Guerra do Iraque, também referida como Ocupação do Iraque ou Segunda Guerra do Golfo, ou Terceira Guerra do Golfo ou ainda como Operação Liberdade do Iraque (), foi um conflito que começou no dia 20 de março de 2003 com a invasão do Iraque, por uma coalizão militar multinacional liderada pelos Estados Unidos. Esta fase do conflito foi encerrada no dia 18 de dezembro de 2011 com a retirada das tropas americanas do território iraquiano após oito anos de ocupação.War is over: Last U.S. combat troops leave Iraq; 50,000 remain as advisers, por Leo Standora. New York Daily News, 19 de agosto de 2010. O conflito aconteceu no contexto da Guerra ao Terror, lançada pelo presidente americano George W. Bush após os atentados de 11 de setembro de 2001.

A invasão começou em 20 de março de 2003, com os Estados Unidos, o Reino Unido e um punhado de nações aliadas, lançando uma pesada campanha de bombardeamento aéreo ("Choque e pavor") contra as principais cidades do Iraque, principalmente Bagdá. O exército iraquiano foi rapidamente sobrepujado pela Coalizão ocidental (encabeçada pelo exército americano), que em menos de um mês conseguiu tomar conta do país. A invasão aliada levou ao colapso do governo Baathista; o presidente iraquiano, Saddam Hussein, foi capturado na Operação Red Dawn em dezembro de 2003 e três anos mais tarde foi julgado e depois executado na forca. Contudo, o vácuo de poder após a queda do ditador e a ineficiência da ocupação estrangeira levou a uma onda de violência sectária e religiosa, principalmente amparada na rivalidade entre xiitas e sunitas, que mergulhou o país numa sangrenta guerra civil. Militantes islamitas estrangeiros começaram a chegar em peso no Iraque para lutar contra as tropas de ocupação ocidental e contra o novo governo secular iraquiano. Grupos como a Al-Qaeda se fortaleceram na região e utilizaram o território iraquiano para expandir suas atividades. Frente ao aumento da intensidade do conflito em uma sangrenta luta de guerrilha, vários países começaram a abandonar a Coalizão e retiraram suas tropas do Iraque. Os Estados Unidos foi pelo caminho oposto, aumentando consideravelmente sua presença militar no país em 2007 e, logo em seguida, a insurgência iraquiana começou a perder força. A partir de 2009, os americanos começaram o processo de desmobilizar suas tropas do Iraque, até que a retirada foi completada em dezembro de 2011.

O Governo Bush baseou sua racionalidade para lançar a guerra na ideia de que o Iraque, visto pelo Ocidente como um "Estado vilão" desde a Guerra do Golfo, possuía armas de destruição em massa (WMDs, na sigla em inglês) e que o regime de Saddam Hussein representava uma ameaça grave para os Estados Unidos e seus aliados.Center for American Progress (29 de janeiro de 2004) "In Their Own Words: Iraq's 'Imminent' Threat" americanprogress.orgSenador Bill Nelson (28 de janeiro de 2004) "New Information on Iraq's Possession of Weapons of Mass Destruction", Oficiais e autoridades do governo americano também acusaram Saddam de dar abrigo e apoio a terroristas da al-Qaeda, enquanto outros argumentavam sobre o valor moral de derrubar uma ditadura e levar democracia ao povo iraquiano."President Discusses the Future of Iraq" "Bush Sought 'Way' To Invade Iraq?" Após a invasão, contudo, nenhuma evidência substancial foi encontrada para apoiar as acusações de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, enquanto a hipótese de que Saddam tinha laços com a al-Qaeda se provou falsa. A racionalidade que levou os Estados Unidos à guerra foi duramente criticada, tanto pela população americana quanto pelo mundo afora. Uma das consequências internas foi o declínio considerável da popularidade de George Bush, que se tornaria um dos presidentes mais impopulares da história americana, com a esmagadora da maioria da população dos Estados Unidos acreditando, no final da década de 2000, que invadir o Iraque foi um erro.

Enquanto isso, no Iraque, foi realizado em 2005 eleições multi-partidárias legitimamente democráticas, sendo a primeira em décadas. Nouri al-Maliki se tornou primeiro-ministro do país em 2006 e só deixou o cargo em 2014. O governo de al-Maliki foi, ao longo do tempo, adotando políticas que favoreciam os xiitas e assim alienou a minoria sunita da nação, o que fez ressurgir as tensões sectárias no começo da década de 2010. Se aproveitando disso, em 2014, o grupo terrorista auto-proclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na sigla em inglês) lançou uma série de ofensivas militares nas províncias de Ninawa, Saladino e Ambar, e dominaram boa parte do norte do Iraque, proclamando um Califado na região, provocando uma nova resposta militar dos Estados Unidos e das nações ocidentais.

As estimativas do total de pessoas mortas na guerra (de 2003 a 2011) divergem de fonte para fonte, com os números variando de 100 000 a até mais de 600 000 fatalidades. Um estudo de 2019 feito pelo Exército dos Estados Unidos, afirmou que o Irã emergiu como "o único vitorioso" da guerra, pois conseguiu expandir sua influência e poder pela região de forma considerável.

Antecedentes, 1991-2003

Os inspetores da ONU e as zonas de voo interditadas, 1991-2001 thumb|esquerda|Inspetores de armas da ONU no Iraque, 2002 Após a Guerra do Golfo de 1991, a resolução nº 687 do Conselho de Segurança das Nações Unidas ordenou que os programas químicos, biológicos, nucleares e de mísseis de longo alcance do Iraque fossem encerrados e que todas estas armas fossem destruídas sob supervisão de uma Comissão Especial das Nações Unidas. Inspectores das Nações Unidas no Iraque deveriam verificar a destruição de grandes quantidades de armas de destruição maciça, mas, em razão da falta de cooperação do governo iraquiano, estes abandonaram o Iraque em 1998, e muitos problemas ficaram por resolver.

