Língua cavineña (em cavineño: kabina, AFI: [ka.'β̞i.na]), também conhecida como kavinenya, caviña ou kabineña, é um idioma pertencente à família takana do tronco linguístico pano-takana. É utilizada pelo povo cavineño, o qual tem sua comunidade majoritariamente localizada nos departamentos de Beni e Pando, no norte da Bolívia.
Após ser reconhecido na Constituição Boliviana de 2009, tornou-se um dos idiomas oficiais do Estado Plurinacional da Bolívia, junto a línguas como aimará, guarani e quéchua. Possui apenas cerca de 600 falantes, os quais caracterizam 35% dos indivíduos pertencentes a esse grupo étnico, fazendo dessa uma língua classificada como "definitivamente ameaçada" pelo Atlas Mundial das Línguas em Perigo da UNESCO. A perda cultural e a diminuição do número de falantes nativos se deve à forte aculturação pelo contato com o idioma castelhano, além do etnocídio decorrente do processo de colonização.
O estudo da língua teve início durante a inserção da comunidade em missões de origem franciscana, período no qual foi promovido o contato com outros povos residentes no norte da Bolívia, resultando na integração de diversos empréstimos léxicos. Após o fim das missões, o idioma foi estudado pelo Summer Institute of Linguistics (Instituto de Linguística de Verão), grupo evangélico estadunidense responsável pela publicação dos primeiros dicionários para a língua castelhana e da primeira escrita do idioma, com base no alfabeto latino. Desde o início do século XX a língua cavineña vem sendo estudada metodicamente por acadêmicos e linguistas que descreveram seus fenômenos.
O idioma cavineño possui uma morfologia aglutinante com alto grau de síntese, ou seja, a maioria das palavras (especialmente os verbos) são formadas por prefixos e sufixos adicionados a um morfema base, recorrendo, portanto, a um amplo acervo de clíticos e enclíticos. Além disso, é muito sensível à transitividade verbal, com verbos estritamente transitivos ou intransitivos, e possui uma construção de predicados complexos com mais de 50 afixos e modificadores. Ainda, é a primeira língua da Amazônia com casos descritos da voz antipassiva, um tipo de voz verbal com foco no agente enquanto realizador da ação, tornando o objeto um argumento opcional. Atualmente, a escrita é realizada a partir de uma adaptação do alfabeto latino, proposta pelo linguista Antoine Guillaume no contexto da reforma educacional multicultural de 1994.
Etimologia O termo cavineño é um exônimo apropriado como autodenominação por esse grupo étnico, apesar de ter sua origem desconhecida. Existem hipóteses acerca de sua semelhança com a palavra caviña, da língua araona, que significa "metade" ou "parte", relativa a uma subdivisão da comunidade.
Especula-se que os cavineños (ou caviñas) ancestrais, antes do contato com os colonizadores, formavam um clã dentre o povo araona, também de origem takana. Pela proximidade entre os povos, são perceptíveis elementos culturais semelhantes, e seus idiomas são mutualmente inteligíveis. Entretanto, as narrativas orais comprovam uma linearidade na trajetória histórica dos cavineños, por vezes autodenominados ekwana, endônimo que significa "nós", "gente" ou "grupo".
Posteriormente, o termo de origem araona foi consolidado como etnônimo ao ser utilizado pela Missão Jesus de Cavinas, aldeamento de origem franciscana a qual o povo foi reduzido no século XVIII junto a outras comunidades locais, como os pacaguara e os tirigua, resultando em um processo interétnico que deu origem à atual população cavineña.miniaturadaimagem|325x325px|Duas crianças cavineñas em frente a uma habitação tradicional (1913)
Distribuição Atualmente, a maioria dos falantes nativos do idioma cavineño — os quais caracterizam cerca de 35% deste grupo étnico — vivem em comunidades tradicionais ao leste do rio Beni, sendo apenas duas delas à oeste, no departamento de Pando, localizado no território amazônico da Bolívia. Algumas das principais aldeias dessa região são: Galilea, Buen Destino, Carmen Alto e Misión Cavinas, marcadas pela presença de extensas pampas, conhecidas pela população nativa como llanos del mojos.
