Rituais de passagem na Amazônia são rituais de transição no domínio da floresta amazônica. De acordo com a WWF (World Wide Fund for Nature) a Amazônia compreende, hoje, um total de 8 países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Venezuela e Suriname mais o território da Guiana Francesa.Bioma. Disponível em: <https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/areas_prioritarias/amazonia1/bioma_amazonia/>. Acesso em: 4 nov. 2024. O termo ritual de passagem foi usado pela primeira vez pelo antropólogo e professor universitário francês Arnold van Gennep, no seu livro Os Ritos de Passagem,Arnold VAN GENNEP, Os ritos de passagem (Apresentação de Roberto da Matta), Petrópolis: Vozes, 1978. segundo o autor, os ritos decompõem se em:

Ritos de Separação Ritos de Margem Ritos de Iniciação

Ainda que Van Gennep fosse influenciado por teóricos da sua época(i.e., começo do século XX) destacou se por entender o ritual por sua "razão de ser", em contraposição aqueles que enxergavam pelo modo da sua realização(e.g., ritos simpáticos, os que invocavam uma entidade para o exercício da "ação mágica" e ritos de contágio, no qual um objeto era utilizado por seus efeitos associados ao sagrado).ARNAULT, Renan & ALCANTARA E SILVA, Victor. “Os ritos de passagem”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2016. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/obra/os-ritos-de-passagem> Vale ressaltar que Arnold van Gennep não procurava classificar os ritos de um modo taxonômico, isto é, no uso da Taxonomia, baseada em subgrupos e cadeias hierárquicas. O antropólogo acreditava todo ritual de passagem ser constituído por essas fases listadas, cada qual com sua ênfase.

No Livro das Religiões5 V. HELLERN, H. NOTAKER, J. GAARDER, O livro das religiões, São Paulo: Companhia das Letras, 2000. os autores realçam semelhanças nos ritos entre diferentes comunidades; tão profundamente conectados aos ciclos da vida e à relação do ser humano com a natureza. Essas cerimônias de povos nativos acompanham todas as etapas da vida, como o nascimento, concepção, entrada na vida adulta, casamento e a morte, aspectos comuns de iniciação entre diferentes povos. Para Lévi-Strauss, sociólogo francês, são justamente as semelhanças entre distintas comunidades no modo de pensar o fundamento da chamada antropologia estruturalista.

O sociólogo considera os ritos estruturas básicas de funcionamento, segundo ele, buscam “restaurar a continuidade perdida do vivido no próprio plano do pensado”.Claude LÉVI-STRAUSS, L’homme nu. Mythologiques, Paris: Plon, 1971, p. 603. Em outras palavras, rituais de passagem buscam incrementar novos significados sociais, comunitários ou religiosos, através de celebrações que simbolizam mudanças no status de uma pessoa dentro de sua comunidade, ou até nova iniciação no ramo transcendental. Sempre de modo cíclico,Mariza PEIRANO, op. cit., p. 40) a fim de demarcar o começo de uma nova fase invisível aos olhos, por meio da fragmentação de um passado, deixado para trás no marco temporal do ritual.

Rituais de passagem

A Festa da Moça Nova (Worecütchiga) É comum que rituais de passagem para a vida adulta entre as mulheres estejam ligados ao início da menstruação, chamado menarca. O ritual marca a transição das meninas para fase adulta, é o rito de passagem que faz “a menina virar mulher, gente mesmo, humana”.Ribeiro, Samara, and Silva Amaral. “De onde vem esse medo?” Duas Narrativas de Mulheres Indígenas a partir do Mito Akarandek. Diss. 2023. Nessa fala, proveniente da integrante dos Tikuna, Jací, percebe-se uma ideia de caráter mutável do ser feminino. Logo, a identidade indígena demonstra ser construída através dos seus rituais de passagem, não é inata, não se nasce Tikuna, torna-se.

Durante o período da primeira menstruação, dá-se início o começo do procedimento (i.e. rito), categorizado pela reclusão. As meninas devem ser isoladas por dias, meses ou até mesmo anos, a depender da comunidade e o ritual só chega ao seu fim quando entende-se a chegada da fase adulta;antigamente, a coleta da mandioca para preparar o pajauaru (i.e. bebida fermentada típica dos Tikuna) era feita depois da menstruação, o que contribuía no alongamento da reclusão. A extração mais recentemente ocorre antes do período da menarca, realizada pelos pais das meninas prestes a ovular.

O papel masculino parental na participação do rito abrange desde a extração da mandioca até a construção das Casas de Festa, local onde as meninas permanecem em reclusão, dentro de quartos com paredes formadas por talos de buriti (turi). Nesta fase, a moça não pode conversar com ninguém, nem com seu pai, nem com sua mãe. Tradicionalmente, a menina quando menstruava era alertada a entregar seu colar ao irmão mais novo, o qual encaminhava-se de pendurá-lo em um lugar visível; a mãe da menina, ao ver o colar, já sabe que a filha estaria esperando escondida para ser buscada, responsabilidade exclusiva da mãe. À mãe também é confiada a tarefa de chamar a velha ou o velho mais experiente em cantar. Desse modo, cantando e tocando, o velho ou a cantora devem conduzir a menina ao quarto de buriti, onde passará a noite sem falar.

