Martim Pais Barregão

O cavaleiro Martim Pais Barregão aparece na História de Portugal como comendador da Ordem de Santiago e cabo militar que se distinguiu na conquista de Alcácer-do-Sal (Qasr Abu Danis), em 1217. Na realidade, o seu nome seria Martin Peláez (ou Páez), el Barragán (Martinus Pelagii, nome latinizado como é referido nos documentos notariais).

Martin Peláez seria originário do Norte da Península, Galiza, Astúrias, Leão ou Castela; há referência a «D. Martinus Pelaez Barragàn Matritensis», o que provavelmente se refere a Madrid, mas eventualmente a Madridanos, Zamora. A sua mãe seria, concebivelmente, teria sido Urraca Fernandi de Sueyro, que provavelmente é o actual Sueiro ou Soeiro, nas Astúrias, sendo que o plausível pai, Pelayo, é referido como Valdés, o que não se consegue referir a algum Valtho, pelo que corresponderá mais concebivelmente a toponímico, à região asturiana de Luarca. López Arguleta indica que a maior probabilidade é a de ser filho de Pelay Fernández Calvo, dono da fortaleza de Añador (Aãdor, Dañador), região de Cuenca, Castilla-La-Mancha, que terá vindo das Astúrias com as suas tropas, passando por Toledo, para a conquista de Béjar. Este é referido como filho e sucessor do señor de Villamarín, o que talvez o indique como filho do milites ou caballero Fernán (Fernando) Yáñez (Annes, Juanes e Eanes são variações), fundador do mosteiro de San Bartolomé de Serantes, Castropol, onde está sepultado, fundador da linhagem Villamarín, mas é de suspeitar que este autor tenha confundido Pelay Fernández Calvo com Pelay Fernández Curvo, este, sem dúvida filho do grande capitão asturiano que governou de La Limia, Toroño, Maqueda, Talavera e Montoro, entre outras regiões e praças. Note-se que este Fernán Yáñez tinha um irmão chamado Pelayo Yáñez, o qual teve um filho chamado Martín, e outro chamado Bartolomé Yáñez, sendo filhos de Juan Álvarez, oriundo do Norte ocidental das Astúrias e com actividade na Galiza, e Geloyra Martínez. Pelayo Yáñez (Pelagius Iohannis) está mencionado en documentos da iglesia de Oviedo entre 1132 e 1146 e aparece numa escritura na região de Madridanos, Zamora.

Desconhece-se a data de nascimento de Martin Peláez, podendo-se admitir que terá sido dentro das três penúltimas décadas do séc. XII.

Há referências a uma esposa Maiore Pellagii, ou Maior Gagildiz, e talvez uma Maria Iohanis (Hobona, muçulmana convertida). Neste último caso, além da filha Marinha Martins referida O Nobiliário de D. Pedro, nascida Martins Barregão da Cunha – depois Marinha Mendes ou Marinha Mendes Chacim (1220-1275 ou 1190-1275), por casamento com Gonçalo Mendes, o Chançarel (El Chancarel Mendes Chacim) – o registo do Mosteiro do Sobrado, na Galiza, aponta para três filhos de um Martín Peláez, o Valente (cognome que, na época, poderia ser sinónimo de barregão): Domingos Martins (Dominicus Martini) Teixilanus (de A Teixeira?), Maria Martins (Maria Martini) e João Martins (Iohannes Martini).

Em 1193, um Martinus Pelagio foi alcalde de Villafranca – região senhoreada pelos Flaínez, Froila Díaz e Ramirus Frolaz, incluindo Otros, Bierzo, Cabrera, Urvel, Villabuena, Valdeorras, Molina Seca e até Astorga.

Um registo indica um Pelagius Barragán como inquisitor – um cargo judicial – do rei, e Orozco y De La Parra indica Martín Barragán nas funções de portero, isto é, chefe da guarda real de Fernando III, o que influenciaria a decisão posterior deste em apoiar a sua investidura como Grão-Mestre da Ordem de Santiago.

Martin Peláez poderá ter participado na batalha de Navas de Tolosa.

