Choe Bu (, 1454–1504) foi um oficial coreano que marcou a época da dinastia Joseon. Tornou-se mais conhecido pelo relato de suas viagens naufragadas na China, entre fevereiro a julho de 1488, durante a dinastia Ming (1368–1644). Ele acabou sendo banido da corte de Joseon em 1498, e morto em 1504 durante dois expurgos políticos. No entanto, em 1506, foi exonerado, recebendo honrarias póstumas pelo Estado de Joseon.
Os relatos do diário de Choe sobre suas viagens na China foram amplamente publicados durante o século XVI na Coréia e no Japão. Os historiadores modernos também se referem a seus trabalhos escritos, já que seu diário de viagem forneceu uma perspectiva única de forasteiro sobre a cultura chinesa no século XV. As atitudes e opiniões expressas em seus escritos representam, em partes, os pontos de vista dos literatos coreanos confucionistas daquela época que viam a cultura chinesa como compatível e semelhante à cultura coreana. As descrições relacionadas às cidades, pessoas, costumes, culinárias e comércio marítimo ao longo do Grande Canal da China, forneceram informações sobre a vida cotidiana da China e como ela diferia entre as regiões norte e sul deste país durante aquele período.
Primeiros anos e carreira esquerda|miniaturadaimagem|299x299px|Hyanggyo, em Daegu; os hyanggyo eram instituições de ensino administradas pelo governo, onde os alunos estudavam para o exame público Nome coreano ligado aos clãs dos Chois, Choe Bu nasceu em 1454, na cidade de Naju, em Jeolla do Sul, província da Coreia. Choe passou nos exames jinsa em 1477, que se tratava de uma prova simples, pois não garantia imediatamente um posto no governo; em vez disso, permitia a matrícula na Academia Nacional, ou Seonggyungwan, onde poderia estudar mais para as atividades superiores mungwa. Em preparação para os exames, ele estudou os Cinco Clássicos como os estudantes confucionistas fizeram por séculos, mas também aprendeu a ênfase dos Quatro Livros de Zhu Xi (1130–1200), que estava de acordo com o neoconfucionismo, uma doutrina aceita pela primeira vez na educação tradicional chinesa em meados do século XIII. Choe foi aprovado no primeiro concurso público em 1482, e no segundo concurso público em 1486, qualificando-o para um cargo imediato no governo. Em uma carreira como funcionário acadêmico graduado que durou 18 anos, foi privilegiado com vários cargos. Ocupou cargos na Biblioteca Hodang, na tipografia e na Academia Nacional. Além disso, também ocupou cargos envolvendo militares, como na comissão de suprimentos militares, no gabinete do inspetor-geral e na guarnição de Yongyang. O auge de sua carreira ocorreu após ser promovido a ministro da Diretoria de Cerimônias da capital, cargo conceituado. Choe Bu também foi um dos pesquisadores que ajudou na compilação do Dongguk Tonggam em 1485, uma história da Coreia desde os tempos antigos. Choe aprendeu ética confuciana, literatura da China (letras e poesia) e era versado em história, geografia e pessoas notáveis coreanas; tudo isso, posteriormente, o ajudou a esclarecer a noção de alguns oficiais chineses de que ele era um pirata japonês, e não um oficial coreano que infelizmente naufragou na China. Em 1487, Choe Bu foi encaminhado para a Ilha de Jeju para verificar os registros de escravos fugitivos do continente.
