A língua jibbali ou shehri é uma língua semítica meridional oriental moderna falada pela população semi-nômade habitante das cidades litorâneas, montanhas e florestais acima de Salalah, no governado de Dófar, sudoeste de Omã. Divide-se hoje em três dialetos principais: jibbali central, jibbali ocidental e jibbali oriental.
A língua não possui status oficial em nenhum país e não possui forma de registro formal (ortografia própria). A maior parte dos 84.900 falantes são bilíngues em outros dialetos árabes locais, especialmente dhofari. Ademais, o árabe, o qual é língua oficial e franca da região, exerce influência significativa e vem ocasionando diferenças de padrões gramaticais entre gerações. Segundo o Ethnologue, encontra-se ameaçada devido à perda progressiva de usuários.
Etimologia A língua jibbali já foi conhecida por pesquisadores por diversas terminologias.
Inicialmente, era chamada de eḥkili, baseado na palavra əḥklí, o nome nativo para designar falantes tribais da língua. Esse termo contrastava com śḥɛrí(singular), que refere-se a falantes não-tribais, tipicamente relegados a um status social inferior e submetidos à dominação. Alguns autores relatam que os śḥɛró(plural) eram os habitantes originais da região, que foi posteriormente ocupada pelos əḥkló(plural), optando pela utilização de shehri. No entanto, devido ao etnônimo referir-se apenas a um grupo de falantes e indicar uma posição inferiorizada dentro do grupo de usuários, alguns autores, como Rubin, argumentam que esta não é a melhor forma de designar a língua.
Já o termo jibbali, hoje utilizado pela maior parte dos pesquisadores, deriva do árabe jibāl 'montanhas'. Apesar de já existente em dialetos árabes locais na forma "al-jabbāliyyah", foi popularizado em inglês por T.M. Johnstone. Hoje, também é utilizado por nativos como gəblɛ̄t e 'gəblí (homem da montanha). Semanticamente, é bastante similar a śḥɛrí, não possuindo, no entanto, a conotação negativa desse último.
Todavia, vale estabelecer que existe discordância entre falantes locais e nativos quanto a melhor denominação para a língua, e a preferência é intimamente ligada a ser ou não um falante tribal. Shehri é preferida, logicamente, pelos śḥɛró, enquanto jibbali tende a ser a escolha dos əḥkló.
Distribuição miniaturadaimagem|Línguas semíticas meridionais orientais Jibbali é uma das seis línguas conhecidas como línguas semíticas meridionais orientais, assim como mehri, socotri, harsusi, hobyot e baṭḥari. Tanto jibbali, quanto socoṭri e mehri possuem diversos dialetos; podendo-se até mesmo considerar harsusi e baṭḥari como dialetos de mehri. Nenhuma dessas línguas tem conexões próximas e/ou inteligibilidade com o árabe. A região em que são utilizadas restringe-se ao Iêmen oriental, Omã ocidental, e os grupos insulares de Soqoṭra e Curia Muria. Não possuem tradição escrita e passaram a ser conhecidas no Ocidente apenas a partir do século 19.
Existem três dialetos principais de jibbali: ocidental, central e oriental. A divisão com base geográfica também é reconhecida por falantes nativos. Todos possuem alta inteligibilidade mútua e apresentam poucas diferenças. Uma diferença notável no pronúncia é o fonema /g/, que falantes ocidentais pronunciam como [dʒ], enquanto o restante como [ɟ] ou [ɡʲ]. Já no campo lexical, a palavra "hoje", tipicamente '(ə)šḥér', para alguns falantes de jibbali central é (ə)šḥór'. As diferenças dialetais na morfologia são provavelmente mais evidentes na conjugação de verbos. Por exemplo, para o imperfeito do verbo šaʿé "ele correu", falantes de jibbali central e oriental usam yəší, enquanto ocidentais usam yəšɔ́ʿ.
Fonologia
Vogais
O sistema vocálico é composto por um conjunto de 8 membros, contendo i-u-a, como normalmente nas línguas semíticas (representadas pelos caracteres árabes ي; و; ا).
+Tabela de vogais - jibbaliAnteriorCentralPosteriorFechadaSemifechadaMédiaSemiabertaAberta
/ə/, quando em posições tônicas, também pode ser expresso como [ɪ]. Consoantes O sistema consonantal do jibbali é composto por um total de 35 consoantes, incluindo algumas glotais.
Consoantes em jibbaliLabialDentalAlveolarPós-alveolarPalatalVelarUvularFaríngeaGlotalNasal PlosivaDesvozeada ()Vozeada Glotal tˀ~tʼ kˀ~kʼ Vibrante múltiplaFricativaDesvozeadaVozeada Glotal ðˀ~ðʼsˀ~s’ʃˀ~ʃʼ(çˀ~çʼ) Fricativa lateralDesvozeadaVozeada()Glotalɬˀ~ɬʼAproximante
O som /ɡ/ pode ser palatalizado como [ɟ] ou [ɡʲ] nos dialetos Central e Oriental. Em Jibbali Ocidental, é pronunciado como [dʒ]. [çˀ~çʼ] é um raro alofone de /kˀ/. É tipicamente palatalizado como [ʃˀ~ʃʼ] pela maioria dos falantes. [ɮ] ocorre somente como alofone de /l/. [ʝ] só ocorre como um alofone de /ɡ/, e pode ser pronunciado como [ʝ], [ʒ], ou [ɟ]. [ʔ] normalmente é ouvido apenas na posição final da palavra e não é considerado fonêmico.
