Paulistânia () é a região histórica e cultural atribuída ao povo paulista e seus descendentes. Constitui um espaço que compreende terras cuja formação populacional e cultural é indissociável da expansão paulista, e abrange, fisicamente, São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, e partes dos estados de Goiás, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rondônia. A região forma-se a partir dos territórios desbravados e povoados pelos bandeirantes, e se consolida através diversos ciclos econômicos, especialmente os do tropeirismo, monções fluviais, movimento boiadeiro, concessões de sesmarias, e frentes pioneiras. O espaço tornou-se, desta forma, um campo de influência paulista e uma área de acomodação dos costumes caipiras. Há ainda, em certas partes do contínuo paulistânico, denominações regionais próprias para os herdeiros dessa cultura, como na região serrana de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, onde os descendentes dos bandeirantes e tropeiros que ali habitavam ficaram conhecidos como birivas.
A ideia de uma região cultural caipira fixou-se graças ao trabalho de historiadores e intelectuais paulistas, que buscavam atribuir à "raça paulista" um espaço físico de agência histórica influenciado pelo seu legado, encontrando amparo no produto natural das jornadas paulistas pelos sertões. O conceito passou a ser trabalhado efetivamente a partir da década de 1930, pelo historiador, sociólogo e professor Alfredo Ellis Jr., recebendo contribuições de outros intelectuais, como Antonio Candido, que definia a região como um eixo de expansão e difusão da cultura bandeirante, chegando a realizar visitas entre 1952 a 1954 a municípios de Minas Gerais e Mato Grosso com o intuito de estabelecer comparações.
Etimologia O termo "Paulistânia" é um neologismo toponímico que significa "terra dos paulistas". Sua composição é formada por paulista, gentílico de São Paulo, e por -ia, um sufixo greco-latino que significa "terra", frequentemente utilizado na formação do nome de territórios nacionais.
Historiografia Deve-se, antes de tudo, tocar no assunto do "descobrimento" e conceitualização relativamente moderna da Paulistânia, imensamente prejudicada e limitada pelos largos períodos de tempo posteriores aos atentados de 30, sobre os quais pairou a constante tensão e repressão estatal a quaisquer estudos e publicações que contradissessem, quer fossem levados pela inocência e genuína busca pela verdade, a construção oficial da história brasileira, que valorizava sobretudo a unidade nacional e a redução das identidades regionais, não sendo rara a destruição de materiais considerados subversivos pelo regime tenentista. Deste modo, viu-se atrasado o trabalho acerca da formação paulista, que possui características de desenvolvimento próprias e potencialmente contrárias à narrativa imposta pelo governo getulista, o qual chegara, inclusive, a incendiar edições do Correio Paulistano, jornal tradicional que se posicionara à época contra Vargas, e onde havia sido publicado o estudo Populações Paulistas de Alfredo Ellis Jr., que, após ter o seu trabalho destruído, seria convencido por António de Alcântara Machado a retomar os esforços pela causa, e reconstituiria a sua obra anos depois.
O estudo da Paulistânia, entretanto, é tão antigo quanto a curiosidade acerca dos antepassados de cada indivíduo e do fenômeno das bandeiras, muito anterior a quaisquer possíveis pretensões dubiamente acusadas por regimes centralizadores hodiernos, e embora não referida pelo neologismo modernamente cunhado, a região é observada com farta documentação primária há séculos, possuindo São Paulo, e grande parte da Paulistânia como um todo, a rara dádiva de saber com grande precisão a origem, genealogia e composição racial de sua população, alargando-se o conhecimento com propriedade ao período setecentista e oitocentista, e mesmo aos seiscentos e quinhentos, graças aos sumamente importantes esforços de historiadores e genealogistas como Pedro Taques de Almeida Paes Leme, autor de valiosíssimas obras como as três edições de Nobiliarchia Paulistana Histórica e Genealógica (1772), e Luís Gonzaga da Silva Leme, autor de Genealogia Paulistana (1903). Além destes, vale-se também a historiografia paulista da documentação trazida em História da Capitania de São Vicente (1772), também de Pedro Taques, onde já se fazia menção ao paulista como povoador de parte do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e mesmo porções do Rio de Janeiro. É sumamente importante também a obra do frei Gaspar da Madre de Deus, Memórias para a história da capitania de São Vicente (1797), imensamente valorizada por personagens da história brasileira, como foi o naturalista Auguste de Saint-Hilaire. É, como tal, inconsistente a corrente que acusa obstinadamente os progressos historiográficos paulistas como mera "mania nobiliárquica" ou "construção de passado para legitimar o poder", visto que os esforços para este fim se encetaram muito antes do surto cafeeiro ao qual se atribui a ascensão de São Paulo.
História
Contexto anterior às bandeiras Foi nos primórdios da colonização, apenas um par de décadas após a fundação da vila de São Vicente em 1532, quando se deu a expedição jesuíta de Manuel da Nóbrega e São José de Anchieta para além das imediações costeiras do continente sul-americano, que, ao transpor as escarpas da Serra do Mar, obteve resultados com a fundação do Real Collegio de São Paulo de Piratininga, em 1554, situado em posição estratégica nos campos homônimos, marcando o nascimento daquela que viria a ser a maior metrópole do continente americano e o núcleo irradiador da cultura paulista pelos próximos séculos. A pequena povoação jesuíta seria integrada pelos habitantes da ligeiramente mais velha vila de Santo André da Borda do Campo, erguida por João Ramalho e seus aliados tupi em 1553.
