Os ascomicetos são fungos do filo Ascomycota (grc. άσκός= tubo; μύκης= fungo) que produzem seus esporos (ascósporos) em esporângios específicos chamados ascos. É um grupo monofilético de cerca de 32.300 espécies, ao qual pertencem inclusive a maioria das formas anamórficas, leveduras e formas liquenizadas. Este grupo engloba também a maioria dos fungos patogênicos para as plantas.

Na maioria das espécies, os ascos estão contidos numa estrutura chamada de ascoma. Cada asco produz oito ascósporos (ou um múltiplo de 8), que resultam de uma meiose seguida de uma mitose, embora ascos com quatro esporos sejam característicos de algumas espécies.

A maioria dos ascomicetos possui sistema somático filamentoso, ou seja, são constituídos por hifas, formadas por filamentos longos e ramificados que, em conjunto com outras hifas formam o micélio. As hifas são tipicamente constituídas por uma parede tubular contendo quitina e β-Glicanos e são dividas por septos regulares, dotados de poros simples. Septos sem poros podem ser formados na base de estruturas reprodutivas, para isolar porções velhas do micélio ou partes lesionadas, para evitar de perda de citoplasma no caso de haver algum dano ou ruptura da membrana celular. Muitas das células são perfuradas centralmente, o que permite que o citoplasma e os núcleos circulem pelas hifas, embora a maioria das células possua um único núcleo.

Espécies

Em Ascomycota, ocorrem grupos microscópicos, como são os casos das leveduras e dos estados anamórficos (também conhecidos como fungos filamentosos), macroscópicos, e formas liquenizadasCAPELARI, M.; GUGLIOTTA, A. M. ; FIGUEIREDO, M. B. O estudo de fungos macroscópicos no Estado de São Paulo. In: JOLY, C. A. ; BICUDO, C. E. M (Eds.). Biodiversidade do Estado de São Paulo. São Paulo: FAPESP, 1998. p. 9-35. De acordo com Hawksworth, em 1983Hawksworth, D.L., Sutton, B. C. & Ainsworth, G. C. 1983. Ainsworth & Bisby’s Dictionary of the fungi. 7. ed. Kew, Commonwealth Mycological Institute. 412p, ocorreriam 2.720 gêneros e 28.650 espécies de fungos no Filo Ascomycota, número este que foi aumentado para 32.267 espécies em 1995, incluindo os fungos líquenizados Hawksworth, D.L.; Kirk, P.M., Sutton, B.C. & Pegler, D.N. 1995. Ainsworth & Bisby's Dictionary of the Fungi. 8th. edn, CAB International, Wallingford, UK, 616 pp. No Brasil, não é possível listar-se o número total de Ascomycota, mas em relação a líquens e fungos líquenizados, Marcelli (2005)Marcelli, M.P. 2005. Checklist of Brazilian lichens. Publicação na Internet, pela Universität Hamburg - Institut für Allgemeine Botanik, dentro do programa South American Lichens Online, http://www.rra.unihamburg.de/biologie/ialb/herbar/brazi_f2.htm. Acesso em 06.2011. listou aproximadamente 2.300 espécies, número este que atualmente foi ampliado para 2.851 espécies link 1í e, em Mato Grosso do Sul, tem-se listados, um número exato de 108 espécies (link 2).

400x200px|thumb|Fungo liquenizado com talo fruticoso do gênero Usnea.

Conhecimento dos Ascomicetos no Brasil

De forma geral, Ascomicetos (termo que hoje se encontra em desuso, sendo correspondente a “Ascomicetos”) representa um grupo pouco estudado no Brasil. Nas décadas de 70 e 80, trabalhos de campo pela região amazônica brasileira, colombiana e venezuelana, resultaram em numerosas descrições de táxons Rodrigues-Heerklotz, K.F.; Pfenning, L. - Diversidade no Reino Fungi: Ascomycota – Ascomycetes;.

