miniaturadaimagem|Bandeira. A Ordem Secreta dos Primadistas foi uma organização nacionalista, anti-comunista e anti-liberal fundada em Caxias do Sul (Rio Grande do Sul) por Valdomiro Ramos Pacheco, professor, filósofo e jornalista criador do jornal A Voz do Povo. Surgida no final da década de 1950, o grupo defendia uma transformação social baseada em valores morais e espirituais, em oposição ao materialismo marxista ortodoxo, sendo também crítico do individualismo do neoliberalismo, denunciando o que chamavam de “egoísmo liberal”, marcado pela liberdade individual e submissão a interesses de países estrangeiros.
Inspirada em figuras como Benito Mussolini e Plínio Salgado, bem como nas ideias de Georges Sorel e seu sindicalismo-revolucionário, a Ordem atuava como uma espécie de filial sulista da OSMN, adotando símbolos e práticas semelhantes às da Ku Klux Klan — movimento que, à época, sob a liderança de Samuel Green, elogiou o movimento — incluindo rituais com capuzes.
O movimento teve atuação durante os governos de Leonel Brizola e João Goulart, com relatos de treinamento paramilitar e ações violentas contra opositores. Apesar disso, o grupo demonstrava certa admiração por aspectos do modelo de Estado forte defendido por Goulart, especialmente medidas como a nacionalização de empresas ligadas a capitais estrangeiros — incluindo a chamada Electric Bond & Share Company (Amforp), associada ao grupo J.P. Morgan. Por outro lado, criticava a aproximação do governo com a China de Mao Zedong e defendia um alinhamento internacional com regimes como a Espanha de Francisco Franco, além de países do Oriente Médio que se posicionaram em oposição ao Estado de Israel. Após o Golpe de Estado no Brasil em 1964, Valdomiro Ramos Pacheco declarou inicialmente apoio ao novo regime. Com o passar do tempo, porém, passou a criticar o modelo econômico adotado pelo governo de Humberto Castelo Branco, que considerava entreguista e excessivamente alinhado a interesses estrangeiros, o que acabou contribuindo para o enfraquecimento interno e a posterior dissolução do grupo.miniaturadaimagem|Um membro encapuzado, vestindo um capuz escuro e uniforme, segurando uma bandeira com listras alternadas vermelho e preto, cinco estrelas e uma águia bicéfala no centro, símbolo da Ordem Secreta dos Primadistas, organização paramilitar nacionalista do Rio Grande do Sul, ativa entre 1958 e 1960.
História A Ordem Secreta dos Primadistas foi fundada em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, por Valdomiro Ramos Pacheco, um professor, filósofo e jornalista local que criara o jornal A Voz do Povo. Pacheco havia integrado o Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas foi expulso por discordâncias internas, passando a criticar o materialismo marxista ortodoxo e defendendo uma abordagem mais espiritual e moral para a transformação social, alinhada a tradições nacionais e valores éticos. Após o rompimento com o comunismo, desenvolveu um forte nacionalismo, além de posições antiliberais e críticas ao que chamava de “egoísmo liberal”, marcado pelo individualismo e pela submissão a interesses estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos.
Após o rompimento, começou com admiração em figuras como Benito Mussolini — de quem herdava a admiração pelo modelo de Estado corporativista, no qual as classes sociais eram organizadas em corporações sob supervisão estatal, buscando conciliar capital e trabalho, além de sua aproximação inicial com setores sindicalistas como forma de mobilização das massas — e Plínio Salgado — valorizado pela tentativa de construir uma doutrina autenticamente nacional, baseada em valores espirituais, ordem social e identidade brasileira, embora houvesse críticas à sua defesa da miscigenação como elemento formador da nação —, bem como nas ideias de Georges Sorel e seu sindicalismo revolucionário — cuja filosofia enfatizava o papel dos “mitos sociais” como forças mobilizadoras e via a violência como um instrumento capaz de regenerar a sociedade e romper com a decadência moral —, a Ordem atuava como uma espécie de filial sulista da OSMN, adotando símbolos e práticas semelhantes às da Ku Klux Klan — movimento que, à época, sob a liderança de Samuel Green, chegou a elogiar a iniciativa — incluindo rituais com capuzes. Ele adotou o título de “o Venerável” dentro do grupo. Não há data exata de fundação documentada, mas, em depoimento de 12 de janeiro de 1962, o membro José Renir dos Santos afirmou participar desde 1956 e que o grupo tinha mais de três anos de existência, sugerindo origem entre 1958 e 1959.
Jornais da época indicam atividades nas décadas de 1950 e 1960, incluindo treinamento paramilitar em cidades próximas a Porto Alegre, onde cada primadista comandava cerca de dez homens, evidenciando uma estrutura hierárquica e organizada. A organização funcionava como uma “filial sulista” da OSMN, fundada por Joaquim Miguel Vieira Ferreira, agente anticomunista ligado ao Cenimar, compartilhando métodos clandestinos, disciplina rígida e inspiração na Ku Klux Klan. Além disso, eles tinham influência em sindicatos, utilizando esses espaços para atrair trabalhadores e conquistar apoio de setores trabalhistas saudosistas do Estado Novo de Getúlio Vargas.
