Carlos António Teixeira Basto Nunes Botelho (São José, Lisboa, 18 de setembro de 1899 — São João de Deus, Lisboa, 18 de agosto de 1982), foi um pintor, ilustrador e caricaturista português.FRANÇA, José Augusto – A arte em Portugal no século XX . Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 283
A sua atividade desenvolveu-se ao longo de um período dilatado do século XX e repartiu-se por uma multiplicidade de atividades. Nos anos de 1920 Botelho foi um dos pioneiros da banda desenhada nacional, trabalhou em artes gráficas e no desenho de humor; na década seguinte pertenceu à equipa de decoradores do SPN, o que lhe deu oportunidade para viajar e tomar contacto com a dinâmica artística do seu tempo. A partir dessa altura desenvolveu uma obra plástica autónoma que o destaca como uma das figuras maiores da 2ª geração de pintores modernistas portugueses.FRANÇA, José Augusto – A arte em Portugal no século XX . Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 283.
A paisagem urbana ocupa um lugar central na sua obra. Na etapa inicial, marcada por um pendor declaradamente expressionista, pinta cidades, retratos, narrativas. Tema recorrente desde a primeira hora, a sua cidade natal irá afirmar-se como tema central, acompanhando a evolução do seu modo de pensar e fazer. Será Lisboa a protagonista do apaziguamento expressivo e acentuação poética da década de 1940; será Lisboa a servir de mote às experiências abstratizantes dos anos de 1950; e será Lisboa a ocupá-lo, quase em exclusivo, nas décadas finais.
Biografia Os Primeiros Anos thumb|Ecos da Semana - Em Paris, Maio 1929, tinta-da-china sobre papel, 44,5 x 30,5 cm Nasceu a 18 de setembro de 1899 no n.º 65 da Avenida da Liberdade, freguesia de São José, em Lisboa, tendo sido batizado a 25 de fevereiro de 1900 na freguesia de São Paulo, em Lisboa, como filho de Carlos Botelho, professor de piano, natural de São Sebastião, Ponta Delgada, e de Josefina Teixeira Basto Nunes, natural de Santos-o-Velho, Lisboa.
Filho único de pais músicos, foi a música que dominou a infância de Carlos Botelho. Inicia a aprendizagem do violino – instrumento que o irá acompanhar por toda a vida –, pouco antes da morte do pai, em 1910. Nesse mesmo ano ingressa no Liceu Pedro Nunes, onde faz amizade com Bento de Jesus Caraça e Dias Amado. Realiza experiências plásticas autónomas em atividades extracurriculares e é no próprio liceu que faz a sua primeira exposição individual (1918).
Em 1919 inscreve-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde é aluno de Ernesto Condeixa. Abandona a Escola após pouco mais de um ano, desiludido com o teor académico e pouco estimulante do ensino, terminando aí a sua formação convencional. Tal como Mário Eloy e Bernardo Marques, seus companheiros de geração, Botelho será um artista eminentemente autodidata.Biografia / Biography (de Carlos Botelho). In: BOTELHO, Carlos – Carlos Botelho: os anos diferentes. Lisboa: Livros Horizonte, 1994, p. 132
A 10 de junho de 1922, casou em Lisboa, sendo empregado bancário, com Beatriz dos Santos, professora primária, então de 19 anos, natural de São Sebastião da Pedreira, Lisboa, filha de António Francisco dos Santos, professor primário, natural de Lisboa, e de Eufrásia Maria dos Santos, natural de Coimbrão, Leiria. Desse casamento, nascem dois filhos: José Rafael e Raquel.
Em 1924 emprega-se numa fábrica de cerâmica, mas depois de alguns êxitos em concursos de cartazes, a partir de 1926 dedica-se exclusivamente às artes gráficas, ilustração, desenho de humor e Banda Desenhada. Entre 1926 e 1929 faz com regularidade páginas de BD para o semanário infantil ABC-zinho; e em 1928 inicia a página humorística Ecos da Semana, no semanário Sempre Fixe,Sempre fixe : semanario humoristico (1928-1932) [cópia digital, Hemeroteca Digital] colaboração que mantém, ininterruptamente, durante mais de 22 anos (ao longo do tempo Botelho colaborou em muitas outras publicações periódicas, entre as quais O Domingo Ilustrado, Ilustração,Ilustração (1926-) [cópia digital, Hemeroteca Digital] Portugal Colonial, Panorama (1941-1949) Diário de Lisboa,"Dados biográficos" (1974/75). In: BOTELHO, Carlos – Botelho. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989. Diário de Notícias, etc.)
