Pastoril ou pastorinhas, baile pastoril, lapinha e presépio são termos utilizados no Brasil para designar um folguedo, com música e dança encenando a jornada dos pastores a caminho de Belém, para louvar o Menino Jesus e a Sagrada Família. A passagem referente na Bíblia está no Evangelho de São Lucas 2: 8-21. A ideia central da festa popular, era recriar uma natureza idealizada, associada à revelação e à esperança na transformação humana pelo amor.
A encenação incluía ofertas, louvores e pedidos de bênçãos. É a partir destes cantos e louvações diante do presépio que os pastoris, ao longo do tempo, evoluem para autos - pequenas peças teatrais de sentido apologético, com enredo próprio dividido em episódios. A cantoria e o bailado têm maior importância em relação à parte declamada, seja nas demonstrações mais singelas, como apresentações de algumas cenas cantadas diante dos presépios, seja nas apresentações de autos com elevado número de figurantes.
O Pastoril é uma manifestação cultural difícil de se definir e categorizar. Isto porque, além de muitas fontes de estudo serem informais e extraoficiais, ele apresenta características e elementos de dicotomias clássicas: popular/folclórico, sagrado/profano, popular/erudito e rural/urbano. Possui muitas características da vida rural, mas desenvolveu-se também em cidades. Coexiste numa superposição de períodos históricos e culturas, com forças seculares e religiosas convivendo. O Pastoril como gênero musical surgiu no Brasil a partir da mútua influência das culturas presentes na época da colonização. A idealização da natureza e da família se misturavam ao catolicismo popular.
Dentre pesquisas e trabalhos escritos, Mário de Andrade relaciona os pastoris brasileiros ao conceito de "Danças Dramáticas", elaborado em 1934. O autor agrupava nesta classificação os ritos populares em que havia ação teatral seguida de enredo, caracterizados por elementos coreográficos. Alguns dos aspectos mais interessantes apontados por ele são: impulso religioso inicial, a associação de canções, danças e teatro tendo como objetivo contar uma história e, por fim, a coexistência de elementos cultos e populares.
Nomenclaturas no Brasil A denominação muito comum "pastoril", em especial na região nordeste do Brasil, Sobretudo em Pernambuco e Alagoas, foi usada por Gil Vicente em vários de seus autos. Entretanto, os nomes dados a esta e outras apresentações festivas natalinas similares podem variar bastante de acordo com a região. No Maranhão, é chamada de "Pastoral" uma dramatização similar às "Pastorinhas" da região sudeste. Na Paraíba e Rio Grande do Norte, os termos "presepes" e "lapinhas" podem designar os grupos que apresentam ao vivo a dramatização do evento. Nestes estados pode também haver distinção entre "lapinha" (grupos mais autênticos e de caráter religioso) e "pastoril" (de caráter profano). Na Bahia, as apresentações ocorrem principalmente na Noite de Reis, sendo os "Ternos" as apresentações com espírito natalino, com figurantes representando a adoração na Lapinha, enquanto "Ranchos" são aquelas de caráter mais profano. Na região sul, tem-se "Ternos de Reis" mais relacionados à comemoração da visita dos Reis Magos à manjedoura. No Rio de Janeiro e estados limítrofes, como Minas Gerais, ocorrem também as Folias de Reis. Quanto ao termo "reisado", mais genérico, pode designar qualquer representação na época entre o Natal e o Dia de Reis.
Origens Por volta do dia 21 de dezembro, ocorre o solstício de inverno no hemisfério norte. O sol atinge o ponto mais fraco no hemisfério norte para então começar a ganhar força novamente, com os dias ficando mais longos. Nessa época, acontecem as saturnálias e os pedidos de farta colheita. Nesse ambiente de paganismo nasce o Cristianismo, negociando ou vivendo numa mistura com credos diversos.
Há relatos que contam que São Francisco de Assis, em 1223, obteve licença do papa e criou uma gruta com animais e imagens da Virgem Maria e do Menino Jesus. Ali, encenou a Natividade e celebrou missa, tendo frades e camponeses da localidade com público.