Os primadistas promoviam um anticomunismo radical, combatendo o que consideravam “infiltração vermelha” nos governos de João Goulart e Leonel Brizola, especialmente as Reformas de Base, sem uma doutrina filosófica definida. Apesar de, em certos momentos, adotarem um discurso público mais moderado, mantinham um braço paramilitar armado e extremista, com ordens internas para punir traidores, incluindo espancamentos e execuções. Ao mesmo tempo, demonstravam ambivalência em relação ao governo Goulart: admiravam medidas de fortalecimento do Estado, como a nacionalização de setores ligados ao capital estrangeiro — incluindo a Bond & Share, associada ao grupo J.P. Morgan — mas criticavam sua aproximação com a China de Mao Zedong, defendendo alinhamento com a Espanha de Francisco Franco e países do Oriente Médio contrários ao Estado de Israel, como o Egito de Gamal Abdel Nasser, o Iraque do Abdul Karim Qasim, além da Jordânia de Hussein bin Talal. Esses países, em diferentes graus, se opunham ao sionismo e participaram de conflitos diretos ou indiretos contra Israel no período.
A bandeira do grupo exibia listras pretas e vermelhas (simbolizando luto e sangue derramado), cinco estrelas e uma águia bicéfala — uma cabeça agressiva e outra pacífica — representando a dualidade entre ação e reflexão. O grupo também organizava palestras, treinamentos e atividades de doutrinação, impactando o cenário político regional, especialmente durante o governo Brizola (1958–1961), e mantendo proximidade com outros movimentos anticomunistas.
Após o Golpe de Estado no Brasil em 1964, Pacheco enviou carta de apoio à chamada “Revolução”, criticando liberais, comunistas, judeus e maçons. Posteriormente, porém, passou a criticar o modelo econômico do governo de Castelo Branco como entreguista, o que contribuiu para o enfraquecimento e a dissolução da organização.
Ações notáveis miniaturadaimagem|Uma manchete de jornal em português com o título "KLAN DO TERROR É INTERNACIONAL", sobre a Ordem Secreta dos Primadistas. O texto destaca ações terroristas, como o metralhamento da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) e a tentativa de invasão da Rádio Farroupilha em Porto Alegre. A principal ação conhecida foi a tentativa de invasão da Rádio Farroupilha, em 6 de janeiro de 1962, em Porto Alegre. Um grupo encapuzado e armado invadiu os estúdios para interromper o programa Repórter Esso e ler um manifesto anticomunista, conclamando a organização contra "forças estranhas à soberania nacional". A ação foi frustrada pela polícia, levando a um inquérito que revelou conexões com a OSMN e o MAC — no mesmo dia, o MAC atacou a sede da UNE no Rio de Janeiro, e dias depois houve bomba no jornal Última Hora, do mesmo grupo dos Diários Associados, proprietários da Farroupilha. O atentado ganhou repercussão na imprensa, com coberturas no Correio do Povo e Folha da Tarde, e foi julgado pela Justiça. O grupo foi descrito como "Ku Klux Klan gaúcha" em análises históricas.
Legado
A Ordem Secreta dos Primadistas dissipou-se nos anos 1960, após o golpe, mas suas ações terroristas pré-1964 são vistas como parte do clima de instabilidade que facilitou o regime militar. Estudos recentes, como o de Raphael Alberti em Um espião silenciado, resgatam sua ligação com redes anticomunistas nacionais. Em 2021, reportagens da BBC News Brasil e UOL destacaram o grupo como exemplo de extremismo inspirado na KKK no Brasil.
Embora a Ordem Secreta dos Primadistas tenha se dissolvido nos anos 1960 após o golpe militar de 1964, o nome do grupo foi invocado em ameaças de morte e mensagens de ódio em janeiro de 2026, em um contexto de polarização política pré-eleitoral no Brasil.
A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ) recebeu duas mensagens ameaçadoras por e-mail: a primeira em 11 de janeiro de 2026 (com conteúdo racista, homofóbico, de intolerância religiosa e anúncio de "violência em massa" contra grupos vulneráveis, incluindo possíveis ataques a escolas) e a segunda em 18 de janeiro de 2026 (com ameaças detalhadas de estupro, tortura, execução, invasão residencial e vigilância à parlamentar e sua equipe).
As mensagens foram assinadas por "Ordem Secreta dos Primadistas", grupo descrito nas denúncias como uma suposta célula neonazista ou extremista de direita que resgata o simbolismo da organização histórica (incluindo inspiração na Ku Klux Klan e o lema "Dominaremos os infernos"). Renata Souza protocolou denúncias na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA), na ONU, e registrou boletins de ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi-RJ), com apoio de entidades como Justiça Global, Instituto Marielle Franco e Comitê Brasileiro de Defensores de Direitos Humanos.
Não há evidências públicas de que se trate de uma continuação organizada do grupo original fundado por Valdomiro Ramos Pacheco. O nome parece ser reutilizado por indivíduos ou pequenos grupos extremistas atuais para amplificar o impacto das intimidações, especialmente em um ano eleitoral (2026).
Casos semelhantes foram mencionados envolvendo outras figuras políticas, mas o incidente com Renata Souza teve maior repercussão na imprensa.
Referências Oliveira, Raphael Alberti Nóbrega de (2021). «A águia bicéfala: Discursos e práticas da Ordem Secreta dos Primadistas, a "Ku Klux Klan gaúcha"». INTERRITÓRIOS (15). https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2021/12/22/o-grupo-paramilitar-inspirado-na-ku-klux-klan-que-atuou-contra-a-esquerda-no-brasil.htm
«O grupo paramilitar inspirado na Ku Klux Klan que atuou contra a esquerda no Brasil.
https://www.terra.com.br/noticias/brasil/o-grupo-paramilitar-inspirado-na-ku-klux-klan-que-atuou-contra-a-esquerda-no-brasil,4585054a7795d85a82f696f28a092b30k79tro2w.html
Notícia documentada sobre os ataques: https://www.apers.rs.gov.br/os-acervos-do-apers-e-o-golpe-civil-militar-de-1964-voce-sabe-o-que-e-primadismo Categoria:Sociedades secretas