Mircea Eliade (Bucareste, 9 de março de 1907 – Chicago, 22 de abril de 1986) foi um historiador das religiões, mitólogo, filósofo e romancista romeno, naturalizado norte-americano em 1970."No verão de 1970, quase esqueci meu passaporte americano no aeroporto de Estocolmo. Eu tinha me tornado cidadão americano poucos meses antes..."(ELIADE, Mircea. Autobiography: Exile's Odyssey. 1937-1960, Volume 2, p. 170).
Falava e escrevia fluentemente em oito línguas (romeno, francês, alemão, italiano, inglês, hebraico, persa e sânscrito), mas a maior parte dos seus trabalhos acadêmicos foi escrita inicialmente em romeno (depois em francês e em inglês). É um dos mais influentes cientistas das religiões e filósofos das religiões da contemporaneidade. Fez parte do Círculo Eranos,A hermenêutica simbólica como possibilidade epistemológica para o estudo do espaço teatral, por Ismael Scheffler. de quem recebeu e trocou diversas referências teóricas.
Considerado um dos maiores nomes do século XX da Ciência da Religião, elaborou uma visão comparada das religiões, encontrando relações de proximidade entre diferentes culturas e momentos históricos. No centro da experiência religiosa do ser humano, Eliade situa a noção do Sagrado. Sua formação institucional de filosofo somada a sua formação autodidata como cientista das religiões elevou-o ao estudo dos mitos, dos sonhos, das visões, do misticismo e do êxtase.
Na Índia, estudou ioga e leu, diretamente em sânscrito, textos clássicos do hinduísmo que ainda não tinham sido traduzidos para as línguas ocidentais. Autor prolífico, procurou encontrar uma síntese dos temas que abordou. Nos seus escritos, é, frequentemente, destacado o conceito de hierofania, através do qual Eliade definiu a manifestação do transcendente em um objeto ou um fenômeno do cosmo.
História Mircea Eliade () nasceu na capital romena a 24 de fevereiro de 1907 pelo calendário juliano, tendo sido o calendário gregoriano introduzido na Romênia somente após 1924.biografia. Era de família cristã ortodoxa e, desde jovem, tornou-se poliglota. Leu extensivamente em romeno, francês e alemão. Por volta de 1924 ou 1925, aprendeu italiano e inglês. Leu as obras de Raffaele Pettazzoni e de James George Frazer no original.Biografia adaptada do verbete "Mircea Eliade", por Bryan Rennie, da Routledge Encyclopedia of Philosophy, 1998.] Mais tarde, aprendeu hebraico, sânscrito e parsi.
Na escola, interessava-se por biologia e química e teve até um pequeno laboratório. Lia muito e aumentou o tempo de leitura diminuindo as horas de sono para apenas cinco a seis por noite.
O grande interesse em religiões comparadas, filosofia e filologia levou-o em 1925 a iniciar estudos na Universidade de Bucareste, formando-se em filosofia. Na universidade, a influência de Nae Ionescu, então assistente do professor Constantin Rădulescu-Motru no Departamento de Lógica e Teoria do Conhecimento e ativo jornalista, levou o jovem Eliade a se envolver com a extrema-direita romena.
Sua tese de mestrado examinava a filosofia na Renascença italiana, de Marsilio Ficino a Giordano Bruno. O interesse no humanismo renascentista foi o maior estímulo para que seguisse para a Índia, a fim de "universalizar" a filosofia "provinciana" herdada de sua educação europeia. Graças a um financiamento do marajá de Kasim Bazar, permaneceu quatro anos estudando no país. Em 1928, foi para a Universidade de Calcutá, onde estudou sânscrito e filosofia, sob a orientação de Surendranath Dasgupta (1885-1952), um bengali educado em Cambridge e autor de History of Indian Philosophy (Motilal Banarsidass 1922-55), em 5 volumes. Eliade era um bom aluno e morava na casa do professor, mas a relação entre ambos deteriorou-se quando Mircea se apaixonou por Maitreyi Devi, a filha de Dasgupta. A fracassada história de amor seria tema do romance erótico Isabel Si Apele Diavolului ("Isabel e as águas do diabo") (1930), no qual os personagens centrais são um europeu e uma jovem indiana.Mircea Eliade (1907-1986) Mais de quarenta anos depois, a poetisa Maitreyi Devi (1914-1990) leu o romance de Eliade e, em 1974, escreveu sua resposta em Na Hanyate (título em inglês: It Does Not Die), livro no qual relata o que ocorre quando encanto e desilusão, diferenças culturais e arrogância colonial se contrapõem. Ver A Terrible Hurt: The Untold Story behind the Publishing of Maitreyi Devi, por Ginu Kamani.
