miniaturadaimagem|287x287px|Gado advindo da Austrália durante quarentena em Israel antes de seguir para o abate A prática da exportação de animais vivos consiste no transporte de animais para outros países com a intenção de promover o abate ou pastoreio destes no país importador. As regras sanitárias para essa atividade são estabelecidas pelo país destinatário.
Apenas em 2019, cerca de 1,8 bilhões de galinhas, porcos, ovelhas, cabras e bois foram exportados vivos no planeta, o que representa um mercado de cerca de US$20 bilhões, valor este que quintuplicou em cerca de 50 anos. Deste total de animais exportados, foram 18 milhões de bois, 14 milhões de ovelhas e mais de 1,7 bilhões de galinhas. Cerca de 5 milhões de animais estão em trânsito todos os dias para outros países.
Em relação aos bovinos vivos, cerca de 2,4 milhões de toneladas foram exportadas em 2021, movimentando um total de US$9 bilhões, o que representa cerca de 20% de todo comércio internacional de bovinos, contabilizando animais vivos e carne.
No entanto, a prática da exportação de vida animal apresenta controvérsias nos dias atuais devido às más condições de transporte dos animais, trazendo riscos para a atividade, além de crueldade durante a etapa de abate quando chegam ao destino final.
África O Sudão exporta grandes quantidades de animais vivos como ovelhas e camelos, sendo que a maior parte de suas ovelhas são importadas pela Arábia Saudita, enquanto boa parte dos camelos vivos são importados pelo Egito. No ano de 2018, essa atividade movimentou cerca de US$ 500 milhões no país. Em 2019, o Sudão foi o país que mais exportou ovelhas no mundo, chegando ao total de cerca de 3,5 milhões (representando 36,7% de toda a contribuição mundial), enquanto o segundo país que mais importou esse animal foi a Líbia (chegando a 13% do total importado em 2019).
A África do Sul sempre foi um importador relativamente importante de ovelhas, chegando a um total de 119 mil em 2019, sendo a maior parte (94,6%) proveniente da Namíbia (forte parceiro do comércio sul-africano). Por outro lado, antes deste ano, o país sul-africano nunca foi importante em termos de exportação de ovelhas, chegando ao valor de apenas 30 mil por ano. No entanto, após a empresa kuwaitiana Al Mawashi começar a importar ovelhas vivas da África do Sul, houve um aumento expressivo dessa atividade no país.
Acidentes Em 2020, cerca de 3 mil ovelhas oriundas do Sudão morreram após a Arábia Saudita recusar a chegada de uma embarcação contendo 58 mil ovelhas devido a questões sanitárias envolvendo a ausência de aplicação de vacinas. Parte desses animais morreram por fome, sede e algumas se afogaram durante o retorno para o país de origem, sendo que muitas delas morreram ao beber água salgada do Mar Vermelho.
Em 2022, o navio denominado Badr 1 naufragou no porto de Suaquém, no Mar Vermelho do Sudão, levando cerca de 15 mil ovelhas à morte. A embarcação tinha destino para a Arábia Saudita e tinha capacidade para transportar apenas 9 mil animais, segundo a emissora local saudita Al Jazeera. Das 15,8 mil ovelhas presentes no navio, apenas cerca de 700 foram recuperadas com vida. O prejuízo financeiro total foi estimado à época em US$ 4 milhões.
Austrália O comércio de animais vivos na Austrália se expandiu significativamente de acordo com os anos, especialmente em relação aos bovinos. Em 1988, cerca de 81,5 mil bois vivos eram exportados, enquanto em 2015 este número explodiu para cerca de 1,2 milhões e em 2018 para mais de 1 milhão de animais. Por outro lado, a exportação de ovelhas vivas reduziu de 7,1 milhões em 1988 para cerca de 1,2 milhões em 2018. Apesar disso, o valor total da comercialização de bois e ovelhas vivas passou de US$619 milhões em 1988 (valor ajustado para dezembro de 2018) para cerca de US$1,43 bilhões em 2018.