Certo é que foi designado comendador de Palmela, então sob domínio da Ordem de Santiago de Espada, sob hierarquia de Uclés, e, em Junho de 1217, à frente das hostes espatárias, participou na reconquista de Alcácer-do-Sal, organizada pelo bispo de Lisboa, Soeiro Viegas, com o apoio do bispo de Évora, de Templários, Hospitalários e cruzados flamengos em que sobressaía o conde de Withe. Foi dele a iniciativa e comando da manobra táctica que, à revelia da estratégia definida pelos comandantes do cerco, permitiu salvar o exército cristão de uma derrota tremenda, devido à posição incorrecta no terreno. Perante as tropas islâmicas de socorro, os chefes cristãos tinham dado ordem às suas azes para alinhar na parte ocidental, em posição desfavorável no terreno, com o sol a dificultar a visão, sendo que, para mais, estavam em inferioridade numérica. Perante o desânimo dos soldados cristãos, o franzino e audaz Martinho, desobedecendo aos comandantes, mudou os seus cavaleiros para uma posição lateral, e, estandarte à direita e à esquerda, brandindo seu escudo, apoiado imediatamente pelos templários, atacou os islâmicos com sucesso. Acompanhou William I, conde da Hollanda (1167-1222) em combates contra os sarracenos, durante cerca de quatro meses.

Foi comendador do Hospital de Sanctiago de los Caulleros en Toledo.

Foi eleito Grão Mestre da Ordem de Santiago em 1217. Em 1217 ou, mais provavelmente, 1218, após a demissão, em Julho do ano anterior, do Mestre García González de Arauzo, foi nomeado Grão-mestre da Ordem de Santiago, ou seja, comandante dos espatários em toda a Península Ibérica, cargo que exerceu até 1221. Durante o seu mestrado, a Ordem dividiu-se nas fidelidades. García González, Candamio, que seria mestre em 1222-24 e Álvaro Núñez rivalizaram com Martín Peláez.

Martín Peláez terá morrido no dia 15 de Outubro de 1221, sem que se saiba onde, em batalha contra um exército muçulmano ou em resultado do aprisionamento por este. A única referência diz respeito à batalha de Ourense, o que parece inconsistente numa batalha contra os mouros, pois, à época, Ourense estava, há muito, em poder dos cristãos e embora tenham cessado as tréguas de Castela com Abu Yaqub Yúsuf II al-Mustánsir, filho de Muhammad An-Nasir, e a taifa de Badajoz, em 1221, parece claramente fora do alcance deste.

Os cronistas de Santa Cruz, apesar de reconhecerem a ligação à congregação e indicarem a sua morte em 1221, referem a origem em Ferreira, Viseu, e atribuem a ascendência a Paio Fernandes (1100 -?) e Mayor Soares, o primeiro filho de Fernaõ Jeremias e Mayor Soares, esta última filha de Soeiro Viegas, senhor de Ferreira de Aves, mas a genealogia remete-nos aparentemente para o bispo Martinho Paes I, falecido em 1226, e não para o cabo de guerra Martín Peláez. A referência a Paio Fernandes de Ferreira de Aves que acompanhou Afonso Henriques na Batalha de Ourique em 1139 e na tomada de Lisboa em 1147, na companhia do filho Pedro Pais, parece, pois, nada ter a ver com o nosso mestre da Ordem de Santiago. O mesmo sucede com Paio Barregão, que aparece como confirmante de doação de Afonso Henriques ao Mosteiro do Lorvão, em 1169 e em 1170, no Foral dos Mouros Forros de Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer. Rades y Andrada, F. de, Chronica de las Tres Ordenes y Cauallerias de Sanctiago, Calatrava y Alcantara, Parte Chronica de Sanctiago, Toledo: Juan de Ayala, 1572 (ed. facs. Barcelona, 1980, El Albir), p. 26.

López Agurleta, J., Aguado de Córdova, A. F. y Alemán y Rosales, A. A. (ed.), Bullarium Equestris Ordinis S. Iacobi de Spatha, Madrid: Typographia Ioannis (Juan) de Ariztia (Ariza), 1719 (Series Magistrorum Ordinis Militiae Sancti Iacobi), p. XXXVIII.

