thumb|250px|The Valkyrie's Vigil (A vigília da valquíria, do pintor pré-rafaelita Edward Robert Hughes.

As valquírias ou valkirias (nórdico antigo: valkyrja, lit. "a que escolhe os mortos"), na mitologia nórdica, são dísir, deidades femininas menores que serviam Odin sob as ordens de Freya. O seu propósito era eleger os mais heróicos guerreiros mortos em batalha e conduzi-los ao salão dos mortos, Valhalla, regido por Odin, onde se convertiriam em einherjar. A escolha servia metade daqueles que morriam em batalha (a outra metade seguia para o campo de Freyja, na vida após a morte, denominado Fólkvangr). Odín precisava de guerreiros para que lutassem a seu lado na batalha do fim do mundo, Ragnarök. A sua residência habitual era Vingólf, situado próximo de Valhalla. O dito salão contava com quinhentas e quarenta portas por onde entravam os heróis derrotados para que as guerreiras os curassem, deleitando-se com a sua beleza e onde também "serviam hidromel e cuidavam da louça de barro e vasilhas para beber".Edda em prosa, Gylfaginning 35 Estas surgem também como amantes de heróis e outros mortais, em que, por vezes, são descritas como filhas da realeza, ocasionalmente acompanhadas por corvos, e de vez em quando incorporadas a cisnes ou cavalos.

Parece, no entanto, que não existia uma distinção muito clara entre as valquírias e nornas. De fato, Skuld é tanto uma valquíria como uma norna e em Darraðarljóð (líneas 1-52), as valquírias tecem as redes da guerra.

As valquírias são mencionadas em Edda em verso, um livro de poemas compilado no século XIII a partir de fontes históricas; a Edda em prosa e Heimskringla (de Snorri Sturluson), e na saga de Njáls, uma saga islandesa, todas escritas no século XIII. As valquírias surgem em toda a poesia escáldica, no encanto do século XIV, e em várias inscrições rúnicas. Segundo a Edda em prosa (Gylfaginning 35), "Odin nomeia valquírias para todas as batalhas. Estas atribuem a morte aos homens e comandam a vitória. Gunnr e Róta [duas valquírias] e a norna mais jovem, chamada Skuld, sempre cavalgavam para eleger quem deveria morrer e para chefiar as matanças.

Outrossim, a liberdade poética permitiu que o termo 'valquíria' se aplicasse também a mulheres mortais na poesia nórdica antiga, ou transcrevendo Skáldskaparmál de Snorri Sturluson no que diz respeito à utilização de vários termos empregues para caracterizar as mulheres, 'as mulheres são também chamadas metafóricamente pelos nomes das Ásynjur ou das valquírias, ou ainda das nornas.'Skáldskaparmál traduzido por Arthur Gilchrist Brodeur (1916), em Northvegr.

Os cognatos do inglês antigo wælcyrge e wælcyrie surgem em vários manuscritos antigos ingleses, e estudiosos têm explorado a possibilidade de os termos aparecerem a inglês antigo por influência nórdica, ou por refletir uma tradição também nativa entre os pagãos anglo-saxões. Teorias académicas têm sido elaboradas propondo uma relação entre as valquírias, as nornas, as dísir, as seiðkona e as donzelas escudeiras, no qual todas menos as últimas são descritas como figuras sobrenaturais associadas com o destino. Escavações arqueológicas por toda a Escandinávia revelaram amuletos de teoricamente representam as valquírias. Na cultura moderna, valquírias têm sido objeto de obras de arte, obras musicais, videojogos e poesia.

Etimologia miniaturadaimagem|Anita Ekberg posa como a valquíria guardiã do Sagrado Jarro de Hidromel. A palavra valquíria deriva do nórdico antigo valkyrja (plural valkyrjur), que é composta por duas palavras; o substantivo valr (que se refere aos mortos em batalha) e o verbo kjósa (que significa "escolher"). Juntos, significam "escolher os mortos". O nórdico antigo valkyrja é um cognato do inglês antigo wælcyrge.Byock (2005:142–143). Outros termos para valquírias incluem óskmey (nórdico antigo "serva desejada"), surgem no poema Oddrúnargrátr e Óðins meyjar (nórdico antigo "serva de Odin"), aparece em Nafnaþulur. Óskmey talvez esteja relacionado com o nome de Odin Óski (nórdico antigo, que significa aprox. "desejo do ocumpridor"), referindo-se ao facto de Odin acolher guerreiros mortos em Valhalla.Simek (2007:254 and 349).

