282. mais concretamente a maior parte da Flandres francófona, e também várias cidades da zona de idioma germânico. Estas doações teriam sido propositadas para incomodar o conde Balduíno V de Hainaut, o herdeiro oficial, que traíra o seu protetor para defender os interesses da própria filha, Isabel, que se havia tornado rainha de França.
Apesar da guerra mantida pelo conde até 1186, a economia da Flandres estava em crescimento, e por isso, durante o seu casamento, Teresa viveu numa das cortes mais requintadas da época, na qual Filipe patrocinou, por exemplo, Chrétien de Troyes, autor de um célebre ciclo de histórias arturianas, Perceval ou le Conte du GraalLacy, Norris J. (1991). "Chrétien de Troyes". In Norris J. Lacy, The New Arthurian Encyclopedia, pp. 88–91. New York: Garland. ISBN 0-8240-4377-4.. Este autor terá sido um dos introdutores, na literatura, da temática do Graal.
Teresa trouxe consigo um séquito português composto de vários mercadores, que tiveram desta forma a oportunidade de fazer proliferar o comércio e os produtos portugueses no além-Pirenéus.
Filipe era um nobre ativo no que diz respeito à participação nas Cruzadasː acompanhara Luís VII de França em cruzada em 1177, pouco após descobrir o adultério da primeira esposa e designar a sua irmã Margarida como herdeira. Regressara em 1179; talvez fosse um possível medo de não poder regressar sem deixar filhos uma das causas que levaram ao seu casamento com Teresa e à urgência de conceber um herdeiro após a morte da primeira esposa.
Apesar de não ter engravidado Teresa, Filipe incorre em nova cruzada em 1190, mas desta vez para não regressarː chega a notícia da morte do conde, a 1 de agosto de 1191, devido à peste, durante o Cerco de Acre. Teresa terá repatriado o corpo do marido para ser sepultado na Abadia de Claraval.
A viuvez e a luta pelo poder
Com a morte de Filipe, e uma vez que não tiveram filhos, Margarida, a cunhada, e o esposo, Balduíno V de Hainaut ascenderam à governação da Flandres. Teresa exercera a regência do condado enquanto o seu falecido esposo estivera em cruzada, e não estava disposta a abdicar tão facilmente do poder que o aquele lhe concedera: Teresa revelaria ser um entrave a esta sucessão, dado o grande dote que já possuía no sul e na costa flamenga e que queria expandir. Teresa tentou manter o poder a todo o custo naquele pequeno mas próspero condado, sendo inclusive auxiliada pelo duque Henrique I de Brabante (inimigo do conde de Hainaut), o Arcebispo de Reims Guilherme de Blois O Mãos Brancas e ainda Filipe II de França. O rei, na altura em cruzada, não pôde mediar esta contenda, mas, A Crónica Hanoniense, de Gislebert refere o seguinte:
O rei, na altura em cruzada, não pôde mediar a contenda, mas, como refere a crónica, encontrava-se representado pelo arcebispo de Reims, que, como já referido, apoiou a condessa-viúva nas suas pretensões.
Teresa recusou abrir os portões da cidade de Gante para os condes de Hainaut (i.e. a cunhada e o respetivo esposo), apelando ao arcebispo para que marcasse uma reunião com eles, por forma a resolver a questão. Teresa reclamou toda a Flandres, acabando por reter, não todo o condado, mas várias terras em Douai, l’Escluse, Orchies, Lille, Casset, Furnes, Dixmude, Bourbourg, Bergues-Saint-Winoc, e ainda o castelo de Nieppe. Segundo o cronista Gislebert, Teresa ainda usurparia ilegalmente propriedade em Bruges, Gante, Pays de Waes, Aalst, Geralmont, Ypres, Courtrai e Audenarde. Desta vasta propriedade Teresa doaria Aire e Saint-Omer ao delfim Luís, futuro Luís VIII de França.
Com este acordo, e feitas as partilhas com a viúva, Margarida e Filipe acabaram por ganhar o lugar que o conde Filipe lhes havia reservado, no governo da Flandres. O próprio rei de França aceitaria mais tarde a homenagem do novo conde, mediante um pagamento de 5000 marcas de prata.
O segundo casamentoː Duquesa de Borgonha Os movimentos políticos de Teresa revelam ambição e, neste caso, a possibilidade de renovação da Dinastia Capetiana, à qual também pertencia, casando com o seu primo, o duque Eudo III da Borgonha, provavelmente em julho de 1193Prevenier, W., pp. LXPetit, pp.92, menos de um ano após Eudo assumir o ducado e ter estado na Flandres para ajudar o rei a reconciliar-se com Balduíno, cunhado de Teresa, e dar-lhe condições de submeter os nobres revoltados. Odo durante o casamento com esta e premido por muitas dívidas do problema vassalático de Vergy,que se arrastava desde o seu falecido pai, Hugo III da Borgonha, obteve de Teresa aumento de impostos em seus domínios, que causou a primeira onda de impopularidade à duquesa. Desse casamento também não nasceriam herdeiros, e a esta esterilidade acrescentou-se a anulação do casamento em si, no ano seguinte, por proximidade de parentesco (ambos descendiam do Roberto I da Borgonha).
As circunstâncias de sua separação de Odo poderão estar também envolvidas no grave problema matrimonial que o rei de França também atravessava, e que merecera a discórdia do reino com o Papa Celestino III e a partir de 1198, com o Papa Inocêncio IIIː Filipe Augusto repudiou a sua segunda esposa, Ingeburga da Dinamarca. Teresa apoiou claramente a Ingeburga quando autorizou a passagem dos núncios papais (que vinham defender Ingeburga) pela Borgonha, algo que não teria agradado ao seu esposo, fiel ao rei, e que poderia ter também motivado a separação.
Apesar das circunstâncias pouco favoráveis do seu casamento, Teresa não terá permitido a degradação da sua relação com o rei de França, já que lhe promete, em janeiro de 1195, a vila de Douai após a sua morte. Terá prometido ainda ao rei não voltar a casar-seA letter from Matilda.