Filósofos pré-socráticos foram os filósofos da Grécia Antiga que, como sugere o nome, antecederam a Sócrates. Essa divisão propriamente se dá mais devido ao objeto de sua filosofia, em relação à novidade introduzida por Platão, do que à cronologia – visto que, temporalmente, alguns dos ditos pré-socráticos são contemporâneos a Sócrates, ou mesmo posteriores a este (como no caso de alguns sofistas).
Primeiramente, os pré-socráticos, também chamados naturalistas ou filósofos da natureza – entendendo-se este termo não em seu sentido corriqueiro, mas como realidade primeira, originária e fundamental¹, ou o que é primário, fundamental e persistente, em oposição ao que é secundário, derivado e transitório² — , tinham como escopo especulativo o problema cosmológico, ou cosmo-ontológico, e buscavam o princípio (ou arché) das coisas. Eles introduziram ao Ocidente a noção de o mundo como um kosmos, um arranjo ordenado que poderia ser entendido via inquirição racional."Presocratic Philosophy", Stanford Encyclopedia of Philosophy, 4 April 2016.
Posteriormente, com a questão do princípio fundamental único entrando em crise, surge a sofística, e o foco muda do cosmo para o homem e o problema moral.
Os principais filósofos pré-socráticos (e suas escolas) foram:
Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaxímenes de Mileto e Anaximandro de Mileto; Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de Crotona e Árquitas de Tarento; Escola Eleática: Xenófanes, Parmênides de Eleia, Zenão de Eleia e Melisso de Samos; Escola de Éfeso: Heráclito de Éfeso; Escola da Pluralidade: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera; Escola eclética: Diógenes de Apolônia, Arquelau de Atenas.
Visão geral O interesse moderno nos primórdios da filosofia grega antiga pode ser rastreado até 1573, quando Henri Estienne coletou vários fragmentos pré-socráticos no Poesis Philosophica (Ποίησις Φιλόσοφος).Giannis Stamatellos, Introduction to Presocratics (2012). p. 7. Hermann Diels popularizou o termo "pré-socrático" em Die Fragmente der Vorsokratiker (Os Fragmentos dos Pré-Socráticos) em 1903. No entanto, o termo "pre-Sokratic" [sic] estava em uso já em Plato and the Other Companions of Sokrates, de George Grote, em 1865. Eduard Zeller também foi importante na divisão do pensamento antes e depois de Sócrates.Simon Goldhill. Rethinking Revolutions Through Ancient Greece. p. 221. As principais análises do pensamento pré-socrático foram feitas por Gregory Vlastos, Jonathan Barnes e Friedrich Nietzsche em sua Filosofia na Era Trágica dos Gregos.
Às vezes pode ser difícil determinar a linha de argumento real que alguns pré-socráticos usaram para apoiar suas visões particulares. Enquanto a maioria deles produziu textos significativos, nenhum deles sobreviveu na forma completa. Tudo o que está disponível são citações de filósofos posteriores (frequentemente tendenciosos) e historiadores, e o ocasional fragmento textual.
Os filósofos pré-socráticos rejeitaram explicações mitológicas tradicionais dos fenômenos que viam ao seu redor em favor de explicações mais racionais. Esses filósofos fizeram perguntas sobre "a essência das coisas":Eduard Zeller, Outlines of the History of Greek Philosophy (1955). p. 323.
De onde tudo vem? De quê tudo é criado? Como explicamos a pluralidade de coisas encontradas na natureza? Como podemos descrever a natureza matematicamente?
Outros se concentraram na definição de problemas e paradoxos que se tornaram a base para estudos matemáticos, científicos e filosóficos posteriores.
Filósofos posteriores rejeitaram muitas das respostas fornecidas pelos primeiros filósofos gregos, mas continuaram a dar importância às suas perguntas. Além disso, as cosmologias propostas por eles foram atualizadas por desenvolvimentos posteriores na ciência.