Na Idade Média, época em que poucos sabiam ler, a catequese e o ensinamento das escrituras sagradas era realizado por meio de recursos visuais e por meio de apresentações teatrais. Tal como o ano religioso, o teatro medieval dividia-se em dois grandes ciclos: Natividade e Paixão. Os pastores aparecem vinculados ao primeiro ciclo.
Motivos pastorais aparecem também no repertório dos trovadores, que espalharam sua literatura pela Europa, inclusive na Península Ibérica. O teatro ibérico apresentava personagens estereotipados, falas com duplo sentido e também figuras de pastores com suas falas características. Os pastoris brasileiros apresentam muitas das características do teatro ibérico, com canções, danças e partes faladas.
No Brasil e mais precisamente em Pernambuco, segundo Pereira da Costa, o aparecimento do presépio e dos autos natalinos vem, talvez, dos fins do século XVI, no Convento dos Franciscanos em Olinda, por iniciativa de Frei Gaspar de Santo Antônio, primeiro religioso a receber hábito no Brasil
Os autos natalinos foram trazidos ao Brasil pelos padres da Companhia de Jesus. Não existem relatos sobre apresentações de pastoris no Brasil nos séculos XVII e XVIII. Apenas no século XIX é que ocorre grande quantidade de bailes pastoris, principalmente nos estados de Pernambuco, Bahia, Alagoas e Paraíba. No século XIX, o pastoril passa a fazer parte da cultura popular urbana com mais intensidade. Sua popularidade decresce no fim daquele século e quase desaparece no século XX. Na forma e no estilo mais conhecidos, no século XIX, o pastoril emergiu como evento popular, acompanhando a diversificação dos grupos sociais resultantes do crescimento especialmente das cidades costeiras do Nordeste do Brasil.
esquerda|miniaturadaimagem|O Descanso do Pastor (cerca de 1757–1804), obra de Pietro Jacopi Palmieri. Coleção do Metropolitan Museum of Art.|331x331px
Tipos de enredos Na sua longa história, a tradição pastoral tem servido a uma variedade muito grande de públicos e de propósitos artísticos. A suavidade e pureza que os temas bucólicos exprimem têm tal força de envolvimento e receptividade que, por séculos, ocuparam lugar especial na literatura. A abordagem do drama ou da poesia dos enredos lembra a doçura, a simplicidade, os encantos das vidas contemplativas dos pastores. Desde logo, tem-se duas categorias de enredos: a sacra e a profana. Ou seja, os enredos dos autos pastoris podiam apresentar temas idílicos, doutrinários, religiosos, mas também abordar temas relacionados a conflitos do período em questão - como a escravidāo, no século XIX. Podem-se citar como outros exemplos de enredos: a renúncia ao poder em prol da vida no campo; descrições de cenas e vida rurais; a volta à natureza; um mouro que prende pastoras, evitando que sigam para Belém.
Tipos de textos A musicóloga Mércia Pinto classificou os textos dos pastoris em quatro tipos:
Pastorais Visam encenar a Noite de Natal e seu discurso contém pureza, inocência, idílio, atmosfera pastoral, tranquilidade, emoções moderadas, ausência, tal como surpresas ou desacordos.
Épicos
Prevalecem as conceituações morais, com argumentos grandiloquentes e linguagem com caráter doutrinal. A atmosfera é fantasiosa, o mundo é visto como palco de ações heroicas. Os assuntos principais são: cosmologias, profecias, parábolas, redenção e conversão. Os heróis se caracterizam pela grandeza de ideais e pela nobreza de caráter e buscam convencer os demais da superioridade do espírito.
Paródicos
Os enredos abordam aspectos marginais da vida, quebra de regras, fatos do cotidiano. Podem apresentar personagens como: mulher puritana, marido enganado, aleijado, surdo, padre namorador. A atmosfera contém ironia, sarcasmo, marginalidade.
