miniaturadaimagem|300x300px|Bandeiras dos países membros das Nações Unidas arvoradas em frente à sede desta organização. Uma bandeira constitui uma peça de tecido, geralmente oblonga e fixa por uma das bordas a uma haste ou adriça, contendo um arranjo abstrato e bidimensional, que pode incluir cores, figuras geométricas, emblemas e outros elementos gráficos. Originalmente usadas sobretudo como insígnias militares, as bandeiras são ainda hoje vistas como símbolos de liderança, de soberania e de posse, mas são também amplamente usadas para outros fins como a sinalização e a ornamentação."Bandeira", Dicionário Priberam da Língua PortuguesaMcKENNA, Amy, "Flag", Encyclopædia Britannica, Encyclopædia Britannica, Inc.
As bandeiras são tradicionalmente feitas em filele, um tecido fino e leve que lhes permitem tremular ao vento. Contudo e conforme a utilização a que se destinam, poderão alternativamente ser feitas em outros materiais tais como seda, papel, plástico ou metal. Ainda que o formato retangular seja o mais hoje comum, muitas bandeiras apresentam outros formatos tais como o quadrangular e o triangular. A reprodução de uma bandeira material, sob a forma de imagem pintada, impressa ou digital, serve geralmente o mesmo propósito que aquela.
Uma bandeira é, na sua essência, um meio de comunicação visual à distância. Como tal, pode ser utilizada para identificar indivíduos, coletividades e ideais ou para transmitir informações, avisos e pedidos. Uma bandeira pode também ser usada meramente para ornamentar. Ao ser usada como sinal de identificação de uma determinada entidade, a bandeira acaba por assumir frequentemente o estatuto de símbolo da mesma, servindo para a representar ou para demonstrar a afiliação àquela. Isto é especialmente verdade no caso das bandeiras nacionais, as quais são hoje em dia apercebidas pelo grande público como o principal símbolo das respetivas nações.
A ciência que se dedica ao estudo das bandeiras é conhecida como "vexilologia". Já a atividade de criação e de descrição gráfica das bandeiras é referida como "vexilografia"."Vexilografia", Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha], Porto Editora]</ref>
História Primórdios Não é conhecida com exatidão a data e o local de origem das primeiras bandeiras, mas a sua invenção ter-se-á devido aparentemente aos antigos povos do subcontinente indiano ou do que é hoje a China. É possível que as antigas bandeiras indianas e chinesas tenham tido uma origem comum nos vexiloides usados na Assíria e no antigo Egito. Precedendo historicamente as bandeiras, os vexiloides eram objetos com funções análogas às que viriam a ser assumidas por aquelas e que consistiam em varas encimadas com figuras simbólicas. Frequentemente, ostentavam fitas de tecido, afixadas às respetivas varas, a partir das quais se poderão ter inicialmente desenvolvido as primeiras bandeiras. Esta possibilidade poderá ser corroborada com o se saber que algumas das hastes das antigas bandeiras indianas tinham o topo rematado com figuras semelhantes às exibidas nos próprios panos das bandeiras.
O antigo Egito é um dos locais de origem das primeiras representações registradas de vexiloides. Na paleta de Narmer encontram-se representados vários deles sendo conduzidos, por diversos indivíduos dispostos em fila, adiante do Faraó. Vexiloides do mesmo tipo eram também arvorados em embarcações. No período pré-dinástico, os egípcios utilizavam-nos como símbolos dos seus nomos (províncias), mas também os vieram a utilizar como signas militares durante as guerras travadas no próprio Egito e na Assíria. A origem egípcia deste tipo de signas é atestada por vários escritores da Grécia antiga. Segundo Diodoro Sículo, cada vexiloide egípcio era em geral formado pela figura de um animal sagrado assente no topo de uma haste. Contudo, Diodoro também descreveu outro tipo de vexiloide, que se assemelhava a um leque semicircular.
No que diz respeito às bandeiras propriamente ditas, alguns dos primeiros registos conhecidos da sua existência têm origem na antiga China. Sabe-se assim que as bandeiras eram ali utilizadas para identificar as diversas divisões e unidades militares. Há notícias de que, já durante a dinastia Chou no século XI a.C., os militares chineses conduziam uma bandeira de cor branca, não existindo contudo nenhuma representação daquela. Sabe-se que, em 660 a.C., um príncipe menor foi punido por não abater a sua bandeira perante o seu superior. Uma representação de bandeiras militares chinesas de uma época posterior (transição do século III a.C. para o II a.C.) aparece num baixo-relevo do túmulo do imperador Wu de Han, onde as ditas bandeiras figuram sendo conduzidas por cavaleiros. As bandeiras chinesas exibiam diversos emblemas, entre os quais um pássaro vermelho, um tigre branco ou um dragão azul. Eram transportadas em carros de guerra e desfraldadas nas muralhas das cidades conquistadas. A bandeira imperial tinha os atributos de realeza, sendo identificada com o próprio monarca e tratada com um respeito semelhante, sendo considerado crime tocar até no seu porta-bandeira. A queda da bandeira significava derrota numa batalha. Raramente o imperador se expunha a si próprio e à sua bandeira, a qual era normalmente confiada à guarda de um general.INGLEFIELD, Eric, Flags, Nova Iorque: Arco Pub., 1984SMITH, Whitney, Flags through the ages and across the world, Nova Iorque, 1975JONES, Gareth, Complete flags of the world, Dorling Kindersley Publishing Staff, 2014BARRACLOUGH, E.M.C., Flags of the World, William Cloves & Sons Ltd., 1971XING, Fei, "The Study of Vexillology in China", Atas do 25º Congresso Internacional de Vexilologia, Roterdão: Federação Internacional das Associações Vexilológicas (FIAV), 2021
Na antiga Índia, as bandeiras tinham também uma importância elevada, sendo arvoradas em carros e em elefantes de guerra. Durante uma batalha, a bandeira era o primeiro alvo do inimigo, resultando a sua queda ou captura em desordem ou mesmo derrota do seu detentor. As bandeiras indianas apresentavam frequentemente um formato triangular, nas cores verde ou escarlate, contendo uma figura bordada a ouro e sendo franjadas também a ouro. Há notícia que, em 1542 a.C., foi usada uma bandeira branca como sinal de tréguas, o que parece evidenciar já o uso de bandeiras como meio de sinalização. A partir da Índia e da China, o uso de bandeiras espalhou-se para o que são hoje o Myanmar e a Tailândia, bem como para outras regiões do Sudeste Asiático.