Ortografia A língua jibbali não possui tradição escrita e não há registros de uso literário dela. Devido ao bilinguismo dos falantes, árabe padrão é normalmente utilizado para fins de registro. Esse artigo e a maior parte dos estudos utilizam-se de transcrições fonéticas no alfabeto latino.
Gramática
Pronomes Pronomes pessoais
Os pronomes pessoais em jibbali exercem uma miríade de funções, geralmente sendo sujeito ou predicado de sentenças não verbais, ou sujeito de sentenças verbais, no entanto, nesse último caso, assim como ocorre em português, podem e normalmente são omitidos. A utilização dos pronomes pessoais duais vem ficando obsoleta. Falantes mais jovens, apesar de o reconhecerem, não o utilizam, substituindo-o pelo plural. Uma forma possível, já registrada entre jovens, de se referir a duas pessoas consiste em dizer "tum ṯroh", isso é, "vocês dois".
+Pronomes pessoaisSingularDualPluralPrimeira pessoahe(ə)s̃inḥa(n)Segunda pessoa - masculinohɛt(ə)titumSegunda pessoa - femininohittɛnTerceira pessoa - masculinošɛšišumTerceira pessoa - femininosɛsɛn Pronomes possessivos sufixais
Em jibbali, assim como em outras línguas semíticas (árabe, por exemplo), a expressão pronominal de posse ocorre através de uma sufixação ao substantivo. Existe dois conjuntos de sufixos: um para substantivos singulares, outro para substantivos plurais, ambos necessariamente acompanham um artigo definido. +Sufixos para substantivos singularesSingularDualPluralPrimeira pessoa -i -(ə)s̃i -(ə)nSegunda pessoa - masculino -(ə)k -(ə)s̃i -(ə)kumSegunda pessoa - feminino -(ə)s̃ -(ə)kənTerceira pessoa - masculino -(ə)š -(ə)ši -(ə)humTerceira pessoa - feminino -(ə)s -(ə)sən Exemplo:
Aġá (o irmão): aġí, aġák, aġás̃, aġáš, aġás, aġás̃i, aġás̃i, aġáši, aġán, aġákum, aġákən, aġáhum, aġásən.
+Sufixos para substantivos pluraisSingularDualPluralPrimeira pessoa -í -ɛ́s̃i -ɛ́nSegunda pessoa - masculino -ɛ́k -ɛ́s̃i -ɔ́kumSegunda pessoa - feminino -ɛ́s̃ -ɛ́kənTerceira pessoa - masculino -ɛ́š -ɛ́ši -ɔ́humTerceira pessoa - feminino -ɛ́s -ɛ́sən Exemplo:
Iyɛ́l (Os camelos): yɛ́lí, iyɛ́lɛ́k, iyɛ́lɛ́s̃, iyɛ́lɛ́š, iyɛ́lɛ́s, iyɛ́lɛ́s̃i, iyɛ́lɛ́s̃i, iyɛ́lɛ́ši, iyɛ́lɛ́n, iyɛ́lɔ́kum, iyɛ́lɛ́kən, iyɛ́lɔ́hum, iyɛ́lɛ́sən.
Substantivos Gênero
Jibbali possui dois gêneros gramaticais: masculino e feminino. Não existe marcador para substantivos masculinos, já os femininos tipicamente contém o sufixo -(ə)t ou -Vt (-ɛ́t, -át, -ét, -ít, -ɔ́t, -út). Quase todas as palavras terminando em -t são femininas, mesmo que esse seja parte da raiz da palavra, tal como em but "casa" e ḳit "comida" são gramaticalmente femininas.
Número
Jibbali, como as outras línguas semíticas meridionais e árabe, exibe dois tipos de marcação de plural em substantivos. Há os plurais externos, com a presença de um sufixo de marcação, e existem plurais internos, com a pluralidade indicada por meio de mudanças vocálicas internas, com ou sem adição de um sufixo. Plurais internos são muito mais comuns do que plurais externos, tanto para substantivos masculinos e femininos. Existem alguns poucos substantivos que tem mudança na raiz na formação do plural (exemplo: ɔz ‘cabra’, pl. ɛ́rún).
Verbos Da mesma forma que em outras línguas semíticas, no jibbali, os verbos possuem raiz tri-consonantal (comum em línguas semíticas) e suas conjugações são formadas através de determinados padrões vocálicos com ou sem adição de prefixos ou infixos. Assim como em mehri, os tempos verbais se estabelecem através do aspecto do verbo - dessa forma, o perfeito, por exemplo, traz a ideia de passado pela expressão de conclusão, já o imperfeito é utilizado para o presente, tanto contínuo, quanto habitual.
