Tupinicópolis foi o enredo apresentado pela Mocidade Independente de Padre Miguel no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 1987. O samba-enredo homônimo foi composto por Gibi, Chico Cabeleira, Nino Batera e J. Muinhos e interpretado no desfile por Ney Vianna com apoio de David do Pandeiro. O enredo foi assinado pelo carnavalesco Fernando Pinto, que retornou à escola após um ano de afastamento. O patrono da Mocidade, Castor de Andrade, também voltou a investir financeiramente na escola após um ano afastado. "Tupinicópolis" é definida pelo carnavalesco como uma "ficção científica tupiniquim, retrofuturista, pós indígena" e teve inspiração nas discussões sobre a demarcação das terras indígenas no Brasil. No delírio proposto pelo enredo, as terras brasileiras foram demarcadas e entregues aos indígenas, que expulsaram o homem branco e criaram uma metrópole independente, incorporando as paisagens e características do cotidiano urbano aos costumes indígenas.
A Mocidade foi a última escola a se apresentar em 1987, iniciando seu desfile na manhã da terça-feira de carnaval, dia 3 de março de 1987, sendo saudada pelo público presente no Sambódromo com gritos de "campeã". O desfile foi marcado pelo estilo tropicalista e irreverente de Fernando Pinto. Todos os componentes usaram perucas coloridas e muitas mulheres desfilaram de seios nus. Entre as imagens icônicas do desfile estão a alegoria da Discoteca Saci, com indígenas punks andando de patins; as baianas vestidas de oncinha; e a alegoria do Tatu-guerreiro, uma mistura de tatu com tanque de guerra, simbolizando a força do Exército Tupinicopolitano. O desfile teve ainda Roxinho e Irinéia no posto de primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira; Monique Evans como rainha de bateria e os 250 ritmistas comandados pelos mestres Bira, Jorjão, Léo e Tião Miquimba.
Especialistas elogiaram o desfile, listando a Mocidade entre as favoritas ao título de campeã, junto com Vila Isabel, Salgueiro, Império Serrano, Portela, Beija-Flor e Estácio de Sá, indicando um ano de apresentações equilibradas e uma possível disputa acirrada. A Mocidade ganhou o prêmio Estandarte de Ouro de melhor enredo e de melhor intérprete para Ney Vianna. Com o desfile, a escola conquistou o vice-campeonato do carnaval por um ponto de diferença para a Mangueira, que desfilou com o enredo "No Reino das Palavras, Carlos Drummond de Andrade" em homenagem ao poeta de mesmo nome. A Mocidade conseguiu a pontuação máxima na maioria dos quesitos, com exceção de Samba-enredo, que perdeu dois pontos. Apesar da derrota, "Tupinicópolis" é comumente listado entre os desfiles mais marcantes da história do carnaval. Também foi o último desfile concluído pelo carnavalesco Fernando Pinto, que morreu no mesmo ano, num acidente de carro, aos 42 anos de idade.
Antecedentes
Campeã em 1979, a Mocidade Independente de Padre Miguel conquistou seu segundo título no carnaval de 1985 com um desfile em que projetava o carnaval do ano de 2001 sendo realizado no espaço sideral. O enredo "Ziriguidum 2001, Um Carnaval nas Estrelas" foi desenvolvido pelo carnavalesco Fernando Pinto. Após a conquista do título, o patrono da escola, Castor de Andrade, decidiu concentrar seus investimentos no Bangu Atlético Clube. Sem o aporte financeiro que precisava, Fernando Pinto brigou com a diretoria e se desligou da agremiação. Para o carnaval de 1986 a Mocidade contratou os carnavalescos Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo, que desenvolveram um enredo sobre mandingas, bruxarias e afins, conquistando o sétimo lugar do Grupo 1A. Para o carnaval de 1987, Castor de Andrade voltou a investir na escola, chamando de volta o carnavalesco Fernando Pinto.