Manuscritos As valquírias são mencionadas ou descritas em várias fontes mitológicas da Escandinávia Medieval, especialmente em poemas éddicos como Hárbarðsljóð, Helgakviða I, II e III, e Grotassöngr; poemas escáldicos como Hákonarmál; poemas éddico-escáldicos como Darraðarljóð; e sagas lendárias como são exemplo Völsunga saga e Hjálmþés saga ok Ölvis, dos quais os historiadores das religiões germânicas ou eslavas dispõem e cujo vasto referencial culturalista permite o atual entendimento das motivações sociais e históricas na formação destes modelos míticos marciais — as valquírias.

Edda em verso As valquírias são mencionadas nos poemas da Edda poética: Völuspá, Grímnismál, Völundarkviða, Helgakviða Hjörvarðssonar, Helgakviða Hundingsbana I, Helgakviða Hundingsbana II e Sigrdrífumál.

Völuspá e Grímnismál

thumb|As valquírias Hildr, Þrúðr e Hlökk transportando cerveja em Valhalla, (1895) por Lorenz Frølich.

Na trigésima estrofe do poema Völuspá, é descrito que uma völva (uma viandante profetisa da sociedade germânica) informa a Odin ter visto valquírias vindo dos mais longínquos lugares prontas para cavalgar com os seus fogosos corceis "as fileiras dos deuses" em direção ao povo dos Godos. A völva adianta-se com a enumeração de um elenco de seis valquírias, cujos nomes são Skuld (nórdico antigo, termo que possivelmente significa "débito" ou "futuro") que segura um escudo, Skögul ("shaker") outro, Gunnr ("guerra"), Hildr ("batalha"), Göndul ("bastão mágico") e Geirskögul ("lança-Skögul"). A völva revela a Odin que tem já listadas as donzelas de Herjan, "valquírias prontas para cavalgar sobre a terra.".Dronke (1997:15). Valkyrie name etymologies from Orchard (1995:193–195).

Völundarkviða

Uma introdução em prosa no poema Völundarkviða relata que os irmãos Slagfiðr, Egil e Völund viviam numa casa situada num local chamado Úlfdalir ("vales dos lobos"). Aí, numa manhã bem cedo, os irmãos encontram três mulheres a fiar linho na margem do lago Úlfsjár ("lago dos lobos"), e "perto delas estavam as suas vestimentas de cisne; eram valquírias". Duas filhas do Rei Hlödvér são chamadas Hlaðguðr svanhvít ("branco-cisne") e Hervör alvitr (possivelmente significando "omnisciente" ou "criatura estranha"Orchard (1997:83).); a terceira, filha de Kjárr de Valland, é chamada Ölrún (possivelmente significando a "runa de cerveja"Simek (2007:251).). Os irmãos levam as três mulheres de volta para o seu salão com eles: Egil leva Ölrún, Slagfiðr leva Hlaðguðr svanhvít e Völund leva Hervör alvitr. Vivem juntos durante sete invernos, até que as mulheres voam para uma batalha e não regressam. Egil sai com raquetes de neve para procurar Ölrún, Slagfiðr vai procurar Hlaðguðr svanhvít e Völund fica em Úlfdalir. Larrington (1999:102).

Helgakviða Hjörvarðssonar

No poema Helgakviða Hjörvarðssonar, a narrativa em prosa conta que um jovem sem nome e calado, filho do rei norueguês Hjörvarðr e de Sigrlinn de Sváfaland, testemunha nove valquírias a cavalgar enquanto estava sentado num túmulo. Considera uma delas particularmente marcante; Esta valquíria é posteriormente detalhada numa narrativa em prosa como Sváva, filha do Rei Eylimi, que "uma vez o protegeu em batalha". A Valquíria fala com o homem sem nome e dá-lhe o nome de Helgi (que significa "o sagrado"Orchard (1997:81).). O outrora calado Helgi fala; e refere-se à valquíria como "senhora de rosto brilhante" e pergunta-lhe que presente receberá com o nome que ela lhe concedeu, mas não aceitará se não a puder ter também. A valquíria conta-lhe que conhece um poço de espadas em Sigarsholm, e que um deles é de particular importância, descrevendo-o pormenorizadamente. Larrington (1999:125). Mais tarde no poema, Atli voa com a mulher jötunn Hrímgerðr. Enquanto voava com Atli, Hrímgerðr diz que viu 27 valquírias a rodear Helgi, mas uma valquíria em particular liderou o bando com justiça:

