Transtorno de despersonalização–desrealização (DPDR, DDD) é um Transtorno mental no qual a pessoa apresenta sensações persistentes ou recorrentes de Despersonalização e/ou Desrealização. A despersonalização é descrita como a sensação de estar desconectado ou dissociado de si mesmo. Indivíduos podem relatar sentir-se como se fossem observadores externos de seus próprios pensamentos ou corpo, e frequentemente relatam sentir perda de controle sobre seus pensamentos ou ações. A desrealização é descrita como o distanciamento do ambiente. Indivíduos que a experimentam podem relatar perceber o mundo ao seu redor como nebuloso, onírico, surreal e/ou visualmente distorcido.
Acredita-se que o transtorno de despersonalização–desrealização seja causado, em grande parte, por traumas interpessoais, como o abuso na infância experiências adversas na infância, especificamente abuso emocional e negligência, têm sido associados ao desenvolvimento de sintomas de despersonalização. Sensações de despersonalização e desrealização são comuns em situações de estresse significativo ou durante ataques de pânico. Indivíduos podem permanecer em um estado de despersonalização durante a duração típica de um ataque de pânico. Entretanto, em alguns casos, o estado dissociativo pode persistir por horas, dias, semanas ou até meses. Em casos raros, os sintomas de um único episódio podem perdurar por anos.
Os critérios diagnósticos para o transtorno de despersonalização–desrealização incluem sensações persistentes ou recorrentes de distanciamento dos processos mentais ou corporais, ou do ambiente. O diagnóstico é estabelecido quando a Dissociação é persistente, interfere nas funções sociais ou ocupacionais da vida diária e/ou causa angústia acentuada no paciente.
Epidemiologia Embora o transtorno de despersonalização–desrealização tenha sido considerado raro, experiências ao longo da vida com ele ocorrem em cerca de 1–2% da população geral. A forma crônica do transtorno apresenta uma prevalência relatada de 0,8 a 1,9%. Embora episódios breves de despersonalização ou desrealização possam ser comuns na população geral, o transtorno é diagnosticado somente quando esses sintomas causam angústia substancial ou comprometem áreas sociais, ocupacionais ou outras importantes do funcionamento diário.
Sinais e sintomas Os sintomas centrais do transtorno de despersonalização–desrealização são a experiência subjetiva de "irrealidade em si mesmo", ou o distanciamento do ambiente. Pessoas diagnosticadas com despersonalização frequentemente experimentam o impulso de questionar e refletir criticamente sobre a natureza da realidade e da existência.
Indivíduos com despersonalização descrevem sentir-se desconectados de sua fisicalidade; como se não estivessem completamente ocupando seu próprio corpo; como se sua fala ou movimentos físicos estivessem fora de seu controle; como se estivessem distanciados de seus próprios pensamentos ou emoções; e experienciam a si mesmos e suas vidas de uma perspectiva distante. Enquanto a despersonalização envolve o distanciamento de si mesmo, indivíduos com desrealização sentem-se desvinculados do ambiente, como se o mundo ao seu redor fosse nebuloso, onírico ou visualmente distorcido. Comumente, descrevem a sensação de que o tempo está passando e que não estão plenamente inseridos no presente. Em alguns casos, podem ser incapazes de reconhecer seu próprio reflexo ou apresentar experiências fora do corpo. Além disso, alguns indivíduos experimentam dificuldade de concentração e problemas com a recuperação de memória, podendo recordar uma memória sem a sensação de tê-la vivenciado pessoalmente. Essas experiências, que atingem o cerne da identidade e da consciência, podem provocar desconforto ou ansiedade. A turbulência interna provocada pelo transtorno pode ainda resultar em depressão.
As primeiras experiências com despersonalização podem ser assustadoras, com os pacientes temendo a perda de controle, a dissociação do restante da sociedade e o comprometimento funcional. A maioria das pessoas com transtorno de despersonalização–desrealização interpreta erroneamente os sintomas, acreditando serem sinais de psicose grave ou disfunção cerebral. Isso frequentemente gera um aumento na ansiedade e na obsessão, contribuindo para o agravamento dos sintomas.
Fatores que tendem a amenizar os sintomas incluem interações pessoais reconfortantes, estímulos físicos ou emocionais intensos e relaxamento. Distrações (como conversar ou assistir a um filme, por exemplo) também podem oferecer alívio temporário. Outros fatores identificados como capazes de aliviar a severidade dos sintomas são a dieta ou o exercício, enquanto o álcool e a fadiga são apontados por alguns como agravantes.
Momentos ocasionais e breves de leve despersonalização podem ser experienciados por muitos indivíduos da população geral; contudo, o transtorno de despersonalização–desrealização caracteriza-se quando essas sensações são intensas, graves, persistentes ou recorrentes e interferem no funcionamento diário. Entretanto, o DPDR é, na maioria das vezes, experienciado de forma crônica e contínua. Para a minoria que apresenta o DPDR de maneira episódica, a duração dos episódios é altamente variável, podendo alguns perdurar por várias semanas.
Causas A causa exata da despersonalização é desconhecida, embora correlações e gatilhos biopsicossocials tenham sido identificados. Acredita-se que a despersonalização possa ser desencadeada por uma resposta biológica a situações perigosas ou com risco de vida, que acarreta uma intensificação dos sentidos e uma entorpecência emocional.
