A língua fijiana (Na vosa vaka-Viti) é uma língua austronésia, do ramo pacífico central das línguas oceânicas, falada em Fiji. No final do século 20 estimava-se que a língua fosse falada por aproximadamente 366,000 fijianos como língua nativa ou segunda língua.
O fijiano padrão é uma variedade do fijiano oriental baseado no dialeto falado na ilha de Bau. Segundo a Constituição de 2013 de Fiji, o fijiano é, junto com o inglês e o hindi fijiano, as línguas oficiais do país, tendo como compulsório o seu ensino em escolas primárias.
Etimologia O nome nativo dado ao fijiano padrão é na vosa vaka-Viti. Na representa um artigo definido, vosa significa fala, enquanto que vaka-Viti é composto pela partícula vaka e por Viti, o nome nativo de Fiji; vaka, nesse contexto, significa algo como "no estilo de X" ou "à moda de X". Portanto, vaka-Viti significa, literalmente, "no estilo de Fiji" ou "fijiano".
Distribuição O sistema linguístico do fijiano constitui um continuum dialetal, no qual as variedades faladas em cada extremo não são mutualmente inteligíveis. A partir disso, em termos gerais, é considerada a existência de duas línguas distintas no arquipélago, o fijiano ocidental e o fijiano oriental, do qual a variedade falada na ilha de Bau é considerada como fijiano padrão. O fijiano de Bau foi escolhido como a variante padrão por questões pragmáticas: o chefe Cakobau da ilha de Bau unificou o arquipélago de Fiji, estabelecendo o reino de Fiji, governando como rei.
Em dialetos como o de Vanua Levu e Somosomo o fonema sofre lenição, se tornando uma oclusiva glotal, , como na palavra waka, que se torna wa'a. Já na variedade de Macuata, esse mesmo fenômeno ocorre com o fonema com tamata se tornando 'ama'a . Em partes de Vanua Levu, o som [ⁿd] se torna [t], desse modo, palavras como ['βuⁿdi] "banana", se torna ['βuti]; ['ⁿduru] "joelho", se torna ['turu]; e [ⁿda'tou] "nós", se torna [ta'tou].
Já a diferença entre as variedades do fijiano ocidental e as do fijiano oriental é bastante representativa, como demonstrado na tabela abaixo: Português Fijiano padrão Fijiano ocidental Casa Vale Were, sui Fogo Buka Quia Vida Bula Cola Ódio Ceita Burasia Doente Baca Raraci Mau Ca Bura
Fonologia
Vogais
+Fonemas vocálicos do fijianoAnteriorCentralPosteriorFechada Semiaberta Aberta
Consoantes + Inventário consonantal do fijiano Bilabial Labiodental Dental Alveolar Pós-alveolar Palatal Velar Glotal Plosiva desvozeada pré-nasalizada Nasal Africada desvozeada vozeada Fricativa desvozeada vozeada Vibrante múltipla pré-nasalizada Aproximante
Os fonemas [p], [f] e [tʃ] são fonemas presentes apenas em empréstimos. O mesmo pode ser dito dos fonemas [h] e [ⁿdʒ], que só se tornaram representados no alfabeto fijiano posteriormente.
Em certos dialetos do fijiano, como no dialeto de Boumaa ou no de Lakeba, o som de ti e di são palatalizados, se transformando, respectivamente, em [tʃi] e [ⁿdʒi]. Da mesma forma, em alguns dialetos como os de Boumaa, Cakaudrove, Vanua Levu e Taveuni o som de [k] no fijiano padrão se torna uma oclusiva glotal ([ʔ]).
Fonotática Uma sílaba no fijiano se organiza como (C)V(V), sendo C qualquer consoante e V uma vogal, sendo que VV pode ser uma vogal longa ou um ditongo. As únicas palavras que contém consoantes e começam com uma vogal longa são empréstimos, como é o caso de āpolo "maçã" (do inglês "apple"). Palavras com consoantes não podem começar com um ditongo, enquanto existem palavras formadas apenas por uma vogal longa ou um ditongo, como ō "nuvem" ou au, marcador de sujeito na primeira pessoa do singular. Poucas palavras começam com vogais curtas; dessas, a vogal mais comum é u, seguida por o, i, a e e, respectivamente. Palavras com vogais curtas na última sílaba não possuem vogais longas na penúltima sílaba.
