miniaturadaimagem|280x280px|Imagem de satélite mostrando os pontos de foco de incêndios florestais na Amazônia.
As mudanças climáticas no Brasil podem ser percebidas principalmente pela ocorrência de eventos extremos, como secas e enchentes. Um em cada quatro brasileiros das classes A, B, e C relata que já foi diretamente deslocado por eventos climáticos temporariamente, como incêndios, ondas de calor ou deslizamentos. Assim como em todo o planeta, as mudanças climáticas têm sido causadas pela ação do homem, devido ao aumento histórico das emissões de gases de efeito estufa.
O efeito estufa é um fenômeno natural, que é necessário para a manutenção da vida na Terra. Porém, o aumento dos gases tem causado um aumento danoso na temperatura, o aquecimento global. Devido a essas mudanças, partes da maior floresta equatorial do mundo correm o risco de se tornarem território de savana.
As emissões de gases de efeito estufa por pessoa no Brasil são superiores à média global, e o Brasil está entre os países que emitem uma grande quantidade de gases de efeito estufa. As emissões desses gases pelo Brasil correspondem a quase 3% do total mundial anual, principalmente devido ao desmatamento na floresta amazônica, que emitiu mais dióxido de carbono na década de 2010 do que absorveu, e em segundo lugar, das grandes fazendas de gado, onde as vacas liberam metano. No Acordo de Paris, o Brasil prometeu reduzir suas emissões, mas o governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, foi criticado por fazer muito pouco para limitar ou se adaptar às mudanças climáticas.
Emissão de gases do efeito estufa miniaturadaimagem|290x290px|O Brasil comparado a outros grandes emissores (1990–2018) Em 2020, foram divulgados números oficiais referentes a 2016, com cada uma das atividades que mais contribuem para a emissão de gases do efeito estufa no Brasil:
Agropecuária: 33,2% Setor energético: 28,9% Uso do solo, mudança de uso do solo e silvicultura: 27,1% Processos industriais e uso de produtos: 6,4% Resíduos: 4,5%
De acordo com o Observatório do Clima, o país emitiu 2,17 bilhões de toneladas brutas de equivalente de dióxido de carbono (te) em 2019, das quais as principais causas são:
Desmatamento: 44% (968 milhões de te) Agropecuária: 28% (598,7 milhões de te) Setor energético: 19% (413,6 milhões de te) Processos industriais e uso de produtos: 5% (99 milhões de tCO2e) Resíduos: 4% (96 milhões de te)
As emissões de 2019 são estimadas em 2,8% do total mundial. Em 2021, o Brasil era o 4º maior emissor cumulativo, com 110 Gt. Em 2019, em média, os brasileiros emitiram 10 toneladas brutas de equivalente de cada, em comparação à média global de 7 toneladas por pessoa.
Embora o governo tenha prometido emissões líquidas zero até 2050, críticos afirmam que ações imediatas não estão sendo tomadas. O pesquisador Emilio La Rovere, um dos coordenadores de um relatório de 2013, disse queSe nada for feito para restringir as emissões após 2020, o Brasil pode emitir 2,5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono já em 2030. Para ter uma ideia, esse número supera o total global de 2005, quando as emissões totalizaram cerca de 2 bilhões de toneladas.
Causas miniaturadaimagem|240x240px|Flatulências após a fermentação entérica contêm metano, e o manejo de esterco pode emitir metano e óxido nitroso.
Agropecuária Em 2012, o Brasil tinha a segunda maior quantidade de gado do mundo, com 205 milhões de cabeças. As vacas são ruminantes que emitem gases de efeito estufa, como metano e óxido nitroso.
Desmatamento As árvores são geralmente cortadas para criar campos para o cultivo de soja e para a pecuária. O desmatamento atingiu seu pico em 2004, depois passou a diminuir até o início da década de 2010. Desde então, o desmatamento vem aumentando novamente nos últimos anos.
Combustíveis fósseis miniaturadaimagem|Madeira oriunda de desmatamento irregular. O maior emissor individual no setor energético é o petróleo utilizado como combustível para o transporte no Brasil, mas também o gás natural e o carvão são muito utilizados pelo setor. Em 2016/17, usinas de carvão no Brasil receberam mais de 1 bilhão de reais em subsídios. Na Convenção sobre Diversidade Biológica, o Brasil se comprometeu a eliminar subsídios ambientalmente prejudiciais até 2020, mas o governo afirmou em 2022 que a energia a carvão seria subsidiada até 2040.
Impactos no meio ambiente
Mudanças de temperatura e clima
De acordo com José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, estudos recentes mostram que, com exceção de trechos da costa do Chile, onde houve um leve resfriamento nas últimas décadas, em todas as outras áreas da América do Sul as previsões indicam um aumento de temperatura.
A Amazônia desempenha um papel fundamental na regulação do clima em todo o Brasil e em outras regiões da América do Sul. Sua floresta é um grande depósito de carbono e é essencial para a formação das chuvas que irrigam grande parte do país.Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Sumário Executivo do Volume 1 – Base Científica das Mudanças Climáticas . Contribuição do Grupo de Trabalho 1 para o 1º Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas [Ambrizzi, T., Araújo, M., Silva Dias, P.L., Wainer, I., Artaxo, P., Marengo, J.A., 2012. Segundo Marengo, 30% a 50% da precipitação na bacia amazônica se origina na própria floresta por meio da evaporação. Além disso, a umidade originada na bacia amazônica é transportada pelos ventos para outras partes do continente e é considerada importante na formação de precipitações em regiões distantes da Amazônia.Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais [Marengo, Jose A. (coord.)]. Riscos da Mudanças Climáticas no Brasil: análise conjunta Brasil-Reino Unido sobre os impactos das mudanças climáticas e do desmatamento da Amazônia, 2011, pp. 17–18.