Em 2023, a Austrália exportou mais de 671 mil bovinos e 593 mil ovinos vivos pela via marítima, apresentando um crescimento de 12% para gado e 22% para ovinos em relação ao ano anterior. Os maiores importadores de gado desse país foram a Indonésia, país historicamente que mais importa gado australiano e contabilizou 54% das suas exportações em 2023, seguido do Vietnã (19%), China (12%) e Israel (10%). Os 6% restantes no ano de 2023 foram destinados à Malásia, Jordânia, Brunei, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Kuwait. Em relação aos ovinos, apesar do aumento significativo da exportação em relação a 2022, o valor total é 23% inferior à média de cinco anos dos 772 mil exportados anualmente no país. Os maiores importadores de ovinos australianos em 2023 foram Kuwait (46%), seguindo de Israel (16%), Jordânia (13%) e os 25% restantes ficaram divididos entre Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã. miniaturadaimagem|Embarcação Al-Kuwait carregando ovelhas australianas vivas no porto de Omã
Acidentes No ano de 2014, cerca de 4,2 mil ovelhas morreram devido a estresse térmico em uma embarcação que saiu da Austrália em direção ao Catar e Emirados Árabes Unidos. Este foi considerado um dos piores casos de mortalidade da história recente, totalizando 5,5% de taxa de mortalidade das mais de 75,5 mil ovelhas a bordo do Navio Bader III.
Em 2016, outras 3 mil ovelhas morreram no Navio Al Messilah, que saiu do porto de Fremantle em direção a Doha (capital do Catar). A taxa de mortalidade durante este evento foi de 4,36% do total de 69 mil ovelhas a bordo da embarcação durante a viagem de 22 dias. Apenas no ano de 2016, mais de 15 mil ovelhas morreram antes de chegar a seu destino final durante as atividades de exportação oriundas da Austrália.
Em 2017, mais de 2,4 mil ovelhas morreram a bordo de outro navio que partiu de Fremantle com destino ao Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. A possível causa das mortes está relacionada ao calor intenso na embarcação, que carregava mais de 63 mil animais no momento, totalizando uma taxa de mortalidade de 3,76%. Esse fato provocou a abertura de uma investigação pelo Ministro da Agricultura da Austrália, já que todo carregamento de animais vivos com mortalidade superior a 2% deve sofrer avaliação das autoridades.
Em janeiro de 2024, um navio contendo 16 mil animais vivos, sendo 14 mil ovelhas e 2 mil bovinos, partiu da Austrália com destino à Israel e foi abandonado próximo à costa do país de origem devido às ameaças de ataques dos Houthis. Dia 5 de janeiro, o cargueiro MV Bahijah deixou o porto de Fremantle para navegar até Israel via Mar Vermelho mas devido à escalada da violência marítima, foi abandonado pela tripulação próximo ao porto australiano de Kwinana.
Protestos A Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA) da Austrália afirma que apesar das normas regulatórias para a prática da exportação animal, existem riscos nessa atividade que são completamente inerentes e não podem ser contornados: práticas de abate em jurisdições estrangeiras, estresse relacionado a longas jornadas, alterações das condições climáticas e problemas no manejo dos animais. Além disso, a instituição afirma que é impossível ser garantido que os animais consigam ter o espaço necessário ao mesmo tempo para se deitar a bordo e nem mesmo para ter acesso a comida e água adequadamente.
Em 2008, manifestantes seminus protestaram em um shopping em Sydney contra a exportação de animais vivos e o sofrimento que eles são submetidos devido a essa atividade. esquerda|miniaturadaimagem|251x251px|Panfleto do Animal Justice Party, partido australiano fundado em 2009 e que é contrário à prática da exportação de animais vivos No ano de 2009, foi fundado o Animal Justice Party, um partido político australiano criado devido ao aumento da preocupação coletiva em relação aos maus tratos, abusos e crueldade envolvendo animais não-humanos na Austrália. Dentre as pautas defendidas pelo partido está a abolição completa e imediata da exportação de animais vivos.
