Mulheres, Raça e Classe do original Women, Race and Class é um livro de 1981 da filósofa e teórica feminista estadunidense Angela Davis sobre as relações entre as opressões de gênero, raça e classe social. Uma das mais importantes obras da autora e uma referência nos temas temas que aborda, o livro foi publicado no Brasil pela primeira vez em 2016 pela editora Boitempo, em tradução de Heci Regina Candiani e prefácio de Djamila Ribeiro. As análises e reflexões aprofundadas sobre as relações entre os temas que aborda posteriormente foi denominado como interseccionalidade pela teórica Kimberlé Crenshaw em 1989.
O volume reúne uma coleção de treze ensaios em uma abordagem feminista-marxista sobre pontos fundamentais na história dos Estados Unidos, desde a escravatura até aos movimentos da segunda onda feminista da década de 1960.
Contexto Angela Davis nasceu no Alabama, Estados Unidos, em 1944, a mais velha de quatro irmãos em uma família negra de classe média. Desde cedo, foi uma ativista, inspirada por figuras femininas em sua família que se opunham às leis de Jim Crow, envolvendo-se posteriormente com grupos socialistas e o marxismo-leninismo. Estudou na Universidade Brandeis, onde se formou em Francês. Mais tarde, estudou sob a orientação do filósofo Herbert Marcuse e filiou-se ao Partido dos Panteras Negras e ao Partido Comunista dos Estados Unidos no final da década de 1960. Após concluir seu mestrado, começou a lecionar filosofia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Foi demitida repetidamente devido às suas crenças políticas e presa por dois anos sob a acusação de fornecer armas usadas pelo revolucionário Jonathan P. Jackson, sendo libertada em 1972 e, posteriormente, absolvida.
Publicado em 1981, Mulheres, Raça e Classe foi o terceiro livro de Davis. A obra sucedeu If They Come in the Morning: Voices of Resistance (1971), uma coletânea de escritos editada por Davis que inclui contribuições nas quais ela discute suas experiências na prisão, e Angela Davis: An Autobiography (1974), que abordou o movimento pelos direitos civis e seu impacto em sua ideologia.
Principais ideias Angela Davis propõe analisar raça, classe e gênero em conjunto e não como marcadores sociais distintos. Em visita ao Brasil, em conferência realizada em São Luís do Maranhão, durante a 1ª Jornada Cultural Lélia Gonzales, a autora dissertou sobre o tema e afirmou que apesar do debate sobre questões de classe comumente se sobreporem como mais importante, é necessário considerar os outros aspectos para entender como, juntos, podem criar diferentes tipos de opressão:“É preciso compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe”, diz. “Raça é a maneira como a classe é vivida. Precisamos refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras.”Mulheres, Raça e Classe aborda questões como a escravidão, o encarceramento em massa da população negra, estupro, aborto, direitos reprodutivos e trabalho doméstico. Desde a ligação histórica que liga o trabalho prisional ao regime escravocrata até o questionamento da lógica punitivista, já que o sujeito negro foi aquele construído como violento e perigoso, inclusive a mulher negra, cada vez mais encarcerada.
Recepção Valerie A. Batts, da revista Women & Therapy, elogiou a obra como um "relato extremamente bem documentado" dos movimentos de mulheres nos Estados Unidos, destacando a escrita de Davis como "clara e de leitura agradável". Anne Laurent, do Washington Post, concordou que o livro é "bem documentado" no que se refere aos períodos históricos iniciais, mas criticou-o por oferecer "poucas informações novas" e por parecer "curiosamente datado" em relação à história contemporânea. Laurent elogiou a "abundância factual" da obra, mas a descreveu como uma "coletânea de ensaios díspares". Críticos da revista Race & Class observaram que algumas questões permaneceram "sem resposta", particularmente no que tange à análise marxista, que omitiu discussões sobre as relações das mulheres com o valor de uso e o valor de troca em uma economia capitalista, além de não considerar o fato de que a "subordinação das mulheres" ao trabalho assalariado seria indesejável.
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