Alguns cavineños também emigraram para a as cidades de Riberalta e Guayaramerín, onde são a minoria da população local. Além disso, a aldeia de Santa Ana (ou Mapajo) se mantêm isolada das outras comunidades, na região próxima à fronteira brasileira e à margem boliviana do rio Abunã, devido à sua "venda" como mão de obra para a extração de borracha pelos missionários franciscanos em 1940. A manutenção do idioma varia entre comunidades, apesar de haver menor preservação nas regiões mais próximas de Riberalta, onde a língua não é mais utilizada. Já nas comunidades de Misión Cavinas e San Miguel, o cavineño é o principal mecanismo de comunicação, inclusive entre as crianças. Apesar dos esforços para sua preservação, o idioma é classificado como uma língua "definitivamente ameaçada" de acordo com os parâmetros da UNESCO.
Línguas relacionadas A língua cavineña aparenta ser uniforme, de modo que não possui variação dialetal, com poucos registros de divergências entre o léxico de aldeias tradicionais do sul e comunidades modernas do norte. O idioma, junto às línguas ese'ejja, araona, takana e reyesano (ou maropa), compõe a família linguística takana. Dentre esse grupo, os idiomas são classificados em três ramificações: takanik, que inclui as línguas araona, takana e reyesano; chamik, referente ao ese'ejja; e kavinik ao cavineño. +Quadro comparativo entre o léxico cavineño e araonaPortuguêsCavineñoAraonaAgoraIyakwaDyaBocaEkwatsaCuatsaBraçoEbiEbaiCasaEtareEtaiCabeçaIyukaEshoaCorpoEkwitaCuichaFogoEtiquiCuatiIrmã (mais nova)Nuu / EnuuÉdoeLuaBadiBadiMãoEmetukuEmeNósEkwanaCuama Além das cinco línguas atualmente em uso, existem registros de outros dois idiomas de mesma origem, de exônimos toromona e mabenaro, entretanto, a documentação aprofundada das línguas foi impossibilitada pelo isolamento das comunidades. Apesar da grande diminuição do número de falantes nativos, o cavineño é um dos idiomas menos ameaçados dentre as línguas takana, devido aos esforços da comunidade para o ensino da língua nas escolas locais frente à carência de infraestrutura e de disponibilidade de materiais didáticos.
Ao longo do século XX, diversos estudos metodológicos apontaram uma provável relação de parentesco entre as línguas da família takana com as da família pano, buscando reconstruir uma língua proto-pano-takana, apesar da semelhança entre as famílias não ser linear ou muito intensa. A principal classificação desse tronco linguístico pode ser realizada como segue:miniaturadaimagem|295x295px|Crianças cavineñas tomando banho no rio Beni (1913)
Devido à interação forçada promovida pelas missões a partir do século XVIII, as línguas takana estabeleceram trocas com outras línguas de famílias distintas, em especial os idiomas apurinã, iñapari, machineri, mojeño e yine, da família arawak, e línguas isoladas, como o aimará, quéchua, harákmbut, mosetén-chimane e movima.
História
História da língua Pouco se sabe acerca da história cavineña antes do contato com missionários franciscanos em 1761, ano de fundação da Missão Jesus de Cavina, responsável pelo processo de aculturação e promoção de um projeto civilizatório dentro da comunidade. De acordo com a tradição oral, acredita-se que a população vivia entre os rios Madidi e Beni, onde constantemente enfrentavam rivalidades com os ancestrais da atual comunidade ese'ejja, com destaque à disputa territorial entre os povos. Possivelmente, compunham um clã dentre a comunidade ancestral araona, a qual os nomeava caviños, termo que pode ser traduzido como "metade" ou "parte" de uma aldeia. miniaturadaimagem|336x336px|Indígenas cavineños dançando e tocando instrumentos tradicionais durante a celebração anual da Missão Jesus de Cavinas (1913) A memória cavineña carrega uma relação ambígua acerca do papel dos missionários em sua história, por vezes os apontando como responsáveis pela exploração e violência e, em outros momentos, como compreensivos e colaboradores, atuando no estudo da língua e contribuindo na proteção contra os ataques de outros grupos locais. Ainda, subvertendo o que é frequentemente narrado na historiografia, não os descrevem como possuidores de poder irrestrito sobre a comunidade, e demonstram que, com o passar do tempo, esses perderam a força e influência que exerciam no local.