Em regiões tropicais, formações vegetais do tipo Cerrado tem sido alvo de intensas pesquisas, devido à sua vasta biodiversidade. Esta formação é ainda pouco conhecida em relação aos fungos, embora apresente uma flora substancial Viégas, A. P. Alguns fungos do cerrado. Bragantia 3: 49-72, fig. 1-15, est. 1-9, 1943. A diversidade fúngica nessa região foi discutida por Dianese et. al., (1997)DIANESE, J.C., MEDEIROS, R.B. & SANTOS, L.T.P. Biodiversity of microfungi found on native plants of the Brazilian Cerrado. In: Kevin D. Hyde (Ed.). Biodiversity of Tropical Microfungi. Hong Kong University Press. 1997. pp. 367-417., enfatizando especialmente os Ascomycetos.

Contudo, praticamente todo o material de coletas realizadas no Brasil, foi enviado para especialistas estrangeiros. Desta maneira, atualmente, grande parte do material de referência para estudos dessa biodiversidade encontra-se fora do país.

Características Entre as principais características apresentadas por Ascomicetos, podem-se citar os micélios septados, com parede celular contendo quitina e glucanas, e a produção de um tipo especial de esporângio, denominado asco. Características macroscópicas diferem Ascomicetos de outros fungos pertencentes a outras divisões, porém, são as características microscópicas que são diagnósticas para o grupo.

Dois estados reprodutivos distintos são produzidos por Ascomicetos, e são conhecidos como teleomorfos ou "estado perfeito" (caracterizados pela produção de esporos sexuados ou ascósporos), e anamorfos ou "estado imperfeito" (quando há formação de esporos assexuados ou conídios). Mesmo sua reprodução sendo realizada através desses dois processos, sua classificação é baseada nas estruturas reprodutivas sexuais.

Ciclo de vida

A reprodução sexuada nos ascomicetos envolve a formação de um asco, estrutura em forma de saco, na qual ascósporos haplóides, formados após a meiose e mitose. Ascos e ascósporos são estruturas exclusivas que distinguem os ascomicetos de todos os outros fungos. Um ascoma, estrutura vegetativa composta de hifas emaranhadas, pode ter diferentes morfologias: aberto e com forma de taça (apotécio), fechado (cleistotécio), esférico piriforme com um pequeno poro (peritécio), através do qual os ascósporos são liberados. Os ascos normalmente se desenvolvem na superfície interior do ascoma, chamada de himênio ou camada himenial (parte reprodutiva)RAVEN, P. H., EVERT, R. F., EICHHORN, S. E.. 2007. Biologia Vegetal. 7ª Edição. Guanabara Koogan. Cap. 14, p. 286-289.

Nas pontas das hifas ascógenas dicarióticas, formam-se ganchos, ou crozier, que permitem a divisão simultânea dos dois núcleos. Após as subsequentes divisões, são formados os ascos imaturos que contém um par de núcleos compatíveis. Os dois núcleos se fundem (cariogamia), formando um zigoto (uma célula 2n, única fase contendo um núcleo diplóide) que por sua vez sofre processo meiótico, sendo separado na primeira divisão onde é feita a síntese do material genético que tem por resultado dois núcleos diplóides e em segunda divisão meiótica, onde os dois núcleos diplóides que foram formados na primeira fase da meiose entram na segunda fase da meiose, onde vai haver uma separação do número de cromossomos que levará a formação de quatro núcleos haplóides que por sua vez cada núcleo sofrerá mitose fazendo assim que o asco tenha oito núcleos haplóides e estes núcleos são envolvidos por porções do citoplasma formando os ascósporos.

Ao atingirem a maturidade, os ascos se tornam túrgidos e estouram, lançando a distância seus ascósporos. Esse mecanismo permite seu crescimento, desenvolvimento e propagação. Quando o fungo encontra um tipo gênico compatível (tipo + e -) estabelece a fusão entre os protoplasmas das hifas apicais, denominada de plasmogamia. A plasmogamia acontece quando o anterídio (gametângio “masculino”) doa núcleos para o ascogônio (gametângio “feminino”) através de uma extensão filamentosa que este último projeta, chamada tricógenoWebster J. and Weber R. W. S., 2007. “Introduction to Fungi” 3th ed. p. 229. Nesta fase dicariótica, ou seja, hifas com dois núcleos cada, os núcleos pares se dividem e basicamente formam o corpo reprodutivo do fungo.

