O Papa É Pop é o quarto álbum de estúdio da banda brasileira de rock Engenheiros do Hawaii. O disco foi gravado em julho e agosto de 1990, nos estúdios BMG, no Rio de Janeiro, e foi lançado em setembro do mesmo ano pela gravadora BMG, através do selo RCA Victor. O álbum, primeiro do grupo na década de 1990, trouxe mudanças mais radicais nos processos de composição e produção da banda: além de ter sido o primeiro de três álbuns consecutivos autoproduzidos, ele marca a adoção de instrumentos eletrônicos, como sintetizadores, sequenciadores, drum machine e pedaleira MIDI. Foram lançados os singles: "O Exército de um Homem Só I", "O Papa É Pop", "Era um Garoto que como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones" e "Pra Ser Sincero".

É o álbum comercialmente mais bem-sucedido da banda, com mais de 350 mil cópias vendidas no ano de seu lançamento, tendo alcançado a certificação de platina, uma vendagem surpreendente no ano em que foi lançado, marcado por forte crise econômica causada pelo confiso de valores no Plano Collor e pela emergência de uma nova música sertaneja que passou a disputar a preferência no gosto da juventude e, desse modo, nas execuções de música nas rádios. O lançamento deste disco modificou o patamar da banda de uma das maiores do rock nacional para a maior banda naquele ano, levando ao recebimento de alguns prêmios no ano seguinte e do aumento do interesse das publicações e da mídia nacional no grupo.

Antecedentes Durante a gravação do álbum anterior - Alívio Imediato, além das canções gravadas ao vivo, a banda fez o registro de duas faixas em estúdio. Nestas faixas, por sugestão do produtor Marcelo Sussekind, o grupo utilizou de modo mais pronunciado instrumentos eletrônicos, como sintetizadores e sequenciadores. Entretanto, foram chamados músicos de estúdio para tocar esses instrumentos. As canções tiveram bastante sucesso, sendo incluídas, também, na turnê que a banda fez para promover o álbum, a Alívio & Mídia Tour. Entretanto, a inclusão desses instrumentos não aconteceu apenas porque o produtor achou que eles casariam com aquelas canções. Humberto já vinha há algum tempo refletindo sobre uma oposição entre arte e entretenimento, isto é, em como aqueles timbres produzidos por aquele tipo de instrumentos e utilizados maciçamente na emergente música pop daqueles anos colocavam em questão a fronteira - até então pensada e existente - entre arte e entretenimento. Enquanto as bandas de rock brasileiras no período tentavam demonstrar que não faziam concessões a gravadoras ou ao público para tornar o seu som mais palatável ou comercial, eram os artistas pop que estavam questionando com a sua sonoridade a fronteira entre arte e entretenimento.

Mal-entendido com Lulu Santos É assim, por exemplo, que deve ser entendida a entrevista dada por ele ao Jornal do Brasil, em 17 de fevereiro de 1989, e que gerou atritos com o músico carioca Lulu Santos. Gessinger classificou os artistas em "entertainers" e "grupos que querem acrescentar uma existência abaixo das luzes do palco", colocando Lulu no primeiro grupo. Aquilo foi visto de modo negativo pelo cantor e guitarrista carioca, mas Humberto pretendia dizer que eram exatamente os entertainers que estavam fazendo algo diferente e revolucionário, não o outro grupo. De qualquer modo, este episódio gerou uma ligação de Lulu a Gessinger em que aquele chamava este de nazista, e um pedido de desculpas por parte de Humberto a Lulu no encarte do disco, além de uma entrevista fazendo o mesmo - na Folha de S.Paulo, em 1º de outubro de 1990.