Escritura de 1220, em muñoz y romero, Tomás, Colección de fueros municipales y cartas pueblas de los reinos de ..., vol. 1: «Urraca Fernández do Sueyro, con su hijo Martin Peláez deja la heredad de Codesido à favor de don Pedro, abad de San Pedro de Fora [Santiago de Compostela], de quien la tenía, y le dona el casal de Eyrado: «Era M.CCLVIII et quot VI nonas martii. Notum sit hominibus qod nos Urraca Fernandi de Sueyro et filius meus Martinus Pelagii qui presens est pro nobis et pro filiis de me Sanci Pelagii et omnis vox nestra vobis domino P. Petri abbati Santi Martini de foris pro vobis et pro omni conventu eiusdem monasterii, omnique voci vestre et sue, facimus pactum et placitum firmum in solidos D. Legionenses roboratum. Itaque nos quitamus et abnunciamus vobis illam hereditatem de Codesido cum suis directuris el quantum ibi habemus vel habere debemus, et ego domina Urraca Fernandi quito et abnuncio illud placitum quod vobiscum habebam de ipsa hereditate de Codessido quom debebant tenere in vita mea. E ideo vos datis michi Urrace Fernandi quinque octavas de pane in Lousama in vita mea quodlibet anuo percipiendas. Et nos damus et vobis nostrum casale de Irado cum cuanto ibi habemus vel habere debemus, et cum quanto ibi ganavimus in ipsa villa, de quo cassali debcmos vobis facere cartam. et debemus duccre ad concessionem et confirmationem de carta facienda filios quondam Gomesani Pelagii. Et ego Martinus Pelagii si magis vixero post mortem domino Urrace matris mee debeo tenere in vita mea quantam hercditatem de vobis tenet domina Urraca in Sueyro et casale de Villacova quod de vobis, tenet dona Urraca et casale de Irado quod iam vobis dedimus per cartam Et ego Martinus Pelagii de post mortem de domina Urraca debeo vobis dare solidos VIII in vita mea in quobis anno pro recognoscentia de ipsis predictis hereditatibus et debeo ipsas predictas hereditates dimitere vobis populatas ad mortem meam videlicet unum casale in Villacova et duos in Sueyro et unum in Irado de singulis bobus et de duabus vacis et de XII roxellis et de singulis porcis in uno quocunque casali et  [...] et pane et quantum magis ibi ganavimus et proectavimus et habemus. Et ego domina Urraca Fernandi dcbeo implere per nos et per omnia bona nostra et debemus parare bene et fideliter predictas hcreditates ipso monasterio et nichil alienemus de eis.»

Escritura de doação de 1174, em Toro, Zamora, O-3, fº 135 v. Nº 64584: «1174 (era 1212). Toro: «Escritura de donación de Martin Peláez y. sus sobrinos, hijos de Sol Peláez, a D. Miguel Peláez y a la Orden de San Juan, de la mitad de la herencia. de su padre Pelayo Valdés. En Toro. − marq. de Montealegre...», Fernández Duro, Cesáreo, Memorias Históricas de la Ciudad de Zamora, Su Provincia Y Obispado, Valladolid: Editorial Maxtor, 2010, p. 375.

López Agurleta, Joseph, Vida del Venerable Fundador de la Orden de Santiago y de las primeras casas de redempcion de cautivos; continuación de la apología por el habito canónico del patriarcha Santo Domingo de la misma orden; apéndice de escrituras y notas pertenecientes a las tres familias de fitas, sarrias y navarros..., Madrid: Bernardo Peralta, 1731, p. 44.

Brito, Monarchia Lusytana..., vol. 2., p. 93. «D. Fernandeanes de Montor, de que se falla em o dito Tit. 22. n. 4, pay do mesmo, chamado por ambos aquelles modos, que pela Heroida Galiciana se vê o foi com o nome de D. Fernando Joannes [Yañez], Conde de Limia de Toroño y de Monterrofo, de que descendem os Sanheoanes y Villamarines» in Figueiredo, José Anastásio de, Nova História da Militar Ordem de Malta e do Senhorio Grão-Prior della em Portugal, Lisboa: na Officina de Simao Thaddeo Ferreira, 1800, nota 92. Rades y Andrada, F. de, Chronica de las Tres Ordenes y Cauallerias de Sanctiago, Calatrava y Alcantara, Toledo: Juan de Ayala, 1572 (ed. facs. Barcelona, 1980), Parte Chronica de Sanctiago, fols. 26r.-27r p. 39. http://www.aristarkos.com/bibliografia.html.

Vilamarín (em galego) ou Villamarín é um dado problemático. Para além da existência, no séc. XII, de uma Vila Marim portuguesa próxima da margem direita do Douro, não muito distante da localidade ou quinta de Paicalvo,ou “Eiras de Pay Calvo”, conhece-se a existência de cinco povoações denominadas Villamarín no Norte de Espanha . Há duas, uma na região de Orense e outra na região a Sul de Luarca que se relacionam melhor com os outros factos.

Souto Cabo, José António, Fernando Pais de Tamalhancos: trovador e cavaleiro, in https://www.academia.edu/2627227/Os_cavaleiros_que_fizeram_as_cantigas_Aproxima%C3%A7%C3%A3o_%C3%A0s_origens_socioculturais_da_l%C3%ADrica_galego_portuguesa?auto=download.