thumb|300px|Caspar David Friedrich: O peregrino sobre o mar de névoa, 1818. KunsthalleChama-se Romantismo um feixe heterogêneo de estilos encontrados na pintura ocidental num período de mais de cem anos entre o fim do século XVIII e o fim do século XIX, como uma reação ao equilíbrio, impessoalidade, racionalidade e sobriedade do classicismo, e cuja ênfase estava na expressão de visões pessoais fortemente coloridas pela emoção dramática e irracional. Uma cronologia unificada é impossível de estabelecer; varia conforme a região e os autores também discordam sobre sua amplitude, alguns reduzindo o período para entre o início do século XIX e apenas poucas décadas seguintes.Galitz, Kathryn Calley. Romanticism. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000. Western Painting: Romanticism. Britannica On line
Origens do movimento
O Romantismo tomou forma de aborda, primeiramente como uma tendência naturalista na crítica literária e na filosofia, e teve grande influência sobre as outras artes e a cultura da sociedade em geral. Surgiu nos meados do século XVIII através dos escritos de Rousseau e outros filósofos do Iluminismo, que entre outras ideias alimentavam o mito do "bom selvagem" e advogavam um retorno à natureza. Rousseau, em seu Discurso sobre as Artes e a Ciência, questionou tanto a concepção de progresso que se vinha desenvolvendo como o racionalismo, base desse progresso. Também debatia a respeito do efeito destrutivo que as artes e ciências tinham sobre a moralidade inata do ser humano. Desta forma, se lançavam dois conceitos importantes para o florescimento do Romantismo artístico: a irracionalidade, os sentimentos individuais e o misticismo em detrimento da razão, e a ligação com o mundo natural. Logo esse corpo de ideias, centrado no igualitarismo e no individualismo, se expandia para um ataque aos sistemas de poder como o Estado aristocrático e a Religião institucionalizada, alegando que a ordem natural não autorizava as desigualdades sociais, contribuindo poderosamente para a eclosão de movimentos político-sociais como a Revolução Francesa e a luta pelos direitos civis igualitários, que mais tarde dariam origem à democracia como hoje a conhecemos.Matravers, Derek. A Change in Wolrd View. The Open University. BBC
Outra fonte para o substrato conceitual da pintura romântica foi o desenvolvimento da teoria do sublime pelo irlandês Edmund Burke, logo ecoada pelo enciclopedista Denis Diderot na França. Segundo eles, tudo o que espanta a alma, tudo o que nela imprime uma sensação de terror, leva ao sublime, ou seja, àquilo que é elevado, grandioso, exaltado. Nesta teoria, a beleza e o sublime são opostos. Enquanto que a luz realça a beleza, tanto treva como luz, levadas ao extremo, obliteram a visão do objeto, e geram o espanto, a incerteza, a confusão e o sublime, embora assim como a beleza, ele possa gerar deleite quando se percebe que o terror é fictício. Era uma visão toda contrária à concepção clássica de qualidade estética, admitindo a feiura e o horror como elementos capazes de gerar prazer estético pelo estímulo intenso das emoções. Kant contribui para essa noção dizendo em sua Crítica do Julgamento que "chamamos de sublime aquilo que é absolutamente grande", e notando que a beleza se liga à forma do objeto, tendo, assim, limites, e que o sublime é caracterizado pelo informe e pelo ilimitado. Ademais, poetas como Blake, Wordsworth, Byron e Shelley rejeitavam o racionalismo e a ordem da civilização dizendo que a natureza, mais o poder curativo da imaginação, poderiam levar as pessoas a uma transcendência de seu cotidiano difícil, e que os poderes da criatividade poderiam ser usados para transformar o mundo e regenerar sua espiritualidade. Assim os artistas se consideravam profetas de uma nova era e os intérpretes da realidade.Forward, Stephanie. Legacy of the Romantics. The Open University. BBC
A pintura romântica thumb|Fuseli: O sonho de Belinda, 1780-1790. Art Gallery of Vancouver thumb|Delacroix: A Liberdade guiando o povo, 1830. Museu do Louvre
A definição do Romantismo na pintura é difícil. Não foi um estilo unificado em termos de técnica ou temática, já que a diversidade de contextos nos vários países onde essa corrente floresceu deu margem à formação de escolas regionais bastante características e por vezes centradas em temas ou abordagens específicos. Já disse Baudelaire:
"O romantismo não se encontra nem na escolha dos temas nem em sua verdade objetiva, mas no modo de sentir. Para mim, o romantismo é a expressão mais recente e atual da beleza. E quem fala de romantismo fala de arte moderna, quer dizer, intimidade, espiritualidade, cor e tendência ao infinito, expressos por todos os meios de que as artes dispõem"...Carrassat, Fride R. & Marcadé, Isabelle. Movimientos de la pintura. Spes Editorial, S.L., 2004, pág. 41, ISBN 84-8332-596-9
Desde já se entende que são de esperar o surgimento de tendências múltiplas se agitando sob um mesmo rótulo, às vezes concordes, outras em aparente oposição, e a história da pintura revela o quão acertada foi a análise do poeta. Geralmente se concede que um elo unificador foi o desejo de expressão do individual, do intenso, do subjetivo, do irracional, do espontâneo e do emocional, do visionário e do transcendente, antes do que o impessoal, o lógico, o moderado e o claro, o equilibrado e o pré-programado que estruturaram o ideal clássico. Muitas vezes a expressão do gênio individual gerou projetos que buscavam primariamente chocar, cortejando o bizarro, o não-convencional, o exótico e o excêntrico e beirando o melodramático, o mórbido e o histérico.
