A crise humanitária em Gaza iniciada em 2023 é o resultado da Guerra Israel-Hamas. Depois de um ataque da organização palestina Hamas a alvos israelenses em 7 de outubro de 2023, que cobrou 1,2 mil vidas, Israel implementou um bloqueio completo na Faixa de Gaza e lançou uma contraofensiva militar de extrema violência que causou danos catastróficos nas habitações e na infraestrutura do território, matou mais de 42 mil palestinos e deixou mais de 97 mil feridos até a metade de outubro de 2024. A maciça maioria das vítimas são civis."25,000 civilians killed in Gaza war as humanitarian needs go on rising". UN News, 22 de janeiro de 2024 Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, dois terços das vítimas são mulheres e crianças.Shurafa, Wafaa & Magdy, Sany. "The Palestinian Death Toll in Gaza Has Reached 29,000 People, Health Ministry Says". Time Magazine, 19 de fevereiro de 2024

A combinação de destruição e bloqueio provocou o desmantelamento dos sistemas de prestação de serviços em geral, de saneamento, de abastecimento de comida, água, energia e combustível, e de assistência médica e humanitária. Cerca de 85% da população de 2,2 milhões de pessoas foi obrigada a deixar suas casas, buscando asilo em abrigos improvisados e campos de refugiados, todos superlotados, onde as condições de vida são péssimas. Praticamente não há água potável disponível e a comida se tornou extremamente escassa. A população é obrigada a beber água contaminada, quando consegue alguma água, e fome em maior ou menor intensidade se abateu sobre virtualmente toda a população. Surtos de diversas doenças já afetam centenas de milhares de pessoas.Gupta, Gaya; Yazbek, Hiba; Harouda, Ameera. "We Are All Sick: Infectious Diseases Spread Across Gaza". The New York Times, 11 de dezembro de 2023

Para muitos observadores e organizações internacionais, a crise humanitária e o nível de destruição e mortes civis não têm paralelos na história recente."Gaza: 'Unprecedented and unparalleled' civilian death toll: Guterres". United Nations Türkiye, 21 de novembro de 2023"Gaza has become a graveyard for thousands of children". Unicef, 31 de outubro de 2023"EU External Partners: UN SG Points to 'Unparalleled and Unprecedented' Civilian Death Toll in Gaza Amid Deepening Humanitarian Crisis, as Hopes are on 'Pause' EU Remains Split, Largely Irrelevant and Focused on Deterrence of Access to Europe". The European Council on Refugees and Exiles, 24 de novembro de 2023 Segundo oficiais das Nações Unidas, "a crise humanitária em Gaza é mais do que catastrófica, e piora a cada dia. [...] Gaza tornou-se um lugar de morte e desespero"."Occupied Palestinian territory". United Nations Population Fund, 5 de janeiro de 2024 O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que Gaza se tornou "um cemitério para as crianças".Nichols, Michelle. "UN chief says Gaza becoming a graveyard for children". Reuters, 6 de novembro de 2023 Organizações como Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha e uma declaração conjunta da UNICEF, Organização Mundial da Saúde, Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, Fundo de População das Nações Unidas e Programa Mundial de Alimentos alertaram para um colapso humanitário iminente."The world must do more for Gaza, 5 UN agencies say". UN News, 21 de outubro de 2023

A Anistia Internacional declarou que há evidências de que Israel cometeu crimes de guerra, e a África do Sul abriu um processo contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça, acusando o país de promover o genocídio da população palestina, recebendo o apoio de mais de 80 países. O Tribunal acatou a ação e como medida preliminar decretou que Israel se abstenha de atos que provoquem um genocídio, mas o julgamento pode levar anos para ser completado. As autoridades israelenses negaram a acusação e alegam que o país segue o Direito Internacional, que seu inimigo é apenas o Hamas e que tem adotado medidas para minimizar o impacto da atividade militar sobre os civis.Corder, Mike. "South Africa launches case at top UN court accusing Israel of genocide in Gaza". Associated Press, 29 de dezembro de 2023.

Síntese da crise miniaturadaimagem|Civis palestinos feridos após ataques israelenses na Faixa de Gaza.

A Faixa de Gaza tem sido o epicentro de um conflito crônico há muitos anos, com períodos de violência e atividade militar. A presente crise humanitária começou a se desenvolver depois de um forte ataque do Hamas a alvos israelenses em 7 de outubro de 2023, durante o feriado judaico de Simchat Torá e Shabat, e um dia após o 50.º aniversário da Guerra do Yom Kippur.Estrin, Daniel. "In surprise deadly attacks, Israel says Palestinian militants infiltrated from Gaza". NPR, 7 de outubro de 2023 O ataque ocorreu após três semanas de violência na barreira de separação entre Israel e Gaza.Bayer, Lili; et al. "Israel declares state of war after Hamas fires thousands of rockets and militants cross border". The Guardian, 7 de outubro de 2023 No ataque 1,2 mil pessoas morreram e 240 foram tomadas como reféns.

A contraofensiva israelense tem sido sustentada com extrema violência, impondo um bloqueio quase total nas fronteiras, causando dezenas de milhares de mortos e feridos, incluindo milhares de civis, mulheres e crianças, obrigando a população a um deslocamento massivo, destruindo grande parte das estruturas do território, incluindo hospitais, universidades e escolas, desmantelando as redes de serviços, abastecimento e atendimento médico e dificultando a entrada de ajuda humanitária.