O enredo O enredo é definido pelo seu autor, o carnavalesco Fernando Pinto, como uma "ficção científica tupiniquim, retrofuturista, pós indígena" e teve inspiração nas discussões sobre a demarcação das terras indígenas no Brasil. Outra inspiração apontada por especialistas foi o filme Planeta dos Macacos, de 1968, que narra uma história distópica sobre uma raça de macacos que domina a civilização humana. A última alegoria do desfile tem uma clara referência à icônica cena final do filme, onde numa reviravolta inesperada, é revelado que a história se passa num futuro distante, assim como acontece com o enredo da Mocidade.miniaturadaimagem|O carnavalesco Fernando Pinto, autor do enredo "Tupinicópolis".|esquerdaNo delírio proposto pelo enredo, as terras brasileiras foram demarcadas e entregues aos indígenas, que expulsaram o homem branco e criaram uma metrópole independente, a Tupinicópolis, incorporando as paisagens e características do cotidiano urbano aos costumes indígenas. Segundo a sinopse do enredo, assinada pelo carnavalesco, "Nessas ricas terras, foram descobertas riquezas naturais infinitas, que foram comercializadas e industrializadas pelos próprios índios. E as ocas se multiplicaram e as tabas se agigantaram e assim nasceu Tupinicópolis; a lendária cidade índia do Terceiro Milênio".
Os termos tupi e tupiniquim são utilizados para batizar a metrópole, seus habitantes (tupinicopolitanos), e o modo de viver do local. O enredo é um passeio pela fictícia Tupinicópolis e seu cotidiano. Durante todo o desfile são apresentados locais como o Shopping Boitatá; o Tupiniquim Palace Hotel; o Supermercado Casa das Onças; a Farmácia Raoni; e a Universidade Tupi Guarani. Os produtos comercializados também são personalizados de acordo com a cultura do local: refrigerante "Tupi-Cola"; shampoo "Jurema"; perfume "Cheiro de Iracema"; entre outros. Entre as opções de lazer da cidade estão a Discoteca Saci; o Cassino Eldorado; o Tupy Iate Clube; e o Bordel da Uiara; além do time de futebol Tupinambá Esporte Clube.
Tupinicópolis não tem prefeito ou presidente, sendo governada pelo "Cacique Geral", um sistema operacional informatizado. É uma sociedade evoluída e moderna, onde seus habitantes são mestres em informática. A cidade é dividia em classes sociais como qualquer outra sociedade, tendo o tupioperariado (classe operária) e o tupiempresariado. As Forças Armadas de Tupinicópolis (Tupioca dos Poderes) são compostas pelo Tatu Guerreiro (Exército), Marreco Bélico (Marinha) e Gaviavião (Aeronáutica). Os prisioneiros ficam na Prisão Jurupari. A moeda corrente da metrópole indígena é o Guarani, que vale mais do que o Cruzado (uma crítica do enredo à inflação brasileira da época do desfile).
O samba-enredo O samba-enredo do desfile foi composto por Gibi, Chico Cabeleira, Nino Batera e J. Muinhos. A obra foi oficialmente lançada no álbum Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1A - Carnaval 87, com interpretação de Ney Vianna. O samba oficial foi escolhido num concurso que contou com 24 obras concorrentes. A obra vencedora desbancou o favoritismo da parceria liderada por Tiãozinho Mocidade, compositor do clássico samba de 1985, "Ziriguidum 2001, Um Carnaval nas Estrelas". A obra venceu por ser mais descritiva.
O desfile A Mocidade foi a última das oito agremiações que se apresentaram na segunda noite (segunda-feira) do Grupo 1, encerrando o carnaval de 1987. A escola iniciou sua apresentação por volta das sete horas da manhã da terça-feira de carnaval, dia 3 de março de 1987, debaixo de sol forte e finalizou sua apresentação recebendo gritos de "campeã" do público presente no Sambódromo, que desceu das arquibancadas para a pista, seguindo a escola, ato conhecido no meio carnavalesco como "arrastão".
Roteiro miniaturadaimagem|280x280px|Motoqueiros indígenas abriram o desfile.