Em 1929 Botelho é um humorista reconhecido. Nesse ano parte pela primeira vez para Paris, onde frequenta as Academias Livres Grande Chaumière e Colarossi; durante a estadia faz uma breve visita a Londres. Essa saída de Portugal será determinante para a sua opção definitiva pela pintura e, imediatamente após o regresso, veremos os primeiros sinais de mudança: "Data de 1929 o primeiro quadro de Lisboa de Botelho: uma vista do Zimbório da Basílica da Estrela, construída geometricamente, com uma matéria densa […], usando uma pasta expressiva".FRANÇA, José Augusto – A arte em Portugal no século XX . Lisboa: Bertrand Editora, 1991.
Maturidade thumb|left|Com Carnavais desta força... não há concorrência possível!!!!!, Ecos da Semana, 17 Fevereiro 1938, tinta-da-china sobre papel, 45,3 x 34 cm Ao longo dos anos de 1930 Botelho faz diversas permanências no estrangeiro, trabalhando na participação portuguesa em grandes mostras internacionais. Trabalha no pavilhão de Portugal na Exposição Internacional e Colonial de Vincennes, Paris, 1930-31, e no stand de Portugal na Feira Internacional de Lyon, 1935. A partir de 1937 integra, juntamente com Bernardo Marques, José Rocha, Tom e Fred Kradolfer, a equipa de decoradores do S.P.N. (Secretariado de Propaganda Nacional) encarregues da realização dos pavilhões de Portugal nas exposições de Paris, Nova Iorque e S. Francisco – Exposição Internacional de Artes e Técnicas, Paris, 1937; Feira Mundial de Nova Iorque, Nova Iorque, 1939; Exposição Internacional de S. Francisco, S. Francisco, Califórnia, 1939 Biografia / Biography (de Carlos Botelho). In: BOTELHO, Carlos – Carlos Botelho: os anos diferentes. Lisboa: Livros Horizonte, 1994, p. 134. Integra o grupo de colaboradores artísticos da revista Panorama (1941-1949) e também colabora na revista Litoral (1944-1945).
Em 1930 instala-se com o seu ateliê na Costa do Castelo, junto ao Castelo de S. Jorge, na casa a que a sua mulher, professora do ensino primário, tinha direito pela função exercida. A localização desta casa, onde viveu até 1949, influenciou certamente a sua temática, oferecendo-lhe temas e referências que marcaram o seu percurso artístico.
Em 1937, durante a estadia em Paris, visita uma retrospectiva da obra de Van Gogh que o deixa "impressionadíssimo",BOTELHO, Carlos – Memórias [não datado]. In: BOTELHO, Carlos – Botelho. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989. acentuando a intensidade expressiva da sua pintura; descobre Ensor numa breve visita à Flandres. No ano seguinte recebe o prémio Souza-Cardoso na Exposição de Arte Moderna do S.P.N. pelo retrato de Músico Carlos Botelho (ou Meu Pai).Biografia / Biography (de Carlos Botelho). In: BOTELHO, Carlos – Carlos Botelho: os anos diferentes. Lisboa: Livros Horizonte, 1994, p. 134, 135
Em 1939 vence o 1º Prémio na Exposição Internacional de Arte Contemporânea, S. Francisco, EUA, o que lhe permite comprar o terreno e, mais tarde, construir a casa/ateliê no Buzano, Parede (perto de Lisboa). Em 1940 integra a equipa de decoradores da Exposição do Mundo Português, Lisboa; nesse mesmo ano recebe o Prémio Columbano na V Exposição de Arte Moderna do S.P.N., Lisboa. Concebe cenários e figurinos e colabora como diretor de cena na Companhia de bailado Verde Gaio.Biografia / Biography (de Carlos Botelho). In: BOTELHO, Carlos – Carlos Botelho: os anos diferentes. Lisboa: Livros Horizonte, 1994, p. 136
A 4 de março de 1941, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Cristo. A 24 de outubro de 1941, foi agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Em 1949 é forçado a abandonar a casa na Costa do Castelo e instala-se no Buzano; a partir de 1955 volta a residir em Lisboa, longe do centro histórico, no novo bairro do Areeiro.
