miniaturadaimagem|Xiva sob a forma de Bhairava Svacchanda dançante, com 18 braços representando os 18 poderes (xáctis), tal como o Conhecimento, a Lei e o Som. Para pensadores dessa escola, Bhairava é a Consciência Suprema. Kshemaraja o explica como sendo aquele que, pelo próprio livre-arbítrio espontâneo, cria o universo como o seu jogo, em um êxtase eterno. Xiva, ou Bhairava, é a realidade suprema para os adeptos do Pratyabhijñā. Pratyabhijñā ou Pratyabhigyā ( , literalmente "reconhecimento") é uma escola de filosofia idealista, monista e teísta no xivaísmo da Caxemira que se originou no século IX d.C. O termo Trika ("Tríade", em referência às várias tríades existentes no sistema, como a de vontade, cognição e ação) foi usado por Abhinavagupta para representar todo o xivaísmo da Caxemira, ou para designar o sistema Pratyabhijñā.Carl Olson, The Many Colors of Hinduism, Rutgers University Press, 2007, page 237

É o ramo idealista do xivaísmo da Caxemaria que desenvolveu o sistema mais sofisticado e influente de teologia xaiva, contrapondo-se à ortodoxia indiana. Em meio ao contexto de tensão entre a tradição escriturística de conhecimento revelado (ágama) e o raciocínio lógico (yukti), sua culminância se deu nas investigações epistemológicas (pramana) dos próprios ágamas pelos pensadores do Pratyabhijñā.Kaul, Mrinal (5 de novembro de 2022). «Causal Reasoning in the Trika Philosophy of Abhinavagupta». In: Sarukkai, Sundar; Chakraborty, Mihir Kumar. Handbook of Logical Thought in India (em inglês). Springer India

O nome do sistema é derivado de sua obra mais famosa, Īśvara-pratyabhijñā-kārikā de Utpaladeva. Etimologicamente, pratyabhijñā é formado de prati- ("re-") + abhi- ("de perto") + *jñā ("saber"), então o significado é "conhecimento direto de si mesmo", "reconhecimento".

A tese central desta filosofia é de que tudo é consciência absoluta, denominada Xiva, e que é possível "reconhecer" esta realidade fundamental e ser libertado das limitações, identificando-se com Xiva e imergindo em beatitude.The Yoga of Kashmir Shaivism – S.Shankarananda, p. 45 Assim, o escravo (paśu: a condição humana) se livra dos grilhões (pāśa) e se torna o mestre (pati: a condição divina).

Mestres e textos O sistema Pratyabhijñā teve um período de intenso desenvolvimento entre os séculos IX e XI, com uma linhagem de mestres e discípulos que escreveram tratados e poesia mística.

O fundador da escola Pratyabhijñā foi Somananda (875–925);The Krama Tantricism of Kashmir – N. Rastogi, p. 3 seu trabalho Śivadṛṣṭi é a base do sistema. Nele, elaborou de forma filosófica e argumentativa o problema da Realidade Última, criticando os gramáticos, os xactas, os budistas e os darxanas. Ele foi seguido por seu filho e discípulo Utpaladeva (900–950)The Trika Saivism of Kashmir – M.L. Pandit, p. 27 que escreveu o tratado mais importante do sistema, Īśvara-pratyabhijñā-kārikā, um tratado filosófico discutindo a doutrina fundamental da escola e comparando-a com diversas escolas rivais, analisando as diferenças e refutando-as no estilo da lógica budista. Assim, ele popularizou nesse texto e em outros a doutrina filosófica distinta da escola, do "Reconhecimento"; o nome da escola deriva do título desta sua obra principal; no resto da Índia, toda a filosofia xivaíta da Caxemira era algumas vezes referida pelo nome Pratyabhijñā Śāstra. Utpaladeva declarou a escola como um "novo caminho" (margo navah), o que era incomum na filosofia indiana, em que outras escolas costumavam fazer referência à tradição histórica.

