O impacto das mudanças climáticas nos povos tradicionais refere-se ao conjunto de efeitos climáticos das ações promovidas pelo homem no meio ocupado pelos povos tradicionais, segundo a definição adotada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a mudança climática, na qual estabelece serem mudanças climáticas aquelas ligadas à antropização.Convenção sobre Mudança do Clima. Disponível em: <https://cetesb.sp.gov.br/proclima/wp-content/uploads/sites/36/2014/08/convencaomudancadoclima.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2024f. Tais efeitos climáticos são os mesmos efeitos presentes ao redor do mundo, no entanto, podem apresentar maior proporção ou maior alastramento dentre as comunidades tradicionais, sendo, por essa razão, considerados grupos vulneráveis aos impactos da mudança do clima.

Os efeitos decorrentes da mudança climáticas são diversos, e não afetam somente os seres humanos, mas qualquer forma de vida existente. No entanto, as Nações Unidas apontam oito deles, a ver: temperaturas mais altas, tempestades mais severas, aumento da seca, expansão e aquecimento do oceano, perda da biodiversidade (perda de espécies), insegurança alimentar, riscos para a saúde, pobreza e deslocamento. Já a Comissão Europeia subdivide em quatro principais categorias: Ameaças sociais, empresárias, territoriais e consequências para a natureza, cada qual com suas subcategorias. Para os indígenas, ribeirinhos, catadores de mangaba, quebradeiras de coco babaçu e outras comunidades tradicionais do Brasil habitantes das áreas rurais, a noção entre ameaças sociais e ameaças da natureza não se distingue, pois há uma relação intrínseca entre a manutenção da natureza e seu bem-estar social.Povos e Comunidades Tradicionais. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/povos-e-comunidades-tradicionais>. Acesso em: 13 nov. 2024.

Impactos econômicos

Castanheiros e a castanha-do-pará Os castanheiros ou guardiões da floresta, são extrativistas vegetais da Castanha-do-pará, compostos por comunidades tradicionais e indígenas que contribuem para a movimentação econômica do Brasil, anualmente, com mais de dois bilhões e trezentos mil reais. Ao todo, o Brasil lucra com o extrativismo vegetal cerca de R$ 6,2 bilhões de acordo com dados da IBGE, ou seja, os castanheiros representam aproximadamente um terço desse total. Além da importância econômica, os trabalhadores da coleta da Castanha-do-pará preservam a floresta Amazônica—através do uso sustentável de seus recursos, praticam a vigilância quanto à presença de estrangeiros (atividades ilegais de extração), e dependem dela para sua sobrevivência, muito além da subsistência econômica, conforme defende Magda Ribeiro, professora adjunto do departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG. Ela destaca: “A coleta da castanha movimenta a vida de toda a comunidade. O preparo para a jornada, a reunião com os companheiros e tudo aquilo que se vive nos castanhais são, na verdade, expressões da cultura, da potência e de uma profunda capacidade de adaptação desses ribeirinhos”.

No Brasil, em consonância com dados da Embrapa, a prática da atividade castanheira data de mais de 70 anos, tendo seu auge nos anos de 1950. Entretanto, durante os anos de 1970, com mais de 100 000 toneladas "produzidas", até 1990, quando começou a decrescer.DE CASTANHA- DO-PARÁ, B.; DE CAMETÁ, NA M. Avaliação de uma Indústria. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/28767/1/ComTec213.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2024. Hoje, o país ocupada a segunda posição na exportação da Castanha-do-Brasil, atrás da Bolívia; aliás, não somente na exportação do produto, como no seu valor agregado, na qualidade sanitária e nas tecnologias. Essa mudança na posição do mercado global da iguaria é uma consequência decorrente do prolongamento do fenômeno climático La niña, em 2017; o castanheiro Jonas Lima do Nascimento explica, dessa maneira, a queda nas safras. Em algumas regiões, a escassez chegou a setenta por cento, o que causou um aumento desproporcional no preço das safras, afastando os consumidores do mercado. Ainda nos anos seguintes, o mercado não se recuperou totalmente desse impacto, e a Bolívia permaneceu com o primeiro lugar nas exportações em meados dos anos 2000 até hoje, em 2024.

As mudanças climáticas no fenômeno La niña proporcionaram o atraso nas chuvas de 2015, interferindo no amadurecimento dos frutos que seriam coletados em 2017. Recentemente, a extensão do período das chuvas na região dos castanhais está alterando os costumes tradicionais repassados pela comunidade empregada pelos castanheiros. Se é comum a alta nos rios até o mês de maio, propiciando a navegação na área dos chamados Igarapés, e é nos meses de março ou abril que os ouriços de castanha param de cair., com a seca causada por La niña, o florescimento dos frutos mudou, e pode influenciar o período da coleta, visto que a queda dos ouriços (pelo qual os extrativistas orientam-se) depende do amadurecimento prévio da castanha.

Ribeirinhos Os ribeirinhos, moradores das áreas de Igarapé, lidam constantemente com períodos de cheias e secas no rio, processo qual já estão acostumados. Todavia, o Igarapé é tradicionalmente um local à beira dos rios, e não uma área de várzea, isto é, de enchentes sazonais. Essa seria uma característica dos Igapós, porém, com a alteração climática anormal, as cheias nos rios transformaram-se em enchentes, prejudicando a prática da avicultura local. Antes, os ribeirinhos mantinham aves nos arredores e compunham sua alimentação com a carne advinda da atividade pecuária, contudo, o aumento no nível da água tem levado à diminuição na quantidade de espécies, obrigando os moradores à beira dos rios a consumir aves comprada no mercado.