Em 1955 recebe uma Menção de Honra por ocasião da III Bienal de S. Paulo e, em 1961, o 1º Prémio de Pintura na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian.
A 5 de julho de 1968, foi elevado a Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Em 1969 reforma-se das suas funções nos Serviços Técnicos do SNI, Palácio Foz, cargo que ocupava desde a década de 1940.
A 7 de agosto de 1981, foi elevado a Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Morreu no dia 18 de agosto de 1982, vítima de enfarte do miocárdio, em sua casa, no 3.º andar frente do n.º 3 da Avenida João XXI, freguesia de São João de Deus, Lisboa.
Obra Banda desenhada / Desenho de humor thumb|Músico Carlos Botelho (ou Meu Pai), 1937, óleo sobre contraplacado, 73 x 60 cm Entre 1926 e 1929 Carlos Botelho faz com regularidade banda desenhada para o semanário infantil ABC-zinho. Botelho foi "O grande autor de BD do ABC-zinho, qualitativa e quantitativamente, [...] sendo o autor quase integral da primeira e da última página da cada número, a cores, produzindo aí a maior parte das suas mais de 400 pranchas que fez para a revista"; esta incursão "não foi uma passagem episódica ou ligeira, mas uma componente essencial da sua carreira, da sua formação nos anos 20, fazendo parte integrante da sua obra".BOLÉO, João Paulo Paiva; PINHEIRO, Carlos Bandeiras – Das Conferências do Casino à Filosofia de Ponta: Percurso histórico da banda desenhada portuguesa. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, Bedeteca, p. 44. ISBN 972-8487-28-2
Em 1928 inicia colaboração semanal no Sempre Fixe, que manteve durante mais de 22 anos e que lhe serviu de palco para a crítica mordaz a uma vasta gama de temas, das trivialidades do dia-a-dia lisboeta a alguns dos acontecimentos mais relevantes da vida internacional. A 8 de Dezembro de 1950, data em que encerrou esse monumental ciclo de trabalho, os seus Ecos da Semana perfaziam um total de cerca de 1200 páginas, "num discurso continuado sem intervalo ou férias".FRANÇA, José Augusto – Ecos da Semana de Botelho, 1928-1950. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.
"Ecos da Semana são um duplo, e triplo, diário – do autor, entre os seus 29 e 51 anos de idade, e de um país, ou de um mundo"; mas são também "um diário do não dito". Num país asfixiado pela censura, a política nacional seria excluída de comentário; eram essas as regras do jogo FRANÇA, José Augusto – Ecos da Semana de Botelho, 1928-1950. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.. Isso não o impediu, por exemplo, de confrontar a escalada para a 2ª Guerra Mundial através de "notáveis e demolidores" desenhos que satirizam Mussolini e Hitler. Mas a importância dos Ecos da Semana não se restringe à sua componente jornalística: "Em primeiro lugar porque esta é construída plasticamente, ou seja, a eficácia da mensagem depende tanto – na verdade muitas vezes mais –, da pertinência do texto como do acerto de um desenho inesgotável, fluido, totalizador de centenas de páginas inteiras, onde o olhar ora mergulha na decifração dos pormenores, ora se espraia em visão inteira, ritmada por dentro de cortes, manchas de aguada, descentramentos, inesperadas acentuações. […] Os Ecos configuram-se como um «Botelho outro», paralelo ao «pintor de Lisboa e outras cidades», mas sem se confundir com ele".SILVA, Raquel Henriques da – Botelho: Estatutos do Desenho. In: BOTELHO, Carlos – Botelho, Desenho: Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento. Almada: Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea, 1999, p. 60, 62
Para entender a obra de Botelho é necessário compreender o modo como as duas vertentes principais da sua obra ao longo das décadas de 1930 e 1940 – o desenho de humor praticado no Ecos da Semana e a sua pintura –, existem em territórios separados, apenas com raras sobreposições.BOTELHO, Manuel – Os espaços do desenho. In: BOTELHO, Carlos – Botelho, Desenho: Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento. Almada: Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea, 1999, p. 18
Obra Plástica