Joaquim Pedro Celestino Soares (Lisboa, 8 de junho de 1793 — Lisboa, 7 de agosto de 1870) foi um oficial general da Armada Portuguesa, membro do Supremo Conselho de Justiça Militar, diretor do Museu de Marinha, sócio efetivo da Academia Real das Ciências de Lisboa,Academia das Ciências de Lisboa : «Joaquim Pedro Celestino Soares (1793-1870)». membro do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, diretor da Escola Naval, sócio de mérito da Academia das Belas Artes de Lisboa e deputado às Cortes em várias legislaturas,Soares, Joaquim Pedro Celestino. 1793-1870.Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez, tomo IV, p. 143 e tomo XII, p. 123. Lisboa : Imprensa Nacional, 1858-1870. pelos círculos eleitorais do Porto, do Estado da Índia e de Castelo Branco. Ligado à ala esquerda do liberalismo, membro ativo da revolução de Setembro e da Patuleia, deixou uma vasta obra literária e científica, maioritariamente de temática naval, e alguma obra cartográfica.RNOD : Celestino Soares.João Brás de Oliveira, O Contra-Almirante Joaquim Pedro Celestino Soares : estudo biographico. Lisboa : Typ. da Emp. da Historia de Portugal, 1902.Maria Adelaide Marques, «Joaquim Pedro Celestino Soares», in Maria Filomena Mónica (coordenadora), Dicionário biográfico parlamentar, 1834-1910, vol. III, pp. 769-771. Lisboa : Assembleia da República/Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa, 2006.Abel Fontoura da Costa, O Contra-Almirante Joaquim Pedro Celestino Soares: Estudo Biographico. Lisboa, Typ. Empreza da História de Portugal, 1902. Biografia Nasceu em Lisboa, filho do brigadeiro Pedro Celestino Soares e de sua esposa Francisca Joaquina de Almada.Diccionário Bibliographico Portuguez, vol. III, pp. 31-32. A família Celestino Soares era uma família de militares, com vários dos seus membros distintos oficiais generais, alguns também políticos com assento parlamentar. Foi irmão de José Pedro Celestino Soares, o 1.º visconde de Leceia, e do brigadeiro Francisco Pedro Celestino Soares.Pedro Celestino Soares Jr.

Após realizar estudos preparatórios, foi admitido na Academia Real de Marinha em outubro de 1815, onde se distinguiu e foi por várias vezes premiado. Tendo em 1819 concluído, com êxito, os seus estudos navais, foi declarado voluntário da Academia e integrado na Companhia de Guardas-Marinhas, então no Rio de Janeiro, iniciando um percurso profissional na Marinha, que o levaria a ascender a contra-almirante.Isabel Graes & José Luís Leiria Pinto (coordenadores), Dicionário do Almirantado Português, pp. 161-162. Lisboa : Academia de Marinha/IURIS - Instituto de Investigação Interdisciplinar da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 2023 (ISBN 978-972-781-174-8).

No posto de guarda-marinha embarcou em 1819 na fragata Sucesso na sua primeira viagem náutica, a que o levou até ao Rio de Janeiro, onde então se encontrava a corte portuguesa. Aquela fragata capitaneava um comboio de 56 navios mercantes com destino ao Brasil. Permaneceu no Brasil durante vários meses, sendo ali promovido a segundo-tenente. Em outubro de 1820, já depois da vitória da Revolução Liberal do Porto, regressou a Portugal, ingressando no serviço naval metropolitano, onde permaneceu até 1822. Nesse período integrou as guarnições da corveta Princesa Real,Portugese Sixth Rate corvette 'Princesa Real' (1797). da charrua Gentil AmericanaCharrua 'Gentil Americana'. e da escuna Maria Zeferina, navios a bordo dos quais efectuou diversas missões.

A sua primeira comissão de serviço ultramarino iniciou-se em 1822, quando integrado na guarnição da charrua São João MagnânimoCharrua "São João Magnânimo". e viajou até ao Estado da Índia, fazendo escala em Luanda, Benguela e Moçambique. Em 1828 esteve nos Açores. Permaneceu ao serviço da Estação Naval da Índia, afastado da política portuguesa, durante boa parte do período conturbado que levou ao desencadear da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), apenas regressando a Portugal em 1832, quando já decorria o Cerco do Porto.

