A lagartixa-doméstica-tropical ou lagartixa de parede, denominada cientificamente Hemidactylus mabouia (do grego hemi = metade; dactylos = referente às lamelas dos dedos; mabouia = sentimento de medo e repulsa, derivada da linguagem de tribos nativas da América),UETZ, Peter; HALLERMANN, Jakob. Hemidactylus mabouia (MOREAU DE JONNÈS, 1818). Disponível em: https://reptile-database.reptarium.cz/species?genus=hemidactylus&species=mabouia. Acesso em: 1 de novembro de 2020 é uma espécie de lagarto de pequenas dimensões frequentemente encontrada nos lares brasileiros. Dependendo da região do Brasil, ela também pode ser conhecida como: catenga, vavadilo, briba, víbora, lapixa, crocodilinho de parede, maria-joaquina, lambioia, taruíra, labigó, tiquiri, osga, camaleão, lambisgoia, calango, calanguinho e jacaré de parede. Não é um animal venenoso e possui alta capacidade para escalar superfícies.ALVES, Victor. A Lagartixa Doméstica Tropical. 2017. Disponível em: https://www.portaldosanimais.com.br/informacoes/a-lagartixa-domestica-tropical/. Acesso em: 1 de novembro de 2020
Considerada uma espécie exótica de origem africana, tem como distribuição geográfica a África, América do Sul, América Central e América do Norte. É muito comum em áreas urbanas, entretanto também pode ser encontrada em ambientes naturais.ANJOS, Luciano Alves dos et al. Ecologia de um lagarto exótico (Hemidactylus mabouia, Gekkonidae) vivendo na natureza (campo ruderal) em Valinhos, São Paulo. 2004 Geralmente se alimenta de insetos, possuindo uma grande importância ecológica como agente biológico no controle de pragas urbanas. É de hábito noturno, vive aproximadamente entre dois e cinco anos e a fêmea costuma colocar até dois ovos por ninhada.LENNOX, Bryan. Hemidactylus mabouia House gecko. 2017. Disponível em: https://animaldiversity.org/accounts/Hemidactylus_mabouia/#AF86951E-9759-11E7-A703-A820662394EA. Acesso em: 1 de novembro de 2020 Apresenta como característica cores claras, quase transparentes, cabeça ovoide e pele sem escamas. Esse animal também possui uma grande capacidade de regeneração após “soltar” sua cauda, um fenômeno chamado de autotomia caudal. Há também outras espécies do gênero Hemidactylus conhecidas como lagartixa-doméstica, entre elas a Hemidactylus frenatus.
Morfologia Hemidactylus mabouia adulta possui em média comprimento de 6,79 cm (da ponta do focinho até a abertura cloacal) e seu peso costuma estar entre 4,6 e 5g.POWELL, Robert; CROMBIE, Ronald I.; BOOS, Hans EA. Hemidactylus mabouia. Catalogue of American Amphibians and Reptiles (CAAR), 1998. O corpo desses animais é robusto, curto,Lagartixa. Em Britannica Escola. Web, 2020. Disponível em: https://escola.britannica.com.br/artigo/lagartixa/481353. Acesso em: 3 de novembro de 2020 sem escamas e coberto dorsalmente por uma pele úmida e com pequenas protuberâncias (de origem glandular), as quais podem secretar um líquido viscoso.DE PAULA, Mariane Trindade; GUIMARÃES, Antônio Carlos Galarça; BRACCINI, Maria Del Carmen. Histologia Tegumentar De Hemidactylus Mabouia (moreau De Jonnes, 1818) No MunicÍpio De Uruguaiana Rs, Brasil. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 1, n. 1, 2009. A coloração base varia entre branco acinzentado e marrom claro, muitas vezes quase transparentes; o dorso costuma alternar entre tons mais escuros e mais claros e pode apresentar de 3 a 6 listras pretas ou marrons (bandas transversais em formato de “V” com o ápice voltado para trás e que podem variar em largura).VELAZCO PÉREZ, Karina; NEYRA RAOLA, Betina. Dimorfismo sexual en Hemidactylus mabouia (Sauria: Gekkonidae) en relación al tamaño de la cabeza. 