Naturalmente, se a floresta desaparecer, as chuvas também desaparecerão. Um círculo vicioso é criado, no qual, se o desmatamento ultrapassar um determinado nível crítico, estimado em perdas de 40%, a floresta não será capaz de gerar chuvas suficientes para se manter: quanto menos floresta, menos precipitação, e quanto menos precipitação, menos floresta. Cerca de 19% da floresta amazônica já foi perdida,Santos, Daniel; Pereira, Denys & Veríssimo, Adalberto. O estado da Amazônia: uso da terra. Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, 2013, p. 16 e estudos recentes indicam que está perto de ultrapassar o ponto crítico, além do qual sua degradação se tornará irreversível.Veiga, Edison. "Degradação da Amazônia já chegou a ponto irrecuperável, diz estudo". Deutsche Welle, 10/01/2020 (entrevista com o autor principal do estudo Brando, P. M. et alii. "The gathering firestorm in southern Amazonia". In: Science Advances, 2020; 6 (2) Além dos problemas na Amazônia, todos os outros biomas nacionais – o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, a Mata Atlântica e o Pampa – também sofrem efeitos importantes, a maioria deles com tendência de aumento, contribuindo para amplificar os efeitos.Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima. Plano Nacional sobre Mudança do Clima , 2008.
Outra parte importante das chuvas brasileiras vem da circulação da umidade oceânica. O aquecimento global também impacta as correntes oceânicas que influenciam o clima brasileiro, e os ventos que transportam a umidade que chega ao Brasil estão tendo seus padrões modificados, com o efeito de reduzir o nível de umidade atmosférica e perturbar a formação de nuvens, diminuindo a precipitação. A redução das chuvas, por sua vez, pode secar aquíferos subterrâneos. Esses fatores combinados resultam em uma redução generalizada na disponibilidade de água e em ambientes mais secos na maior parte do país.Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, pp. 17–18; 48–49. Em algumas regiões, no entanto, devido a diferentes mecanismos, espera-se que a precipitação aumente, trazendo também efeitos adversos."No Brasil, aquecimento global significará mudança no padrão de chuvas" . PBMC, 2011. Segundo o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC): miniaturadaimagem|263x263px|Circulação de ventos e chuvas na Amazônia. Os ventos oceânicos carregam a umidade produzida pela floresta para o restante do país. Atualmente, essa umidade produzida é também necessária para manter a floresta. A mudança com o maior impacto será uma alteração nos padrões de precipitação. Pesquisas mostram que no sul e sudeste, regiões que sofrem com enchentes e deslizamentos de terra, as chuvas se tornarão mais intensas e frequentes. No nordeste, a tendência é o oposto.Primeiro Relatório de Avaliação Nacional sobre Mudanças Climáticas (RAN1)No resumo executivo do 1º Relatório do PBMC, são destacadas as limitações do estudo. Como algumas projeções foram feitas com base em dados incompletos, há uma certa incerteza sobre as conclusões.Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Sumário Executivo do Volume 1 – Base Científica das Mudanças Climáticas . Contribuição do Grupo de Trabalho 1 para o 1º Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas [Ambrizzi, T., Araújo, M., Silva Dias, P.L., Wainer, I., Artaxo, P., Marengo, J.A., 2012. Apesar disso,De modo geral, os resultados dos modelos conseguiram capturar muito bem o comportamento do clima atual e, assim, apesar das incertezas, as projeções das mudanças climáticas futuras ao longo do século XXI são plausíveis. Portanto, tais projeções constituem informações inovadoras e valiosas tanto para fins de mitigação, quanto para o planejamento de adaptação e minimização de impactos e ações de vulnerabilidade com o conjunto da sociedade habitante nos diferentes biomas brasileiros. Levando em conta as diferentes projeções que implicam impactos potenciais nos sistemas naturais e humanos, socioeconômicos e ambientais, já é possível analisar os impactos esperados das mudanças climáticas nos diversos setores do Brasil, além do planejamento e da tomada de decisões para definir estratégias de adaptação e políticas de mitigação.Para a Caatinga, foi previsto um aumento de até 4,5°C na temperatura do ar e uma redução de até 50% nas chuvas. O ambiente, naturalmente muito seco e com vegetação esparsa, pode se tornar parcialmente deserto. Para o Cerrado, as perturbações seriam semelhantes, com um aumento de temperatura de até 5,5°C e uma diminuição de até 45% nas chuvas. O Cerrado atualmente concentra a maioria das atividades agrícolas no Brasil. O Pantanal também seria muito afetado, com um aumento de até 4,5°C e até 45% menos chuvas. Na Mata Atlântica, o clima ficaria até 3°C mais quente e até 30% mais chuvoso. Para o Pampa, haveria um aumento de até 3°C nas médias de temperatura e chuvas até 40% acima do normal.
Não apenas o total de precipitações mudará, mas elas poderão ocorrer em padrões mais erráticos e violentos, com secas mais intensas e prolongadas, além de episódios de enchentes mais severos e frequentes, variando entre as diferentes regiões. Segundo o relatório, Os cenários apontam para uma diminuição das chuvas nos meses de inverno em todo o país, bem como no verão no leste da Amazônia e no Nordeste. [...] Em contrapartida, o país poderia experimentar um aumento na frequência e intensidade de chuvas intensas na região subtropical (sul e parte do sudeste) e no extremo oeste da Amazônia.Mudanças nos níveis e na disponibilidade de água subterrânea também são previstas.PBMC. Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação: Sumário Executivo. Contribuição do Grupo de Trabalho 2 ao Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, 2013.
Aumento do nível do mar