José Mauricio Nunes Garcia Júnior (Rio de Janeiro, – Rio de Janeiro, ) foi um médico, compositor, organista, pintor, anatomista, e professor catedrático da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
Atuou como professor substituto e catedrático da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro entre 1833 a 1857. Filho de José Maurício Nunes Garcia e de Severiana Rosa de Castro.
Doutorado pela antiga Academia Médico Cirúrgica em 1831, defendendo a tese “Torção das Artérias”. Foi eleito membro da Academia Nacional de Medicina em 1836, com o número acadêmico 52, na presidência de Joaquim Cândido Soares de Meireles.Biograpágina oficial da Academia Nacional de Medicina
Homem negro e livre, ele viveu no contexto escravocrata brasileiro. Era bisneto de escravizados oriundos da região da Guiné, na África, e seus pais nasceram livres.CAMILO, 2024 Recebeu sólida formação intelectual e humanística de seu pai, compositor e funcionário da Corte, o padre José Mauricio Nunes Garcia.
Optou pela carreira médica devido aos contatos do pai na Corte carioca. A partir dos ensinamentos de cultura geral e idiomas (italiano, francês e latim) recebidos do pai.GARCIA JÚNIOR, 1860 Foi matriculado como aluno externo no Seminário São José para aperfeiçoamento intelectual. É plausível pensar que a escolha do pai já visava ao ingresso do filho na então Academia Médica-Cirúrgica, antecessora da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
A trajetória do doutor José Mauricio Nunes Garcia Júnior acompanhou as grandes mudanças históricas e da própria história da Saúde do país. Ele testemunhou a passagem do período joanino para o Primeiro Império, as regências, e o Segundo Império. Morreu alguns anos antes da assinatura da Lei Áurea.
Como professor catedrático, foi autor de teses e métodos anatômicos, além de discursos como docente daquela faculdade. Na Academia Imperial de Medicina, foi autor de pesquisas relacionadas à elefantíase, parto, anatomia e febre amarela. Entretanto, pesquisou diversos outros temas, sendo pioneiroEstudos Sobre a Fotografia Fisiológica na prática do sonambulismo no Brasil e adepto do magnetismo animal. O doutor Nunes Garcia Júnior foi membro da Sociedade de Propaganda do Magnetismo" e o "Júri Magnético , inaugurada em 1862, com a presença do Imperador dom Pedro II.CAMILO, 2204
Por meio de concurso público de 1839, foi o primeiro professor concursado e catedrático de anatomia geral e descritiva da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Foi vítima de preconceito racial na Escola Médica, tanto como professor substituto quanto catedrático, e denunciou, constantemente, o seu grande oponente e desafeto, o doutor José Martins da Cruz Jobim, diretor da Faculdade de Medicina durante muitos anos.
O doutor Nunes Garcia foi casado entre 1833 e 1853 com Anna Francisca da Silva, com quem teve dois filhos: José Mauricio Nunes Garcia Filho e Apolinário Nunes Garcia, ambos mortos em tenra idade. Após vinte anos de união, desquitou-se de Anna Francisca, em cartório, acusando-a de tentativa de assassinato, por meio de envenenamento, com "vidro moído e a planta timbó,"GARCIA JUNIOR, 1860 colocados em suas refeições, em um escândalo que marcou profundamente sua vida pública e pessoal.GARCIA JÚNIOR, 1860
Além disso, ele foi autor de discursos, pinturas, composições, uma autobiografia e outros documentos que registram sua existência.
Após sucessivas crises de fotofobia, artrite e artroses José Maurício Numes Garcia Júnior morreu no dia dedicado ao médico, em 18 de outubro de 1884,, aos 77 anos, em um imóvel localizado na rua Luiz de Camões, 62, após anos residindo em sua chácara no bairro do Rio Comprido.
