thumb|direita|Símbolo do Anarquismo Cristão Anarquismo cristão (também conhecido como cristianismo libertário) é um movimento da teologia política centrado na noção de que o anarquismo, em sua essência e ideal, é inerente ao Cristianismo e aos Evangelhos. O movimento fundamenta-se na ideia de que, em última análise, Deus é a autoridade sobre todas as coisas, sendo o Soberano Governador sobre todas as nações. Do mesmo modo, o movimento rejeita a ideia de que os governos humanos têm autoridade máxima sobre as sociedades. Anarquistas cristãos rejeitam a soberania do Estado, argumentando que ele é inseparável da violência e da idolatria. Sustentam, pois, que, sob o "Reino de Deus", as relações humanas seriam caracterizadas pela liderança servidora e pela compaixão universal, no lugar das estruturas hierárquicas e autoritárias e, quase sempre interesseiras em proveito próprio, as quais normalmente são atribuídas às ordens religiosa, social e política vigentes. A maioria dos anarquistas cristãos são pacifistas, rejeitando, pois, a guerra e a violência.
É preciso esclarecer, todavia, que o uso do termo "anarquismo" (<substantivo anarquia + sufixo ismo) em "anarquismo cristão" poderia sugerir alguma forma de "insurreição, per se, contra as estruturas de governo humano historica e ortodoxamente concebidos, sem mais, isto é: negação do governo [constituído na forma convencional], sem qualquer contraproposta alternativa". E não é esse o caso, pois o ideário anarquista cristão, como foi concebido, propõe a supressão das estruturas governamentais ortodoxas, sim, contudo, em favor do Governo Soberano por parte de Deus. Com efeito, "anarquia" (do grego antigo ἀναρχία, transliterado neolatino anarchia = "anarquia", combina ἀ (a), "não, sem" e ἀρχή transliterado neolatino arkhi = arqui, "autoridade, governo, líder, regulador"). Assim, o termo refere uma pessoa ou sociedade "sem líderes" ou "sem reguladores"."anarchy, n.". OED Online. December 2011. Oxford University Press. Accessed January 17, 2013. Nessa perspectiva, enquanto o anarquismo puro propõe "cada um por si", o anarquismo cristão sustenta que o governo seja de "Deus por todos e para todos". Não se deve confundir "anarquismo cristão" com "socialismo cristão". Enquanto este procura conjugar a aplicação de princípios cristãos ao ideário socialista (prevalecendo o viés hierárquico político usual), aquele rejeita qualquer e todo governo terreno, seja em que ideário for.
Mais do que qualquer outra fonte bíblica, o Sermão da Montanha é usado como base para o anarquismo cristão. A obra O Reino de Deus Está Dentro de Vós, de Leon Tolstói, também é frequentemente citada como um dos textos-chave do anarquismo cristão moderno.
Origens alt=|thumb|The Deserter (1916)Boardman Robinson
Antiga Aliança Jacques Ellul, filósofo francês e anarquista cristão, observou que o versículo final do Livro dos Juízes (Juízes 21:25) afirma que não havia rei em Israel, pois "todos fizeram o que acharam conveniente"BibleGateway.com - Passage Lookup: Judges 21:25: "In those days there was no king in Israel: every man did that which was right in his own eyes." Posteriormente, conforme registrado no primeiro Livro de Samuel (Samuel 8), o povo de Israel desejava um rei "como o têm as demais nações.". Deus declarou então que o povo o havia rejeitado como seu rei. Ele advertiu que um rei humano levaria ao militarismo, ao recrutamento e à tributação, e que as súplicas de misericórdia às vontades desse rei não seriam atendidas. Samuel transmitiu o aviso de Deus aos israelitas, mas ainda assim eles exigiram um rei, e Saul tornou-se o governante de Israel.