Além das inspeções, os Estados Unidos e o Reino Unido (juntamente com a França até 1998) envolveram-se num conflito "frio" com o Iraque para obrigá-lo a respeitar as zonas de voo interdito norte e sul. Estas zonas foram criadas após a Guerra Irão-Iraque para proteger o Curdistão iraquiano, no norte, e as zonas xiitas meridionais. A interdição foi vista pelo governo iraquiano como uma violação da soberania iraquiana. Baterias antiaéreas iraquianas e patrulhas aéreas americanas e britânicas trocavam fogo regularmente durante este período.

Aproximadamente nove meses depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos iniciaram a chamada Operação Foco a Sul, alterando a sua resposta estratégica, aumentando o número de missões e seleccionando os alvos através das zonas de voo proibidas, com o objetivo de destruir a estrutura de comando do Iraque. O peso das bombas largadas aumentou de zero em Março de 2002 e de 0,3 toneladas em Abril do mesmo ano para 8 a 14 toneladas por mês de Maio a Agosto, atingindo um pico de 54,6 toneladas em Setembro.

A preparação da guerra, 2001- A justificação original para a guerra do Iraque era o programa de desenvolvimento de armas de destruição maciça pelo Iraque e a alegada colaboração de Saddam Hussein com a Al-Qaeda. No entanto, as informações em que se basearam estas duas justificações foram criticadas e largamente desacreditadas após a invasão, sendo que a administração Bush foi acusada de falsear informações dos serviços secretos.

A questão do desarmamento iraquiano chegou a um ponto de crise quando o presidente norte-americano, George W. Bush, exigiu o fim da produção de armas de destruição em massa por parte do Iraque e o respeito total das resoluções da ONU, que requeriam o acesso sem limites dos inspectores de armamento da ONU a instalações suspeitas de produzirem essas armas. Desde a Guerra do Golfo, a ONU tinha proibido o Iraque de desenvolver e possuir tais armas e exigira que o cumprimento dessa resolução fosse confirmado através de inspecções. Ao longo de 2002, Bush apoiou as exigências de inspecção ilimitada e de desarmamento com a ameaça de uso da força. Após a resolução 1 441 do Conselho de Segurança da ONU,Resolução 1441 do Conselho de Segurança , adotada em 8 de novembro de 2002. que dava ao Iraque uma oportunidade final para cumprir suas obrigações de desarmamento, o Iraque concordou em cooperar com novas inspecções.Iraque promete ajudar ONU na busca por armas proibidas. UOL, 20 de janeiro de 2003. Durante as inspecções, nenhuma arma de destruição maciça foi encontrada. No entanto, o governo norte-americano continuou a manifestar cepticismo relativamente às declarações iraquianas acerca do programa.

Nos estágios iniciais da Guerra ao Terrorismo, a CIA, sob a direcção de George Tenet, estava a tornar-se a principal agência na guerra no Afeganistão. Mas quando Tenet insistiu, em reuniões pessoais com o presidente Bush, que não havia nenhuma ligação entre a Al-Qaeda e o Iraque, o vice-presidente Dick Cheney e o secretário da defesa Donald Rumsfeld iniciaram um programa secreto para reavaliar as informações existentes e marginalizar Tenet e a CIA. As informações questionáveis adquiridas por este programa secreto foi enviada ao vice-presidente e apresentada ao público.

No caso, o departamento de Cheney deixava "escapar" informações para os jornalistas, a qual seria apoiada por meios de comunicação como o The New York Times. Cheney aparecia então em programas televisivos de fim de semana para discutir essas informações, referenciando o "The New York Times" como fonte para dar credibilidade a essa informação.

As alegadas armas de destruição maciça No fim de Fevereiro de 2003, a CIA enviou o ex-embaixador Joseph C. Wilson para investigar alegações duvidosas de que o Iraque tinha tentado comprar concentrados de urânio ao Níger. Wilson voltou e informou a CIA de que as vendas desses concentrados ao Iraque eram "inequivocamente errados". No entanto, a administração Bush continuou a mencionar as compras de concentrados como justificação para a acção militar, especialmente no discurso do Estado da União de Janeiro de 2003, em que o presidente Bush repetiu a alegação, citando fontes dos serviços secretos britânicos.

Como resposta, Wilson escreveu uma coluna crítica no New York Times em Junho de 2003 explicando que a CIA tinha investigado essas alegações e tinha concluído que eram falsas. Pouco depois da coluna de Wilson ter sido editada, a identidade da sua esposa, Valerie Palmer, analista secreta da CIA, foi revelada numa coluna de Robert Novak. Dado que é ilegal revelar a identidade de um agente da CIA, a coluna de Novak deu origem a uma investigação do departamento de justiça acerca da fonte da fuga de informação. Lewis 'Scooter' Libby, o chefe de gabinete de Dick Cheney, foi condenado por perjúrio no Caso Plame. Descobriu-se que a fonte da fuga fora Richard Armitage. Este nunca foi acusado judicialmente. Um memorando do governo britânico foi publicado no The Sunday Times a 1 de Maio de 2005. Conhecido como o "Memorando de Downing Street" contém um resumo de uma reunião secreta entre o governo trabalhista do Reino Unido, figuras da defesa e dos serviços secretos discutindo os passos que levariam à guerra do Iraque-incluindo referências directas a procedimentos confidenciais americanos da altura. O memorando referia que "Bush queria remover Saddam através de uma acção armada, justificada pela conjunção de terrorismo e armas de destruição maciça. Mas as informações dos serviços secretos e os factos estavam a ser construídos à volta desta directiva", e não o contrário.