miniaturadaimagem|400x400px|Fausto e Mefisto jogando xadrez, anônimo. Século XIX. Ludologia (do latim: ludus, "jogo" ou "brincadeira" com o sufixo -logía, derivado de logos 'λόγος, grego para "ciência", "discurso"), ou game studies é o campo de estudo que investiga os jogos e o ato de jogar, particularmente dedicado, mas não se restringindo, aos jogos eletrônicos e suas jogabilidades. Como disciplina formalista, analisa as regras, dinâmicas e categorias dos jogos, os diferenciando de formas narrativas tradicionais. A ludologia como estudo sistematizado é de ocorrência relativamente nova na academia, ao que se impulsionou principalmente pela prevalência dos videogames na cultura popular e no debate sobre a influência das mídias digitais na sociedade; no entanto, também parte de referenciais históricos que iniciaram o estudo de alguns jogos e práticas culturais descentralizadas.
Historicamente, o tema dos jogos foi relativamente pouco explorado pelas ciências sociais, apesar de seu caráter universal e do lugar que ocupou na reflexão de filósofos antigos como Platão e Aristóteles. Embora alguns historiadores, sociólogos, etnólogos e filósofos, como Eugen Fink, Leo Frobenius, Johan Huizinga e Roger Caillois, já tenham abordado o assunto, apenas recentemente ele passou a ser um campo de pesquisa estruturado e independente, impulsionado pelo sucesso cultural e econômico dos jogos em suporte digital. Antes dos jogos modernos, estas pesquisas eram principalmente objeto da antropologia, mas com o passar do tempo, os estudos de jogos diversificaram metodologicamente, passando a incluir abordagens na área da comunicação e sociologia, oferecendo escopo referencial para o surgimento de um campo autêntico.
A ludologia é um estudo acadêmico interdisciplinar. Ao examinar aspectos do design de jogos, a figura do jogador e o papel que os jogos desempenham em uma sociedade ou cultura, acadêmicos proponentes, analistas e críticos de jogos reconheceram a incorporação de práticas de estudos culturais, sociologia e psicologia nos escritos ludológicos, bem como a influência das ciências sociais e da informática nas metodologias de desenvolvimento de jogos.
A Universidade da Califórnia em Berkeley, em seu campus e curso de informática, oferece a disciplina de Ludologia desde 2007.
Terminologia A palavra "ludologia" foi cunhada originalmente do inglês "ludology", que por sua vez deriva do latim "ludus" (jogo) e do sufixo grego "-λογία" (-logia), que significa "discurso", "estudo" ou "ciência". A pessoa que pratica a ludologia é chamada de "ludólogo" ou "ludóloga", enquanto o adjetivo correspondente é "ludológico" ou "ludológica". Designando atividades como a pesquisa ou escrita sobre jogos.
O termo "Game studies" é usado de forma intercambiável, mas indica um caráter referencial mais abrangente e interdisciplinar. Por outro lado, a ludologia é descrita por sua aproximação científica que enfatiza a análise estrutural e teórica dos jogos:"A ludologia é tão antiga quanto a narratologia. Desde o início, a ludologia se afirmou como uma ciência dos jogos que levava em consideração tanto a organização da prática lúdica (espaço, tempo, regras) quanto sua dimensão social (posição do jogador, efeitos de jogo)."
— Marc Marti e Raphaël Baroni, De l’interactivité du récit au récit interactif
História Embora os primeiros vestígios de escritos sobre o estudo dos jogos possam ser datados desde a Grécia Antiga, especialmente em Aristóteles, na sua obra Ética a Nicômaco,Aristóteles. (322 a.C.), Ética a Nicômaco, em: Caeiro,A. C. (2009), São Paulo: Atlas Editora. foi apenas no século XX que a denominação "Game studies" (e ludologia) surgiram.Até então, o estudo dos jogos estava ancorado na sociologia e na antropologia, principalmente nos trabalhos de Roger Caillois e Johan Huizinga, embora seja importante notar seu particular interesse e uso dos jogos para o estudo da matemática e da filosofia.
Antiguidade miniaturadaimagem|Nobres egípcios jogando uma forma primitiva de xadrez, segundo a concepção artística de Sir Lawrence Alma-Tadema(1879)|461x461px De acordo com a mitologia grega, Palamedes teria inventado os primeiros jogos, juntamente com a aritmética, para combater o tédio durante o cerco de Tróia, a fim de levantar a moral dos soldados; em algumas versões do mito, isso foi feito com a invenção dos dados, e em outras com tabuleiros. Para Aristóteles, no entanto, os jogos teriam sido inventados por Tote no Antigo Egito, com a criação do Senet. Ao contrário das teorias e mitos anteriores, que viam e caracterizavam o ato de jogar apenas como uma ferramenta para matar o tempo ou brincadeira, o levantamento de Aristóteles sugere que os jogos teriam virtudes matemáticas e sociais. Tanto ele quanto Platão consideravam que o conhecimento e as ciências, como a matemática, só deveriam ser ensinadas por meio do jogo, e que essa era sua utilidade, além de ser uma ferramenta social. Assim, nenhum homem se engajaria na educação como um "escravo".Dialética e Retórica da História em Platão e Aristóteles aplicadas à teoria do Jogo
Entre os gregos, o jogo tinha uma grande importância social. O latrúnculo, jogo que misturava estratégia e sorte, permitia o desenvolvimento intelectual e tinha um propósito além de si mesmo. Esta era considerada sua "aplicação correta", segundo Aristóteles.