O desfile foi aberto por uma Comissão de Frente formada por quinze homens representando os "Caciques do Asfalto", vestidos com uma casaca branca, com detalhes em estampa de pele de onça, óculos escuros, meia listrada, saia de penas brancas e um grande costeiro com esplendor de plumas brancas. A seguir, desfilou uma alegoria com diversas motos com homens e mulheres com fantasias em estilo punk nas cores prata e dourado. Abre-alas "Taba de Pedra": Cinco carros seguidos um do outro formaram o abre-alas do desfile. A alegoria simbolizou uma visão geral da metrópole indígena, com várias reproduções de prédios decorados com espelho, e reproduções de coqueiros dourados. Num dos prédios, um banner da "Casas das Onça", o supermercado de Tupinicópolis, uma paródia com a Casas da Banha, supermercado popular no Rio de Janeiro naquela época. Em outro, um letreiro do "Tupiniquim Palace Hotel". Além de propagandas de produtos nativos como o refrigerante "Tupi-Cola" e o shampoo "Jurema". Na frente da alegoria, um letreiro com o nome "Tupinicópolis" em LED verde. Ala do "Tupioperariado": Componentes desfilaram com um macacão estilizado nas cores branco e dourado, com a inscrição "Tupi S.A.", e carregavam a reprodução de uma chave inglesa, representando a classe operária da cidade. Na ala seguinte, os componentes desfilaram com blazer e gravata estilizados com estampa de pele de onça e saia de penas brancas, representando o empresariado tupinicopolitano. Ala do "Zeca Tupi": Componentes desfilaram com uma fantasia de papagaio, o mascote de Tupinicópolis, em paródia ao papagaio Zé Carioca, personagem criado por Walt Disney em 1941. Ala do "Tupitran": Componentes desfilaram com fantasias em listras brancas e pretas, decoradas com placas de trânsito e um costeiro em forma de semáforo, simbolizando o Detran (Departamento de Trânsito) de Tupinicópolis. Ala do "Super Mercado Onção": Componentes desfilaram fantasiados com o emblema do fictício Supermercado "Onção".280x280px|Detalhe da alegoria do Shopping Boitatá.|alt=Detalhe da alegoria do Shopping Boitatá.|miniaturadaimagem Alegoria do "Shopping Center Boitatá": Um amontoado de esculturas reproduzindo produtos como sapatos, óculos, televisão, entre outros, além de produtos inusitados como o shampoo "Jurema Maracujá" e o perfume "Cheiro de Iracema". Na parte da frente da alegoria, um chafariz jorrava água de verdade. Componentes vestiam fantasias em tons de prata e branco, com o nome do shopping. Ala da Muamba: Componentes desfilaram com fantasias coloridas, peruca amarela, óculos escuros e chapéu com a reprodução de produtos como liquidificador, representando os muambeiros de Tupinicópolis. Segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira: Rui e Babi desfilaram com fantasias em tons de verde, branco e dourado. O casal de problemas com o chapéu da fantasia, e desfilaram sem o acessório. Ala dos Tucanos: Componentes desfilaram com um chapéu com a forma de tucano, simbolizando a fauna tupinicopolitana. Alegoria da "Fortuna de Tupinicópolis": Em tons de amarelo e dourado, o carro simbolizou o "Banco Tupinicopolitano", com reproduções de cofres, barras de ouro e moedas. Numa crítica à inflação enfrentada pelos brasileiros, a alegoria reproduziu uma cédula de quinhentos cruzados ao lado da cédula de um Guarani, indicando que a moeda de Tupinocópolis valia mais do que a moeda vigente no Brasil naquela época. Marlene Paiva desfilou como destaque na parte alta da alegoria. Ala do "Tutu tupiniquim": Simbolizando o dinheiro de Tupinicópolis, componentes desfilaram com fantasias em tons de amarelo e dourado, e um costeiro com a reprodução de uma cédula de cem guaranis, a moeda tupinicopolitana. Bateria: Sob o comando dos mestres Bira, Jorjão, Léo e Tião Miquimba, Os 250 ritmistas da bateria desfilaram com figurinos em estilo punk indígena, com perucas de cabelo arrepiado (estilo Tina Tuner), óculos espelhados, botas brancas, saia de penas e cocar de plumas. À frente da bateria desfilou Monique Evans, representando Iracema II. A modelo desfilou com seios nus, fantasia de plumas verdes e brancas, e a reprodução de um ninho de cobras na cabeça. Alegoria da "Farmácia Raoni": O carro simbolizou a farmácia da cidade, nomeada em referência ao Cacique Raoni. Reproduções de caixas de remédios naturais e chás decoravam a alegoria. Augusto Silva desfilou como destaque com fantasia de pajé.