Personagens Dependendo do enredo e texto de cada grupo ou mesmo de cada espetáculo, os Pastoris podem apresentar variados personagens. Entretanto, podemos considerar que as personagens principais são:
Pastoras
Personagens mais importantes, ocupam o maior espaço do evento. Contribuem com individualidade e personalidade para a atmosfera pastoral do cenário, mesmo quando a jornada a Belém não é explícita. Na festividade popular, fazem o coro das músicas, podendo usar castanholas ou tamborim. Entretanto, vale observar que a coreografia, as canções e sua função fora do palco muitas vezes eram controladas por homens. As vestes apresentaram múltiplas mudanças ao longo do tempo. Com a vinda do Carnaval de Veneza, muitas fantasias chegaram ao Brasil, como a de pastora europeia. As vestimentas antigas passam por modificações, a dança assume caráter sensual e carnavalesco, sendo posteriormente incorporada aos cortejos de escolas de samba. O Cinema, que configura novos mitos femininos, também influencia na recriação da imagem de pastora. Para o musicólogo Renato Almeida, o mais significativo no pastoril é o fato das pastoras serem o elemento básico na função coro, atuando como um personagem. Pastor ou Velho
Apesar de ter menos destaque que as pastoras, o pastor é personagem relevante, líder e condutor do caminho para Belém. Às vezes é um velho que se apaixona por uma das pastoras. Nos pastoris mais ligados à prostituição, o velho pastor era palhaço que interpretava papéis masculinos, sendo algumas vezes um empresário das pastoras, "arranjando encontros" para elas.
O Velho Faceta é um exemplo mais recente de pastor-palhaço, personagem que era interpretado pelo pernambucano Constantino Leite Moisakis (1925-1986). Segundo o acordeonista Zé Cupido, "todos os Pastoris com palhaço que existem hoje, têm no Velho Faceta sua inspiração maior". Outros Velhos de Pernambuco, com nomes de seus respectivos intérpretes entre parêntesis: Velho Xaveco (Antônio Coutinho), Velho Dengoso (José Justino), Velho Barroso (José Menezes) e Velho Faceta de Goiana (Constantino Leite Moisakis). No Pastoril de Dona Joaquina São Gonçalo do Amarante, Rio Grande do Norte, há a atuação de Xapuleta (Alex Ivanovich).Santos, Ivanildo Lubarino Piccoli dos. Os palhaços das manifestações populares brasileiras: Bumba Meu Boi, Cavalo Marinho, Folia de Reis e Pastoril Profano. Dissertação (mestrado) Universidade Estadual Paulista – UNESP-São Paulo. 2008, p. 114.
Alegorias As alegorias simbolizam fenômenos naturais, estados de espírito, animais. Aparecem em enredos grandiloquentes, com mitologia, virtudes da Teologia, grandes abstrações humanas. Mais tarde, na primeira parte do século XX, as alegorias aparecem nos desfiles dos ranchos carnavalescos. A Pastorinhas de Pirenópolis, por exemplo, a Fé, a Esperança, a Caridade e a Religião dentre seus personagens.
Alguns grupos Pastoris em atividade Seguem abaixo alguns grupos pastoris em atividade atual ou recente. Na maior parte dos exemplos, tem-se pastoris de caráter religioso, com cordão azul e encarnado.
Lapinha Santa Clara, Juazeiro do Norte (CE) Foi fundada em 1912 por Mestra Teodora Clarindo de Magalhães, em Juazeiro do Norte, Ceará. A tradição vem sendo passada de geração a geração. Após a morte de Teodora, a Lapinha foi assumida por Maria Pereira da Silva, Mestra "Tatai", reconhecida em 2006 como Tesouro Vivo da Cultura do Estado do Ceará, pelo governo do estado. Teodora Clarindo, mãe de Tatai, aos 12 anos de idade já liderava um grupo de Lapinha, encorajada por Padre Cícero. Tatai (1927-2009), por sua vez, estreou no grupo aos dois anos de idade e, aos dezenove anos, passou a ajudar a mãe na liderança. Com Tatai, o grupo usava as cores verde e branco - cores do time de futebol local, o Icasa. Atualmente, a liderança está a cargo de Maria Vanda Pereira da Silva, filha de Tatai, e de seu marido, Damião Felipe Gomes. O grupo conta com a participação de 30 a 40 crianças e voltou a usar as cores tradicionais: vermelho, azul e branco.
Pastoril Céu na Terra, Rio de Janeiro (RJ)