Nunes Garcia Júnior foi sepultado no cemitério de São João Batista . Deixou para atrás, dois irmãos por parte de pai e mãe, o jornalista, Antônio José Nunes Garcia (1813-1894), e Josefina Rosa de Castro.(1810-1891).CAMILO, 2020
Vida
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Primeiros anos
Nasceu em 10 de dezembro de 1808, na Rua dos Borbonns (atual rua Evaristo da Veiga), nas proximidades dos Arcos da Lapa e da Rua das Marrecas, onde seu pai, o padre José Mauricio, mantinha um curso público de música. Sua mãe foi Severiana Rosa de Castro, nascida em 1788 nas proximidades do Valongo. Ela foi filha de um português do Porto, João de Castro Moreira, com Andreza Maria da Piedade. É plausível pensar que Andreza fosse uma escravizada ou liberta desse português. O padre José Mauricio e Severiana viveram uma relação concubinada, provavelmente de 1806 até ao menos o ano de 1813,GARCIA JÚNIOR, 1860 quando nasceu o último dos cinco filhos do casal: Apolinario José, organista (1807-?); José Mauricio Jr. (1808-1884); Panfilia (1810- ca.1850); Josefina (1811-1891); Antônio José Nunes Garcia, jornalista (1813-1894). É plausível que, a partir de 1816, ano da morte de Vitória Maria, mãe do padre José Mauricio e figura fundamental na criação dos netos, acompanhada da mudança de residência do padre José Mauricio da Rua dos Borbons para a Rua dos Inválidos e o fechamento do curso de música na Rua das Marrecas, tenha contribuído para o afastamento de Severiana do religioso. De fato, ela se casou posteriormente, em 1819,MATTOS, 1997] com o ourives, Antônio Rodrigues Martins, com quem teve quatro filhos: Severiano Rodrigues Martins, Emília Rosa Martins, Deolinda Rosa Martins e Francisco Rodrigues Martins, sendo os dois homens médicos de renome tanto na Corte carioca como na cidade de Resende, onde o doutor Francisco Rodrigues Martins, veio a óbito, contando com menos de 30 anos.CAMIILO, 2025 O doutor Severiano Rodrigues Martins foi quem tratou do compositor Louis Moreau Gottschalk, quando de passagem pela Corte carioca; o compositor contraiu febre amarela e veio a óbito em 1869. Severiana Martins manteve proximidade com os filhos após a morte do padre José Mauricio, vindo a óbito em 1878, aos 90 anos, em um sobrado na Rua Ipiranga, no bairro de Laranjeiras.CAMILO, 2024
Nos primeiros anos de vida, o futuro doutor Nunes Garcia Júnior, aprendeu as primeiras letras, em casa, com o pai, que também lhe ensinou i(taliano, geografia, lógica e retórica), pelas mesmas apostilas do tempo em que o padre José Mauricio estudou com o professor Manuel da Silva Alvarenga nos idos da Sociedade Literária Carioca.
. Além disso, por conta dos contatos paternos, aprendeu a língua francesa com o professor padre Antônio Manoel de Moraes e caligrafia com um velho português, em casa. GARCIA JÚNIOR, 1860 Em 1823, matriculou-se como aluno externo nas aulas de francês e filosofia do Seminário São José com os professores padre Franchè, no idioma francês e, frei Perez, em filosofia, sendo condiscípulo do escritor Gonçalves de Magalhães.GARCIA JÚNIOR, 1860
No ano de 1824, a Academia Médica-Cirúrgica anunciou a abertura de inscrições para alunos naquele ano letivo. Segundo o doutor Nunes Garcia, foi graças aos contatos do pai que ele pôde se apresentar ao diretor, barão de Inhomirim, para fazer exame de francês e matricular-se no primeiro ano daquela Academia médica, sem passar por exames, conforme palavras do doutor Nunes Garcia em seus apontamentos biográficos.GARCIA JÚNIOR,1860
Na primeira aula anatômica da antiga Academia Medica- Cirúrgica, o doutor Nunes Garcia informa que, dos 72 alunos matriculados, boa parte abandonou o curso horrorizada com as demonstrações cadavéricas ministradas pelo professor de anatomia, doutor José Joaquim Marques. Dos contemporâneos do doutor Nunes Garcia Júnior nos tempos de aluno da Academia Médica-Cirúrgica, ele cita os médicos João Francisco de Souza, Porfirio J. da Rocha e Francisco Crispiano Valdetaro..GARCIA JÚNIOR, 1860
Nesse período, as aulas da Faculdade Médica ocorriam no Morro do Castelo, no antigo Colégio dos Jesuítas que se localizava na parte mais alta desse sopé. As aulas de patologia eram ministradas pelo professor doutor Antônio Amâncio de Azevedo; Patologia Crítica e Higiene com o professor diretor, barão de Inhomirim; Partos e Arte Obstétrica, doutor Cambucy do Valle; Operação e Aparelhos, Jerônimo Alves de Souza; Medicina Prática e Arte de Formular, doutor Mariano J. do Amaral; e Medicina Legal, doutor João Fernandes Tavares.GARCIA JÚNIOR, 1860
Em 1829, os estatutos determinavam que, para se ter o título de "cirurgião", era necessário repetir as matérias do 4º e 5º ano, conforme José Mauricio Nunes Garcia Júnior fez entre os anos de 1830 e 1831.