Doxografias, a obra de Diels-Kranz e os fragmentos Na atualidade não é conservada nenhuma obra completa de filósofos pré-socráticos. Platão e Aristóteles tinham acesso a várias delas e talvez alguma chegou à Biblioteca de Alexandria. Na Escola de Alexandria circulavam compilações conhecidas posteriormente como "doxografias", do grego δόξα (doxa) = opinião + γραϕή (grafé) = escrito, ou "conversações" (gr.: ἀρέσκοντα, lat.: placita). Em particular, era atribuída a Teofrasto uma doxografia com o nome Opiniões dos físicos, (grego: Φυσικῶν δοχῶν), que seria uma compilação e comentários de fragmentos de pré-socráticos.Ver KIRK RAVEN (1977), p. 3−4, GUTHRIE (1962), p. XIII e BARNES (2005), p. 10 e nota 14 na p. 473. Hermann Diels realizou uma edição dessas fontes com o nome Doxographi Graeci (tr. "Doxografia Grega"). Por serem as doxografias um conhecimento de segunda mão, surge a questão: até que ponto podemos confiar nas doxografias? A resposta de Barnes é que as doxografias não são dignas de confiança e que devemos nos fundar nas mesmíssimas palavras dos pré-socráticos.ver BARNES (2005), p. 10.
Diels continuou o seu trabalho no final do século XIX com uma compilação de testemunhos e fragmentos dos pré-socráticos espalhados por diversas obras antigas, publicando esse material com o nome Die Fragmente der Vorsokratiker (tr. Os fragmentos dos pré-socráticos)Ver DIELS KRANZ (1960). que se transformou na obra de referência sobre o tema. Posteriormente, Walther Kranz organizou novas edições dessa obra, que passou a ser conhecida como Diels-Kranz. No meio acadêmico é comum utilizar a citação padronizada de Diels-Kranz para os pré-socráticos. Por exemplo, DK22B53 é o fragmento (B) 53 de Heráclito (capítulo 22), no qual expressa que "a guerra é o pai de todas as coisas".
Ferécides de Siro Ferécides de Siro (c. 580 a.C. - c. 520 a.C.) foi um filósofo pré-socrático considerado por Aristóteles como o primeiro grego a desenvolver um pensamento além do mitológico, descrito na Metafísica 1091b como "esses teólogos mistos, aqueles que não dizem tudo de forma mítica, como Pherekydes... que nomeiam o primeiro Gerador como o Supremo Bem".Aristóteles. Metafísica, livro 14, seção 1091b. O mais importante precursor entre os filósofos pré-sócraticos, ele é tido tradicionalmente como o primeiro a escrever um livro em prosa na Grécia, desenvolvendo um pensamento ordenado de forma diferente da poética e servindo de ligação entre as teogonias órficas e de Hesíodo e a racionalização da cosmologia filosófica investigativa, além de citado como mestre de Pitágoras.Laërtius, Diogenes (1925b), "The Seven Sages: Prologue" , Lives of the Eminent Philosophers, 1:1, traduzido por Hicks, Robert Drew (Two volume ed.), Loeb Classical Library, § 13, 118–119Laërtius, Diogenes (1925c), "Pythagoreans: Pythagoras" , Lives of the Eminent Philosophers, 2:8, traduzido por Hicks, Robert Drew (Two volume ed.), Loeb Classical Library Um número comparativamente grande de fontes diz que Ferécides foi o primeiro a ensinar a eternidade e a transmigração (metempsicose) das almas humanas. Tanto Cícero quanto Agostinho pensavam que ele deu o primeiro ensinamento da "imortalidade da alma".Baynes, T.S.; Smith, W.R., eds. (1885), "Pherecydes Of Syros", Encyclopædia Britannica, 18 (9th ed.), New York: Charles Scribner's Sons Que ele foi o primeiro a ensinar tal coisa é duvidoso, mas que ele estava entre os primeiros e que ele professou este ensinamento é certo. Hermann S. Schibli conclui que Ferécides "incluiu em seu livro ["Pentemychos"] pelo menos um tratamento rudimentar da imortalidade da alma, suas peregrinações no submundo e as razões para as encarnações da alma".
Escola jônica
Tales de Mileto (624-548 a.C.)