Outro importante mestre desta escola é Abhinavagupta, que foi ensinado pelo professor Lakshmanagupta, discípulo de Utpaladeva. Ele fazia também parte da vertente Spanda e realizou uma síntese entre várias escolas do xivaísmo de Caxemira na sua magnum opus, Tantrāloka; Abhinavagupta também escreveu dois comentários sobre Īśvara-pratyabhijñā-kārikā.Siva Sutras – Jaideva Singh, p.The Trika Saivism of Kashmir – M.L. Pandit, p. 27 O discípulo de Abhinavagupta, Kshemaraja, escreveu um resumo do Pratyabhijñā chamado Pratyabhijñāhṛdayam, A Essência do Reconhecimento, que é a introdução mais popular ao sistema. Contexto

Em relação ao Advaita Vedanta No que diz respeito ao problema de como o mundo surge, Utpaladeva rejeita a teoria Advaita Vedanta da ignorância eterna e independente (avidyā),Abhinavagupta and His Works – V. Raghavan, p. 28 a qual afirmava que Bramã (a consciência absoluta) está sendo afetado por avidyā (ignorância eterna) por sobreposição, com a resultante escravização da consciência inativa e sujeita à vida mundana. No xivaísmo da Caxemira, avidyā (ignorância) e seu aspecto cósmico, maiá (ilusão), nada mais são do que Xácti, o poder de Xiva; como Xácti, são reais para seres limitados, mas são simples manifestações de consciência para Xiva.

No Advaita Vedanta, no que diz respeito ao ser limitado (jīva), toda atividade pertence ao intelecto (buddhi); no xivaísmo da Caxemira, a atividade também é atribuída a átmã, que não é inerte, mas possuidor das cinco ações de criação, manutenção, dissolução, ocultação e graça. Um jīva libertado, no Advaita Vedanta, é libertado do universo—mas aqui no Pratyabhijñā, o universo aparece como a verdadeira consciência do Eu, uma massa de consciência e beatitude.

No Advaita Vedanta, a consciência (cit) é apenas luz (prakāśa), mas no Pratyabhijñā também é atividade, capacidade de fazer.

Comparado com outras escolas xivaítas da Caxemira No contexto do xivaísmo da Caxemira, Pratyabhijñā é às vezes classificado como śāmbhavopāyaIntroduction to Kasmir Shaivism, p. 53 (o caminho de Shambhu, ou seja, Xiva), e outras vezes como aṇupāya (o não-caminho).Introduction to Kasmir Shaivism, p. 89 Śambhavopaya e Anupaya são classes de práticas relacionadas diretamente à consciência; em contraste, as duas classes inferiores de prática são Śaktopaya—o caminho de Xácti, que se relaciona com a mente—e Anavopaya—o caminho do ser limitado, que se relaciona com o corpo físico. Assim, Pratyabhijñā é considerado o caminho mais curto e direto para a libertação, uma evolução [ discutir ] baseada apenas na consciência.

Embora compartilhe as mesmas práticas relativas à ascensão da kundalini no canal intermediário (sushumna nadi), Pratyabhijñā afirma a progressão instantânea, enquanto a escola Krama afirma que há uma progressão gradual.

No que diz respeito à escola Spanda, Pratyabhijñā é mais filosófica, colocando ênfase na realização instantânea (reconhecimento) do Absoluto, enquanto a escola Spanda é mais prática (conforme seu texto fundamental, Spandakārikā), e coloca sua ênfase no aspecto da "energia vibratória" da consciência.The Trika Saivism of Kashmir – M.L. Pandit, p. 25

Em relação ao Budismo A diferença mais importante entre Pratyabhijñā e o budismo está relacionada ao fundamento ontológico último: enquanto o budismo não afirma os conceitos de alma imutável e independente (pelo ensino do anatta/anatman) e deus criador (Íxvara), os xivaítas da Caxemira os colocam no topo de seu modelo de mundo.Abhinavagupta and His Works – V. Raghavan, p. 28

Em seu tratado filosófico Īśvara-pratyabhijñā-kārikā, Utpaladeva também rejeita a teoria vasana (o modelo onírico do mundo) da escola sautrântica de filosofia budista; ele sugere outro modelo de idealismo: Xiva, que é consciência pura, manifesta todos os objetos internamente, em virtude de seu livre arbítrio, svātantrya, e os objetos aparecem como reais e externos aos seres limitados. Ele apela à analogia da famosa materialização de objetos por iogues avançados, puramente através do uso dos seus poderes psíquicos.The Dreamer and the Yogin, On the relationship between Buddhist and Saiva idealisms – Isabelle Ratie, p.

