Amazing Grace é o quarto álbum ao vivo da artista musical americana Aretha Franklin. O seu lançamento ocorreu no dia 1º de junho de 1972, através da Atlantic Records. Foi gravado durante os dias 13 e 14 de janeiro daquele ano na igreja New Temple Missionary Baptist Church, localizada em Los Angeles, sendo acompanhada do coro local The Southern California Community Choir, que é creditado como participação. O disco tem como gênero principal a música gospel, da qual Aretha sempre foi conectada desde quando começou a cantar em Detroit; seu último álbum do gênero na época foi Songs of Faith, de 1956, que marcou sua estreia no mercado fonográfico.

Naquele ponto antes da gravação de Amazing Grace, Franklin já havia se destacado na música secular como a rainha do soul. Apesar de ter sido produzido pelos seus contribuidores de longa-data como Arif Mardin e Jerry Wexler, este último havia afirmado que precisou convencer de fato a artista a gravar o LP, já que ela tinha suas próprias dúvidas se membros da religião batista iriam levar a gravação como uma ofensa. Posteriormente, ela afirmou antes das sessões de gravação que "não importa quanto sucesso eu alcancei, nunca perdi minha fé em Deus". Acompanhada da participação vocal e com piano do reverendo James Cleveland, a emissão final em álbum duplo compliou quatorze faixas, várias dessas sendo versões novas de canções cristãs, bem como outras consideradas "inspiracionais" de músicas como "You've Got a Friend", de Carole King e "Wholy Holy", de Marvin Gaye.

Considerado arriscado para a carreira de Aretha, uma vez pelas mudanças que a geração dos anos 70 atravessava, foi recebido de forma positiva pelos críticos musicais, que relataram o poder de Franklin nas interpretações com sua voz; também acabou sendo um sucesso comercial inesperado, com a sétima e 23ª colocação sendo a maior que este conseguiu alcançar nas tabelas da Billboard 200 e RPM, respectivamente. Ademais, se tornou o álbum de estilo musical cristão mais vendido nos Estados Unidos de todos os tempos, ganhando uma certificação de platina dupla pela Recording Industry Association of America (RIAA).

Contou, em 1999, com um relançamento pela Rhino Records, que foi intitulado de The Complete Recordings e colocou em dois CDs todas as músicas apresentadas nos dois dias das sessões para o registro. A apresentação também foi gravada em vídeo, com planos de um documentário que seria originalmente dirigido por Sydney Pollack na época; no entanto, a falta de recursos tecnológicos fez com que o mesmo ficasse arquivado, impedido de ser lançado pela musicista e só sendo emitido em 2018, após sua morte, seguido de um lançamento em DVD em agosto de 2019.

Antecedentes Franklin sempre foi bastante conectada com a religião cristã, começando sua carreira como cantora cantando música gospel na igreja de seu pai, C.L. Franklin, que era um famoso ministro, ainda quando ela era uma garota. Seu primeiro trabalho fonográfico como artista foi lançado em 1956, aos 14 anos, com o nome Songs of Faith, sendo um álbum ao vivo que obtinha quatro faixas do estilo cantadas apenas com instrumentação baseada no piano que Aretha tocou na gravação. Apesar de ter se batizado com dez anos e "aceitado Jesus Cristo como seu Senhor e salvador pessoal", como a própria já tinha afirmado, o escritor David Ware Stowe notou que a vida da mesma incluía "tipos de cruzes que outros músicos cristãos de alto perfil tinham que suportar: gravidez na adolescência, prisões por dirigir embriagada e conduta desordeira, e casamento abusivos com divórcio".

No começo dos anos 1970, Aretha já estava estabilizada na indústria musical, bem como já era reconhecida como a rainha do soul na época, fruto do contrato que fez com sua gravadora Atlantic Records, depois que sua cláusula com a Columbia havia expirado, dos quais os trabalhos lançados, em cinco anos, acabaram não alcançando o sucesso esperado. Comentando sobre a mudança de selo, Matt Dobkin apontou que sua fama não surgiu com a volta para suas raízes do evangelho, apesar de dizer que isso tenha ajudado, como também um conteúdo sobre sexo; Aaron Cohen, no entanto, contra-argumentou esta afirmação, dizendo que o motivo pelo qual o público cristão continuou consumindo sua música foi que "ela não esvaiu sexualidade ao ponto de, digamos, Marvin Gaye"; o artista, segundo ele, usa a ambiguidade em assuntos amorosos de forma "estranha" em suas canções, como em "Let's Get It On", enquanto Aretha havia escolhido um papel diferente.

Desenvolvimento esquerda|miniaturadaimagem|250x250px|A morte de King Curtis (imagem), que participou com Aretha de uma apresentação no Fillmore West, foi vista como um dos motivos pelos quais a artista quis gravar novamente em uma igreja. Cohen diz em sua obra que "em algum ponto antes, durante ou depois da apresentação no Fillmore West, a cantora decidiu voltar a igreja para uma gravação ao vivo diferente, isso é claro". Ele fala, porém, que os motivos dois quais a levaram para esta decisão são obscuros, e que a possível razão para isso tenha sido o assassinato de King Curtis após a morte de Luther King Jr. anos antes. Produtor e até então vice-presidente da Atlantic, Wexler estava popularizando a música cristã em sua editora discográfica, uma vez que artistas como os da Motown e Dionne Warwick estavam levando a mesma para um outro patamar de sucesso comercial. Não se sabe ao certo se foi Wexler ou Franklin que deram a ideia do projeto; especula-se que deva ter sido ambos, uma vez que Aretha já conhecia James Cleveland por ser seu mentor de infância, e Wexler do sucesso comercial que uma de suas obras no evangelho, Peace Be Still (1963), havia obtido. Cleveland posteriormente seria uma figura importante para a execução de Amazing Grace, sendo creditado no álbum e participando do mesmo nos vocais e tocando piano.