Além disso, no período de 1825 a 1828, para complementar os estudos acessórios, o futuro doutor Nunes Garcia matriculou-se na Escola Militar, em botânica, química e mineralogia com os professores dom João da Silva Caldeira, frei Custódio Alves Serrão e capitão Paiva..GARCIA JÚNIOR, 1860
Em março de 1831, ele concluiu seus estudos acadêmicos como médico e cirurgião, entretanto, foi um período de agitados e violentos episódios na história do Brasil.
Na noite das Garrafadas, o doutor Nunes Garcia já estava munido de seu diploma médico.GARCIA JÚNIOR, 1860 Formado em medicina e cirurgião apresentou-se como parteiro em diversas residências, atendendo a diferentes classes sociais.
De fato, nesse período, a classe médica, pouco a pouco, firmava-se como detentora de um discurso oficial relativo à saúde, fazendo com que, nesse primeiro momento, o doutor Nunes Garcia vivesse atritos com a tradicional classe das parteiras ou comadres.GARCIA JÚNIOR, 1860
Nesse período, ele realizou diversos partos, muitas vezes, acompanhado do amigo pessoal, padrinho de casamento, professor doutor José Maria Cambuci do Valle. A amizade, o respeito e o reconhecimento do doutor Nunes Garcia foram manifestados de forma pública em diversas ocasiões para com seu mestre na arte de partejar, por meio de discursos e de uma composição musical composta por doutor Nunes Garcia para piano, intitulada "Cambucina", por conta da morte desse médico.
O doutor Cambuci do Valle e o compositor Cândido Inacio da Silva foram padrinhos de casamento do doutor Nunes Garcia com Anna Francisca da Silva em 22 de setembro de 1833.
Em 1833, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro anunciou a abertura de concurso público para contratação de professores para diferentes cadeiras. Para a cátedra de partos, três candidatos concorreram: os doutores negros José Mauricio Nunes Garcia e Francisco Júlio Xavier, recém-formado pela Faculdade de Paris. E o doutor José Cardozo de Menezes, dito protegido do diretor da escola.GARCIA JÚNIOR, 1860
De fato, nesse concurso, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro tornou-se palco dos debates raciais de então, já dados em diferentes setores da sociedade.. GARCIA JÚNIOR, 1860 Ainda que somente no segundo semestre de 1833 surgisse o primeiro jornal voltado para a causa negra, de propriedade do editor Francisco de Paula Brito, tornando-se o primeiro veículo midiático voltado para uma identidade racialmente negra, entretanto, foi no primeiro semestre daquele ano que a Escola Médica serviu de palco para os embates e tensões entre os ditos homens de "cor" e suas buscas para garantirem seus direitos como cidadãos e livres no serviço público. Em um primeiro momento, os doutores Nunes Garcia Junior e Francisco Júlio Xavier se uniram por seus direitos contra o seus oponentes para, participarem em pé de igualdade com o outro candidato, que, diante de dois oponentes negros, dirigiu-lhes diversos insultos perante a banca examinadora.GARCIA JÚNIOR,1860
Nesse concurso, a vaga ficou com o doutor Francisco Júlio Xavier, entretanto, o doutor José Mauricio Nunes Garcia, por meio de um despacho assinado pelo desembargador Aureliano de Souza Oliveira Coutinho, tomou posse em 16 de julho como professor substituto na cadeira de anatomia, auxiliando seu velho mestre, dr. José Joaquim Marques.