Perfeito O aspecto perfeito é formado através da conexão dos seguintes sufixos à raiz: +SingularDualPluralPrimeira pessoa -(ə)k -(ə)s̃i - -ənSegunda pessoa - masculino -(ə)k -(ə)s̃i -(ə)kumSegunda pessoa - feminino -(ə)s̃ -(ə)kənTerceira pessoa - masculino --- -ɔTerceira pessoa - feminino -ɔ́t -tɔ́ --- O uso básico e mais comum do perfeito é como um pretérito, por exemplo:
ɔl ġarɔ́b tɔ lɔ "Ele não me reconheceu."
Também encontramos o perfeito – pelo menos com o verbo aġád "ir" – usado como futuro imediato, por exemplo:
he aġádək "estou indo para fora!"
Imperfeito O imperfeito é formado pela anexação de um conjunto de prefixos e sufixos a uma base verbal. O imperfeito pode, em vários contextos, indicar quase qualquer tempo ou aspecto. Pode ser usado como presente geral, habitual ou imediato, um habitual passado, um futuro, um presente ou passado progressivo, ou um complemento circunstancial. Assim, o imperfeito sugere uma ação incompleta. Existem dos modelos de imperfeito, a depender da raiz tri-consonantal do verbo. +Prefixos e Sufixos para raízes G1, Š1- e T1SingularDualPluralPrimeira pessoaə-ə-…-ɔ́n-Segunda pessoa - masculinot-t-…-ɔ́t-(V)Segunda pessoa - femininot-(V)t-…-ənTerceira pessoa - masculinoy-y-…-ɔ́y-(V)Terceira pessoa - femininot-t-…-ɔ́t-…-ən +Prefixos e Sufixos para raízes Š2- e T2SingularDualPluralPrimeira pessoaə-…-ənə-…-ɔ́/-únn-…-ənSegunda pessoa - masculinot-…-ənt-…-ɔ́/-únt-…-ənSegunda pessoa - femininot-…-ənt-…-ənTerceira pessoa - masculinoy-…-əny-…-ɔ́/-úny-…-ənTerceira pessoa - femininot-…-ənt-…-ɔ́/-únt-…-ən
Modo Subjuntivo
O subjuntivo é construído com prefixos e sufixos de forma similar ao imperfeito. Também existem diferentes afixos para diferentes raízes. A forma subjuntiva pode ser usada de forma independente ou dependente, sendo o último mais comum. Quando usado independentemente, pode expressar várias coisas, incluindo:
1. sugestão ou obrigação - aġéyg yɔ́ks̃əf ɛnúf "o homem deve se expor"
2. um imperativo - təxəlɔ́f ṣəḥát "fique bem"
3. um desejo - yɔ̄rək bek ɔź "que Deus te abençoe"
4. incerteza - təṣxɔ́b šɔ́fələk mġɔ́rɛʾ s̃ĩn "seu estômago pode ficar dolorido por um tempo depois"
Afixos para raízes G, Š1-, Š2-, T1- e T2-SingularDualPluralPrimeira pessoal-l-…-ɔn-Segunda pessoa - masculinot-t-…-ɔ́t-(V)Segunda pessoa - femininot-(V)t-…-ənTerceira pessoa - masculinoy-y-…-ɔ́y-(V)Terceira pessoa - femininot-t-…-ɔ́t-…-ən Afixos para raízes G passivo, D/L, H, H passive e QSingularDualPluralPrimeira pessoal-l-…-ɔn-Segunda pessoa - masculinol-l-…-ɔl-(V)Segunda pessoa - femininol-(V)l-…-ənTerceira pessoa - masculinoy-y-…-ɔ́y-(V)Terceira pessoa - femininoy-l-…-ɔl-…-ən
Tempo Uma exceção à habitual associação do aspecto com o tempo verbal é o futuro, que utiliza o verbo auxiliar dḥa- ou ḥa-, seguido de um verbo no subjuntivo. +ExemplosFrase em jibbaliTraduçãomit ḥa-l-əśnɛ́kQuando eu te verei?dḥa-l-ġád ḳərérɛEu irei amanhãdḥa-yə(l)tɔ́ġk aʿɛ́líMinha família vai te matar
Sentença As orações tipicamente seguem o padrão Sujeito-Verbo-Objeto, com a presença eventual de Verbo-Sujeito-Objeto, assim como em outras línguas semíticas. Também é comum que haja ocultação do sujeito, por ele estar implícito nas conjugações verbais.
Vocabulário
Expressões e cumprimentos təghũk ʿɔfét "bom dia" (lit. ‘que a paz esteja com você’) [para mulher: təghũs̃ ʿɔfét]
Resposta: bə-tɔ́k təghúm (lit. ‘e que vá para você’) [para mulher: tɔk vira tɔs̃]'''táġəmd lek ʿɔfét "boa noite"