Gravação e produção As gravações do álbum começaram em 2 de julho de 1990, nos estúdios da gravadora BMG, no Rio de Janeiro. Este seria o primeiro disco da banda gravado na cidade carioca, onde os seus membros moravam desde o final de 1988. Também, este disco marca o momento em que a banda passa a se autoproduzir, sendo o primeiro de 3 álbuns em sequência em que isto aconteceria. Como Humberto estava pensando em utilizar timbres eletrônicos neste disco há algum tempo, de modo a questionar as fronteiras entre arte e entretenimento, a banda adquiriu uma drum machine Dynacord durante a turnê e Carlos e o baixista começaram a utilizar o tempo livre que tinham para programá-la e selecionar os timbres que utilizariam nas músicas do disco. Augusto, enquanto isso, foi a Nova Iorque comprar mais equipamentos para dar conta daquela sonoridade, tendo adquirido uma nova guitarra Steinberger branca, uma drum machine Alesis HR-16, um pedal de chorus Dimension-C da Boss e uma pedaleira midi da Elka. No estúdio, a banda gravava em 3 turnos: Carlos gravava as baterias de manhã; Augusto gravava as guitarras e teclados de noite; e Humberto gravava baixo e teclados de tarde, de modo que pudesse encontrar os outros dois quando chegava ou saía para discutirem sobre alguma coisa da gravação. Assim, Carlos e Humberto pararam de gravar baixo e bateria juntos, mesmo porque a bateria era feita em uma drum machine. Ainda, este foi o disco com mais parcerias entre Humberto e Augusto, com 4 canções compostas pela dupla.

Projeto gráfico O projeto gráfico ficou por conta de Humberto e Carlos tendo sido executado por André Teixeira e J. C. Mello, com fotografias de Dario Zalis. A ideia era passar imagens limpas e claras, bem iluminadas e sem distorções, o contrário das capas típicas do rock brasileiro dos anos 1980, inspiradas na estética punk e pós-punk. O sofá vermelho estava lá para marcar a posição política de esquerda assumida pela banda quando apoiou Brizola e fez "showmícios" para a sua campanha nas eleições de 1989. O nome da banda em letras garrafais remete a duas coisas distintas: além de manter a unidade visual dos trabalhos anteriores da banda - nos quais o nome do grupo vem grafado da mesma maneira, ele faz referência a um compacto da banda Os Incríveis de 1971, na qual eles tocam versões do Hino Nacional e do Hino da Independência. Na contracapa, a foto do Papa João Paulo II tomando chimarrão - tirada pelo fotógrafo Carlos Contursi e de propriedade de Brizola - é apresentada colorida digitalmente para se assemelhar aos trabalhos de Andy Warhol com a fotografia de Marilyn Monroe, já que ele é um dos ícones da pop art.

Resenha musical O álbum abre com "O Exército de um Homem Só I" que continuava na terceira faixa com a sua segunda parte. Como em todas as outras canções divididas entre Gessinger e Licks, estas canções também foram musicadas pelo guitarrista a partir de uma letra datilografada e entregue a ele pelo baixista. A canção tem o título inspirado pela obra O Exército de um Homem Só, do escritor gaúcho Moacyr Scliar e é dedicada ao aviador alemão Mathias Rust. Augusto resolveu gravar as duas partes com a mesma aparelhagem, mas mudando a tonalidade entre uma e outra, para marcar uma diferença. O riff da introdução da música foi feito no violão Guild Songbird conectado ao pedal Dimension-C. Augusto teve a ideia do riff em um quarto de hotel, assistindo alguém tocar viola caipira no programa de Inezita Barroso. O guitarrista também programou a bateria em sua Alesis HR-16 que Carlos utilizou como guia para gravar em sua Dynacord. O baixo nos versos é executado pelo próprio guitarrista - no refrão entra o baixo de Humberto - no teclado Roland U-20, sendo ele composto, na verdade, por dois sons distintos: um grave contínuo que ficava soando e um mais águdo para marcar a entrada da nota. Nas estrofes, Augusto utilizou a Steinberger limpa e no refrão e no solo final a mesma guitarra só que com distorção. Nos refrões há, também, cordas adicionadas pela pedaleira MIDI. No meio da canção, antes de uma entrada do refrão, ainda há uma citação executada em uníssono por baixo e guitarra à Canção do Expedicionário. Ao final, há um som de órgão Hammond acionado também utilizando-se a pedaleira MIDI.