2016 A superfície dorsal da cauda é frequentemente coberta de dez a treze faixas escuras, que podem mudar de cor em função da luz e da temperatura.NETO, Oscar. Hemidactylus mabouia - Lagartixa-Doméstica-Tropical / Tropical House Gecko (Moreau de Jonnès, 1818). 2018. Disponível em: https://www.biofaces.com/post/110244/hemidactylus-mabouia-lagartixa-domestica-tropical-tropical-house-gecko-moreau-de-jonnes-1818/. Acesso em: 1 de novembro de 2020 A cabeça desses lagartos é arredondada. O tegumento (revestimento externo do corpo) é leve, flexível e resistente a dessecação. Também é diferenciado em relação aos demais répteis, pois apresenta algumas glândulas específicas e bastante expansão e contração de seus cromatóforos, o que permite alterar a sua coloração, sendo essa uma característica relacionada ao mimetismo e camuflagem.DE PAULA, Mariane Trindade; GUIMARÃES, Antônio Carlos Galarça; BRACCINI, Maria Del Carmen. Histologia Tegumentar De Hemidactylus Mabouia (moreau De Jonnes, 1818) No MunicÍpio De Uruguaiana Rs, Brasil. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 1, n. 1, 2009.
Uma das peculiaridades das lagartixas é a presença de “adesivos” nas pontas dos dedos: além das garras utilizadas para escalar superfícies, as lagartixas também possuem lamelas na parte ventral destes dedos, onde estão presentes centenas de estruturas adesivas menores ainda, que permitem que elas se fixem em substratos lisos como vidros, por exemplo. Dessa forma, quando a lagartixa escala uma superfície, essas estruturas se abrem gerando aderência, por isso é muito comum encontrar esses animais nos tetos e paredes. Essa aderência pode ser explicada por forças intermoleculares, chamadas na física de ligações de Van Der Waals.BUCHERONI, Giulia. Por que a lagartixa não cai da parede? Veja detalhes dessa simpática “inquilina” das casas do Brasil. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/09/09/por-que-a-lagartixa-nao-cai-da-parede-veja-detalhes-dessa-simpatica-inquilina-das-casas-do-brasil.ghtml. Acesso em: 1 de novembro de 2020 miniaturadaimagem|Ilustração esquemática das ligações de Van Der Waals em Gekkonidae O coração desta lagartixa, assim como o da maioria dos outros répteis não crocodilianos, possui um seio venoso, dois átrios e um ventrículo que é incompletamente separado, permitindo que ocorra a mistura parcial do sangue oxigenado com o desoxigenado.REZENDE, Rafael Marins et al. Morfologia do coração da lagartixa Hemidactylus mabouia (Moreau Jonnès, 1818)(Squamata: Gekkonidae). 2011
O trato digestório apresenta um esôfago relacionado com a captura e transporte do alimento para o estômago; ao longo de sua extensão ocorre a limpeza de partículas remanescentes. O estômago apresenta função de armazenamento e digestão de proteínas. O intestino se iguala ao apresentado pelos demais répteis.RODRIGUES, Daniela Almeida; GUIMARÃES, Antônio Carlos Galarça; BRACCINI, Maria Del Carmen. Estudo Morfohistológico Do Trato Digestório De Hemidactylus Mabouia No MunicÍpio De Uruguaiana Rs, Brasil. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 1, n. 1, 2009
