Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu foi o enredo apresentado pela Acadêmicos do Grande Rio no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro de 2022, com o qual a escola conquistou o seu primeiro título de campeã do Grupo Especial do carnaval carioca. O samba-enredo homônimo foi composto por Gustavo Clarão, Arlindinho Cruz, Jr. Fragga, Claudio Mattos, Thiago Meiners e Igor Leal, recebendo diversas premiações.

O enredo da escola, assinado por Gabriel Haddad e Leonardo Bora e Vinícius Natal, buscou desmistificar a figura de Exu, apresentando aspectos do orixá/entidade reunidos em "sete chaves". A Grande Rio foi a quinta escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, que por causa da Pandemia de COVID-19, foi realizado no mês de abril. O desfile da agremiação foi aclamado pela imprensa especializada, ganhando adjetivos como "histórico", "impecável", "apoteótico" e "arrebatador". Alguns especialistas colocaram o desfile entre os melhores do século. A Grande Rio recebeu todos os principais prêmios de carnaval, dentre eles o Estandarte de Ouro de melhor escola. O samba-enredo da agremiação também foi o mais premiado do ano. Outro destaque da apresentação foi a bateria, comandada por Mestre Fafá, que também recebeu o Estandarte da categoria.

A Grande Rio foi campeã com três décimos de vantagem sobre a vice-campeã, Beija-Flor. A escola teve apenas duas notas abaixo da máxima, no quesito samba-enredo, sendo que uma das notas foi descartada seguindo o regulamento do concurso. Com isso, a escola perdeu apenas um décimo na avaliação oficial. A vitória da Grande Rio foi celebrada por famosos nas redes sociais e causou um aumento de 418% nas buscas pelo nome "Exu" no Google.

Antecedentes

Retrospecto Após quase ser rebaixada em 2018 e se classificar em nono lugar no carnaval de 2019, a Acadêmicos do Grande Rio decidiu finalizar a parceria com o casal de carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage. Para ocupar a vaga do casal, foram contratados os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, vice-campeões da Série A de 2019. A aposta deu certo e a Grande Rio foi vice-campeã do carnaval de 2020, somando a mesma pontuação que a campeã, Unidos do Viradouro, mas perdendo o título no quesito de desempate. A Grande Rio foi vice-campeã pela quarta vez em quinze anos, sendo que, em 2006, a escola também perdeu o título no critério de desempate, após somar a mesma pontuação que a campeã, Vila Isabel. Em 2020, a Grande Rio homenageou o babalorixá baiano Joãozinho da Gomeia. O desfile lhe rendeu diversos prêmios como o Estandarte de Ouro de melhor escola e de melhor samba-enredo.

Preparação para 2021/2022 Para o carnaval de 2021 a escola renovou os contratos com toda a sua equipe, incluindo os carnavalescos, coreógrafos da comissão de frente (Hélio e Beth Bejani), casal de mestre-sala e porta-bandeira (Taciana Couto e Daniel Werneck), diretor de bateria (Mestre Fafá), diretor de carnaval (Thiago Monteiro) e os diretores de harmonia. A Grande Rio divulgou seu enredo à meia-noite de 13 de junho de 2020, dia de Santo Antônio, que é sincretizado com Exu. O anúncio do enredo repercutiu nas redes sociais, figurando entre os assuntos mais comentados no Twitter.

No dia 14 de dezembro de 2020, dirigentes da LIESA se reuniram para sortear a ordem de apresentação do carnaval seguinte. Na ocasião o desfile estava previsto para julho de 2021. Mesmo com o adiamento do carnaval para abril de 2022, a ordem sorteada foi mantida. A Grande Rio foi sorteada para ser a quinta escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, ou seja, a penúltima escola a desfilar no Grupo Especial. Devido à Pandemia de COVID-19, o desfile das escolas de samba de 2021 foi cancelado, sendo a primeira vez, desde a criação do concurso, em 1932, que o evento não foi realizado. Com o agravamento da pandemia, as escolas paralisaram as atividades presenciais nas quadras e barracões, mas seguiram se programando para o desfile futuro. Com a campanha de vacinação contra a COVID no decorrer de 2021 e a diminuição de mortes pela doença, as escolas começaram a se preparar para o carnaval de 2022. Com um novo aumento dos casos de COVID no país, devido ao avanço da variante Ómicron, o desfile das escolas de samba que ocorreriam no carnaval de 2022 foram adiados para abril do mesmo ano, durante o feriado de Tiradentes.

