Manuel Marques de Sousa, Conde de Porto Alegre (Rio Grande, – Rio de Janeiro, ), apelidado de "O Centauro de Luvas", foi um militar, político, abolicionista e monarquista brasileiro. Ele nasceu em uma família rica e de tradição militar, entrando no Exército em 1817 quando ainda era criança. Sua iniciação militar ocorreu na Guerra contra Artigas, que teve seu território anexado e se tornou em 1821 a província brasileira da Cisplatina. Ele ficou envolvido durante boa parte da década de 1820 no esforço brasileiro para manter a Cisplatina como parte de seu território, primeiro durante a independência do Brasil e depois na Guerra da Cisplatina. No final a província conseguiu se separar e se tornou a nação independente do Uruguai.

Alguns anos depois em 1835 a província de São Pedro do Rio Grande do Sul se rebelou na Revolução Farroupilha. O conflito durou quase dez anos e Marques de Sousa liderou o exército em vários confrontos. Ele teve um papel importante ao salvar a capital provincial dos rebeldes farrapos, permitindo que as forças governamentais conseguissem um fundamental ponto de apoio. Liderou em seguida uma divisão brasileira em 1852 na Guerra do Prata em uma invasão contra a Confederação Argentina. Recebeu um título de nobreza e foi sucessivamente barão, visconde e por fim conde de Porto Alegre.

Nos anos pós-guerra ele voltou sua atenção para a política e se aposentou como tenente-general, então a segunda maior patente do exército. Ele se afiliou ao Partido Liberal e foi eleito deputado representando São Pedro do Rio Grande do Sul. O conde de Porto Alegre também fundou o Partido Progressista-Liberal no nível provincial – uma coalizão de Liberais como ele e alguns membros do Partido Conservador. Ele brevemente serviu como Ministro da Guerra (ver Gabinete Zacarias de 1862). Voltou ao serviço militar quando estourou a Guerra do Paraguai e foi um dos principais comandantes brasileiros durante o conflito. Sua participação ficou marcada por importantes vitórias, além de brigas constantes com seus aliados argentinos e uruguaios.

O conde de Porto Alegre voltou para a carreira política ao final do confronto. Se tornou um grande defensor da abolição da escravatura e patrono da literatura e ciência. Ele morreu em julho de 1875 enquanto servia novamente no parlamento. Era muito estimado até a abolição da monarquia em 1889, caindo na obscuridade por ser considerado muito próximo do antigo regime. Sua reputação foi posteriormente reabilitada até certo ponto por historiadores, com alguns o considerando como uma das maiores figuras militares da história do Brasil.

Início de vida Nascimento Manuel Marques de Sousa nasceu no dia em Rio Grande. A cidade estava localizada em Rio Grande de São Pedro, então uma capitania no sul da colônia portuguesa do Brasil. Seus pais eram Manuel Marques de Sousa e Senhorinha Inácia da Silveira. Ele tinha quatro irmãos mais novos: duas irmãs e dois irmãos. Sua família descendia de portugueses e era rica e influente, sendo dona de ranchos e enormes rebanhos de gado. Seu pai e seu avô paterno, também chamado Manuel Marques de Sousa, eram soldados experientes que participaram das guerras coloniais. Seu avô era também na época o homem mais rico da capitania.

Rio Grande de São Pedro era escassamente povoada e estava longe da capital colonial Rio de Janeiro, sendo assim frequentemente o alvo de invasões vindas da colônia hispano-americana vizinha do Rio da Prata. Pela capitania ter de ser autossuficiente, seus habitantes viviam como mercadores, fazendeiros ou rancheiros, enquanto frequentemente também serviam como soldados ou miliciantes. Donos de grandes propriedades de terra como o pai e o avô de Marques de Sousa forneciam comida, equipamentos e proteção para si mesmos e para os familiares que viviam nas suas áreas de controle. Suas principais fontes de defesa eram formadas em sua maioria por trabalhadores convocados para serem soldados. Marques de Sousa cresceu em um ambiente hostil, e desde cedo ouviu histórias de guerra que contavam as realizações de seus parentes contra os invasores hispano-americanos.

Guerra contra Artigas

A família real portuguesa fugiu para o Brasil em 1808 e se estabeleceu no Rio de Janeiro. As colônias hispano-americanas viraram alvos fáceis já que estavam tomadas por tumultos e assoladas por guerras de independência contra o Império Espanhol. D. João, Príncipe Regente (futuro rei D. João VI), ordenou em 1811 a invasão da Banda Oriental, que fazia fronteira com a agora capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul. A tentativa de conquistar toda a região foi um fracasso. João lançou outra invasão alguns anos depois em 1816, que teve a participação do pai e avô de Marques de Sousa. Ele pediu permissão ao avô em 1817, então com apenas treze anos, para poder lutar na guerra. O Marques de Sousa mais velho concordou e permitiu que o mais jovem aprendesse táticas de guerrilha a cavalo perto da cidade de Jaguarão.

Meses depois em 20 de janeiro de 1818, Marques de Sousa se alistou no exército como cadete no 1.º Regimento de Cavalaria Leve na Divisão de Voluntários Reais. O regimento foi enviado para Montevidéu, a maior cidade da Banda Oriental.; ; Ele lutou na Batalha de Pando em 30 de março e na Batalha de Manga perto de Montevidéu em 1 de abril.; ; Foi bem sucedido nos dois confrontos e foi promovido em 24 de junho para alferes, sendo também nomeado como adjunto do comandante geral o tenente-general Carlos Frederico Lecor, Barão da Laguna (posterior Visconde da Laguna).

