Srečko Kosovel (Sežana, Eslovênia, 18 de março de 1904 – Tomaj, Eslovênia, 27 de maio de 1926) foi um poeta, considerado um dos maiores modernistas do momento áureo dos movimentos de vanguarda. Srečko Kosovel teve seus poemas publicados postumamente, o que o impediu de ser coroado em vida, como um dos maiores poetas modernistas europeus, ao lado do russo Vladimir Maiakóvski. Kosovel é agora considerado um dos principais poetas modernistas da Europa Central, e a sua obra não ocorre em saltos: suas fases impressionista e expressionista são concomitantes à sua extrema vanguarda dos “kons” (cons) da fase construtivista (1925-1926). E mais: mantém o mesmo nível de excelência. Pelos seus poemas expressionistas e impressionistas, foi comparado, sem favor, com Arthur Rimbaud.Miranda, Adriano - "Srečko Kosovel na língua de Camões" (introdução) in: Moja pesem je eksplozija (Meu poema é explosão). Antologia bilíngue esloveno-português traduzida por Adriano Miranda. Kosovelova knjiznica, Sežana, 2024, ISBN 978-961-91082-8-4

Vida O caçula de cinco filhos do pai Anton Kosovel - um professor esloveno que não foi autorizado a continuar ensinando na língua eslovena depois que o litoral austríaco foi anexado pela Itália pelo Tratado de RapalloPirjevec, Marija (2004). "Srečko Kosovel in slovenstvo", Primorska srečanja, 273 - e de Katarina Streš, que tinha 40 anos na época de seu nascimento e nutriu os talentos artísticos de seus filhos, Kosovel nasceu em Sežana, então parte do Império Austro-Húngaro, e viveu na cidade vizinha de Tomaj. Antes da anexação da região do Carste pela Itália, ele se familiarizou com obras da cultura eslovena em geral, especialmente o romance e o teatro esloveno, no Salão Nacional de Trieste, o centro cultural dos eslovenos. O fato de Kosovel ter vivenciado, muito jovem, o sofrimento humano durante a guerra, também motivou a comparação com Rimbaud, por parte de seus biógrafos: a Frente Isonzo - um dos piores compromissos da Primeira Guerra Mundial, com uma sequência de 12 batalhas entre os exércitos austro-húngaro e italiano - teve lugar próximo à aldeia natal do poeta. Começou quando ele tinha 12 anos e terminou oficialmente quando ele tinha 17. Assim como aconteceu com Rimbaud, nas batalhas da Guerra Franco-Prussiana, Kosovel manteve contatos regulares com soldados feridos e viu centenas cadáveres, porque o campo de batalha ficava a apenas 15 quilômetros de sua casa, o que teve um efeito traumatizante sobre ele. Seus pais queriam que ele fosse removido da vizinhança da guerra e, assim, em 1916, ele e sua irmã se mudaram para Liubliana.

Kosovel frequentou a escola primária em Tomaj e depois de concluir o ensino fundamental, matriculou-se em Liubliana para estudar alemão. Começou a participar do círculo literário do ensino médio e também publicou um jornal impresso chamado Lepa Vida ("Bela Vida", um motivo da poesia folclórica eslovena) que reuniu vários jovens talentos, cujas atividades foram encerradas por causa de dívidas não pagas. Seus primeiros trabalhos evocavam principalmente a saudade de sua família e a paisagem nativa de Carste.Vrečko, Janez (2011). Srečko Kosovel, Slovene Academy of Arts and Sciences publishing house, Ljubljana, ISBN 9789612543259 Quando se formou, em 1922, decidiu estudar eslavo, literatura e pedagogia na Faculdade de Artes da Universidade de Liubliana. Sua vida intelectual foi intensa no período: participou da revista avant-garde Trije labodi (Três Cisnes), que começou a se editar em 1921 na cidade de Novo mesto. Organizou um círculo literário-dramático, com palestras e noites literárias em Liubliana e junto a trabalhadores em Zagorje. Em 1925, ele e seus colegas assumiram a edição da revista Mladina (Juventude), no mesmo ano em que, ao lado artista construtivista Avgust Černigoj, estava pensando em criar uma nova revista: Konstruktor (Construtor). Com efeito, Kosovel começou a escrever seus poemas construtivistas, chamados konsi (kons, no singular), abreviação de konstrukcije (construções), cheios de inovações linguísticas: linguagem livre de sintaxe e ordem lógica, liberdade de imagens, uso de tipografia, estilos e cores, símbolos matemáticos, equações, colagens e todos os outros tipos de escrita experimental. Na mesma época, ele se preparou para publicar uma coleção de seus primeiros poemas, intitulada “Zlati čoln” (Barco Dourado). No entanto, ficou arrasado com a resposta negativa das editoras e de alguns de seus amigos mais próximos (uma antologia de seus poemas, intitulada “Zlati čoln”, seria publicada postumamente em 1954). Voltou-se, então, exclusivamente para sua poesia construtivista e desejava publicar uma coleção intitulada “Konsi”, concebendo também a ideia de um sindicato de escritores proletários e de uma editora chamada Strelci (Arqueiros), na qual a sua coleção poderia ser publicada. Nunca conseguiu: em 1926, em meio às represálias submetidas aos intelectuais eslovenos diante do governo fascista da Itália e da política do rei Alexandre de "boas relações" com Mussolini, Kosovel procurou radicalizar a sua arte e manteve contatos com a organização antifascista radical rebelde, TIGR - uma abreviação de Trst (Trieste), Istra (Ístria), Gorica (Gorizia) e Reka (Rijeka), nome completo: Organização Revolucionária da Marcha Juliana T.I.G.R. (Esloveno: Revolucionarna organizacija Julijske krajine - T.I.G.R.) - e visitou a cidade iugoslava de Zagorje para realizar um de seus recitais; enquanto esperava o trem retornar a Liubliana, contraiu um resfriado que, mal curado, desencadeou uma meningite. Retornando a Tomaj, morreu em 27 de maio, aos 22 anos.Jackson, R. (2010): Introdução, in: Look Back, Look Ahead: Selected Poems by Kosovel, Ugly Duckling Press, 2010, ISBN 1933254548

Obra póstuma Meses depois de sua morte, Alfonz Gspan fará publicar “Pesmi” (Poemas; 1927), que já contém algumas de suas melhores poesias, como: "Romanca" (Romance), "Vetri v polju" (Vento no campo), "Krik po samoti" (Grito de solidão), "Pesem ponižanih" (Canção dos humilhados), "Kakor naraščanje" (O chamamento), "Vse, o vse" (Tudo, oh tudo), "Ta strašni čas" (Esse tempo terrível), "Glej, saj ne moreš več" (Vês, tu não podes mais), "Opolnoči" (Meia-noite), "Obraz vesti" (Face da consciência), "Molitev" (Oração), "Beli Krist" (Iluminado Cristo) e "Ekstaza smrti" (Êxtase da morte). Em 1931 publicou-se “Izbrane pesmi” (Poemas Reunidos), que contém os icônicos “Ne, jaz nočem še umreti” (Não, eu não quero morrer ainda), “Moja pesem” (Meu poema) e “Vozil sem se” (Eu naveguei). Seguiram-se os 3 volumes de “Zbrano delo” (Obra Reunida) editados por Anton Ocvirk a partir de 1946, que foram recebidos com grande entusiasmo pela comunidade literária. Ocvirk publicou ainda “Zlati čoln” (Barco Dourado) em 1954 - que contém, entre outros, os belíssimos "Balada", "Jesen" (Outono), "Preproste besede" (Palavras simples), "Beatrice" (Beatriz) e "Slovo" (Adeus). Por esses livros, os franceses descobriram Kosovel e o elevaram à condição de grande mestre da poesia, dedicando-lhe o número 127 da célebre coleção "Poètes d'aujourd'hui" (Poetas de hoje), publicado em 1965 pelas Éditions Seghers, com texto organizado por Marc Alyn. Era o início da consagração internacional. Mas os poemas sob os quais repousa a glória eterna e a genialidade máxima de Kosovel, haviam ficado de fora. Foi somente em 1967, num livro chamado “Integrali '26” (Os Integrais), também editado por Ocvirk, que se deu à estampa a vanguarda sintetizadora de Kosovel, obra que antecipa muito do que se viu no modernismo e pós-modernismo mundial, inclusive no Brasil. Dentre os poemas mais notáveis dessa obra, merecem destaque: "Rime" (Rimas), "Evakuacija duha" (Evacuação do