Talvez a mais antiga bandeira ainda hoje preservada seja um derafsh () da antiga Pérsia, feito em bronze e datado de cerca de 2400 a.C., descoberto na província da Carmânia do atual Irão. O derafsh consistia num tipo de signa militar, usada durante o Primeiro Império Persa, suspensa de uma haste e feita em madeira, bronze, osso, pele ou tecido, onde estavam gravados diversos desenhos e padrões. O derafsh encontrado na Carmânia contém a representação de um homem sentado frente a uma mulher ajoelhada, com uma estrela entre ambos. HAKEMI, Ali, Shahdad: Archaeological Excavations of a Bronze Age Center in Iran, Sajjadi
No mundo ocidental, o vexilo (), usado como signa militar pelos antigos romanos, constituía um tipo primitivo de bandeira, composto por um tecido quadrangular ou retangular, pintado em cores vivas, pendendo de uma travessa horizontal apensa ao topo de uma haste vertical. Sendo talvez o primeiro objeto do Ocidente que se enquadra no moderno conceito de bandeira, o vexilo está na origem do termo "vexilologia", criado por Whitney Smith, na década de 1950, para designar a ciência que estuda as bandeiras.DUARTE, Marcelo, Almanaque das Bandeiras, São Paulo: Moderna, 2001
Idade Média
A popularização das bandeiras surgiu durante a Idade Média, na sequência do desenvolvimento da produção de seda na China e da sua propagação ao longo da Rota da Seda.
Os sarracenos foram dos primeiros povos a usar a seda na elaboração de bandeiras. Na história dos primórdios do Islão, é já mencionado o uso de bandeiras, o qual terá provavelmente sido introduzido por influência indiana. Contudo, a proibição do uso de imagens - considerada idólatras pela religião islâmica - fez com que as bandeiras sarracenas fossem bastante mais simples que as indianas, apresentando uma única cor, geralmente o preto, o branco, o vermelho ou o verde. A história da conquista de Meca no século VII menciona o uso de uma bandeira de cor negra por Maomé e de bandeiras de cor verde pelos seus seguidores. Existem evidências de que, a partir do Califado Ortodoxo, os netos de Maomé usaram bandeiras semelhantes, de formato geralmente triangular, sendo desfraldadas em hastes verticais. As dinastias islâmicas que se seguiram usavam bandeiras de cores variadas, geralmente inspiradas nas bandeiras que haviam supostamente sido usadas pelos diversos profetas daquela religião. Por volta de 1250 e apesar da restrição islâmica à representação de figuras, os turcos acabariam por adotar o crescente (já considerado um símbolo sagrado pelos assírios no século IX a.C.) como figura simbólica e exibi-lo nas suas bandeiras, influenciando também as bandeiras usadas por diversos outros povos muçulmanos. Aos sarracenos é atribuída a introdução do uso de bandeiras na Península Ibérica, a partir da qual o seu uso se propagou para o resto da Europa, onde acabaria por ganhar popularidade apenas no século IX.
Um outro tipo primitivo de bandeira, cujo uso na Europa se encontra registado desde o século IX, é o estandarte do Corvo (em nórdico antigo: Hrafnsmerki e ), em uso pelos viquingues. Este tinha a natureza de um totem, sendo constituído por uma bandeira triangular, com a borda exterior arredondada, contendo o desenho de um corvo e sendo hasteada numa haste vertical. No século X, o estandarte do Corvo foi também adotado pelos povos hiberno-nórdicos dos reinos de Dublin e da Nortúmbria. Uma imagem deste estandarte pode ser vista numa moeda mandada cunhar pelo rei Olaf Cuaran de Dublim, por volta do ano de 940. Na moeda, o estandarte está representado como uma bandeira com a forma de um triângulo retângulo, correspondendo os lados equiláteros à borda superior e à borda vertical junto à haste, enquanto que o lado da hipotenusa corresponde à borda exterior, da qual pendem cinco pestanas ou borlas. O centro do estandarte contém o ícone de um corvo.
esquerda|thumb|150px|Pendão içado na conquista de Valência em 1238, a bandeira ainda preservada mais antiga da Europa.