O enredo Escolha e pesquisa miniaturadaimagem|Comissão de frente da Grande Rio em 2020 pregou contra a intolerância religiosa. Temática afro-religiosa agradou a comunidade e inspirou a escolha do enredo para 2022.|285x285px O enredo tem como tema Exu, cultuado na Umbanda e em diversas religiões de matriz africana. Foi assinado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora e pelo historiador Vinícius Natal. O tema surgiu do questionamento de pensadores do carnaval contemporâneo sobre o fato de Exu nunca ter sido enredo no Grupo Especial do carnaval carioca. Também partiu do desejo da comunidade da escola em continuar a defender a temática afro-religiosa que deu a Grande Rio o vice-campeonato do carnaval de 2020 com um desfile sobre o babalorixá Joãozinho da Gomeia. O desfile de 2020 ganhou uma proporção além da esperada pelos componentes, torcedores e dirigentes da Grande Rio, fomentando debates acerca da intolerância religiosa. A temática afro-religiosa também esteve presente nos primeiros anos da agremiação. Em seu primeiro desfile, em 1989, a Grande Rio apresentou "O Mito Sagrado de Ifé", com samba que pedia o fim do preconceito racial. O tema foi aprofundado no enredo 1992, "Águas Claras Para Um Rei Negro", com o qual a escola foi campeã do Grupo de Acesso. Em 1993, o samba composto para o enredo "No Mundo da Lua" citava o orixá Ogum e mencionava o mais conhecido ponto de Exu Tranca Ruas. Em 1994, a escola desfilou com o premiado enredo "Os Santos que a África não Viu", sobre a história da Umbanda. Segundo o carnavalesco Gabriel Haddad, já existia nele o desejo de desenvolver um enredo sobre Exu, tema que apareceu de maneira pontual nos três enredos assinados anteriormente por ele e Leonardo Bora para desfiles na Sapucaí. Gabriel também foi influenciado pela religião do avô materno, dono de um terreiro. Segundo o carnavalesco Leonardo Bora, o que lhe despertou a vontade para desenvolver o enredo foi uma conversa com a escritora Conceição Evaristo sobre a capa de Exu produzida por Bispo do Rosário.

Durante a pesquisa para a enredo de 2022, chegou-se ao nome de Estamira, catadora de lixo, morta em 2011, que vivia no aterro sanitário de Jardim Gramacho - o maior aterro sanitário da América Latina, desativado em 2012 - em Duque de Caxias, cidade-sede da Grande Rio. Estamira foi protagonista de um premiado documentário com seu nome dirigido por Marcos Prado e lançado em 2004. Em determinado momento do documentário, a catadora parecia se comunicar com Exu por meio de um telefone inutilizado usando a frase "Câmbio, Exu. Fala, Majeté!", de onde surgiu o título do enredo ("Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu"). Estamira foi escolhida como fio condutor do enredo, sendo, também, uma forma de localizar o tema dentro da cidade-sede da Grande Rio. Desenvolvimento O enredo foi desenvolvido em sete setores (as sete chaves presentes no título). Segundo o roteiro oficial do desfile, elaborado pela escola, o enredo busca exaltar a "visão exusíaca de mundo" (expressão cunhada pelo escritor Luiz Antonio Simas) e mostrar ao público "as muitas potências da energia exusíaca, revelando o quanto Exu se fez – e, mais do que nunca, faz! – presente no cenário artístico-cultural brasileiro e em cenários do cotidiano (mercados, feiras, bares, ruas, esquinas, lugares dos quais muito sentimos falta, em tempos de isolamento!), destacando a importância de Exu para os festejos de carnaval e, principalmente, direcionando um olhar criativo e inquieto para uma leitura sensível de vozes outrora apagadas (artistas e pensadores que foram excluídos de um determinado modelo de sociedade, mas que propuseram recriações do mundo, em diálogo com Exu)." Ainda segundo o roteiro, o enredo propõe desmistificar a figura de Exu e combater a intolerância religiosa, uma vez que Exu é, de forma preconceituosa, ligado à forças do mal, o que acaba refletindo na violência contra a Umbanda e religiões de matriz africana. Setor/Chave 1: Criação e encruzilhada