As vogais a, e e o seguidas de i e u e i seguido de u sempre constituirão ditongos, uma vez que /i/ > [j] e /u/ > [w] quando ocorrem depois de vogais. Já as sequências ua, oa, ea, ia, ui, ue, io e ao sempre constituirão duas sílabas diferentes. A combinação ae só existe enquanto interjeição. Por fim, as sequências uo, oe, eo e ie não ocorrem em instância alguma.
Prosódia No fijiano, a tonicidade se organiza em torno de um sistema de pitch-accent, no qual a sílaba tônica apresenta um tom mais alto que nas demais sílabas. A tonicidade principal recai sobre a penúltima mora. Palavras longas apresentam tonicidade secundária nas quartas e sextas moras contadas a partir do final da palavra. Uma sílaba bimoraica será tônica em sua totalidade. Dessa forma, vogais longas e ditongos sempre serão tônicos por conterem duas moras. A tonicidade de uma palavra pode variar com a inserção de sufixos. Exemplos: Butá'o "Roubar"; Caùravóu "Juventude"; Bùta'ó-ca "Roubar-sufixo transitivo".
Ortografia Desde os primeiros contatos com a língua fijiana, linguistas ocidentais desenvolveram diferentes sistemas de ortografia para o fijiano. O sistema que é empregado até os dias de hoje para escrever o fijiano foi desenvolvido pelos missionários metodistas David Cargill e William Cross em 1835, com poucas alterações até a atualidade. Baseados na ortografia então vigente do tonganês, e percebendo que no fijiano não são permitidos encontros consonantais, Cargill e Cross estabeleceram um sistema de uma letra para cada fonema, exceto com o dígrafo dr, que representa o som /ⁿdʳ/. O fijiano não distingue ortograficamente vogais curtas das vogais longas, distinção reservada para os gramáticos, que para a notação das vogais longas usam um mácron ou duplicam a letra da vogal.
Dessa forma, a ortografia do fijiano se consolidou como:
Ortografia Fonema Aproximação no português B mb em "âmbar" C th em "then", do inglês D nd em "andar" DR ndr em "salamandra" F f em "filho" G n em "flamingo" H r em "rato" J ch em "Che Guevara" K c em "camisa" L l em "limpo" M m em "mundo" N n em "nome" P p em "país" Q ng em "manga" R r em "perro", do espanhol S s em "sono" T t em "tatu" V b soprando como se fosse f W l em "igual" Y i em "iogurte" Z ndi em "indígena"
Gramática
Pronomes O fijiano reconhece três pessoas gramaticais: a primeira pessoa, o falante; a segunda pessoa, o interlocutor; e a terceira pessoa, o referente. Ademais, a língua distingue quatro números: singular, em que se refere a somente uma coisa; dual, em que se refere a duas coisas; paucal, em que se refere a poucas coisas; e plural, em que se refere a muitas coisas. Não existe uma distinção fixa entre paucal e plural, a maneira com que se utilizam e diferenciam esses dois números varia de contexto. Além disso, a língua fijiana apresenta clusividade, isto é, a primeira pessoa apresenta uma distinção entre inclusiva, que inclui o interlocutor, e exclusiva, que não inclui o interlocutor.
+Pronomes pessoais do fijianoPessoaNúmerosingulardualpaucalplural1INCLsujeito(e)daru((e)da)tōū(e)daobjetokēdarukedatōūkedacardinalkēdarukedatōūkeda1EXCLsujeitoāūkēīrāūkēītōūkēīmamiobjetoāūkēīrāūkēītōūkēīmamicardinalyāūkēīrāūkēītōūkēīmami2sujeitoo (o)drāū(o)dōū(o)nīobjetoikokemudrāūkemudōūkemunīcardinaliko kemudrāū kemudōūkemunī3sujeitoe(e)rāū(e)ratōū(e)raobjetoarāūiratōūiracardinala(i)rāū(i)ratōū(i)ra
Substantivos Derivação Existem, na língua fijiana, cinco prefixos que, quando adicionados à raiz de um tipo gramatical, originam uma palavra derivada de outro tipo. Estes são:
Vei-: Confere à palavra o sentido de coletivo. E.g.:
Vei-koro "Toda vila".
Vei-vale "Toda casa".
Vei-kā "Muitas coisas".
Vaka-: Este prefixo é bastante versátil. Quando usado antes de um som velar, apresenta a forma vā-. Quando usado em um substantivo, pode derivar um advérbio, um verbo, ou até mesmo outro substantivo. Quando deriva um advérbio, involve geralmente nomes de localidades, substantivos que se referem a lugares e chefes. O afixo pode derivar um verbo intransitivo de um substantivo com um sentido como de "usar", "ter" ou "fazer". E.g.:
Ilokoloko "almofada" → Vaka-ilokoloko "usar uma almofada".