Nova Aliança thumb|250px|esquerda|O Sermão da Montanha retratado por Carl Heinrich Bloch Mais do que qualquer outra fonte bíblica, o Sermão da Montanha, relatado em Mateus, capítulos 5 a 7, bem como em Marcos 9:49-50, Lucas 6:20-23,37,38,41,42,46-49; 11:9-13,33; 12:22-31; 13:24; 14:34-35, é frequentemente usado como base para o anarquismo cristão. Alexandre Christoyannopoulos explica que o Sermão ilustra perfeitamente o ensino central de amor e perdão de Jesus Cristo. Anarquistas cristãos afirmam que o estado, fundado na violência, corrompe o mandamento de amar nossos inimigos, precisamente por instituir ordens sociais e políticas e jurídicas restritas e restritivas, as quais, com demasiada frequência, são manipuladas em favor de interesses daqueles que se apropriam do poder, em detrimento dos demais, que vêm a ser os mais necessitados.Alexandre Christoyannopoulos explains that the Sermon perfectly illustrates Jesus's central teaching of love and forgiveness. Christian anarchists claim that the state, founded on violence, contravenes the Sermon and Jesus' call to love our enemies. Assim, pois, argumentam os anarquistas cristãos, só o Reino de Deus é a solução.
As Escrituras ainda narram a tentação de Jesus no deserto. Durante a tentação final, Jesus foi levado a uma grande montanha por Satanás que lhe propôs todos os reinos terrenos, caso Jesus resolvesse se inclinar diante dele. Os anarquistas cristãos usam essa narrativa como prova de que todos os reinos e governos terrestres são governados por Satanás, já que ele os ofereceu a Jesus. O filho de Deus recusou a tentação, escolhendo servir ao pai, fato que, segundo os anarquistas cristãos, indica que ele estaria ciente da natureza corruptora do poder terrestre.
A escatologia cristã e vários anarquistas cristãos, como Jacques Ellul, identificaram o poder político e estatal como a Besta mencionada no Livro do Apocalipse.
A compatibilidade entre anarquismo e cristianismo causa discordâncias entre teóricos. Alguns sustentam que não se pode ser integralmente cristão e anarquista concomitantemente. Parte dessa discordância se dá pelo fato de que outras correntes anarquistas são de origem ateia ou laica. Os anarco-sindicalistas, por exemplo, citam frequentemente a frase "sem deuses, sem mestres", ao passo que os cristãos frequentemente citam a Epístola aos Romanos. O versículo 6 indica que os cristãos também devem pagar tributos.Bíblia Sagrada, edição luxo, traduzida em portuguesa da vulgata latina pelo padre Antonio Pereira de Figueredo. São Paulo; DCL, 2010. Página. 912. ISNB 978-85-368-1571-8
Cristianismo Inicial
De acordo com Alexandre Christoyannopoulos, vários dos escritos dos Padres da Igreja sugerem o anarquismo como o ideal de Deus. Os primeiros cristãos se opuseram ao primado do Estado: "Devemos obedecer a Deus como governante no lugar de homens" ( Atos 4:19, 5:29, 1 Coríntios 6: 1-6); "E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo". (Colossenses 2:15). Além disso, algumas comunidades cristãs primitivas parecem ter praticado uma espécie de comunismo anarquista. Os integrantes da comunidade de Jerusalém descrita em Atos compartilhavam o trabalho e dinheiro de forma equivalente entre seus membros.Hinson, E. Glenn. The Early Church: Origins to the Dawn of the Middle Ages, (1996) pp 42–3 Alguns anarquistas cristãos, como Kevin Craig, insistem que essas comunidades estavam centradas no amor verdadeiro e se preocupavam umas com as outras em vez de se preocuparem com uma liturgia. Eles também alegam que a razão pela qual os primeiros cristãos foram perseguidos não era porque adoravam a Jesus Cristo, mas porque se recusavam a adorar os ídolos humanos que reivindicavam o status divino. Dado que eles se recusaram a adorar o Imperador romano, eles se recusaram a jurar qualquer ato de fidelidade ao Império. Por exemplo, quando solicitado que eles jurassem pelo nome do imperador, Speratus, porta-voz dos mártires scillitanos, disse: "Eu reconheço não o império deste mundo... pois eu sei que meu Senhor é o Rei dos reis e imperador de todas as nações".