A documentação recolhida na Índia, especialmente a respeito do ioga, tornar-se-ia a base de sua tese de doutoramento. Retornou a Bucareste em 1932 e, após cumprir o serviço militar, submeteu, com sucesso, a sua tese sobre ioga ao Departamento de Filosofia, em 1933. Publicou-a em francês (1936) como Yoga: Essai sur les origines de la mystique indienne ("Ioga: Ensaio sobre a origem do misticismo indiano"), posteriormente revista e republicada como Le Yoga. Immortalité et liberté ("Ioga, Imortalidade e Liberdade"). No mesmo ano, Eliade tornou-se professor da faculdade de letras da Universidade de Bucareste. Como assistente de Ionescu, Eliade ensinou a Metafísica de Aristóteles e a Docta Ignorantia, de Nicolau de Cusa.
De 1933 a 1939, participou ativamente de grupo Criterion, que promovia seminários públicos sobre diversos tópicos. O grupo era influenciado pela filosofia do Trăirismo, a busca do "autêntico" através da experiência vivida (em romeno, traire), considerada como única fonte de autenticidade.
Em 1934, casou-se com Nina Mares.
Depois de publicar Domnisoara Christina ("Senhorita Cristina") (1936), foi acusado de pornografia e, por um curto período, foi suspenso da universidade. O romance, baseado no folclore romeno, tinha, como personagem principal, uma vampira e abordava o significado do erotismo e da morte na vida humana.
Em 1938, Nae Ionescu foi preso e Eliade, seu assistente, demitido. Ionescu fora acusado de ser membro da Guarda de Ferro, organização romena de extrema-direita, antissemita e simpatizante do nazismo. Logo, Eliade também seria preso, passando um curto período em um campo de concentração.
A partir de 1940, trabalha como adido cultural e de imprensa nas representações diplomáticas romenas em Londres e Lisboa (1941-44), tendo residido em Lisboa e, após a morte da mulher, em Cascais. Na capital portuguesa, interessou-se pelos clássicos, como Sá de Miranda, Camões e Eça de Queiroz,"O filósofo romeno que viveu em Lisboa e admirava Camões e Eça", por Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, 2007, Portugal e empenhou-se em estabelecer elos mais fortes entre os latinos do ocidente e do oriente, impulsionando traduções, conferências e concertos.
Em 1944, sua mulher, Nina, morre de câncer.
Após a Segunda Guerra Mundial, por suas ligações com Nea Ionescu, Eliade não pôde voltar à Romênia, que agora se tornara comunista. Passa então a lecionar em várias universidades europeias. Em 1945, transfere-se para Paris. Ensina religião comparada na Sorbonne e na École pratique des hautes études, a convite de Georges Dumézil. Seus amigos desse período incluíam Eugène Ionesco e Georges Bataille, além do próprio Dumèzil. Eliade adquire renome como professor de Ciência das Religiões. Leciona também no Instituto do Extremo Oriente de Roma, no Instituto Jung de Zurique e, finalmente, na Universidade de Chicago. Em 1950, casa-se com Christinel Cotrescu. Neste tempo, os trabalhos de Eliade passam a ser escritos em francês. A "Floresta Proibida", que Eliade considerava seu melhor romance, foi lançado em 1954.
Em Portugal, escreveu "Os Romenos, Latinos do Oriente", uma síntese histórica, cultural e espiritual do seu país, e "Salazar e a Revolução Portuguesa", livro em que defendia que o general Ion Antonescu, no poder em Bucareste, poder-se-ia inspirar no regime português para criar um Estado autoritário mas não totalitário.Salazar e a Revolução em Portugal. Lisboa: Esfera do Caos Editores, 2011. .
