Na cosmogonia e mitologia guarani, Nhanderu ou Nhande Ru ("Nosso Pai") é a divindade suprema e criadora, a origem do cosmos, da palavra e dos fundamentos da vida.
Por extensão, "Nhanderu" é também o título dado aos deuses masculinos do panteão guarani, bem como ao conjunto das deidades em geral, além dos líderes espirituais dos guaranis.
O Criador
Segundo a obra Ayvú Rapyta, compilação de mitos orais dos mbiá-guaranis do Guairá (Paraguai) feita pelo antropólogo paraguaio León Cadogan com o relato oral de nativos como o cacique Pablo Verá, o Criador é conhecido por diversos nomes, tais como: Nhande Ru Tenondé ("Nosso Pai Primeiro"), Nhande Ru Pa-pa Tenondé ("Nosso Pai Absoluto Primeiro"), Nhamandu, Nhamanduí, Nhande Ru Nhamandu Tenondé ("Nosso Verdadeiro Pai Nhamandu, o Primeiro"), Nhamandu Ru Eté Tenondé ("Verdadeiro Pai Nhamandu, o Primeiro"), Nhamandu Yma ("Nhamandu Antigo"), entre outros.CADOGAN, 1959, p. 16.
Ainda de acordo com a versão mbiá, Nhanderu fez surgir a si mesmo em meio às trevas primordiais através da reflexão de sua própria sabedoria e essência luminosa,CADOGAN, 1959, pp. 13-14. e é uma divindade que se manifesta em múltiplos aspectos ou expressões divinas associadas aos pontos cardeais e aos elementos, como Nhamandu (associado ao sol e ao sul), Caraí (fogo e leste), Jacairá (névoa, ventos e norte) e Tupã (trovão e oeste), que lhe auxiliam na criação do mundoCADOGAN, 1959, pp. 28-29. e da humanidade.CADOGAN, 1959, p. 39.
Numa adaptação poética do Ayvú Rapyta pelo escritor tapuia Kaká Werá em seu livro Tupã Tenondé (2001), ele é descrito primeiramente como um colibri.
Para os apapocuvas (antigo subgrupo guarani ligado aos nhandevas), ele é conhecido como Nhanderuvuçu ("Nosso Grande Pai") e Cheruvuçu ("Meu Pai Grande"),NIMUENDAJÚ, Curt. Apontamentos sôbre os Guarani. Revista do Museu Paulista, São Paulo, Nova Série, v. 8, p. 9–57, 1954. Tradução e notas de Egon Schaden. Nota 12 do tradutor, pp. 56-57. o primeiro deus a surgir, e o faz com uma luz resplandescente no peito com a qual ele se descobre, sozinho, em meio às trevas. Sobre um suporte em forma de cruz, "ele dá à terra o seu princípio" e a provê com água.NIMUENDAJÚ, 1987, p. 47. Com Nhanderu Mbaecuaá, que ele "acha" de repente ao seu lado, Nhanderuvuçu cria a mulher, Nhandeci ("Nossa Mãe"), surgida de uma panela feita por Nhanderuvuçu, que se torna esposa de ambosNIMUENDAJÚ, 1987, p. 48. e mãe dos gêmeos Nhanderyqueý ("Nosso Irmão Mais Velho", Quaraí) e Tyvýry ("Irmão Mais Novo", Jaci),NIMUENDAJÚ, 1987, p. 56. que serão responsáveis pela criação de outros diversos elementos terrenos.
Os nhandevas e caiouás chamam-no Nhande Ru Paven, filho de Nhane Ramõi ("Nosso Avô") e Nhane Jari ("Nossa Avó") e marido de Nhande Ci (“Nossa Mãe”), com quem ele gera Pa'i Quará, o deus Sol, e Jaci, o deus Lua.Guarani Ñandeva - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.</ref><ref>Guarani Kaiowá - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.
Outros usos Os guaranis chamam os seus deuses masculinos — não só o Criador, mas também seus quatro grandes auxiliares (Nhamandu, Caraí, Jacairá e Tupã) e os gêmeos astrais (Quaraí e Jaci) — de Nhanderus (“Nossos Pais”),HISTÓRIA E CULTURA GUARANI. Quem são os deuses Guarani Mbya? História e Cultura Guarani, [S. l.], [s. d.].YAMPEY, Girala. Cosmovisión guaraní: el mito solar. [S. l.]: Portal Guarani, 2003. assim como as deusas são chamadas de Nhandecis (“Nossas Mães”), ou Nhanderu kuery e Nhandexy kuery na forma plural do guarani.MACEDO, Valéria, & SZTUTMAN, Renato (2014). A parte de que se é parte. Notas sobre individuação e divinização (a partir dos Guarani). Cadernos De Campo (São Paulo - 1991), 23(23), 287-302. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v23i23p287-302.
Além destes, há também os deuses menores que, igualmente, recebem a alcunha de "Nhanderu", como Nhanderu Mbaecuaá ("Nosso Pai Conhecedor das Coisas") ou Cheru Mbaecuaá ("Meu Pai Conhecedor das Coisas"), pai de Jaci na versão apapocuva; Nhande Ru Tapari/Jeupié/Joajué,CADOGAN, 1992, p. 167. sobrevivente do dilúvio; e Nhande Ru Papa MirimCADOGAN, 1992, p. 138./Nhande Ru IxapiCADOGAN, 1992, p. 192. filho ou assistente de Jacairá e criador de Yvy Pyau, a "Nova Terra", a terra atual, após o dilúvio.
Em conjunto, os deuses, masculinos e femininos, são conhecidos como, entre outras expressões, Nhande Ru Jukuéry (ju, "amarelo, dourado, áureo", e kuéry, designativo de plural), significando "Nossos Pais Áureos".CADOGAN, 1992, p. 124. Também se pode referir a uma deidade masculina como Xeru/Cheru ou Xe Ru/Che Ru (“Meu Pai”).CADOGAN, 1960, p. 149.
Nas comunidades guaranis contemporâneas, os líderes espirituais e de oração que guiam a comunidade na opy (casa de oração) também são chamados de "nhanderu", se homens, e "nhandeci", se mulheres.NIMUENDAJÚ, 1987, p. 75.
Ver também Deus criador Mitologia guarani Monã Nhamandu
Bibliografia CADOGAN, León. Ayvu rapyta: textos míticos de los Mbyá-Guaraní del Guairá. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1959. (Boletim n. 227 / Antropologia n. 5). CADOGAN, León. Diccionario Mbya-Guarani - Castellano. Asunción: CEADUC; CEPAG, 1992. 211 p. (Biblioteca Paraguaya de Antropología, v. 17). NIMUENDAJÚ, Curt. As lendas da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani. Tradução de Charlotte Emmerich e Eduardo Viveiros de Castro. São Paulo: HUCITEC; Editora da Universidade de São Paulo, 1987.
Categoria:Mitologia tupi-guarani