Anos mais tarde já com certa idade, Marques de Sousa lembraria-se com carinho sobre sua promoção: "Nunca em minha vida julguei-me tão grande, nem experimentei tal alegria inefável ... como no dia que coloquei meus punhos nas mangas de alferes. Eu andei pelas ruas da cidade, olhando para mim mesmo, presunçoso, acreditando que todos que olhavam com admiração invejavam minha sorte, que todas as damas enamoradas disputavam pela minha mão". Ele permaneceu na defesa de Montevidéu pelo restante do conflito. A conquista da Banda Oriental se encerrou em julho de 1821, quando Portugal declarou o território como uma província do Brasil com o nome de Cisplatina.; ;

Guerras pela Cisplatina

thumb|250px|Rio de Janeiro c. 1818, com o Paço Imperial ao centro No final de 1822 chegou em Montevidéu a notícia que D. Pedro, Príncipe Real e herdeiro de João VI, tinha declarado no dia 7 de setembro a independência do Brasil e havia sido aclamado imperador como D. Pedro I em 12 de outubro. Marques de Sousa foi enviado para o Rio de Janeiro pelo Barão da Laguna a fim de jurar lealdade ao novo monarca em nome do exército no sul. O jovem era uma boa escolha para a tarefa; ele tinha boas ligações na capital (seu tio era o Ministro da Guerra), era culto e bem-educado. Marques de Sousa era um homem bonito de altura mediana com cabelos encaracolados escuros e olhos castanhos. De aparência fastidiosa, ele sempre se preocupava em estar bem-vestido, mesmo em batalhas, e seus contemporâneos notaram que ele também tinha unhas cortadas e limpas. Marques de Sousa era alegre e galante, com uma "voz agradável e bem afinada em conversas, ampla e retumbante em comando".

A independência brasileira não foi totalmente bem recebida no sul. Parte do exército, liderado por D. Álvaro da Costa de Sousa de Macedo (posterior Conde da Ilha da Madeira), se entrincheirou em Montevidéu e permaneceu leal a Portugal. A cidade foi cercada pelas forças comandadas por Laguna. Marques de Sousa serviu sob o comando de seu pai assim que voltou do Rio de Janeiro, participando do cerco e depois lutando na bem-sucedida Batalha de Las Piedras no dia 18 de maio de 1823. Macedo e seus homens se renderam no começo de 1824. O fim da Guerra da independência do Brasil veio a um alto custo para Marques de Sousa: seu pai foi misteriosamente envenenado em 21 de novembro de 1824, deixando-o na posição de patriarca com apenas vinte anos de idade (seu avô havia morrido de velhice em 22 de abril de 1822). Ele foi promovido a tenente em 1 de dezembro de 1824 por seus atos de bravura durante a guerra.

Os secessionistas da Cisplatina se rebelaram alguns meses depois em abril de 1825. As Províncias Unidas do Rio da Prata tentaram anexar o território, e em retaliação o Império do Brasil declarou guerra, iniciando a Guerra da Cisplatina. Marques de Sousa estava na época no Rio de Janeiro estudando na Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, porém recebeu ordens de voltar a Montevidéu. Ele logo foi nomeado adjunto do brigadeiro Sebastião Barreto Pereira Pinto, comandante da 1.º Divisão, que estava defendendo São Pedro do Rio Grande do Sul. Marques de Sousa lutou em 20 de fevereiro de 1827 na mal sucedida Batalha do Passo do Rosário. Por seus atos de bravura durante a batalha foi promovido em 20 de março para capitão, sendo designado em 16 de agosto como adjunto do agora Visconde da Laguna, comandante geral das forças terrestres brasileiras. Marques de Sousa depois lutou na Batalha de Camaquã em 28 de abril e participou de outros pequenos ataques.

Revolução Farroupilha

Ameaça thumb|esquerda|250px|Porto Alegre alguns anos depois do fim da Revolução Farroupilha. Por Herrmann Rudolf Wendroth Em 1828 o Brasil não mais conseguia manter os esforços de guerra no sul e em abril acabou cedendo a Cisplatina, que se tornou o país independente do Uruguai. Marques de Sousa foi enviado a Montevidéu para servir sob o marechal de campo Manuel Jorge Rodrigues, que comandava a força brasileira temporariamente postada no novo país. Ele foi feito major interino em 29 de março de 1829 e em 28 de agosto do ano seguinte foi colocado no comando da 6.ª Companhia do 4.º Regimento de Cavalaria Leve. A unidade ficava em São Pedro do Rio Grande do Sul e anteriormente havia sido comandada por seu pai e seu avô paterno.

A trégua pacífica após o conflito da Cisplatina não durou muito. Uma guerra civil estourou em São Pedro do Rio Grande do Sul no dia 20 de setembro de 1835. A revolta, conhecida como Revolução Farroupilha, começou depois do presidente provincial Antônio Rodrigues Fernandes Braga ter sido deposto do cargo através de um golpe de estado organizado pelo militar Bento Gonçalves. Apesar do nome, os rebeldes farrapos eram donos de terras, assim como Marques de Sousa, que tentaram tomar o poder pela força depois de perderem as eleições. Marques de Sousa foi um dos oficiais da província que permaneceu leal ao presidente deposto. Ele lutou na Batalha do Arroio Grande em 14 de outubro de 1835, onde as forças rebeldes foram derrotadas. Entretanto, as forças leais ao governo legítimo estavam seriamente em menor número. Marques de Sousa e Fernandes Braga partiram para o Rio de Janeiro a fim de pedir ajuda, porém o governo central não foi capaz de prestar grande auxílio já que outras revoltas e tumultos haviam estourado pelo país. Ele foi colocado no comando do 1.º Batalhão de Caçadores, uma unidade de infantaria, e embarcou em 8 de março de 1836 para Pelotas, sul da província, depois de ser nomeado seu comandante militar.