A segunda canção é o maior sucesso do disco, "Era um Garoto que como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones", que o grupo começou a tocar em virtude do atraso de Brizola em seus showmícios - era uma das poucas músicas que os 3 sabiam tocar de cabeça - e que se viu obrigada a registrar no disco porque as rádios começaram a tocar uma gravação feita no programa Babilônia, da TV Globo. A banda resolveu manter a introdução da versão original da música executada por Gianni Morandi - também presente na primeira gravação da versão nacional, pelos Incríveis - e, também, a marcha militar após um dos versos que havia sido adicionada pela banda brasileira da Jovem Guarda. No último refrão, Augusto adicionou citações a canções dos Rolling Stones e dos Beatles: trechos de "Under my Thumb" - do álbum Aftermath - e "Here Comes the Sun" - do álbum Abbey Road. A grande inovação da versão da banda em relação à versão dos Incríveis é o solo executado por Licks. Nas versões anteriores ao disco, Augusto já vinha executando uma seleção de hinos e jingles, como ficou claro no festival Hollywood Rock. Mas aqui, o guitarrista realizou uma espécie de colagem, encadeando diversos hinos melodicamente como se fossem uma coisa só. Ainda, gravou cada um dos trechos separadamente e passando de um canal ao outro, como se fossem dois guitarristas duelando. Assim, gravou na sequência trechos das seguintes canções: "Hino dos Estados Unidos", "Hino da União Soviética", "Hino da França", "Hino do Brasil", "Hino da Independência", "Hino da Legalidade", "Pra Frente Brasil" e finaliza novamente com o Hino da Independência. Ainda, há um trecho da narração de Pedro Carneiro Pereira gritando "Brasil! Brasil!" sobre a guitarra solando a melodia "olê, olê, olá", famosa por ser utilizada pelas torcidas organizadas nos estádios brasileiros. No final, mais uma vez utiliza-se a pedaleira MIDI para acrescentar o som do órgão Hammond.

A quarta faixa é "Nunca mais Poder", uma canção que é inspirada pelo poema "Eterno" de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro Fazendeiro do Ar, de 1954. Humberto acreditou que o tema do poema - uma discussão sobre a oposição entre moderno e eterno - se encaixava com a própria discussão tema do disco, a oposição entre arte e entretenimento, já que uma das chaves de leitura dessa oposição era que as inovações do pop se tornavam arte quando superavam sua modernidade em direção a uma pretensa eternidade. Em mais uma parceria, Licks utilizou novamente o violão Songbird passando pelo pedal de chorus, tocando o resto com a guitarra limpa, com exceção do final que apresenta um pouco de distorção. Guitarra e baixo terminam com outro trecho em uníssono fazendo referência à introdução da faixa seguinte - e, também, uma referência ao rock progressivo que utilizava esta espécie de arranjo. Na sequência, entra "Pra Ser Sincero", a última parceria do disco. Nesta canção, Augusto toca o Roland U-20 emulando o som de um Fender Rhodes enquanto Humberto toca o mesmo teclado, mas emulando o som de cordas. Ainda, Licks sugeriu que acrescentassem o som de alguém fumando, inspirado na canção "Overs", do disco Bookends, da dupla Simon & Garfunkel. A banda utilizou, ainda, um suspiro erótico de um banco de sons. A próxima canção é "Olhos Iguais aos Seus", a primeira só de Humberto. Esta é a primeira música em que a banda toca com Humberto no piano, Augusto na guitarra e Carlos na bateria, formação alternativa que seria utilizada diversas vezes em shows e no estúdio depois disso.