Náufrago na China em 1488
Região Sul da China miniaturadaimagem|222x222px|Mapa da península coreana com a Ilha de Jeju, localizada no canto inferior esquerdo no Mar da China Oriental Enquanto trabalhava em Jeju como Comissário de Registros da ilha, um escravo da família de Naju chegou em 12 de fevereiro de 1488 para avisar Choe de que seu pai havia morrido. Mantendo seus valores confucionistas, Choe se preparou para deixar seu posto imediatamente e iniciar o período de luto pela perda de seu pai. No entanto, enquanto navegava para a Coreia com uma tripulação de 43 coreanos, o navio de Choe foi desviado do trajeto durante uma violenta tempestade que durou catorze dias; seu navio flutuou sem destino em direção à China até chegar à costa chinesa ao largo de Taizhou, Chequião, perto de Liampó. Antes de chegar à costa de Chequião, Choe escreveu no quinto dia de sua viagem no mar durante a tempestade:
Neste dia, uma densa névoa obscureceu tudo. As coisas não poderiam ser distinguidas a um pé de distância. Ao anoitecer, a chuva caiu forte, diminuindo um pouco com a noite. As ondas assustadoras eram como montanhas. Elas levantariam o navio para o céu azulado, e depois o jogariam como se estivessem em um abismo. Elas ondularam e se chocaram, o barulho separando o céu da terra. Todos nós podemos ser afogados e deixados para apodrecer a qualquer momento.
A pedido de seus tripulantes, Choe trocou de roupa em um ritual de preparação para a morte, embora tenha rezado aos céus para salvar ele e sua tripulação, perguntando quais pecados eles cometeram para merecer esse destino. No sexto dia, durante um tempo mais ameno, seu navio chegou a um grupo de ilhas no Mar Amarelo, onde piratas chineses estavam ancorados. Os piratas roubaram mercadorias e suprimentos de seu navio, jogaram fora os remos e a âncora dos coreanos e os deixaram à deriva no mar. esquerda|miniaturadaimagem|253x253px|Foto de um junco, embarcação coreana registrado em 1871 Embora ainda estivesse chovendo muito, a tripulação de Choe avistou uma faixa quase deserta da costa de Chequião, em 28 de fevereiro. Imediatamente, seu navio quase foi cercado por seis barcos chineses, cujas tripulações não tentaram embarcar no navio de Choe até o dia seguinte. Embora não falasse chinês, Choe era capaz de se comunicar com os chineses usando seu sistema de caracteres escritos, no que foi apelidado de "conversas de pincel". Por escrito, ele questionou esses marinheiros chineses sobre a distância da estrada oficial e rota de mensageiro mais próximas. Ao receber três estimativas diferentes da distância de lá até a capital da província de Taizhou, Choe foi convencido de que seus anfitriões o estavam enganando; o historiador Timothy Brook observa que era mais provável que fosse ignorância e inexperiência de viajar para o interior do que mero engano por parte dos marinheiros chineses. Independentemente disso, os marinheiros chineses começaram a roubar o navio coreano de seus bens restantes, convencidos de que eram piratas japoneses. Quando fortes chuvas inundaram, mais uma vez, a região, os marinheiros chineses voltaram para seus navios; o grupo de Choe, temendo pôr suas vidas em risco, caso os marinheiros embarcassem em seu navio novamente, viu isso como um momento oportuno e correu para a costa sob a cobertura da chuva. Depois de viajar vários dias por terra em busca da rota de mensageiro mais próxima, o grupo de Choe foi encontrado pelas autoridades chinesas e levado para o Batalhão Taizhou. Como no episódio anterior com os marinheiros e aldeões chineses ao longo da costa, os coreanos quase foram mortos quando foram encontrados pela primeira vez por soldados chineses. Utilizando sua sagacidade intelectual nesses confrontos perigosos, quando era confundido com um pirata costeiro, Choe evitou o desastre para ele e sua tripulação. miniaturadaimagem|405x405px|Pintura ilustrativa do século XII, com autoria de Zhang Zeduan, artista da dinastia Sung, mostrando pessoas carregadas em liteiras chinesas, as mesmas em que Choe e seus oficiais foram carregados enquanto atravessavam Zhejiang O comandante do batalhão em Taizhou ordenou que seu oficial Zhai Yong escoltasse o grupo coreano de Choe Bu ao centro de comando regional em Shaoxing, no dia 6 de março. De lá, eles poderiam ser transferidos para as autoridades provinciais em Hancheu e, finalmente, para a capital do império, Pequim, onde o grupo poderia ser escoltado oficialmente de volta à Coreia. Choe Bu e sua equipe foram transportados em liteiras, um veículo fornecido pelo Batalhão Taizhou; contudo, em locais de terreno hostil, Choe Bu era obrigado a andar a pé junto com os demais.
