Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation (em português: Calibã e a Bruxa: As mulheres, o corpo e a acumulação original) é um livro da autoria de Silvia Federici de 2004. Escrito em resposta às tradições feministas e marxistas, o livro oferece uma crítica alternativa à teoria da acumulação primitiva de Karl Marx, através da análise histórica do papel de gênero, da família e da sociedade patriarcal ao longo dos séculos até à ascensão do capitalismo.
O título do livro faz referência à obra A Tempestade de William Shakespeare e às personagens Caliban e a sua mãe, a bruxa Sycorax. Temas miniaturadaimagem|266x266px|Mulheres condenadas à forca pelo crime de bruxaria em Inglaterra (gravura da autoria de Ralph Gardiner, 1655) O livro aborda diferentes períodos da história começando por, logo no primeiro capítulo, analisar o período medieval como o berço da história da luta entre a plebe, a nobreza e o clero - incluindo como em certos países, a nobreza intensificou a misoginia para destronar qualquer hipótese de rebelião das classes mais pobres ao longo do eixo do sexo, para além de ter criado e aprofundado a estigmatização de outras religiões ou seitas, consideradas então heréticas, que pudessem proporcionar uma maior autonomia feminina e liberdade sexual.
Através dessa análise são abordados conceitos como a divisão do trabalho, o papel das mulheres nos regimes feudais e o impacto das tentativas de resistência e revolta dos servos contra os proprietários de terras, tais como a Revolta dos Camponeses Ingleses de 1381 ou ainda a Guerra dos Camponeses Alemães entre 1524 e 1525, para além de construir um racíocinio lógico entre o papel dos servos revoltosos com o surgimento de novos cultos, seitas ou movimentos político-religiosos, como o Bogomilismo, Cátarismo, Valdenses e Taboritas.
São ainda apontadas como algumas políticas discriminatórias foram legalizadas, prejudicando e atrasando cada vez mais a luta pela igualdade de género, como quando em 1300, tanto em França como em Veneza, foi legalizada a violação de mulheres proletárias, e de 1350 a 1450, foram criados bordéis financiados por impostos públicos. A autora propõe que a nobreza usava estas medidas para que os homens proletários descarregassem as suas frustrações sobre as mulheres em vez dos seus opressores, com o consentimento da Igreja.
A Grande Caça às Bruxas na Europa Durante o século XV, o conceito de caça às bruxas era novo no discurso europeu, não existindo, até meados desse século, leis ou códigos que declassem a bruxaria punível com a morte, surgindo concomitantemente com a Revolução Científica. Silvia Federici observa que a perseguição ao misticismo ou paganismo foi criada originalmente como uma preocupação das classes altas e intelectuais, regidas pelos clérigos e magistrados, que buscavam eliminar pensamentos não científicos ou de origem pagã, sendo disseminada às pessoas comuns pelos panfletos, livros, leis e cânones religiosos criados pela sua classe. Posteriormente, a sua mensagem tornou-se cada vez mais deturpada e influenciada pelo fervor religioso.
A autora afirma que “Se considerarmos o contexto histórico em que ocorreu a caça às bruxas, o género e a classe dos acusados, e os efeitos da perseguição, (...) então a conclusão inevitável é que se tratou de um ataque (premeditado ou não) às mulheres, à resistência à propagação das relações capitalistas e ao poder que as mulheres ganharam em virtude da sua sexualidade, do seu controlo sobre a reprodução e da sua capacidade de curar". As pessoas perseguidas pelo crime de bruxaria eram tipicamente mulheres pobres com mais de 40 anos, quase todas mendigas; na Irlanda e nas Terras Altas da Escócia, onde a posse colectiva da terra e os laços de parentesco proporcionavam uma rede de segurança social desconhecida para os trabalhadores em terras cercadas, não há registo de caça às bruxas.
Ver também
Feminismo marxista Julgamentos de bruxas no início do período moderno
Referências
Categoria:Economia marxiana Categoria:Livros de 2004 Categoria:Livros de história Categoria:Livros feministas