Esses animais não possuem pálpebras, apenas uma membrana, e hidratam seus olhos com o auxílio da língua.BUCHERONI, Giulia. Por que a lagartixa não cai da parede? Veja detalhes dessa simpática “inquilina” das casas do Brasil. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/09/09/por-que-a-lagartixa-nao-cai-da-parede-veja-detalhes-dessa-simpatica-inquilina-das-casas-do-brasil.ghtml. Acesso em: 1 de novembro de 2020 Devido ao modo de vida noturno, as lagartixas possuem adaptações ópticas, como olhos maiores e pupilas mais largas.REGALADO, RUBÉN. Roles of visual, acoustic, and chemical signals in social interactions of the tropical house gecko (Hemidactylus mabouia). Caribbean Journal of Science, v. 39, n. 3, p. 307-320, 2003 esquerda|miniaturadaimagem|Imagem evidenciando as lamelas em dígitos da pata de Gekkonidae H. mabouia não apresenta diferenças significativas de tamanho entre machos e fêmeas (do focinho a cloaca), nem em seu padrão de coloração ou peso corporal. Já o tamanho da cabeça está relacionado com o dimorfismo sexual desta espécie. Um estudo demonstrou que os machos possuem maior tendência de possuírem cabeças maiores e mandíbulas mais proeminentes, característica que poderia ser explicada por algumas hipóteses: um macho com cabeça maior teria mais vantagem em uma luta do que um macho de menor tamanho;VELAZCO PÉREZ, Karina; NEYRA RAOLA, Betina. Dimorfismo sexual en Hemidactylus mabouia (Sauria: Gekkonidae) en relación al tamaño de la cabeza. 2016 os machos poderiam consumir presas maiores e mais difíceis de serem consumidas pelas fêmeas (diminuindo a competição intersexos); cabeças maiores com mandíbulas também maiores permitiriam que durante a cópula a mordida do macho na fêmea fosse mais eficiente, garantindo a fertilização.VELAZCO PÉREZ, Karina; NEYRA RAOLA, Betina. Dimorfismo sexual en Hemidactylus mabouia (Sauria: Gekkonidae) en relación al tamaño de la cabeza. 2016 Além disso, outra maneira de diferenciá-los é que os machos podem apresentar um maior número de poros femorais (estrutura relacionada a glândulas secretoras que liberam feromônios para atrair parceiros ou marcar território) em relação às fêmeas, entretanto esses poros são difíceis de se observar a olho nu.VELAZCO PÉREZ, Karina; NEYRA RAOLA, Betina. Dimorfismo sexual en Hemidactylus mabouia (Sauria: Gekkonidae) en relación al tamaño de la cabeza. 2016
Diferentemente de alguns répteis, que possuem determinação sexual regulada pela temperatura, em H. mabouia a determinação sexual é por fatores genéticos. As fêmeas possuem a capacidade de armazenar espermatozoides,GAMBLE, Tony. A review of sex determining mechanisms in geckos (Gekkota: Squamata). Sexual Development, v. 4, n. 1-2, p. 88-103, 2010 o que é considerado uma característica ancestral de Squamata.NOGUEIRA, Katiane de Oliveira Pinto Coelho et al. Sperm storage in Hemidactylus mabouia: Morphological and ultrastructural aspects of a reproductive strategy. Animal reproduction science, v. 159, p. 212-216, 2015
Habitat miniaturadaimagem|Detalhe A lagartixa-doméstica-tropical é extremamente comum em áreas urbanas e, como o seu nome popular sugere, ela vive geralmente dentro de casas, porém também pode ocorrer em ambientes naturais não antrópicos (locais sem interferência humana), como a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, incluindo as restingas, o Cerrado, a Caatinga e algumas ilhas da costa brasileira.ANJOS, Luciano Alves dos et al. Ecologia de um lagarto exótico (Hemidactylus mabouia, Gekkonidae) vivendo na natureza (campo ruderal) em Valinhos, São Paulo. 2004 Seus hábitats incluem áreas arenosas, áreas de mata perto de praias, troncos de árvores e as paredes externas de casas.
H. mabouia é dita como uma espécie exótica e atualmente existem duas hipóteses de como essa espécie originária do continente africano chegou às demais localidades: uma sugere que esses animais chegaram à América através de balsas naturais movidas pela corrente marítima e outra que essa migração aconteceu juntamente com navios que traziam pessoas no período da escravidão.
Alimentação miniaturadaimagem|H. mabouia predando um inseto