As tropas do batalhão que escoltavam Choe e seu grupo coreano chegaram ao Batalhão Jiantiao em 8 de março; no dia seguinte, eles viajaram de barco pela baía de Sanmen para chegar à delegacia de polícia de Yuexi e aos mensageiros. Em 10 de março, o grupo viajou pela rota postal até a estação de Baiqiao, um centro de mensageiros entre as prefeituras de Taizhou e Liampó. Os funcionários do mensageiro estavam ansiosos para se despedir dos coreanos, já que um grupo de 43 pessoas era considerado grande demais para uma transportadora mensageira fornecer acomodações repentinas. esquerda|miniaturadaimagem|280x280px|O trajeto da Grande Canal da China; de Ningbo a Pequim, a escolta de Choe Bu percorreu uma distância total de em 49 dias de viagem. Em uma viagem que durou o dia inteiro, a comitiva chegou à próxima estação localizada ao norte, na segunda vigília da noite. Chuvas fortes e vento impossibilitaram o avanço, mas apesar da chuva no dia seguinte, Zhai Yong pediu a Choe e aos coreanos que continuassem independentemente, explicando que os critérios para horários de chegada rápida no sistema mensageiro da China eram muito rigorosos. A equipe viajou outros em 11 de março, completamente encharcado pela chuva quando chegaram à próxima estação. O chefe da estação forneceu ao grupo uma pequena fogueira para se aquecer, mas um homem que pensava que os coreanos eram piratas capturados invadiu e chutou o fogo com raiva. Zhai Yong obedientemente escreveu um relato sobre esse ataque e o encaminhou ao gabinete do magistrado do condado antes de fazer com que o grupo continuasse a caminho de seu destino no dia seguinte, 12 de março. Eles chegaram ao rio Beidu naquele dia, embarcando em navios que os levariam ao Grande Canal, o mensageiro central e a artéria comercial da China que os levaria até Pequim. A essa altura, o transporte aquaviário era o meio de transporte preferido dos mensageiros; Choe escreveu que "todos os enviados, tributos e comércio vêm e vão por água. Se a água nas eclusas e rios for muito rasa por causa da seca para deixar os barcos passarem ou se houver um assunto muito urgente, a rota terrestre é tomada." Quando o grupo chegou a Liampó naquele dia, Choe Bu comentou sobre a bela paisagem; quando chegaram à cidade de Cixi, ele notou os muitos mercados da cidade e a confusão de navios de guerra; ao entrar em Ningbo e chegar ao Escritório Supremo de Defesa contra a Pirataria, Choe escreveu que os portões e as multidões lá eram três vezes maiores do que em Cixi.
Depois de interrogar Choe Bu e Zhai Yong, Zhai foi punido com chicotadas, devido ao episódio recente sobre os pontapés que os oficiais de Ningbo citaram como prova de sua falta de comando. No entanto, essa não foi a única ofensa; Zhai foi chicoteado novamente quando o grupo chegou a Hancheu, já que não cumpriu o prazo para chegar ao seu destino enquanto escoltava os coreanos. A punição padrão era de 20 golpes por um dia de atraso, com um golpe adicional para cada três dias seguidos de atraso e um máximo de 60. Embora isso talvez tenha atrapalhado a viagem, Choe ficou impressionado com as vistas de Hancheu, escrevendo:
Realmente parece um mundo diferente, como dizem as pessoas (...) As casas ficam em fileiras sólidas e os vestidos das multidões parecem biombos. Os mercados acumulam ouro e prata; o povo acumula roupas belas e enfeitadas. Navios estrangeiros ficam tão grossos quanto os dentes de um pente, e nas ruas, lojas de vinho e salões de música ficam de frente umas com as outras.
miniaturadaimagem|353x353px|O pagode Liuhe, de Hancheu, construído em 1165 durante a dinastia Sung