Durante o período em que permaneceu no serviço naval do Oceano Índico embarcou, a seu pedido, em diversos navios da marinha mercante e produziu alguma cartografia, entre a qual a carta topográfica do território dependente da praça de Damão e uma planta das ilhas de Solor e Timor e adjacentes, segundo as instruções do roteiro daquela região elaborado sob a direção de James Horsburgh, hidrógrafo da East India Company.

Em julho de 1832 chegou a Portugal, e tendo aderido à ideologia liberal, procurou refúgio a bordo da esquadra britânica que patrulhava a barra do Tejo e a partir daí conseguiu evadir-se para a cidade do Porto, onde então se encontravam as forças liberais comandadas por D. Pedro. Incorporou-se nessas forças e durante o Cerco do Porto comandou a escuna Terceira e depois as batarias do Terreiro e da Vitória, depois a escuna Gracioza e as lanchas canhoneiras que guardavam a foz do Douro. Portou-se com tal valia que em 1833 foi condecorado com o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

Terminada a guerra civil, continuou a sua carreira naval sendo promovido a capitão-tenente em 1834 e nomeado chefe do Serviço Marítimo de Aveiro e encarregado das obras na barra do rio Vouga, com o título de Inspetor das Obras da Barra de Aveiro. Nessas funções dirigiu a obra de construção de um mausoléu em memória dos liberais aveirenses que tinham sido executados em 1829, no Cemitério Central de Aveiro, então ainda em construção, uma vez que apenas seria inaugurado em 1839. O túmulo, agora designado Monumento aos Mártires da Liberdade/Monumento aos Justiçados, viria a derruir em maio de 1864, aquando do enterro de José Estêvão Coelho de Magalhães, falecido em novembro de 1862, em Lisboa, e trasladado para Aveiro ano e meio mais tarde.Monumento aos Mártires da Liberdade/Monumento aos Justiçados.

Foi eleito deputado às Cortes nas eleições gerais de julho de 1834 para a legislatura de 1834-1836 pelo círculo eleitoral do Porto. Nas Câmara dos Deputados tomou lugar no lado esquerdo, alinhando com a ala mais revolucionária. Foi apoiante muito ativo da revolução de Setembro de 1836, afirmando-se como membro da ala esquerda do liberalismo português. A sua participação parlamentar neste período foi reduzida pois esteve embarcada por largos períodos.

Considerado um grande conhecedor das questões da Índia, em 1837 foi escolhido pelo Ministro da Marinha e Ultramar, António Vieira de Castro, para comandar de uma força naval expedicionária composta pela fragata D. PedroFragata "D. Pedro"; fragata "Duquesa de Bragança". e pela charrua Princesa Real enviada ao Estado da Índia com o objetivo de dominar a situação de desordem e insurreição que então ali se verificava na sequência da nomeação de Bernardo Peres da Silva, um goês, como governador. A força faria um percurso com escala com escala na ilha da Madeira e em Moçambique e devia conduzir o novo governador da Índia Portuguesa, brigadeiro Simão Infante de Lacerda de Sousa Tavares, o 2.º barão de Sabroso, a sua família e outros passageiros ilustres.

Celestino Soares acompanhara o Barão de Sabroso à Índia para pôr termo ao conflito perista, mas cedo se incompatibilizou com o novo governador.Sandra Maria Calvinho Ataíde Lobo, O desassossego goês : Cultura e política em Goa do Liberalismo ao Acto Colonial (tese de doutoramento em História e Teoria das Ideias, especialidade Pensamento, Cultura e Política). Lisboa : Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2013. A viagem terminou em graves desentendimentos com o governo do Estado da Índia, o que levou Celestino Soares a abandonar o comando da fragata D. Pedro nos mares da Índia, refugiando-se na Índia Britânica.Debates parlamentares, sessão de 7 de junho de 1843. Em consequência, ao regressar a Lisboa, foi submetido a julgamento em conselho de guerra, mas, após um complexo processo que se estendeu de 1843 a 1846, acabou absolvido.Processo Crime do Deputado, o Capitão Tenente Joaquim Pedro Celestino Soares por abandonar o comando da Fragata D. Pedro tendo sido considerado culpado pelo Concelho de Guerra, uma vez que, se apresentou na Côrte sem a dita embarcação da qual era responsável até concluir o serviço.

