Maria Julieta Guimarães Gandra (Oliveira de Azeméis, Oliveira de Azeméis, 16 de setembro de 1917 – Lisboa, 8 de Outubro de 2007) foi uma médica portuguesa, antifascista, anticolonialista, ativista política e ativista social. Presa pela PIDE por apoiar a Independência de Angola, foi a "Prisioneira de Consciência de 1964" nomeada pela Amnistia Internacional e a primeira vez que esta distinção foi atribuída a uma pessoa de nacionalidade portuguesa.
Percurso Nasceu na freguesia e concelho de Oliveira de Azeméis, a 16 de setembro de 1917, filha de Aurora Rocha Guimarães Gandra, doméstica, e do comerciante Mário Pereira Gandra, naturais de Oliveira de Azeméis. Formou-se em Medicina em Lisboa onde conheceu Ernesto Cochat Osório (Remédios, Luanda, África Ocidental Portuguesa, c. 1917 – Faro, 2002), médico e poeta, com quem casou civilmente a 30 de julho de 1942, filho do comerciante Eduardo Augusto Osório Ferreira, natural de Tabuaço, e de Emilia Cochat Osório, doméstica, espanhola, natural de Salamanca. Em meados da década de 1940, trocaram Portugal pelo território ultramarino de Angola onde se instalaram com o filho, Miguel, nascido em 1944. Por sentença transitada em julgado a 2 de dezembro de 1952, divorciaram-se litigiosamente.
Angola Em Luanda, Julieta Gandra exerceu a profissão de ginecologista, com um consultório no centro da cidade, para mulheres da elite colonial branca. Praticava medicina social, em simultâneo, atendendo graciosamente as mulheres angolanas dos musseques, zonas pobres da cidade, no Posto Médico do Botafogo Futebol Clube, dirigido por Lopo do Nascimento e situado no Bairro Indígena.
Socialmente, misturou-se com intelectuais e ativistas portugueses e angolanos que frequentavam o Cine-Clube de Luanda, cinema ao ar livre, e integravam a Sociedade Cultural de Angola (SCA), na génese do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), como Alfredo Bobela da Motta, Manuel Alfredo Tito de Morais, Agostinho Neto, Lúcio Lara e Paulo Teixeira Jorge. Durante a campanha eleitoral para as presidenciais de 1958, num comício de apoio ao líder da oposição Humberto Delgado, dirigiu-se, no início do seu discurso, às "mães negras".
Acusada de conspirar contra a segurança externa de Portugal, de ser membro do Partido Comunista Português, de financiar o MPLA e de ter convidado um membro do MPLA para jantar, foi presa em Agosto de 1959 e detida num hospital psiquiátrico enquanto aguardava julgamento. Foi julgada com outros arguidos, num processo considerado como o primeiro julgamento político de nacionalistas angolanos, conhecido como o “Processo dos 50”, por ter a intenção de “separar, por meios violentos ou ilegais, o território de Angola da Pátria". Não foram apresentadas provas e o seu advogado não foi autorizado a sair de Lisboa para defendê-la em Luanda. Inicialmente condenada a um ano de prisão, viu a sua pena ser aumentada para três anos após recurso do Governo.
Durante o período em que Julieta Gandra esteve presa, uma cidadã portuguesa, no sexto mês de gestação, dirigiu-se às instalações da PIDE, em Luanda, para exigir continuar a ser acompanhada pela médica até ao parto. As autoridades coloniais acabaram por ceder, permitindo-lhe que visitasse a residência da gestante sob escolta policial. Assim que a notícia se espalhou, outras mulheres exigiram o mesmo apoio, visto ser a única ginecologista em Angola colonial, forçando a PIDE a autorizar a sua saída da prisão para realizar partos em várias ocasiões .
Prisão em Lisboa Julieta Gandra recorreu da sentença de três anos de prisão, o que motivou a sua transferência para Lisboa para novo julgamento. Contudo, o Tribunal da Relação acabou por agravar a pena para quatro anos, cumpridos na Prisão de Caxias. Em 1964, foi reconhecida como "Prisioneira de Consciência do Ano" pela Amnistia Internacional. Segundo esta organização, “não seria possível encontrar melhor exemplo de ser humano que, dedicando-se ao trabalho pacífico e nunca tendo praticado ou defendido o uso da violência, tenha sido sujeito à brutalidade arbitrária do Estado pelas suas opiniões e convicções”. A Amnistia Internacional insistiu em verificar as condições da sua detenção e saúde e pressionou o governo do Estado Novo.
Libertação e vida posterior Com apoio jurídico do futuro Presidente de Portugal, Mário Soares, foi libertada em julho de 1965 e estabeleceu-se em Lisboa. No seu consultório da Rua Manuel da Maia, empregou temporariamente Aida Paula, antiga companheira de cela na Prisão de Caxias.
Destacou-se como pioneira na introdução e defesa da pílula contracetiva oral no país, sustentando a premissa de que as mulheres tinham direito ao prazer sexual desvinculado da reprodução. Paralelamente, a sua residência funcionou como núcleo de reunião de opositores anticoloniais, atraindo a monitorização contínua da polícia política. Num episódio que ficou célebre, ao chegar ao prédio onde residia com sacos de compras pesadas, Julieta Gandra persuadiu o agente da PIDE destacado para a vigiar a transportá-los até ao seu apartamento num 4° andar sem elevador.
Viveu com Fernanda Paiva Tomás de 1970 à morte prematura desta, em 1984, depois de se terem conhecido na Prisão de Caxias e iniciado uma relação homossexual, assumida e consumada na cela, perante o escândalo da maioria das militantes comunistas presas na mesma cela, entre as quais, Aida Paula, Maria Alda Nogueira, Maria Eugénia Varela Gomes, Ivone Dias Lourenço, Maria Luísa Costa Dias, Maria da Piedade Gomes dos Santos, Maria Ângela Vidal, Maria Albertina Diogo, Luísa Paula e Maria Regina Dias Carvalheiro.
Após a Revolução dos Cravos e com o fim do Estado Novo, teve lugar em sua casa a primeira reunião para planear a primeira manifestação anticolonial em Lisboa. Esteve presente na assinatura do Acordo de Alvor que concedeu a independência a Angola e instalou-se novamente na antiga colónia com a sua companheira para preparar o Serviço Nacional de Saúde de Angola. No entanto, com o declínio do seu estado de saúde, provocado por um edema pulmonar, regressou definitivamente a Portugal em 1977.
Morreu aos 90 anos, a 8 de outubro de 2007.
Notas
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