Idade Média Debates sobre jogos eram muito populares no medievalismo, mas intimamente ligados aos jogos de azar, criticados pelas autoridades religiosas. Segundo elas, os jogadores adotariam comportamentos prejudiciais para si mesmos e para os demais; essa crítica se mostrou persistente até os dias atuais, considerando a prevalência de debates sobre a influência dos jogos eletrônicos no comportamento humano e suas supostas relações com a violência, que ficou conhecida como teoria da catarse.
Uma razão subjacente a visão religiosa da época era o desequilíbrio que os jogos de azar criavam no valor da moeda corrente. Quando o dinheiro é apostado, ele não representa mais nada além de seu valor de jogo, dando menos controle à Igreja sobre o valor de seus tesouros. Esse aspecto histórico viria a influenciar o estudo particular das economias digitais presentes em jogos online.
Iluminismo Com Gottfried Wilhelm Leibniz, o estudo dos jogos levou à criação do campo das probabilidades e do cálculo das partidas. Neste contexto, os jogos eram reduzidos a problemas matemáticos que os jogadores são levados a inovar para alcançar resolução. Leibniz se interessava pelos jogos apenas como uma ferramenta matemática.
De forma mais enfática, Blaise Pascal teorizou que o jogo não é nada mais do que uma forma de entretenimento, um descanso, no qual os homens se imergem para não encarar sua miséria e sua condição de mortais.
Com o avanço das ciências naturais, Karl Groos sugeriu que uma função biológica primária do jogo é dispendiosa e prepara os indivíduos para a vida adulta, como pode ser observado em diferentes espécies animais, como gatos ou macacos.
Modernidade Em 1938, Johan Huizinga definiu o jogo como:[...] uma ação ou uma atividade voluntária, realizada dentro de certos limites de tempo e espaço, seguindo uma regra livremente consentida, mas completamente imperativa, com um fim em si mesma, acompanhada de um sentimento de tensão e alegria, e uma consciência de "ser de outra maneira" do que na "vida cotidiana".Johan Huizinga, Paris, Gallimard, 1938Observa-se que, entre os seis pontos que compõem sua definição, três deles dizem respeito ao estado do jogador (uma atividade voluntária, sentimento de tensão e alegria, e uma consciência de "ser de outra maneira"). Vinte anos depois, Roger Caillois acrescentará a essa definição que jogar é uma atividade "improdutiva" e cujo resultado é "incerto".Roger Caillois, Paris, Gallimard, 1958 Ele também falará, ainda na obra Les Jeux et les Hommes, sobre um sistema de classificação dos jogos baseado na experiência do jogador durante a gameplay.
As pesquisas de Huizinga e Caillois alimentariam os trabalhos dos pesquisadores futuros, seja com a prática lúdica em sua totalidade, seja em jogos específicos como xadrez ou jogos de cartas, até chegar aos videogames.
Surgimento do termo O uso mais antigo conhecido do termo "Ludologia", originalmente em inglês, "Ludology", ocorreu em 1982, no artigo de Mihaly Csikszentmihalyi, "Does Being Human Matter – On Some Interpretive Problems of Comparative Ludology." ("Ser humano importa? - Dos problemas interpretativos da ludologia comparada", em tradução livre).
Porém, não foi até Irving Finkel organizar um colóquio em 1990 (que cresceu e se tornou a International Board Game Studies Association), que Gonzalo Frasca viria a popularizar o termo "ludologia", através da publicação das primeiras edições de periódicos acadêmicos como o Board Game Studies em 1998 e o Game Studies em 2001, bem como a criação da Digital Games Research Association em 2003. A partir daí, os estudiosos começaram a ter a percepção de que o estudo dos jogos poderia (e deveria) ser consolidado em um campo próprio.
Pós-modernidade No final do século XX, com a popularização da quinta geração de consoles (PlayStation, Nintendo 64, entre outros), surgiu um interesse crescente pelo estudo do jogo em plataformas computacionais.
Houve uma institucionalização progressiva dessas pesquisas, no início dos anos 2000, com novas publicações (principalmente no meio anglófono), como Games Studies, revista fundada por Espen Aarseth em 2001, e Games and Culture em 2006. Da mesma forma, conferências foram organizadas por associações como a DiGRA (Digital Games Research Association). Desde cedo, a ludologia se caracterizou pela transdisciplinaridade dos pesquisadores envolvidos. Estes, de fato, provinham tanto das ciências da computação, IHC e matemática, quanto das ciências humanas e sociais.
Bernard Suits escreveu que jogar um jogo é uma vontade deliberada de superar obstáculos desnecessários. Ele também descreveu o que chamou de "atitude lúdica", termo posteriormente utilizado no livro homônimo publicado por Jacques Henriot e Bernard Perron. Essa atitude consistiria no exercício do jogador de restringir suas próprias ações, aceitando regras de um universo que proíbe o uso de soluções eficiente, optando por soluções menos eficazes apenas para superar obstáculos que, em condições normais, seriam desnecessários. O conceito levantado pelo acadêmico se aproxima de definições como "dispositivo de enredo", próprias de estudos do audiovisual.
Contemporaneidade Hoje, a ludologia engloba um conjunto variado de abordagens, algumas com especializações aparentes, orientando seus debates entre a narratologia e a comunicação. As ciências tradicionais também participam da análise e, de forma geral, da emergência deste campo. Sendo uma área jovem, reúne pesquisadores de diferentes disciplinas que já estudavam os jogos de forma ampla, como psicólogos, antropólogos, economistas, pedagogos e sociólogos.
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