A ausência de reconhecimento linguístico e de compreensão entre as comunidades locais, ainda que ocorressem entre falantes de idiomas próximos, como o cavineña e o ese'ejja, pressionou a ocorrência de embates frequentes durante o período das missões. Durante o período conhecido como a "febre da borracha", parte da população cavineña foi isolada para a realização do trabalho extrativista na aldeia atualmente conhecida como Santa Ana (ou Mapajo), localizada na região próxima à fronteira com o Brasil. A aldeia de Santa Ana não possui qualquer contato com as outras comunidades cavineñas.
No final da década de 1960, os cavineños receberam o Summer Institute of Linguistics (SIL) (Instituto de Linguística de Verão), grupo missionário estadunidense que objetivava a efetivação de um projeto civilizatório de base religiosa evangélica, o qual, apesar de orientar a mudança dos padrões de vida originários, contribuiu para a manutenção do idioma cavineño por meio da documentação e da publicação de dicionários e histórias pessoais, além de proporcionar melhorias na saúde e integridade física da população.
Para as atividades de tradução e construção do dicionário, foi utilizada a ajuda de Alfredo Tabo Amapo, escritor cavineño conhecido pela sua autoetnografia El Eco de las Voces Olvidadas (O Eco das Vozes Esquecidas), na qual o autor objetiva contribuir para a preservação da tradição oral e da história de seu povo. Nesse cenário, a comunidade experienciou um restabelecimento territorial, anteriormente impossibilitado pelas mudanças de gestão das missões e pelos conflitos com outros povos, períodos que forçaram a dispersão dos cavineños para diversos povoados bolivianos, em que permaneceram até o fim da década de 1980.
Após a finalização dos trabalhos do SIL, em 1985, incia-se um momento de forte instabilidade política, pressionando a atuação dos grupos indígenas na reivindicação de seus direitos, como a autonomia, o território, a pluralidade e a livre expressão cultural, destacando-se a atuação conjunta de inimigos históricos, como os cavineña e os ese'ejja. Ainda, contaram com a colaboração de outros povos vizinhos, como os chacobó, de família linguística pano, para a criação da Central Indígena de la Región Amazônica de Bolívia (Central Indígena da Região Amazônica da Bolívia) (CIRABO).
Desde 2009, a comunidade cavineña se mobiliza politicamente para a efetivação de seus direitos, em especial à Tierra Comunitaria de Origen (TCO) (Terra Comunitária de Origem), que os faria proprietários de seu território ancestral. Para essa finalidade, foi criada a Organização Indígena Cavineña, órgão responsável pela comunicação com o governo municipal para o cumprimento de políticas públicas. Além disso, foi criado o Instituto de la Lengua y Cultura Kabineña (ILCK) (Instituto da Língua e Cultura Cavineña), o qual atua na promoção do ensino do idioma e na preservação da cultura tradicional.
História da documentação miniaturadaimagem|274x274px|Olga Nordenskiöld (exploradora) ao lado de uma palmeira em território ancestral cavineño (1913) Os primeiros registros da língua remontam o período de inserção dessa comunidade nas missões e seu mantimento em regime de semi-escravidão como mão de obra durante a "febre da borracha", entre o fim do século XVIII e as primeiras décadas do século XX, a partir de estudos realizados mediante a coleta de corpora, etnônimos, textos religiosos e notas gramaticais, documentados por missionários, exploradores e administradores locais.