A gravação havia sido anunciada ainda no outono de 1971 por Aretha para a revista Ebony, da qual afirmou "não querer soar falsa sobre isso, por eu sentir um real parentesco com Deus, e é o que me ajudou a me tirar dos problemas que enfrentei". Ela ainda afirmou estar bem e com saúde, e afirmou que a razão para isto era que "durante os anos, não importa quanto sucesso eu tenha alcançado, nunca perdi minha fé em Deus". Entretanto, Jerry Wexler, um dos produtores do disco, afirmaram que originalmente a cantora estava "aterrorizada" com a ideia de membros da religião batista verem o projeto como ofensa. No livro The Queen of Soul, escrito por Mark Bego, ele ainda disse que Franklin, "vinda de uma família da igreja, tinha muitos escrúpulos em fazer e eu podia a entender. Houve um grande sentimento neste momento sobre as pessoas que deixaram a igreja e estavam cantando a música do diabo. Havia vergonha e culpa, e você não podia voltar atrás. Quando Sam Cooke se tornou pop, ele nunca voltou atrás e fez outra nota de gospel". Ele ressaltou que a cantora "não queria opróbrio da igreja, afinal, ela é uma pessoa profundamente religiosa, e foi educada no ministério, e havia todas as pessoas do evangelho ao seu redor, as 'Claras Wards' e os 'James Clevelands'. Ela tinha muitos escrúpulos em entrar e fazer música na igreja, enquanto aqui ela estava cantando blues e jazz — 'profanando', por assim dizer".

Ensaios para o dia dos registros oficiais começaram ainda no final de 1971. Este processo começou com Cleveland, Franklin e pelo coro local chamado para a apresentação, o The Southern California Community Choir. Durou por algumas semanas, antes que a seção rítmica se juntasse a eles. Uma matéria intitulada de "Aretha retorna ao gospel" e feita pela Soul, uma revista sobre entretenimento negro baseada em Los Angeles, explicou este processo de aprimoramento antes que as gravações realmente começassem. No artigo, Cleveland afirmou que o processo tinha começado dois meses antes do registro em áudio, quando a Atlantic havia informado que Aretha o convidou para que eles gravem juntos, o que ele afirmou ser "mais do que apenas um gesto amigável". Ele acrescentou que ela tinha sido mencionada sobre isso por ele há muitos anos, mas parecia que o mesmo "nunca soube que isso realmente aconteceria". O diretor do coro, Alexander Hamilton, descreveu como foi ensaiar os mesmos para o evento, dizendo que este tipo de canto "é o mais difícil, porque requer precisão. Na música gospel, falamos muito sobre o espírito de Deus. Alguns tendem a levar isso movendo-se com o espírito para dizer como que você pode apenas fazer o que você sente, ou ir do jeito que você sente vontade de ir". Além disso, afirmou que James trouxe para os coristas o seu conhecimento próprio em ter trabalhado com coros, e disse que ele fez isso por muitos anos "sabendo o que funciona e o que não funciona".

Após a chegada da maior parte da seção rítmica na igreja algumas semanas depois para ensaios, o coro já estava de forma decorada. Nestes, estavam Chucky Rainey, que tocou o baixo elétrico, e Bernard Purdie, que tocou a bateria. O último afirmou que o grupo, no primeiro ensaio, havia começado a performar "Wholy Holy", de Marvin Gaye, com Franklin. O guitarrista Cornell Dupree disse que a preparação foi "com alma, e nenhuma pressão sob qualquer pessoa — sempre em frente: você toca, sente, vê onde você vai e faz o seu trabalho". Todavia, o baixista reconheceu que Cleveland "falava demais, e isso é um músico falando. Muita explicação disso, muito disso", afirmando que o pregador "teve que garantir que todos entendessem que aquilo era sua igreja, que ele estava no comando. Ele estava tentando proteger o seu chão, mas eu não me queixo sobre isso. É uma coisa, nós estávamos em Los Angeles e o que mais vamos fazer? Você quer que isso seja tão bom quanto possivelmente pode". Rainey também notou que Hamilton parecia estar assumindo uma grande parte da responsabilidade durante esses ensaios, comentando que "James iria pedir Alexander Hamilton para fazer algo aqui, fazer algo lá e é tudo sobre Hamilton enquanto Cleveland levou o crédito. [...] Você não lembra-se de trinta rostos, mas você se lembra do diretor de coro. Um diretor de coral basicamente sabe mais sobre música do que qualquer um".

Gravação O álbum foi gravado em duas noites entre 13 e 14 de janeiro de 1972 na igreja de Cleveland, a New Temple Missionary Baptist Church, localizada em Los Angeles, Califórnia. Aretha foi a vocalista principal em todas as músicas, e sendo acompanhada por Cleveland em músicas como "Precious Memories". Em todas as músicas contidas no álbum, a cantora foi apoiada pelo coral local The Southern California Community Choir. Destaques do álbum incluem uma versão de "Mary, Don't You Weep", de Inez Andrews, uma versão "poderosa" de “How I Got Over”, de Clara Ward, e uma "gloriosa" versão de dez minutos de "Amazing Grace". Três das músicas do álbum são versões "inspiradoras" de duas canções contemporâneas dos anos 70, sendo elas "You've Got a Friend", de Carole King e "Wholy Holy", de Marvin Gaye, além de uma versão gospel de "You'll Never Walk Alone", originalmente gravada por Rodgers & Hammerstein. A cantora também reprisou a música "Never Grow Old", que ela já havia gravado no seu primeiro material.