A obra não surtiu, todavia, os efeitos pretendidos: não só Antonescu não adotou o modelo português, como Salazar não gostou, segundo informações que obteve, da "heterodoxia" da interpretação, o que levou a que o livro não fosse traduzido para a língua portuguesa.A publicação da obra em Portugal teve lugar em 2011.
Um livro que acabou por nunca escrever, por causa de "Salazar e a Revolução Portuguesa", já tinha até título: "Camões - Ensaio de Filosofia da Cultura" e versaria sobre um tema que o fascinava - as civilizações marítimas.
No seu "Diário Português", obra conhecida apenas em 2001 através de uma editora de Barcelona, com edição portuguesa em 2008"Diário Português (1941-1945)". Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2008. . Edição subsidiada pelo Instituto Cultural Romeno, Bucareste, Mircea Eliade mostrou-se, por vezes, crítico embora não hostil a Portugal, país que considerava periférico, um pouco à margem da história e da cultura.
Posteriormente, estabeleceu-se em Paris e, finalmente, em Chicago. Visitado por Joachim Wach, seu predecessor na Universidade de Chicago, um famoso cientista das religiões alemão, Eliade foi convidado, em 1956, para dar aulas naquela universidade sobre "Tipos de Iniciação". Nessa época, foi publicado "Nascimento e Renascimento" (Birth and Rebirth). Em 1958, foi convidado para chefiar o Departamento de Ciência da Religião da Universidade, cargo que ocupou até a morte em 1986.
Além de ter escrito obras científicas tão importantes e centrais como "O sagrado e o profano", Eliade publicou uma extensa obra literária de ficção, cuja qualidade é universalmente reconhecida. Porém, por ter sido escrita inicialmente em romeno, tardou a ser divulgada. Também lançou a "Revista de História das Religiões" e a "Revista das Religiões" e atuou como editor-chefe para a Enciclopédia Macmillan de Religiões, que foi reeditado e expandido em 2005 por L. Jones.
Eliade recebeu o título de Doctor Honoris Causa de numerosas universidades de todo o mundo. Premiado em 1977 pela Academia Francesa, recebeu a Legião de Honra da França.
Pensamento A despeito de que seu foco de investigações se situe na história das religiões, Eliade nunca se afastou da formação intelectual de filósofo, mesmo que ele nunca tenha sido um filósofo propriamente dito. Existem radicais desacordos sobre o seu pensamento. Alguns veem como crucial sua contribuição para os estudos das religiões, enquanto que outros o veem como um obscurantista cujas propostas normativas são inaceitáveis.
Eliade foi classificado como um "perenialista suave" pelo historiador Mark Sedgwick, correspondendo-se com Julius Evola e René Guénon. Contudo, Eliade se distancia de Guénon e dos autores perenialistas, embora tenha defendido sua posição contra os estudiosos naturalistas, opondo-se à corrente de “ateísmo científico” que agora está se elevando acima dos departamentos de Estudos Religiosos.Gardaz, Michel. "‘The Trojan horse of philosophia perennis’: Mircea Eliade's quest of spiritual transformation." Religion 38.4 (2008): 338-345.
O pensamento de Eliade foi parcialmente influenciado por Rudolf Otto, Gerardus van der Leeuw, Nae Ionescu e pela obra da Escola das Tradições. De certa maneira, essa escola tinha uma afinidade com as preocupações esotéricas do fascismo. Embora Guarda de Ferro estivesse à margem do movimento fascista por causa de seu caráter místico - temas preferidos de investigação de Eliade durante as suas atividades políticas (notavelmente, a preocupação a respeito do culto Zalmoxis e seu suposto monoteísmo). Estas foram as características que mais atraíram Eliade ao fascismo, ao invés de um padrão íntimo de pensamento que ele tenha seguido por toda a vida (podemos lembrar o caso de dom Hélder Câmara, bispo progressista do clero católico brasileiro nos anos 1970 e 1980, que também teve uma ligação explícita com o movimento fascista brasileiro chamado de integralismo).