Thomas Merton, em sua introdução a uma tradução de Sayings of the Desert Fathers ("Ditos dos Padres do Deserto"), descreve os primeiros monásticos como "verdadeiros anarquistas em sentido estrito".Merton, Thomas. "Wisdom of the Desert." Abbey of Gethsemani Inc. 1960. p.5
Antes do Concílio de Niceia (325 DC), havia várias seitas independentes que se diferenciavam do cristianismo proto ortodoxo e tinham características anarco-cristãs ao confiar na revelação direta em vez das escrituras, tais como: Gnosticismo, particularmente o Valentianismo (séculos II a IV) - que acreditava em um conhecimento revelado de um Deus transcendente e incognoscível, que era uma divindade distinta do Demiurgo que criou e supervisiona o mundo material. Montanismo (século II) - que confiava em revelações proféticas do Espírito Santo.
Império Romano Ver também: Cesaropapismo e Igreja estatal do Império Romano
Para os anarquistas cristãos, o momento que sintetizou a degeneração do cristianismo foi a conversão do Imperador Constantino após a sua vitória na Batalha da Ponte Mílvia em 312. Após este evento, o cristianismo foi legalizado pelo Édito de Milão de 313, fato que marcou a transformação de uma igreja humilde governada de baixo para cima para a edificação de uma organização autoritária que governava de cima para baixo. Os anarquistas cristãos apontam o édito como o ponto inicial da "mudança constantiniana", na qual o cristianismo gradualmente foi se mesclando com a vontade da elite dominante, e terminou como a Igreja Estatal do Império Romano. Sob essa perspectiva, o Édito também foi responsável pelas Cruzadas, pela Inquisição e pelas Guerras religiosas na França.
Idade Média Após a conversão de Constantino, Alexandre Christoyannopoulos relata que o pacifismo cristão e o anarquismo foram abandonados por quase um milênio até o surgimento de pensadores como Francisco de Assis e Petr Chelčický. Francisco de Assis (c.1181-1226) era um pregador ascético, pacifista e amante da natureza. Como filho de um rico comerciante de roupas, ele desfrutou de uma vida privilegiada, mas se alistou como soldado e, a partir de então, mudou radicalmente suas crenças e práticas após um despertar espiritual. Francisco tornou-se um pacifista e evitou bens materiais, tentando seguir os passos de Jesus. Peter Maurin, co-fundador do Movimento dos Trabalhadores Católicos, foi fortemente influenciado por Francisco de Assis. O trabalho de Petr Chelčický (c.1390-c.1460), especificamente The Net of Faith, influenciou Leon Tolstói e é referenciado em seu livro O Reino de Deus Está Dentro de Vós.
Grupos e líderes cristãos com aspectos anarquistas na Idade Média Paulicianos - buscava um retorno à pureza da igreja no tempo do Apóstolo Paulo - Armênia - séculos VI a IX; Tondraquianos - defendiam a abolição da Igreja junto com todos os seus ritos tradicionais - Armênia (proximidades do monte Tendureque) - séculos IX a XI; Bogomilos - buscava um retorno à espiritualidade dos primeiros cristãos e se opunha às formas estabelecidas de governo e igreja - Macedônia e Balcãs - século XI; Gundolfo - um pregador itinerante que ensinava que a salvação seria alcançada por meio de uma vida virtuosa, do abandono do mundo, da restrição dos apetites da carne, da obtenção da comida pelo trabalho das mãos, de não fazer mal a ninguém e caridade para cada um de sua fé - perto de Lille (França) - século XI; Arnoldistas - criticavam a riqueza da Igreja Católica e pregava contra o batismo e a Eucaristia - Lombardia - século XII; Petrobrusianos (seguidores de Pedro de Bruys) - criticavam: a autoridade dos Padres da Igreja e da Igreja Católica, o celibato clerical, o batismo infantil, as orações pelos mortos e a música de órgão - sudeste da França - século XII; Henricanos (seguidores de Henrique de Lausana) - rejeitaram a autoridade doutrinária e disciplinar da igreja, não reconheceram qualquer forma de culto ou liturgia e sacramentos - França - século XII; Valdenses - sustentavam que a pobreza apostólica era o caminho para a perfeição espiritual e rejeitavam o que consideravam idolatria da Igreja Católica - Lyon (França) - teve início no século XII e tem seguidores até a atualidade;