Arroboboi, Dangbé foi o enredo apresentado pela Unidos do Viradouro no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 2024. O samba-enredo homônimo foi composto por Claudio Mattos, Cláudio Russo, Júlio Alves, Thiago Meiners, Manolo, Anderson Lemos, Vinicius Xavier, Celino Dias, Bertolo e Marco Moreno, sendo interpretado no desfile por Wander Pires. Com o desfile, a escola conquistou o seu terceiro título de campeã do carnaval carioca, quatro anos após a conquista anterior, em 2020.

O enredo da Viradouro abordou a história do culto ao vodu Dambê, representado por uma píton-real, desde a manifestação da energia na costa ocidental da África até a chegada do culto ao Brasil, com a instalação de terreiros na Bahia pela sacerdotisa Ludovina Pessoa e a formação do candomblé Jeje. O enredo foi assinado pelo carnavalesco Tarcisio Zanon, que conquistou seu segundo título na elite do carnaval carioca.

A Viradouro foi a sexta e última escola a se apresentar na segunda noite do Grupo Especial, na madrugada da terça-feira de carnaval, dia 13 de fevereiro de 2024. O desfile foi amplamente elogiado pela crítica especializada, recebendo adjetivos como "perfeito", "impecável", "irretocável" e "avassalador". A escola foi apontada como favorita ao título de campeã e recebeu diversas premiações, sendo a agremiação mais premiada do ano. A Viradouro venceu com sete décimos de vantagem sobre a vice-campeã, Imperatriz Leopoldinense. Ao todo, a escola recebeu apenas três notas abaixo da máxima, mas, seguindo o regulamento do concurso, todas foram descartadas. Ao final de 2024, o desfile ganhou uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, reunindo duzentas fotografias e vinte fantasias, além da serpente mecanizada de nove metros de comprimento que fez sucesso na Comissão de Frente da escola.

Antecedentes esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Abre-alas do desfile da Viradouro em 2020. Retrospecto A Unidos do Viradouro conquistou seu primeiro título no carnaval do Rio de Janeiro em 1997, com "Trevas! Luz! A Explosão do Universo", desfile assinado pelo carnavalesco Joãosinho Trinta. A escola se manteve no Grupo Especial até o carnaval de 2010, quando foi rebaixada para a segunda divisão. A Viradouro chegou a retornar ao Grupo Especial em 2015, após vencer a Série A de 2014, mas foi rebaixada no mesmo ano. A situação da escola mudou após o carnaval de 2017, com a eleição de Marcelo Calil Petrus Filho (Marcelinho Calil). A nova diretoria sanou as dívidas da agremiação e contratou profissionais gabaritados, como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho Nascimento e Rute Alves. Com um enredo de Edson Pereira sobre personalidades e personagens considerados "geniais", a Viradouro venceu a Série A de 2018, garantindo seu retorno ao Grupo Especial. Para o carnaval de 2019, a escola contratou o carnavalesco Paulo Barros e o diretor de bateria Mestre Ciça. Ambos já tinham passagens pela escola na década de 2000. Com o enredo "Viraviradouro!", de Paulo Barros, sobre histórias encantadas e grandes transformações, tendo como fio condutor a ave fênix, figura da mitologia grega que tem o poder de se regenerar das cinzas, a Viradouro conquistou o vice-campeonato do Grupo Especial, com três décimos de diferença para a campeã, Mangueira. Em 2020, novamente sendo a segunda escola a se apresentar na primeira noite do Grupo Especial, a Viradouro conquistou seu segundo título de campeã do carnaval carioca, quebrando o jejum de 23 anos sem conquistas, com o enredo "Viradouro de Alma Lavada", assinado pelos carnavalescos Tarcisio Zanon e Marcus Ferreira. O desfile teve como destaques a Comissão de Frente, onde a atleta da seleção brasileira de nado sincronizado Anna Giulia Veloso, vestida de sereia, mergulhava em um aquário com sete mil litros de água mineral representando a Lagoa do Abaeté, e o samba-enredo, que fez sucesso nas arquibancadas da Sapucaí pelo refrão "Ó, mãe! Ensaboa, mãe! Ensaboa pra depois quarar".