espírito), "Integrali" (Integrais), "Nad norišnico" (Acima do manicômio), "Predmeti brez duše" (Objetos sem alma), "Srce v alkoholu" (Coração no álcool), "Sferično zrcalo" (Espelho esférico), "Blizu polnoči" (Quase meia-noite), "Ostri ritmi" (Ritmos agudos), "Pesem iz kaosa" (Poesia do caos), "O dogmatiki" (Sobre dogmática), "Pred kapitulacijami" (Antes das capitulações), "Mistična luč teorije" (Luz mística teorética), "Potuhnjeni tipi" (Tipos sorrateiros), "Delirij" (Delírio), "Napis nad mestom" (Inscrição acima da cidade), "Ljubljana spi" (Liubliana dorme), "Slanik" (Arenques), "Črni zidovi" (Muros negros), "Zaznamovanci" (Os Marcados), "Mrtve oči" (Olhos Mortos), "Gloria in excelsis", "Starci" (Velhos), "Evropa umira" (A Europa agoniza), "Destrukcije" (Destruição), "Majhen plašč" (Pequeno casaco), "Tujina in mi" (O exterior e nós), "Tvoj glas je mil" (Tua voz é suave), "Rdeča raketa" (Foguete vermelho), "Solze mask" (Máscaras lacrimejantes), "Svetilka ob cesti" (Lâmpada de rua), "Kalejdoskop" (Caleidoscópio), "Veseli, dinamični, relativni" (Animado, dinânimo, relativo), "Samomorilec pred zrcalom" (Suicida frente ao espelho), "Nihilomelanholija" (Nihilmelancolia), "Ura žalosti" (Hora da Tristeza), "Kabinetni ljudje" (Gente de gabinete), "Smrt" (Morte), "Jesensko tiho" (Silêncio outonal) e toda série dos "kons" (cons), dentre os quais, os mais notáveis são: "Kons" (Cons), "Kons 2" (Cons 2), "Kons. Kons. Kons." (Cons. Cons. Cons.), "Kons: ABC" (Cons: ABC), "Kons.5" (Cons. 5), "Kons: mačka" (Cons: gato), "Kons: Novi dobi" (Cons: Nova era), "Kons: N" (Cons: N), "Kons: X" (Cons: X), "Kons: XY" (Cons: XY) e "Kons: Z" (Cons: Z).Vrečko, Janez (2005). Srečko Kosovel and the European avant-garde, Introdução, in: Man in a magic square: poems, ISBN 9619114817; reimpresso in Kosovel's poetics, edição especial do Primerjalna književnost journal, vol. 28

Vanguarda modernista Se “Integrali '26” tivesse sido publicado na época de Kosovel, não há dúvida de que essa obra teria revolucionado o panorama da poesia modernista de vanguarda. Não sendo um adepto da “arte pela arte” - conceito caro a Stéphane Mallarmé - Kosovel, no entanto, levou adiante a proposta de uma sintaxe visual (que procurasse ultrapassar as estruturas tradicionais da poesia) iniciada por Mallarmé em "Un Coup de Dés Jamais N'Abolira le Hasard" (Um Lance de Dados Nunca Abolirá o Acaso; 1897), justamente com “Integrali’26”, obra em que o design gráfico exige um formato não convencional, no qual o espaço físico do poema e a disposição do mesmo na página, diz tanto quanto o poema em si, para não falar das colagens, da simbologia matemática, etc.Kosovel, Srečko (2024): Moja pesem je eksplozija (Meu poema é explosão). Antologia bilíngue esloveno-português traduzida por Adriano Miranda. Kosovelova knjiznica, Sežana, 2024, ISBN 978-961-91082-8-4 Também encontramos nos “cons”, a matéria bruta e diligente da euforia citadina, a técnica precisa dos cartazes e o grito que eclode das entranhas das ruas (como em Vladimir Maiakóvski), assim como um apelo algo místico também encontrado no Imagismo de Serguei Iessenin, sem que Kosovel tivesse a necessidade de criar um refúgio seguro ao colapso do velho mundo. E essa proximidade com a vanguarda russa, mostra o quanto Srečko estava adiantado na sua própria época, uma vez que o modernismo poético em geral estava preso ao Futurismo do italiano Filippo Tommaso Marinetti, ridicularizado por Maiakóvski. Ou, como no caso do Brasil, ao simbolismo do belga Émile Verhaeren: Mário de Andrade dirá que a sua obra-prima (inauguradora, de fato, do Modernismo brasileiro), “Paulicéia Desvairada” (1922) foi-lhe inspirada pelas "Les villes tentaculaires" (As cidades tentaculares; 1895) de Verhaeren.Andrade, Mário de (2017) : A Escrava que não é Isaura (2017) - 1ª edição (1925), Nova Fronteira, ISBN 978-8520924532