O cenário no qual se encontrava o planalto paulista, no entanto, era de extrema precariedade. A região, isolada pela muralha natural da Serra do Mar, apresentava caminhos pouco convidativos e escassez de produtos exportáveis, além do constante peso da ameaça indígena. Sendo assim, os novos assentamentos paulistas viram-se naturalmente relegados ao abandono pela Coroa, em favor de empreendimentos mais rentáveis nas facilmente acessíveis regiões costeiras do eixo Rio-Nordeste, produtoras de açúcar e pau-brasil.
Assolados por grande inópia de recursos e ante a ameaça indígena, ocorreu em 9 de julho de 1562 o episódio do Cerco de Piratininga, quando uma coalizão de tribos hostis aos colonos investiu contra São Paulo, obrigando os habitantes da jovem vila a defenderem-se sós, haja vista a pouca importância que lhes era atribuída pela Coroa. O ataque foi repelido com sucesso pelos paulistas e seus aliados tupiniquins, mas o evento evidenciou a vulnerabilidade da região e a necessidade de buscar meios de sobrevivência mais eficazes.
Período bandeirista
Bandeiras de preação Impelidos pela então pobre e periculosa realidade do planalto, os paulistas, acompanhados de seus sequazes ameríndios, deram início às primeiras campanhas que rumavam os sertões distantes, motivados pela busca de riquezas minerais e cativos indígenas, principalmente aqueles de tribos guarani e tapuia, antigos inimigos dos tupi. Os membros dessas expedições, muitos de origem mestiça (portuguesa, espanhola, indígena), marchavam seguindo um líder que portava um estandarte, comumente guarnecido por uma Cruz da Ordem de Cristo, o que lhes conferiu o nome de "bandeirantes".
As bandeiras, como ficaram conhecidas, tornaram-se o principal motor da economia paulista, visto que, com a precária incorporação do território vicentino à dinâmica colonial brasileira, pouco influenciavam no ritmo da vida no meridião as movimentações que ocorriam no norte. Deste modo, as expedições passavam a tomar proporções progressivamente mais largas. Foram realizadas múltiplas incursões contra o domínio espanhol durante o século XVII, para além dos limites que se havia estabelecido no Tratado de Tordesilhas, culminando na conquista dos territórios do Guairá, Itatins e Tape pelos bandeirantes.
Bandeiras de prospecção
Ouro nas Gerais No início do século XVIII, constatou-se, através de campanhas bandeirantes pelo chamado Sertão de Sabarabuçu, a existência de vastas lavras de ouro na região das Gerais, arrancando o ciclo do ouro e findando o bandeirismo de preação. O foco paulista rapidamente voltava-se para as recém descobertas minas, tornando a extração aurífera sua principal atividade e trazendo consigo grande parte da economia da capitania, que passava a girar em torno do suporte à mineração. Deu-se assim o início da povoação do atual estado de Minas Gerais, através dos arraiais e vilas surgidos das empresas paulistas.
Espalhada a notícia da descoberta de ouro naqueles sertões, a região rapidamente atraiu dezenas de milhares de forasteiros, provindos principalmente das capitanias do norte e de Portugal. Não obstante os protestos e apelos da capitania bandeirante, que julgava ter direito sobre as terras que desbravara e povoara, ou que então cria ter o governo colonial em dívida consigo após o seu papel na Guerra dos Palmares e dos Bárbaros, seria negada a posse paulista da terra pela Coroa, acarretando, em 1707, no início da Guerra dos Emboabas.
Guerra dos Emboabas Os paulistas, aos olhos da gente das capitanias ao norte, eram vistos como "bandoleiros sem lei" e como um povo diferente do deles, dado o fato de comunicarem-se então em idioma próprio. Essa percepção era mútua, repetindo-se também do lado vicentino, que considerava os forasteiros de outras capitanias e reinóis como usurpadores estrangeiros ilegítimos, atribuindo-lhes coletivamente o nome "emboabas", termo da Língua Geral Paulista de etimologia incerta, mas que pode ter-se originado do termo "o-mboábae", significando "traidores" ou "pérfidos", e por extensão "invasores". Independentemente da etimologia, o fato é que a palavra passou a ser utilizada pelos bandeirantes para designar pejorativamente os forasteiros não-paulistas que iam às minas.
As tensões entre paulistas e emboabas escalaram rapidamente, opondo a "gente da terra", liderada pelo bandeirante Borba Gato, e os forasteiros. Finalmente, já decorridos dois anos de batalhas pelo ouro, em 1709, dava-se fim à guerra após a derrota das tropas caipiras. Seguindo o revés paulista no conflito, a capitania de São Vicente foi vendida à coroa de Portugal por seu último donatário, Luís Álvares de Castro, criando a capitania de São Paulo e Minas de Ouro, uma nova partição que seria governada por personalidades indicadas diretamente pela metrópole portuguesa, não havendo mais donatários nem capitães-mores. Em 1720, para que os portugueses pudessem exercer maior controle da região das minas, é então estabelecida a Capitania de Minas Gerais, enquanto o restante do território da antiga divisão ficaria sob o controle da Capitania de São Paulo, a que por sua vez, além de São Paulo, abrangeria territórios que atualmente pertencem ao Uruguai e aos estados brasileiros de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pará, Rondônia, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
O ouro do oeste e as monções O revés nas Gerais, contudo, não arrefeceu o ímpeto das bandeiras, que tomaram novo rumo aos longínquos sertões do oeste, e encontraram, em campanha do sorocabano Pascoal Moreira Cabral Leme, no ano de 1718, ouro às margens do rio Coxipó, fundando o núcleo que daria origem a Cuiabá. Pouco depois, em 1722, Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, realizaria semelhante descoberta nos sertões de Goiás, terras que já desbravara seu pai anos antes, estabelecendo as bases para a futura Villa Boa de Goyaz.