Atribui-se a Tales a afirmação de que "todas as coisas estão cheias de deuses", o que talvez pode ser associado à ideia de que o imã tem vida, porque move o ferro. Essa afirmação representa não um retorno a concepções míticas, mas simplesmente a ideia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva (hilozoísmo). Além disso, elaborou uma teoria para explicar as inundações no Nilo, e atribui-se a Tales a solução de diversos problemas geométricos (exemplo: teorema de Tales). Tales viajou por várias regiões, inclusive o Egito, onde, segundo consta, calculou a altura de uma pirâmide a partir da proporção entre sua própria altura e o comprimento de sua sombra. Esse cálculo exprime o que, na geometria, até hoje se conhece como teorema de Tales.
Tales foi um dos filósofos que acreditava que as coisas têm por trás de si um princípio físico, material, chamado arché. Para Tales, o arché seria a água. Tales observou que o calor necessita de água, que o morto resseca, que a natureza é úmida, que os germens são úmidos, que os alimentos contêm seiva, e concluiu que o princípio de tudo era a água. Com essa afirmação deduz-se que a existência singular não possui autonomia alguma, apenas algo acidental, uma modificação. A existência singular é passageira, modifica-se. A água é um momento no todo em geral, um elemento.
Principais fragmentos: “...a Água é o princípio de todas as coisas...”; “... todas as coisas estão cheias de deuses...”; “... a pedra magnética possui um poder porque move o ferro...". Tales é apontado como um dos sete sábios da Grécia Antiga. Além disso, foi o fundador da Escola Jônica. Considerava a água como sendo a origem de todas as coisas, e seus seguidores, embora discordassem quanto à “substância primordial” (que constituía a essência do universo), concordavam com ele no que dizia a respeito da existência de um “princípio único" para essa natureza primordial.Entre os principais discípulos de Tales de Mileto merecem destaque: Anaxímenes que dizia ser o "ar" a substância primária; e Anaximandro, para quem os mundos eram infinitos em sua perpétua inter-relação.
Anaximandro de Mileto (611-547 a.C.)
Anaximandro viveu em Mileto no século VI a.C.. Foi discípulo e sucessor de Tales. Anaximandro achava que nosso mundo seria apenas um entre uma infinidade de mundos que evoluiriam e se dissolveriam em algo que ele chamou de ilimitado ou infinito. Não é fácil explicar o que ele queria dizer com isso, mas parece claro que Anaximandro não estava pensando em uma substância conhecida, tal como Tales concebeu. Talvez quisesse dizer que a substância que gera todas as coisas fosse algo diferente das coisas criadas. Uma vez que todas as coisas criadas são limitadas, aquilo que vem antes ou depois delas teria de ser ilimitado.
É evidente que esse elemento básico não poderia ser algo tão comum como a água.
Anaximandro recusa-se a ver a origem do real em um elemento particular; todas as coisas são limitadas, e o limitado não pode ser, sem injustiça, a origem das coisas. Do ilimitado surgem inúmeros mundos, e estabelece-se a multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é explicada através da separação dos contrários em conseqüência do movimento eterno. Para Anaximandro o princípio das coisas - o arché - não era algo visível; era uma substância etérea, infinita. Chamou a essa substância de apeíron (indeterminado, infinito). O apeíron seria uma “massa geradora” dos seres, contendo em si todos os elementos contrários.
Anaximandro tinha um argumento contra Tales: o ar é frio, a água é úmida, e o fogo é quente, e essas coisas são antagônicas entre si, portanto o elemento primordial não poderia ser um dos elementos visíveis, teria que ser um elemento neutro, que está presente em tudo, mas está invisível.
Esse filósofo foi o iniciador da astronomia grega. Foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico totalmente.
De acordo com ele para que o vir-a-ser não cesse, o ser originário tem de ser indeterminado. Estando, assim, acima do vir-a-ser e garantindo, por isso, a eternidade e o curso do vir-a-ser.
O seu fragmento refere-se a uma unidade primordial, da qual nascem todas as coisas e à qual retornam todas as coisas.
Principais fragmentos: “... o ilimitado é eterno...”; “... o ilimitado é imortal e indissolúvel...”.
Anaxímenes de Mileto (588-524 a.C.)