Suas ideias individualistas favoreceram o nascimento da liberdade de escolha, de um senso de integridade e independência do artista e de um espírito avesso às convenções estilísticas de sistemas de valores genéricos e impessoais como os sustentados pelo Neoclassicismo e o Academismo. Naturalmente essa postura se chocava contra a ordem estabelecida, e não admira a proliferação de imagens dramáticas que é uma das marcas dessa escola, expressando a solidão e angústia do criador diante de uma sociedade incompreensiva, só encontrando consolo na natureza, representada com uma face ora épica e heróica, ora lírica e terna, ora patética e aterrorizante, como um espelho de sua alma atormentada mas em união mística com a Criação em seu estado virgem. Também esses sentimentos muitas vezes se mostravam como uma profunda compaixão para com o sofrimento do homem, ou como uma revolta contra a opressão e as desigualdades, tendo muitas vezes servido a pintura para defender o povo contra a tirania do sistema, vide a contribuição de Goya e Delacroix. Não obstante, com o passar dos anos seus valores mais vigorosos e contestadores foram incorporados pela própria Academia e se tornaram convencionais, degenerando para um sentimentalismo inócuo e por vezes afetado.
thumb|left|Bierstadt: Entre as montanhas da Sierra Nevada. Smithsonian American Art Museum
Crendo ainda que o mundo invisível poderia ser tornado visível pela mão do artista, um mundo regido não pela moralidade ordinária mas por forças supra-racionais que tinham uma lógica e hierarquia próprias, também se tornam comuns as representações de sonhos e pesadelos, de visões místicas e religiosas, de fábulas, de mitos antigos, e do imaginário interior subjetivo de cada artista, bem exemplificados na obra de Blake e Fuseli. Outros experimentam a dissolução das formas a fim de transcender os limites convencionais de nossa visão e abrir as portas de novas formas de percepção e sensibilidade, como atesta a pintura quase abstrata de Turner em seus melhores momentos.Walsh, Linda. Romantic painting. The Open University. BBC
Embora comumente concebida em oposição à pintura neoclássica e acadêmica, a romântica em muito delas depende em termos de técnica e tomou de empréstimo muitos de seus modelos formais e ocasionalmente seus temas, sendo por vezes uma tarefa inglória definir fronteiras de estilo, ambos coexistindo durante um bom tempo. Como distinção genérica, os românticos dão maior ênfase à cor, seu desenho é menos exato e linear, privilegiando a mancha e a pincelada expressiva na construção da forma, suas composições são mais movimentadas e sua luz tem contrastes mais poderosos. A paisagem amiúde está convulsionada por tempestades ou o mar agitado, com efeitos impactantes de atmosfera e iluminação, realçando a sensação de grandioso na vista de altas montanhas, vales profundos e o horizonte infinito, temas centrais na arte de Bierstadt, Friedrich e outros.Child. Jack. Romanticism
Mas a violência e majestade da natureza, o sofrimento do homem, o arroubo místico, não foram as únicas linhas de trabalho românticas, e imaginar que o Romantismo é feito apenas de drama é privá-lo de boa parte de seu interesse e força; visões introspectivas, mais líricas e contemplativas, tintas de um otimismo claro e conciliador, também são elementos típicos e essenciais da escola, e entre esses dois extremos se formam sínteses as mais diversas. Arquiteturas classicistas podem ser coloridas com extravagância e envoltas em efeitos de atmosfera impensáveis para David, por exemplo, que foi o protótipo do classicismo em seu estado mais puro; um close-up enternecido sobre a vida do camponês esfarrapado pode revelar um aspecto realista e quase científico de observação do natural, e imagens do oriente, uma temática tão tipicamente romântica, podem ser tratadas com naturalismo e objetividade.
Muitos dos pintores românticos foram grandes viajantes, e buscaram inspiração em países exóticos e pouco conhecidos pelo ocidental. Alguns chegaram a explorar os trópicos e o Ártico, ou penetraram em regiões inóspitas de seus países, divulgando suas belezas naturais e contribuindo para o desbravamento e colonização de vastas áreas virgens, como foi o caso típico dos românticos norteamericanos. Outros, incapazes de se contentar com seu cotidiano, localizaram sua obra em tempos antigos, idealizando o passado e reconstruindo plasticamente uma história e tradições das quais não havia registro visível e dando substrato para a construção ou consolidação de um senso de identidade nacional, mesmo que se hoje seja óbvio que a imagem apresentada frequentemente não correspondia aos fatos revelados pelas pesquisas científicas posteriores.
Escolas nacionais Inglaterra
thumb|John Constable: A catedral de Salisbury thumb|William Turner: O incêndio no Parlamento, 1835. Cleveland Museum of Art
O Romantismo inglês nasceu por volta de 1780 na obra de pintores como James Barry, John Hamilton Mortimer, John Brown, George Romney e Henry Fuseli, insatisfeitos com o Academismo reinante. Buscaram, influenciados pelo Maneirismo italiano, na paisagem e em temas literários e imaginários a inspiração para seu gosto eclético e inclinado ao heróico e o patético. O poeta e pintor William Blake foi influenciado por este grupo, evoluindo para a representação de uma cosmologia mística e simbólica que continuava a tradição das iluminuras medievais, e crendo que somente o gênio poético seria capaz de perceber o infinito até mesmo em uma folha de grama. Blake foi uma referência para as paisagens sonhadoras e intensas de Samuel Palmer e Edward Calvert, que não obstante não viam oposição entre o irracional e o empírico, e estimularam uma pesquisa dos fenômenos naturais.