Voltou a ser eleito deputado nas eleições gerais de agosto de 1838 (legislatura 1838-1840), de março de 1840 (legislatura 1840-1842) e de junho de 1842 (legislatura 1842-1845), nestas três legislaturas em representação do Estado da Índia. Durante todo o seu percurso parlamentar integrou a Comissão de Marinha e Ultramar. Neste período decorreu contra ele o processo pelo crime de resistência às ordens superiores e deserção de navio de guerra, tendo a a Câmara dos Pares, pelo facto deste já não ser deputado no momento da sentença, em 18 de fevereiro de 1846, remetido o processo ao foro militar onde o réu devia ser julgado. Aí acabaria por ser considerado inocente, terminando assim o processo.

Prosseguiu a sua carreira naval, recebendo o comando da fragata Rainha de Portugal, então imobilizada no Tejo e a servir de registo do porto e de lazareto de observação.Arquivo Histórico da Marinha : Fragata Rainha de Portugal e brigue Audaz. Em 1846 foi promovido a capitão-de-fragata e em 1848 a capitão-de-mar-e-guerra. Ascendeu a oficial general em 9 de abril de 1862, com a patente de chefe-de-divisão graduado, promovido a efetivo em 1866. Em virtude da Carta de Lei de 2 de Junho de 1866, que suprimiu os postos de chefe-de-divisão e de chefe-de-esquadra, o seu posto passa a ser denominado contra-almirante, posto em que terminou a sua carreira.

Quando ocorreu a revolta do Minho, em 1846, manifestou-se a favor da Patuleia. Foi então demitido do comando da fragata Rainha de Portugal e preso a bordo da fragata Diana, onde permaneceu até à assinatura da Convenção de Gramido e à amnistia que se lhe seguiu, em 1847. Foi nomeado comandante da Companhia dos Guardas-Marinhas, em 13 de novembro de 1851, função que manteria por mais de 14 anos, até 18 de janeiro de 1866. Neste período foi também diretor da Escola Naval e, por inerência, do Museu de Marinha.

A sua última eleição parlamentar ocorreu em 1853, para a legislatura de 1853 a 1856, sendo desta feita eleito pelo círculo de Castelo Branco. Como deputado distinguiu-se pelo seu conhecimento e empenho na resolução das questões ultramarinas, sendo uma das mais abalizadas vozes em matéria colonial.

Desempenhou várias outras funções públicas e política, entre as quais membro do Supremo Conselho de Justiça Militar, diretor do Museu de Marinha e diretor da Escola Naval. O Museu de Marinha, instituído por D. Luís I, através de portaria datada de 22 de Julho de 1863, por vontade expressa de um monarca que estava ligado intimamente à Armada, e a tudo o que ao mar estivesse relacionado. À frente dos destinos da nova instituição ficou o comandante da Escola Naval, Joaquim Pedro Celestino Soares, sendo o principal responsável por zelar pelas peças existentes, e pela recolha de objectos que no seu entender devessem figurar na nova instituição. Para esta missão estaria superiormente autorizado a entrar em diligências com outras autoridades do Ministério da Marinha e Ultramar, para que estes o ajudassem em tudo o que necessitasse, incluindo no arranjo de uma qualquer sala anexa à Escola Naval, a fim de se estabelecer o museu até que este fosse definitivamente organizado. Assim, Celestino Soares passou por incumbência a acumular os cargos de Director da Escola Naval, Comandante da Companhia de Guardas-Marinhas e de Director do Museu de Marinha, um exercício muito complicado para uma correcta e eficaz coordenação dos serviços.Tiago Filipe Resende Carvalho, História do Museu de Marinha : Um legado de D. Luís (dissertação de mestrado em História Marítima). Lisboa : Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013.