O primeiro setor é dividido em dois momentos. Na comissão de frente e no primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira com seus guardiões faz referência a presença de Exu nos mitos da criação do mundo. Exu é citado em diversas mitologias como peça fundamental para o movimento inicial da vida terrena junto a outros orixás como Olodumaré, Olorum e Oxalá. O segundo momento (ala um e carro abre-alas) faz referência à Exu enquanto potência das encruzilhadas: o culto a Exu, originário da África (tendo assumido, dentro daquele continente, diversas características) atravessou o Oceano Atlântico durante a diáspora africana, se espalhando pelas Américas, com destaque para o Brasil.

Setor/Chave 2: Raiz da liberdade

Exu Caboclo: ao se espalhar em solo brasileiro, o culto a Exu se mistura às cosmogonias indígenas. Baseado no conto "A Cabeça de Zumbi", de Alberto Mussa, o enredo faz a associação de Exu com a figura de Zumbi dos Palmares.

Setor/Chave 3: Terreiro e mercado

O terceiro setor do desfile celebra Exu enquanto energia que dinamiza as trocas e atua enquanto mediador entre deuses e homens, fiscalizando o Oráculo de Ifá e verificando se as oferendas aos demais orixás estão sendo feitas corretamente. Essa energia é ligada a figura das feiras e dos mercados, espaços de trocas comerciais. O setor também destaca a importância do padê, oferenda arriada nas esquinas e nas encruzilhadas.

Setor/Chave 4: Alma das ruas, noites da Lapa

O quarto setor do desfile saúda o "Povo da Rua", Exus e Pombagiras de diferentes linhas da Umbanda; exaltando figuras populares como Zé Pelintra, Tranca Ruas e Maria Padilha. Segundo o roteiro do desfile, esse é "certamente o mais próximo daquilo que o grande público imagina de um enredo que exalta Exu". O setor é ambientado no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Vários signos da boemia carioca são abordados no setor, como malandros, prostitutas, bares, cabarés e jogatinas. O setor sintetiza a energia de Exu presente nas noites e nas ruas. Setor/Chave 5: Festas, folias, carnavais

O setor aborda as folias de rua e a celebração do carnaval, fazendo referência às diversas manifestações culturais que guardam ligação com a energia de Exu. São celebrados bate-bolas, frevos, maracatus, o bloco do Seu Sete da Lira e as criações de Joãosinho Trinta, segundo o roteiro do desfile, "o mais exusíaco dos carnavalescos".

Setor/Chave 6: De tinta e de sangue

O setor sintetiza a energia de Exu presente nas artes, fazendo referência a abordagens de Exu em obras literárias, pinturas, esculturas, músicas, filmes e espetáculos em geral.

Setor/Chave 7: Recriação e vozes do "lixo"

O último setor aborda a energia de Exu que circula por espaços associados ao que é rejeitado pela sociedade, celebrando o pensamento e a arte de pessoas excluídas e/ou à margem da sociedade. O setor exalta figuras que têm em comum os diálogos estabelecidos com Exu, o fato de terem sido consideradas "loucas" e a ligação que estabeleceram com o lixo, buscando em materiais rejeitados ou descartados a matéria para a construção de obras de arte, figurinos, narrativas escritas ou faladas. Segundo o roteiro do desfile, o enredo utiliza o lixo como uma metáfora para "abordar a hegemonia de um dado pensamento, dominante e excludente – o mesmo que insiste em demonizar Exu." O samba-enredo

Processo de escolha