Enquanto que o direito de defesa de Israel tem sido geralmente reconhecido, para muitos observadores e organizações internacionais, jornalistas e políticos de alto escalão, a resposta israelense tem sido indiscriminada e desproporcional.Shankar, Priyanka. "Inhumane: Top Belgium officials criticise Israeli bombing of Gaza". Al Jazeera, 10 de novembro de 2023Kennedy, Niamh e Rothda, Richard. "Especialistas da ONU alertam para 'genocídio em formação' em Gaza". CNN Brasil, 17/11/2023 Moore, Aoife. "Israeli strikes on Gaza 'disproportionate' - Martin". BBC, 4 de novembro de 2023"Education International calls for an immediate stop to the disproportionate and indistinct retaliation in Gaza". Education International, 14 de outubro de 2023 A Bolívia rompeu suas relações diplomáticas com Israel com esta justificativa."Bolivia breaks diplomatic relations with Israel: Disproportionate offensive in Gaza". Agenzia Nova, 31 de outubro de 2023 Para a Anistia Internacional, há evidências de que Israel cometeu crimes de guerra: "Na sua intenção declarada de usar todos os meios para destruir o Hamas, as forças israelitas demonstraram um chocante desrespeito pelas vidas dos civis. Pulverizaram edifícios residenciais, rua após rua, matando civis em grande escala e destruindo infraestruturas essenciais, enquanto novas restrições significam que Gaza está ficando rapidamente sem água, medicamentos, combustível e eletricidade"."Damning evidence of war crimes as Israeli attacks wipe out entire families in Gaza". Amnesty International, 2024

Essa situação levou a África do Sul a abrir um processo contra Israel do Tribunal Internacional de Justiça, acusando o país de promover um genocídio da população palestina."Em Haia, África do Sul diz que Israel promove colonização e genocídio". Agência Brasil, 11 de janeiro de 2024 A iniciativa recebeu o apoio de seis Estados da América Latina, dos 22 Estados da Liga Árabe e dos 57 Estados da Organização para a Cooperação Islâmica. Israel classificou o caso como uma “terrível difamação” por parte da África do Sul. Alemanha, Estados Unidos e Canadá apoiaram Israel rejeitando a acusação."Ação da África do Sul contra Israel por genocídio em Gaza tem apoio de países Islâmicos, da Liga Árabe e da América Latina". CNN Brasil, 13 de janeiro de 2024

Vítimas Segundo matéria da BBC, até 14 de janeiro de 2024 a contraofensiva israelense em Gaza produziu quase 24 mil mortos, incluindo milhares de mulheres e crianças."Guerra em Gaza completa 100 dias e número de mortos chega a 24 mil". BBC News Mundo, 14 de janeiro de 2024 O porta-voz do Ministério da Saúde de Gaza em 19 de fevereiro disse que o número de vítimas palestinas havia subido para mais de 29 mil mortos e mais de 69 mil feridos desde o início do conflito.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos declarou ter recebido numerosos "relatórios perturbadores" sobre a situação no norte de Gaza, denunciando detenções em massa, maus tratos e desaparecimento de possivelmente milhares de palestinos, incluindo crianças. As denúncias estão sendo investigadas. A Anistia Internacional relatou ter comprovado tratamento desumano e degradante de detidos por parte de forças israelenses na cidade de Beit Lahia."Urgently investigate inhumane treatment and enforced disappearance of Palestinians detainees from Gaza". Amnesty International, 29 de dezembro de 2023

Evacuação

Israel ordenou a evacuação de 1,1 milhão de pessoas para a região sul de Gaza, mas as Nações Unidas consideraram uma manobra de tal envergadura impossível, equivalendo para muitos a uma sentença de morte.Gottbrath, Laurin-Whitney. "Gaza fast becoming hell hole on brink of collapse amid Israel strikes: UN". Axios, 13 de outubro de 2023 Em dezembro de 2023 Josep Borrell, alto representante da União Europeia para Política Externa, afirmou que a situação na Faixa de Gaza era "cada vez pior" e que não havia refúgios possíveis para a população palestina. Ele acrescentou que "o nível de destruição segue sem precedentes"."Nível de destruição em Gaza é 'sem precedentes', diz União Europeia". UOL, 12/12/2023 Em janeiro 85% da população de 2,2 milhões de pessoas havia sido obrigada a sair de suas casas. Fora de Gaza, a deterioração da situação de segurança na fronteira entre Israel e o Líbano forçou cerca de 76 mil pessoas a abandonarem as suas casas no sul do Líbano.

Ajuda humanitária

Um relatório da Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas apontou que nas duas primeiras semanas de janeiro as autoridades israelenses permitiram a entrada de apenas sete das 29 missões de ajuda humanitária planejadas.Alvarez, Isabel. "ONU diz que Israel restringe acesso de ajuda humanitária a Gaza". Diário de Pernambuco, 22/01/2024 Grupos de manifestantes civis israelenses reunidos na fronteira em várias oportunidades também tentaram impedir a entrada de ajuda humanitária.Rérolle, Raphaëlle. "Israel-Hamas war: At Egyptian border, Israelis try to prevent humanitarian aid from reaching Gaza". Le Monde, 19 de fevereiro de 2024"Humanitarian aid for Gaza blocked by protests". Al jazeera, 24 de janeiro de 2024"Israeli protesters rally to block passage of Gaza bound humanitarian aid". Africa News, 1 de fevereiro de 2024 Diversos países ocidentais que manifestaram apoio a Israel suspenderam a transferência de recursos para o serviço de ajuda humanitária das Nações Unidas.