Princípios

Ābhāsa-vāda e Svātantrya-vāda Ābhāsa (ā–, "leve", bhāsa–, "manifestação"), isto é, aparência de forma limitada, ou "leve manifestação de Xiva"The Pratyabhijna Philosophy – G.V. Tagare, p. 37 é a teoria da manifestação no Pratyabhijñā.The Trika Saivism of Kashmir – M.L. Pandit, p. 189 A consciência suprema (samvit) é como um espelho e o universo é como um reflexo que aparece nele. A analogia do espelho é frequentemente usada para explicar abhāsa porque um espelho, como a consciência, pode conter uma infinidade de imagens diferentes sem ser afetado.Sakti the Power in Tantra – P.R. Tigunait, p. 65

O Pratyabhijñā afirma que o universo aparece como um ābhāsa no espelho da consciência suprema, samvit, mas diferentemente de um espelho físico que precisa de um objeto externo para formar um reflexo, a imagem no espelho de samvit é projetada pelo próprio samvit – esta atividade é chamada svātantrya, poder de vontade. Em outras palavras, o universo aparece dentro de samvit porque Xiva assim o deseja.The Trika Saivism of Kashmir – M.L. Pandit

O Advaita Vedanta propõe uma teoria do universo um tanto semelhante como uma ilusão sobreposta à consciência. A diferença no Pratyabhijñā é que a causa da manifestação não é um princípio eterno de ignorância separado (avidyā), mas a vontade de Xiva, e a própria criação é ontologicamente real, não apenas uma ilusão.The Trika Saivism of Kashmir – M.L. Pandit, p. 190 Assim, Xiva se autolimita e cria a alteridade não como um sentido depreciativo ilusório de maiá, mas como uma criação beatífica em que ele se bifurca para se autoconhecer e para dar espaço ao seu próprio jogo, conforme Abhinavagupta escreve:"O Senhor Supremo, que tem a natureza da consciência, faz do Seu próprio Ser um objeto de cognição, mesmo que não seja um objeto de cognição, porque o Cognoscente é unitário (...) à medida que Ele apreende de forma reconhecida o Seu Ser, então porque tudo está contido Nele, Ele aparece como azul, etc." A tese do Pratyabhijñā é também diametralmente oposta àquela dos idealistas budistas vijñānavadins: os idealistas budistas afirmavam que os objetos conhecidos não poderiam existir independentemente da mente do sujeito e que eles eram momentâneos; além do mais, diziam que os objetos não são parte de uma consciência e que não há evidência para a existência de objetos externos, meramente aparecendo assim devido à ignorância do sujeito. Para Abhinavagupta, não há nada externo à consciência e os objetos fazem parte da realidade suprema. Os budistas afirmavam que não havia nenhum agente permanente do dinamismo do universo e de suas ações, enquanto no Pratyabhijñā é proposta uma teoria da causalidade em que o agente da manifestação é o livre-arbítrio de Xiva. A consciência e subjetividade é o substrato da causa e efeito, e Jayaratha (século XII) afirma: "O inerte não poderia ter poder para trazer ao ser o inexistente, portanto a relação de causa e efeito é realmente a de agente e agência". A consciência pessoal limitada é uma causa concomitante, considerada como apenas como um fator no processo causal em meio à verdadeira agência de Xiva, a única agência do universo (ver também ocasionalismo).

A manifestação é feita de ābhāsas, que nada mais são do que a ideação de Xiva aparecendo como objetos empíricos.

Assim, todas as coisas são ābhāsa: terra, água, fogo, etc. Todas as suas qualidades são ābhāsa.Doctrine of Divine Recognition – K.C. Pandey, p. 159 Abasas complexos são compostos de abasas mais simples, culminando com o mundo inteiro.The Himalayan mysticism – R. Nataraj, p. 186The Trika Saivism of Kashmir – M.L. Pandit, p. 188

Paradoxalmente, embora os ābhāsas tenham a natureza da consciência, eles também existem externamente por serem manifestados através do poder de ocultação (maiá) por Xiva.Doctrine of Divine Recognition – K.C. Pandey, p. 115 Um meditador avançado é capaz de ver o mundo como ābhāsa, um flash de consciência (chit) e beatitude (ānanda), idêntico ao seu próprio eu (ātman) e não diferenciado (abheda). Em outras palavras, a luz da consciência brilha de dentro do objeto de percepção, como uma intuição, um tipo de visão direta sobre-humana.The Isvarapratyabhijnakarika of Utpaladeva – R. Torella, p. 136