Psicossocial Há evidências crescentes que associam abuso físico e sexual na infância ao desenvolvimento de Transtornos dissociativos. O trauma interpessoal na infância – especialmente o abuso emocional – é um preditor significativo para o diagnóstico de DPDR. Comparado a outros tipos de trauma na infância, o abuso emocional revelou ser o preditor mais significativo tanto para o diagnóstico do transtorno de despersonalização quanto para os escores de despersonalização, mas não para os escores de dissociação geral. Alguns estudos sugerem que um maior abuso emocional e um menor abuso físico predizem a despersonalização em mulheres adultas com Transtorno de estresse pós-traumático. Pacientes com histórico elevado de abuso interpessoal apresentam escores significativamente superiores na Escala de Despersonalização de Cambridge quando comparados a um grupo controle. Uma idade mais precoce para o abuso, maior duração e abuso parental tendem a se correlacionar com a gravidade dos sintomas dissociativos. Além de experiências traumáticas, outros precipitadores comuns do transtorno incluem estresse severo, Transtorno depressivo maior ou Ataque de pânico.Simeon D: Depersonalisation disorder: a contemporary overview . CNS Drugs. 2004. Pessoas que vivem em culturas altamente Individualistas podem ser mais vulneráveis à despersonalização devido a uma hipersensibilidade em relação a ameaças e ao medo de perder o controle.
Um estudo de 2010 encontrou evidências de que alguns usuários que participam de Realidade virtual (RV) podem ter maior propensão a experimentar dissociação após o uso. Os usuários relataram níveis mais elevados de uma sensação reduzida de presença na realidade após a exposição à RV. Contudo, observou-se que os efeitos da exposição tendem a desaparecer rapidamente ao retornar à realidade objetiva. Adicionalmente, indivíduos que apresentavam níveis pré-existentes mais altos de dissociação, bem como aqueles mais facilmente imersos na imaginação, mostraram maiores aumentos nos sintomas dissociativos após a exposição à RV. Este estudo forneceu evidências de uma ligação entre os processos imaginativos do cérebro e as experiências dissociativas.
Neurobiologia thumb|Imagem animada mostrando o Córtex pré-frontal, que se acredita desempenhar um papel no DPDR Há evidências convergentes de que o Córtex pré-frontal pode inibir os circuitos neurais que normalmente fundamentam a experiência emocional. Em um estudo de Ressonância magnética funcional com pacientes de DPDR, cenas emocionalmente aversivas ativaram o Córtex pré-frontal ventral direito. Os participantes demonstraram uma resposta neural reduzida em regiões sensíveis às emoções, bem como uma resposta aumentada em regiões associadas à regulação emocional. Em um teste similar de Memória, pacientes com transtorno de despersonalização não processaram material emocionalmente saliente da mesma forma que os controles saudáveis. Em um teste das respostas de condutância da pele a estímulos desagradáveis, os sujeitos demonstraram um mecanismo inibitório seletivo no processamento emocional.
Estudos começam a indicar que a Junção temporoparietal tem papel na integração multissensorial, na incorporação e na Distinção entre eu e o outro. Vários estudos que analisaram achados de Ressonância magnética em pacientes com DPDR identificaram diminuição da espessura cortical no Giro temporal médio direito, redução no volume de Matéria cinzenta no caudado, Tálamo e Giross occipitais, bem como menor integridade da Matéria branca nas regiões do temporal esquerdo e da temporoparietal direita. Contudo, não foram observadas alterações estruturais na Amígdala.
Um PET encontrou anomalias funcionais no visual, auditivo e no Córtex somatossensorial, bem como em áreas responsáveis por um esquema corporal integrado.
Um estudo que examinou leituras de EEG encontrou superativação das ondas alfa frontais e aumento da atividade em ondas teta na região temporal do hemisfério esquerdo. thumb|Imagem mostrando a Junção temporoparietal, uma porção do cérebro também implicada no DPDR Não está claro se a genética exerce papel relevante; entretanto, diversas alterações Neuroquímicas e hormonais são observadas em indivíduos com o transtorno de despersonalização. O DPDR pode estar associado à disfunção do Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, área do cérebro envolvida na resposta de "luta ou fuga". Pacientes demonstram níveis anormais de Cortisol e atividade basal. Estudos constataram que é possível diferenciar pacientes com DPDR daqueles com Depressão clínica e Transtorno de estresse pós-traumático.
O Sistema vestibular também pode ter papel no DPDR. Responsável pelo controle do equilíbrio, orientação espacial e coordenação motora, o sistema vestibular atua ainda na autoconsciência. Sua disfunção pode potencialmente ocasionar a sensação de distanciamento do ambiente. Diversos estudos demonstraram que pacientes com Doença vestibular periférica apresentam maior probabilidade de manifestar sintomas dissociativos quando comparados a indivíduos saudáveis.
Sintomas dissociativos também são relatados por indivíduos acometidos por doenças neurológicas, tais como Esclerose lateral amiotrófica, Alzheimer e Esclerose múltipla (EM), entre outras, que afetam diretamente o tecido cerebral.
Diagnóstico Avaliação