O primeiro ministro da Austrália eleito em 2022, Anthony Albanese, afirmou que iria banir a exportação de ovelhas em seu governo mas que iria primeiro consultar os criadores de ovelhas e o Governo da Austrália Ocidental. Sua expectativa era de que isso não ocorreria até o fim de 2025. Assim, em fevereiro de 2023, cerca de cem pessoas se reuniram ao redor de um edifício em que o primeiro ministro australiano se encontrava com criadores de ovelhas. Os manifestantes, boa parte deles do movimento Stop Live Exports, pediram que o governo definisse um prazo para encerrar completamente a atividade da exportação de ovelhas já prometida anteriormente. miniaturadaimagem|Em junho de 2019, manifestantes se reuniram na King George Square em Brisbane contra a exportação de animais vivos na Austrália
Brasil
O Brasil possui sua atividade de exportação de animais vivos regulamentado por meio do Ministério da Agricultura e Pecuária, por meio de uma Instrução Normativa nº 46 de 2018. No ano de 2017, o país exportou mais de 22 milhões de animais vivos, representando valores em torno de R$ 1,2 bilhões.
Em relação apenas aos bovinos vivos, o Brasil exportou em 2021 cerca de 53 mil animais, representando cerca de 1,5% do total exportado mundialmente naquele ano. Este valor se contrasta com a exportação de carne bovina brasileira, que é uma das maiores do mundo (em torno de 19% das exportações do mundo).
Acidentes Em outubro de 2015, o Navio Haidar, de bandeira libanesa, afundou no Porto de Barcarena no estado do Pará com cerca de 5 mil bois vivos e 700 toneladas de óleo. Todos os animais morreram no acidente e houve impactos socioambientais para a região, ocorrendo interdição das praias e proibição de atividades econômicas do ambiente afetado pelo adernamento do navio.
Em 2018, ocorreu a queda de dois bois no mar após embarque do Navio FM Spiridon, com capacidade para 5 mil bovinos, no Porto de São Sebastião. Após resgate imediato destes animais e posterior avaliação dos veterinários, eles seguiram viagem com destino à Espanha. Poucos dias depois, mais um boi caiu no mar durante embarque do Navio Adelta, que continha de 5 mil animais, no Porto de São Sebastião. O boi ficou cerca de seis horas no mar até que um veleiro o resgatou na cidade vizinha de Ilhabela e rebocou o animal até a Praia das Cigarras em São Sebastião. Após avaliação de veterinários responsáveis pela embarcação atestando boas condições físicas do animal, ele retornou ao navio e seguiu viagem para o Oriente Médio.
Protestos Em 2018, durante carregamento de mais de 27 mil bois para o Porto de Santos no Estado de São Paulo, manifestantes protestaram em contra a atividade de exportação de animais vivos ao serem encontrados indícios de que os animais chegaram doentes, machucados e cobertos de fezes no porto. Ativistas tentaram bloquear a entrada dos caminhões carregados com os bovinos na área portuária, mas os animais conseguiram embarcar no navio Nada com destino à Turquia. A Justiça do Brasil chegou a suspender a atividade de exportação de animais vivos em qualquer porto brasileiro por meio de decisão do juiz Djalma Moreira Gomes. No dia 5 de fevereiro, no entanto, o navio seguiu seu destino em alto mar após o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região suspender a liminar que proibia a atividade temporariamente.
Grã-Bretanha miniaturadaimagem|233x233px|Ovelhas sendo carregadas no Reino Unido para exportação até a Austrália nos anos 1950 Durante os anos 1960 e 1970, a exportação de animais vivos da Grã-Bretanha cresceu substancialmente. A exportação de ovelhas variou de 85 mil para 411 mil animais entre 1960 e 1980, enquanto o embarque de porcos, que variou entre 30 a 60 mil animais por ano nos anos 1970, atingiu o pico de 619 mil indivíduos em 1982.