Devido à Pandemia de COVID-19, o desfile das escolas de samba de 2021 foi cancelado, sendo a primeira vez, desde a criação do concurso, em 1932, que o evento não foi realizado, obrigatoriamente postergando a preparação do desfile para 2022. Com um novo aumento dos casos de COVID no país, devido ao avanço da variante Ómicron no início do ano, o desfile das escolas de samba que ocorreriam no carnaval de 2022 foram adiados para abril do mesmo ano, durante o feriado de Tiradentes. Neste, foi a terceira colocada com um desfile sobre o carnaval de 1919, realizado após a pandemia de Gripe Espanhola. Após o desfile, Marcus Ferreira se transferiu para a Mocidade Independente de Padre Miguel. Tarcísio Zanon foi mantido e assumiu a escola sozinho. Encerrando os desfiles de 2023 com um desfile que narrou a história de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, a Viradouro obteve o vice-campeonato, segundo em quatro anos, ficando a apenas um décimo da Imperatriz Leopoldinense.

Preparação para 2024 Depois do desfile de 2023, a Viradouro anunciou a saída do intérprete Zé Paulo Sierra, após nove carnavais defendendo a agremiação e três títulos conquistados - dois na segunda divisão, em 2014 e 2018, e o campeonato de 2020 no Grupo Especial. Para seu lugar, foi contratado Wander Pires, que estava no Paraíso do Tuiuti. O cantor retorna à escola de Niterói quatorze anos após sua primeira passagem, no carnaval de 2010. Foi a única alteração feita, já que a escola renovou os contratos com os demais membros de sua equipe, incluindo o carnavalesco Tarcisio Zanon, coreógrafos da comissão de frente (Priscilla Mota e Rodrigo Negri), casal de mestre-sala e porta-bandeira (Julinho Nascimento e Rute Alves), diretor de bateria (Mestre Ciça), diretores de carnaval (Dudu Falcão e Alex Fab) e harmonias. No dia 20 de abril de 2023, o tema do enredo da escola para o carnaval de 2024 foi divulgado através das redes sociais. A sinopse do enredo, assinada por Tarcisio Zanon e João Gustavo Melo, foi divulgada pela escola no dia 2 de maio de 2023.

Em 15 de maio de 2023, a escola realizou eleições para diretoria e conselhos. Único candidato inscrito, Hélio Nunes foi aclamado novo presidente da agremiação. Conselheiro e integrante da Velha Guarda, Moacyr Vergas do Amaral assumiu a vice-presidência, cargo ocupado por Nunes há três anos. Sem poder concorrer a um novo mandato devido ao limite imposto pelo estatuto da agremiação, Marcelinho Calil passou a exercer o cargo de diretor-executivo. No dia 21 de junho de 2023 foi sorteada a ordem de apresentação das escolas de samba para o desfile de 2024. A Viradouro foi sorteada para ser a terceira agremiação a se apresentar na segunda noite do Grupo Especial, mas acabou trocando de posição com a Unidos de Vila Isabel e ficou com a sexta e última posição, passando a encerrar a segunda noite como ocorreu no ano anterior. Ao longo das semanas que antecederam ao desfile, a Viradouro realizou diversos ensaios em sua quadra, no Barreto, e na Avenida Amaral Peixoto. Na noite do domingo, dia 4 de fevereiro de 2024, a escola realizou seu ensaio técnico no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Segundo análise do site especializado Carnavalesco, a escola realizou uma apresentação "avassaladora do início ao fim e presenteou o público com um espetáculo completo, tanto sonoro, por conta do belíssimo samba conduzido de forma sublime por Wander Pires, acompanhado de uma bateria em estado de graça, quanto visual, já que a agremiação levou alguns elementos cênicos decorados e alas com vários detalhes para a avenida". Os comentaristas do site SRzd também elogiaram o ensaio, apontando que "a Viradouro mudou o nível de apresentação dos ensaios técnicos". Para a confecção do seu desfile, a Viradouro recebeu cinco milhões de reais da Prefeitura de Niterói; 2,15 milhões da Prefeitura do Rio de Janeiro; 2,2 milhões do Governo do Estado do Rio de Janeiro; além da verba paga pela LIESA.