Os conídios, usualmente multinucleados, representam a reprodução assexuada de um Ascomycota, formado a partir de células conidiogênicas, que são originadas na parte apical de hifas modificadas chamadas conidióforos, sendo a principal forma de propagação e disseminação do fungo.

Importância 200x300px|thumb|Queijo roquefortAlguns fungos do filo Ascomycota são utilizados para produção de alguns alimentos, como por exemplo o queijo Roquefort. Como na maioria dos fungos, os Ascomicetos têm um papel mais importante no ecossistema, o de decomposição de moléculas orgânicas complexas, liberando componentes inorgânicos, que serão reutilizados por vegetais. Se presentes em água como saprófitos, podem consumir quase todo o substrato carbonado, incluindo combustível de avião (Amorphotheca resinae) e tinta de parede (Aureobasidium pullulans) e desempenhar o seu papel mais importante na reciclagem de material morto.Agrios, G. N. 1988. Plant Pathology, third edition. Academic Press, San Diego; Alguns Ascomycota (Ceratocystis e Ophiostoma) formam associações simbióticas com uma variedade de artrópodes, onde podem traçar linhas, em galerias subterrâneas de certos artrópodes, como coleópteros (besouros), e fornecer alimentação para as larvas em desenvolvimento. Em contrapartida, os besouros mantêm uma cultura pura do fungo, e a transportam para galerias recém-criadas.

180x240px|thumb|As trufas verdadeiras são fungos pertencentes ao filo Ascomycota. As trufas que aparecem nos cardápios de restaurantes e nas prateleiras de fornecedores de alimentos de luxo representam apenas uma pequena fração das espécies de trufas no mundo. As trufas são fungos que nascem no solo, sendo a parte carnosa a trufa propriamente dita.

Como parasitas, os Ascomycetes contam como patógenos para a maioria dos animais e plantas, como por exemplo, Pneumocystis jirovecii, responsável pela pneumonia em humanos, com comprometimento do sistema imune. Alguns gêneros, tais como Elsinoë, Glomerella, Guignardia e Sclerotinia, são considerados fitopatogênicos, causando danos em plantas frutíferas, comercialmente importantes em regiões tropicaisWhiteside, J.O.; Garnsey, S.M.; Timmer, L.W. (Eds.) 1988. Compendium of Citrus diseases.

Os Ascomycetes são utilizados também, na fabricação de bebidas alcoólicas, tais como cerveja, vinho de laranjaCorazza, M.L.; Rodrigues, D.G.; Nozaki, J. - Preparação e Caracterização do Vinho de Laranja - Quim. Nova, Vol. 24, No. 4, 449-452, 2001 e vinho de uvaMamede, M.E.O.; Pastore, G.M. - Avaliação de mosto de uva fermentado (Evaluation of fermented grape must) - Ciênc. Tecnol. Aliment., Campinas, 27(2): 281-284, abr.-jun. 2007 (ambos por Saccharomyces cerevisae). Em relação aos alimentos comestíveis, queijos estão entre os principais, como por exemplo, queijo Camembert (Penicillium camemberti)Molimard, P.; Vassal, L.; Bouvier, I.; Spinnler, H.E. - Growth of Penicillium camemberti and Geotrichium candidum in pure and mixed cultures on experimental mold ripened cheese of camembert-type <http://www.researchgate.net/publication/41705203_Growth_of_Penicillium_camemberti_and_Geotrichium_candidum_in_pure_and_mixed_cultures_on_experimental_mold_ripened_cheese_of_camembert-type - Acessado em 04/06/11, às 16:38> e Roquefort.Kinsela, J.E.; Hwang, D.H.; Dwivedi, B. - Enzymes of penicillium roqueforti involved in the biosynthesis of cheese flavor - Critical Reviews in Food Science and Nutrition - Volume 8, Issue 2, 1976, 191-228 Os refrigerantes também são produtos fúngicos, pois, em sua maioria, verifica-se a presença de ácido cítrico produzido por um fungo, Aspergillus lividus, usado industrialmente. O nome do ácido sugere que sua produção dá-se a partir de frutas cítricas, e de fato, assim era no passado. Hoje todo o ácido cítrico consumido é produzido a partir do Aspergillus lividus.