Depois de Hrímgerðr regressar à pedra ao amanhecer, continua uma narrativa em prosa em que Helgi, que é agora rei, vai ter com o pai de Sváva, o rei Eylimi, e pergunta pela sua filha. Helgi e Sváva estão noivos e amam-se profundamente. Sváva fica em casa com o Rei Eylimi, e Helgi começa, e a narrativa acrescenta que Sváva "era uma valquíria como antes". Larrington (1999:129). O poema continua e, entre vários outros acontecimentos, Helgi morre devido a um ferimento recebido em batalha. Uma narrativa no final do poema diz que Helgi e a sua mulher valquíria Sváva "são considerados reencarnações".Larrington (1999:130–131). Helgakviða Hundingsbana I

No poema Helgakviða Hundingsbana I, o herói Helgi Hundingsbane senta-se no campo de batalha de Logafjöll, repleto de cadáveres. Uma luz brilha a partir do monte e dessa luz irrompem relâmpagos. Voando pelo céu, surgem valquírias de elmo posto. As suas cotas de malha, que lhes chegavam à cintura, estão ensanguentadas; as suas lanças brilham intensamente:

Na estrofe seguinte, Helgi pergunta às valquírias (a quem se refere como "deusas do sul") se gostariam de regressar a casa com os guerreiros ao cair da noite (enquanto as setas ainda voavam). Terminada a batalha, a valquíria Sigrún ("runa da vitória"Orchard (1997:194).) informa-o, do alto do seu cavalo, que o seu pai Högni a prometeu a Höðbroddr, filho do rei Granmar do clã Hniflung, a quem Sigrún considera indigno. Helgi reúne uma hoste imensa para cavalgar e travar batalha em Frekastein contra o clã Hniflung, de modo a auxiliar Sigrún no seu esforço para evitar o noivado.Larrington (1999:116–117). Mais adiante no poema, o herói Sinfjötli trava um flyting (duelo de insultos) com Guðmundr. Sinfjötli acusa Guðmundr de outrora ter sido mulher e mofa que Guðmundr era "uma bruxa, horrível, antinatural, entre as valquírias de Odin", acrescentando que todos os einherjar "tiveram de lutar, mulher obstinada, por tua causa".Larrington (1999:119). Ainda no poema, a expressão "o mar aéreo da valquíria" é utilizada como metáfora para "nevoeiro".Larrington (1999:120).

Perto do final do poema, as valquírias descendem novamente do céu, desta vez para proteger Helgi no decurso da batalha em Frekastein. Após o combate, todas as valquírias partem em voo, exceto Sigrún, e lobos (referidos como "a montada da mulher-troll") consomem os cadáveres:

Vencida a batalha, Sigrún diz a Helgi que ele se tornará um grande governante e compromete-se com ele.Larrington (1999:122).

Helgakviða Hundingsbana II

No início do poema Helgakviða Hundingsbana II, uma narrativa em prosa diz que o Rei Sigmund (filho de Völsung) e a sua esposa Borghild (de Brálund) têm um filho chamado Helgi, a quem deram o nome em honra de Helgi Hjörvarðsson (o protagonista da anterior Helgakviða Hjörvarðssonar).Larrington (1999:132). Após Helgi ter morto o Rei Hunding na estrofe 4, uma narrativa em prosa refere que Helgi escapa, consome a carne crua de gado que abateu numa praia e encontra Sigrún. Sigrún, filha do Rei Högni, é "uma valquíria e cavalgava pelo ar e pelo mar", sendo a reencarnação da valquíria Sváva.Larrington (1999:133). Na estrofe 7, Sigrún utiliza a expressão "alimentou o ganso das irmãs de Gunn". Gunnr e as suas irmãs são valquírias, e estes "gansos" são corvos, que se alimentam dos cadáveres deixados no campo de batalha pelos guerreiros.Larrington (1999:133 and 281).