Kolī "cachorro" → Vaka-kolī "ter um cachorro".
Ilavo "dinheiro" → Vaka-ilavo "ser rico".
I-: Ao ser adicionado a um verbo, o prefixo deriva um substantivo que descreve o instrumento, o lugar da atividade, o resultado da atividade ou a atividade em si. E.g.:
Sele "cortar" → I-sele "faca.
Cula "furar" → I-cula "agulha".
Kaba "Subir superfície íngreme" → I-kabakaba "escada".
Dāū: Quando acoplado a uma raiz verbal, deriva um substantivo que significa algo como "mestre em X". E.g.:
Dāū-siwa "Pescador exímio.
Dāū-butako "Ladrão excelente".
Kai: Esse prefixo pode ser adicionado ao nome de qualquer localidade e derivar um substantivo comum que descreve alguém que vem daquele lugar. E.g.:
Kai-Boumaa "pessoa de Boumaa".
Kai-Toga "tonganês".
Kai-Peritānia "britânico".
Reduplicação A maioria das raízes lexicais são dissílabos, se forem monossílabos, devem conter uma vogal longa ou um ditongo. As que contém mais sílabas as obtiveram através de processos de reduplicação e de composição de palavras.
Existem uma série de processes de reduplicação no fijiano, se aplicando a números, adjetivos e verbos. Algumas raízes existem apenas na forma reduplicada, sem um correspondente não-reduplicado, como é o caso de manumanu, "ave" ou "animal", e yanuyanu, "ilha". Mais frequentemente, existe o correspondente não-reduplicado, com o qual se estabelece uma relação semântica, como em wai, "água" ou "líquido" e waiwai, "óleo"; vula, "Lua" ou "mês" e vulavula, branco; Kilā, "saber" e kilakilā, "adivinhar".
Relações de posse O fijiano permite a representação de uma miríade de relações de posse, cujo uso apropriado para cada contexto depende da natureza do possuidor e do possuído. Os substantivos, nesse contexto, se dividem em dois grupos: livres e subordinados, que, em linhas gerais, correspondem à posse alienável e inalienável descrita em outras línguas, isto é, os substantivos livres podem ser usados sem afixos que denotem posse, enquanto que os subordinados sempre conterão um sufixo de posse, como é o caso com partes do corpo e termos de parentesco.
Para representar a forma possessiva, são empregados dois morfemas, o primeiro representando o tipo de posse e o segundo representando pessoa, número e clusividade. Segue abaixo uma tabela com os marcadores de número, pessoa e clusividade do possuidor:
+ Marcadores de pessoa-número em construções possessivas Singular Dual Paucal Plural 1ª pessoa exclusivo -qu -irāū -itōū -imami inclusivo -daru -datōū -da 2ª pessoa -mu -mudrāū -mudōū -munī 3ª perssoa -na -drāū -dratōū -dra
Existem quatro marcadores possessivos alienáveis que representam o tipo de posse, sendo os três primeiros relacionados ao possuído e o último, ao possuidor. São estes:
Mē: Representa uma relação entre possuidor e possuído em que o último é uma entidade bebível. E.g.:
Na me-na tī "o seu chá".
Na me-na yakona "a sua kava".
Quando combinado ao i, permite que o substantivo próprio sirva de possuidor. E.g.:
Na tī me-i Paula "O chá de Paula".
Na ota me-i Pita "O ota de Pita".
Kē: Representa uma relação entre possuidor e possuído em que o último é uma entidade comestível. E.g.:
Na ke-na yuvi "o seu inhame".
Na ke-na raisi "o seu arroz".
Quando combinado ao i, permite que o substantivo próprio sirva de possuidor. E.g.:
Na dalo ke-i Tōmasi "O taro de Tōmasi".
Na uvi ke-i Mārika "O inhame de Mārika".
Nō: Representa uma relação entre possuidor e possuído em que o último não é uma entidade bebível nem comestível. E.g.:
Na no-na waka "a sua canoa".
Na ko-na motokā "o seu carro".
Quando combinado ao i, permite que o substantivo próprio sirva de possuidor, sendo ne-i a forma resultante. E.g.:
Na vale ne-i Pita "a casa de Pita".
Ni: Uma frase ni é, em si, uma frase nominal, modificando um substantivo ao indicar uma relação entre dois substantivos. Além disso, são todas indefinidas. Pode indicar função ou estreitamento semântico. E.g.:
Vale ni kana "restaurante" (literalmente, casa para comer).