O enredo miniaturadaimagem|300x300px|Tarcisio Zanon, carnavalesco e autor do enredo. O enredo do desfile, assinado pelo carnavalesco Tarcísio Zanon, com pesquisa de João Gustavo Melo, abordou a história do culto ao vodu Dangbé, representado por uma píton-real, desde a manifestação da energia na costa ocidental da África até a chegada ao Brasil, com a instalação de terreiros na Bahia, pela sacerdotisa Ludovina Pessoa, e a formação do Candomblé Jeje.

A ideia do enredo surgiu durante os preparativos para o carnaval de 2023, quando Tarcísio Zanon conheceu o escritor mineiro Moacir Maia, que estava lançando o livro Sacerdotisas Voduns e Rainhas do Rosário: Mulheres Africanas e Inquisição em Minas Gerais (Século XVIII), junto com o escritor de Aldair Rodrigues. Maia foi convidado para participar do desfile sobre Rosa Maria Egipcíaca e, numa visita ao barracão da escola, contou a Zanon sobre seu livro, despertando no carnavalesco a vontade da fazer um enredo sobre os vodus. Mais tarde, Tarcísio ligou para uma amiga baiana que, por coincidência, namorava uma frequentadora da primeira casa de santo vodu da Bahia, onde conseguiu marcar uma reunião com as lideranças do terreiro.

Tarcísio, o diretor-executivo Marcelinho Calil, o diretor de carnaval Alex Fab e o historiador João Gustavo Melo foram ao Terreiro do Bogum, em Salvador, para uma consulta ao jogo de búzios com Mãe Índia Nadoji, sacerdotisa da casa, para pedirem permissão aos vodus para fazer o enredo em 2024. Os quatro esperavam em uma sala do Terreiro quando Mãe Índia exclamou: "Alafiou!", termo usado no Candomblé como um 'sim' das divindades. Outras lideranças da Nação Jeje também apoiaram o enredo, como é o caso do Ogan Buda de Bobosa da Roça do Ventura. A partir da permissão dos vodus, começou o processo de pesquisa do enredo, que contou com o apoio dos professores Moacir Maia, Luís Nicolau Parés, Hamilton Barbosa, Tadeu Goes, Rennan Carmo, Mejitó Cleber de Bessen e Ivana Muzenza.

Segundo o roteiro oficial do desfile, o enredo "busca uma interconexão com um conjunto de práticas de magias que compõem um legado ancestral trazido ao nosso país por lideranças cujo apagamento faz parte de um projeto colonialista de morte dolosa do pensamento erguido por diversas etnias africanas, fundamentais para a construção cultural e religiosa do que chamamos de Brasil [...] Alguns elementos dispostos no enredo são frutos de estudos acadêmicos de incontestável qualidade. Entretanto, ao lado dessas pesquisas, está a força e a grandeza da sabedoria oral que se cultiva nos terreiros, legítimos museus e bibliotecas do sagrado, instituições constituídas por quem se dedica ao longo de gerações às energias e aos preceitos ancestrais dos Voduns"."Eu costumo dizer que o nosso enredo não tem como pesquisar no Google, ou colocar na inteligência artificial, porque a gente foi cruzando várias informações... informações históricas, registros históricos, documentários, oralidade das pessoas da casa, dos antropólogos, para que a gente conseguisse compilar todas essas ideias e traçar a narrativa".

"Arroboboi, Dangbé" foi dividido em cinco setores:

Setor 1: "O Culto a Dangbé"

miniaturadaimagem|300x300px|Templo vodu das pítons em Uidá, Benim. O enredo começa explicando como surgiu a adoração à serpente. No ano de 1660 houve uma intensa batalha entre os reinos de Aladá e Uidá, territórios vizinhos localizados na costa atlântica da África. Durante o combate, uma serpente atravessou o campo onde estava o exército de Aladá, passando para o lado de Uidá. O grande Sacrificador ergueu o animal para que fosse visto pela tropa inimiga, prostrada diante da serpente. Após intenso ataque, foi consagrada a vitória de Uidá. A serpente passou a ser cultuada pela população de Uidá como símbolo da vitória. A nação vencedora passou a levar oferendas e a realizar grandiosas procissões em direção ao templo erguido para reverenciar a divindade. Mais tarde, a adoração a serpente se uniu ao culto vodu. Jovens eram recrutadas para servir a Dangbé, o vodu-serpente.

Setor 2: "As Guerreiras do Daomé"