O dano é primeiro no encarecimento da alimentação básica desses povos da Amazônia, pois dependem da aquisição da proteína por fora da comunidade. O segundo impacto faz-se notar pela diminuição dos grupos ribeirinhos que se dedicam ao comércio dos animais galliformes, e igualmente de bovinos ou caprinos. Fica difícil para a população local realocar todo o rebanho durante os meses de cheias, migrar todos os animais, para muitos, é uma atividade que não compensa. Dentre os poucos restantes, tornou-se comum a venda de toda produção ao aproximar da subida das águas, para evitar que o quintal seja alagado e danifique suas criações.

Na ausência da renda proporcionada pela criação de animais, os ribeirinhos costumam optar pela venda de peixes. Mas, essa é mais uma das áreas afetadas pela mudança do clima, tanto as cheias abundantes quanto as secas tem a capacidade de modificar as vidas subaquáticas e, por consequência, a lucratividade dos povos do rio.Brandão, Luciana Costa. "Vidas ribeirinhas e mudanças climáticas na Amazônia: ativando híbridos, friccionando conhecimentos e tecendo redes no contexto do Antropoceno." (2019). Wandicleia Lopes, coordenadora da organização Sapopema, explica em outras palavras, a importância da pesca para a base alimentar ribeirinha, e garante que das reclamações ouvidas pelo grupo, a maior delas é na dificuldade de pesca. Quando o fluxo dos rios enche demasiadamente, os peixes dispersam-se para outros lagos e afluentes, dificultando a captura, pelo contrário, na extrema seca, os rios baixam o volume e matam os cardumes, impedindo a estabilidade econômica do povo nativo da beirada dos rios.

Indígenas A Organização Mundial do Turismo (OMT), em 2017, anunciou que as mudanças climáticas poderiam impactar o turismo em diferentes modalidades. De acordo, o Programa de Pesquisa em Mudanças Globais dos EUA num estudo sobre "Mudanças Climáticas: Impactos sobre os Estados Unidos" reserva uma seção para os homens e povos nativos dos Estados Unidos, dentre eles, os indígenas. Assim, o programa indica cinco questões primárias dentro dessa seção de impactos, e cita "sobre o turismo e desenvolvimento da humanidade".

O turismo em comunidades indígenas é um ganho para os dois lados, tanto para o desenvolvimento da economia nos grupos étnicos originários quanto para a preservação da diversidade cultural. Tendo em vista estratégias corretas que promovam parceria indígena, lucratividade e respeito da cultura adversa, seja essa a dos visitantes ou dos anfitriões, o turismo pode ser uma ótima fonte de renda para as comunidades locais, numa prática conhecida por etnoturismo, além de movimentar a economia do país. Estudo da WTTC (World Travel & Tourism Council), ou em português, o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (o estudo foi aplicado pelo conselho americano) aponta que o turismo indígena deve injetar sessenta e sete bilhões de dólares até 2034 na economia global.

A WTTC enfatiza a velocidade com que se tem crescido o turismo em comunidades indígenas, e alia aos benefícios da atividade rentável a possibilidade de gerar empregos para os povos tradicionais e o lado vantajoso para os turistas, que podem usufruir de uma história cultural a partir de vivências e aprendizagem com os locais. Só no Canadá, o setor turístico indígena proporcionou mais trinta e nove mil empregos e uma renda equivalente à 1,7 bilhões de dólares canadenses, em 2017.

Na visão dos indígenas da aldeia Raposa Serra do Sol, terceira a ter Plano de Visitação no turismo desenvolvido pela FUNAI—em parceria com universidades locais, consultorias e a Delegacia do Turismo de Roraima—, a ideia soou diferente no começo, até porque não se tem uma palavra específica para turismo em sua língua natal, mas com o passar das experiências, viram bons resultados na venda de panelas de barro, e criaram curiosidade em relação aos estrangeiros que os visitavam. Em terras perto do Rio Cuieiras-Amazonas, a comunidade Pisasú Sarusawa, do povo Baré,Planta de localização da comunidade Pisasu Sarusawa. Disponível em: <https://www.researchgate.net/figure/Figura-1-Planta-de-localizacao-da-comunidade-Pisasu-Sarusawa-Fonte-Centro-de-Midia_fig1_319854487>. Acesso em: 15 nov. 2024n. adota o etnoturismo de base comunitária, e alcançaram bônus econômicos e sociais, dado que antes a população dependia exclusivamente da atividade madeireira e com o turismo surgiram oportunidades de trabalho no artesanato e na atividade turística em si.

Porém, em conformidade com Grimm, as mudanças climáticas interferem diretamente na oferta de serviços turísticos, meios de hospedagem, disposição de alimentos e outros serviços disponibilizados pelas agências de turismo, ou ainda pelo turismo de base comunitária (TBC), e indiretamente no interesse das pessoas (i.e. clientes) em participar dessas atividades enquanto os locais geográficos foram alterados pela mudança climática.

Outrossim, o fenômeno climático La niña por meio do resfriamento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, estimula o aumento das precipitações no Norte da Amazônia e corrobora a falência dos negócios turísticos, causando danos à infraestrutura do turismo, pelas chuvas ou por inundações procedentes e limitando a oferta de atividades na natureza, ao ar livre. Em outra via, o El niño-Oscilação Sul (ENSO) incide nos períodos de estiagem, carregando outros impactos para o turismo regional. Por exemplo, atividades em que se toma banho nos rios ou cachoeiras são impedidas, logo, impede-se por igual a prática de esportes na água e pesca. Deste modo, ora as inundações, ora as secas, as duas representam danos à execução das atividades turísticas, além de afastarem o fluxo de turistas pelos climas extremos ou pelas alterações no meio ambiente derivadas.

Impactos sociais

Ribeirinhos