Na manhã seguinte, a reclusa joga uma praga à árvore de Taperebá, na falta dessa, à pupunheira. Acredita-se entre a etnia Tikuna um alto poder das meninas recém-menstruadas em praguejar, porém esse poder acompanha os dois lados, e implica grande vulnerabilidade, suscetíveis a serem alvo de pragas. O limiar entre o mundo terrestre e o espiritual, isto é, a capacidade maior da menina pós menarca em lançar maldizeres, parece estar relacionado ao conceito proposto por Arnold Gennep, o rito de margem. Tal suposição comprava-se ainda pela relação estabelecida pelos povos Tikuna, segundo a qual a primeira menstruação decorre de uma relação sexual com a Lua, reafirmando o caráter mítico do momento. Ademais, existe um entendimento que no decorrer do processo de afastamento, a moça detém dentro dela ü’üne, um imortal, ela é assim mortal e imortal, está em uma espécie de muro entre os dois mundos (humano e espiritual, respectivamente).

Os relatos quanto aqueles que podem visitar as meninas escondidas divergem entre si, alguns indígenas atribuem à mãe e a tia a tarefa, outros aos pais, irmãos e tios paternos. Inclusive, os últimos frequentemente administram o ritual, conhecidos, nessa ocasião, por copeiros; o copeiro pode falar com as meninas "presas" nos quartos, e possui a função de servir o pajauaru aos participantes da festa.

Para homenagear, agradecer, ou pagar os copeiros, as moças em reclusão precisam tecer um rolo de corda à base de Tucum, este é o único trabalho delas. Uma outra finalidade do trabalho de tecer estaria relacionada a virar uma boa esposa, já que a habilidade artesanal da mulher indígena é valorizada pelos locais.

O convite para Festa das Moças Novas é a parte antecipatória ao ritual público, intermediária, na qual os mensageiros passam de porta em porta anunciando a realização da cerimônia, o dia e o horário. Ali, às portas de casa, os moradores confirmam sua presença, ou em caso contrário, declaram sua ausência no evento. Esse período caracteriza-se pelo preparo dos moqueados, carnes ensopadas cozidas a partir da caça realizada pelos donos da festa em conjunto a voluntários. Destina-se o cozido feito das carnes de caça à alimentação das moças novas.

A festa atualmente dura três dias, da noite de sexta-feira até a tarde de domingo. Abre-se o festival com a "dança das crianças", na sexta feira, e no sábado chegam os convidados de fora da aldeia; as danças são constantes ao longo da festa inteira, no sábado, acontece a dança com o tamborim tutu, que pode durar longo tempo. Se o tori (instrumento confeccionado pelo casco de tracajá) estiver pronto sábado, dançam as danças do tracajá.

As moças novas são pintadas com jenipapo, logo que deixam seus quartos de reclusão. A finalidade da pintura, além de ocultar o cheiro de sangue vindo delas, seria de renovar a pele. Com o mesmo intuito arrancam os cabelos da menina, fio a fio, visando estimular o renascimento capilar. Após o pequeno ritual do jenipapo, as moças voltam ao estado recluso, nos quartos, onde ficarão até o aprontamento dos demais adornos (e.g. o cocar).

É no presentear dos adornos com pena que está inserida a terceira dança, apresentada pelos copeiros; os copeiros vestem os adornos antes de presenteá-las, assemelhando-se as moças novas, contudo, só durante o momento de doação material, homens não tem autorização para uso do cocar durante essa festa. Depois do enfeitamento feminino (principalmente pela tinta dos jenipapos), surgem os mascarados. Tentam invadir a "casa" de reclusão das meninas, correm atrás das mulheres, provocam grande gritaria. Isso se explica pela suposta manifestação dos ngo’o (espíritos maus) no corpo dos mascarados. Apesar da crença na qual os espíritos encarnados viriam atraídos pelo cheiro do sangue das mulheres, os indígenas não os castigam; pelo contrário, oferecem quantias de carne moqueada para suprir a "vontade ávida" dos mascarados. Esta oferenda pode ser traduzida como uma forma de apacificar o desejo das entidades manifestadas pela carne humana, assim, para conter a fome dos ngo’o, é necessária carne de caça.

O fim do ritual é marcado pela abertura das portas do quarto, a fim de que as moças dancem com os mascarados. Toda a dança desenrola-se na tentativo dos mascarados, em especial, Õma (pai do vento), atingirem as novas moças com artefatos de madeira em formato fálico masculino, com proporções amplificadas. A dança-luta gira entorno do acesso sexual às meninas, feito de maneira simbólica, por meio das representações genitálias produzidas com madeira presas na cintura dos homens mascarados. As moças não se devem deixar atingir pelos espíritos, segurando eles pelas costas, ou para algumas, segurando o órgão simbolizado. A elas também é proibido o riso, ainda que estimulado pelos mascarados, a moça que ri no rito é mal falada na comunidade, e ameaça a abundância de peixes e caça, conforme acreditam os nativos.

O que parece acontecer nesse rito de passagem é uma "aliança monstruosa". Convidar os seres imortais, apelidados bichos, é uma forma de aliar-se e impedir que roubem as moças para si, outrossim, as moças não devem temer os espíritos, apenas impedir que "tirem" sua castidade. Tanto que a menina precisa passar pela dança com os invocados para ser mulher. Aquelas que não o fazem, são vistas de modo repulsivo pela sociedade em volta.