miniaturadaimagem|330x330px|Turbinas eólicas nas Colinas Ngong, em um local próximo ao Parque Nacional de Nairóbi.

O financiamento climático no Quénia mobiliza recursos públicos e privados para reduzir emissões de gases de efeito estufa e reforçar a adaptação aos impactos do clima, tanto internamente quanto por meio de parcerias internacionais. Vulnerável a secas e inundações — fenômenos que geram perdas anuais de até 2,8% do PIB e já afetaram mais de 53 milhões de pessoas entre 1990 e 2020 — o país depende de 62 bilhões de dólares até 2030 para cumprir suas metas no Acordo de Paris, dos quais 87% devem vir de apoio externo.

No plano doméstico, a Lei das Alterações Climáticas (2016), o NCCAP e políticas de economia verde criaram incentivos fiscais, Feed-in tariffs e um registro nacional de carbono. No setor energético, a participação de renováveis na matriz saltou de 70% para cerca de 90% entre 2018 e 2023, impulsionada por projetos geotérmicos, solar e eólico — com destaque para o parque Lake Turkana (310 MW) — e com a meta de geração 100% limpa até 2030.

Apesar dos avanços, prevalece o desequilíbrio entre doações e empréstimos, o que onera o orçamento nacional e aprofunda dinâmicas de dívida externa. Críticas apontam falta de transparência em projetos de carbono (como o Northern Kenya Rangelands Carbon Project), denúncias de corrupção em fundos locais (FLLoCA) e insuficiente consulta às comunidades, revelando desafios de equidade e governança na mobilização de recursos.

Contexto e vulnerabilidades

Contexto climático e florestal alt=File:Caltivating Land.jpg|esquerda|miniaturadaimagem|302x302px|Cultivação da terra no Quénia A forte dependência do Quénia da agricultura de sequeiro — responsável por cerca de 98% da produção agrícola do país — torna-o extremamente vulnerável aos impactos das mudanças climáticas, como o aumento da frequência de secas, inundações e temperaturas elevadas. Esses fenómenos ameaçam diretamente a segurança alimentar, a infraestrutura e a estabilidade económica nacional.

As mudanças climáticas no Quénia se manifestam num aumento notável de desastres como secas e inundações; estima-se que esses eventos criem um passivo económico de 2-2,8% do seu PIB a cada ano. Além disso, a irregularidade das chuvas e a ocorrência de eventos climáticos extremos têm provocado aumento da erosão do solo e danos relacionados a inundações, com custos económicos estimados em até 5,5% do PIB a cada sete anos.

Entre 1990 e 2020, o Quénia enfrentou 16 grandes secas que afetaram cerca de 53 milhões de pessoas, resultando em perdas significativas de safras e mortes de rebanhos.

Outros desastres naturais no país que foram atribuídos às mudanças climáticas incluem a invasão de gafanhotos em 2020 e as inundações em 2024.

O território do Quénia possui uma área total de 569.140 km², dos quais aproximadamente 10,7% são destinados a culturas permanentes e terras aráveis, 37,4% a pastagens permanentes e apenas 6,1% mantêm cobertura florestal. No entanto, essa cobertura vem sofrendo uma queda acentuada: em 1963, as florestas ocupavam cerca de 11% do país, percentual que caiu para apenas 6% atualmente.

Contexto económico O Governo do Quénia estima que 62 bilhões de dólares americanos serão gastos na implementação das NDC (ações de mitigação e adaptação) do país entre 2020 e 2030. A necessidade de recursos para ações de mitigação é de 17,7 bilhões de dólares, enquanto os recursos necessários para ações de adaptação são de 43,9 bilhões até o ano de 2030.

Contexto energético alt=File:License plates for electric vehicles in Kenya launched on March 27, 2024.png|miniaturadaimagem|271x271px|Lançamento das novas placas de identificação de veículos elétricos, 2024. No Quénia, os biocombustíveis e resíduos — principalmente a biomassa tradicional, como lenha e carvão vegetal — dominam o suprimento total de energia devido ao seu uso generalizado para cozinhar, especialmente entre os domicílios rurais. No entanto, há uma tendência crescente em direção a fontes de energia mais limpas, com a participação da geotérmica, eólica, solar e hidrelétrica no suprimento energético do Quénia aumentando de 18% em 2019 para 19% em 2023.

O panorama energético do país é caracterizado por uma combinação de produção doméstica e uma dependência significativa de importações, especialmente de petróleo. As fontes de energia limpa, incluindo geotérmica, eólica, solar e hidrelétrica, representam cerca de 24% da produção total de energia do país, refletindo a forte base de recursos renováveis do Quénia e os esforços contínuos para expandir a energia sustentável.

Os preços da eletricidade no Quénia continuam a subir, atingindo 0,26 dólares por KW/hora para consumidores residenciais em 2024, o que o torna um dos preços mais altos da África. Diversos fatores contribuem para essas tarifas elevadas, incluindo o aumento dos custos trabalhistas, perdas significativas no sistema e a necessidade de recuperação de custos pela empresa nacional de energia, Kenya Power and Lighting Company (KPLC).

O Quénia registrou um notável aumento de 4,7% ao ano na produção total de eletricidade entre os anos 2000 – 2023, um crescimento fortemente associado a iniciativas agressivas de eletrificação e a investimentos significativos em infraestrutura de energia renovável.

A rede elétrica do Quénia enfrenta desafios significativos de infraestrutura que limitam sua capacidade de fornecer energia confiável e eficiente para uma população superior a 50 milhões de pessoas. A rede elétrica apresenta perdas elevadas — em média 24% da eletricidade, o que corresponde ao triplo da média global — principalmente devido à infraestrutura obsoleta, ligações ilegais e falhas no sistema de faturamento.

Contribuições nacionalmente determinadas O Quénia é parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (CQNUAC), do Protocolo de Quioto e do Acordo de Paris. A Contribuição Nacionalmente Determinada (CND) do país é evitar as emissões de gases do efeito estufa (GEE) em 32% até 2030, em relação ao cenário de manutenção do status quo, a um custo previsto de 62 bilhões de dólares. Para tanto, segundo o relatório enviado à CQNUAC, o país precisará de apoio internacional para custear 87% do orçamento, uma vez que só conseguirá contribuir com 13% com seus próprios recursos.

Para o período 2031-2035, o país se comprometeu, nas suas segundas CNDs, a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 35% até 2035 (comparado aos patamares atuais de 2025). Nesse segundo período, 20% dos recursos seriam provenientes do próprio Quénia, ante 80% de origem estrangeira. Mais especificamente falando, a projeção é de 22,5 bilhões de dólares em investimentos em mitigação, sendo 4,28 bilhões (19%) nacionais e 18,34 bilhões (81%) internacionais. No campo da adaptação, seriam 17,7 bilhões de dólares, 3,36 bilhões (19%) domésticos e 14,34 bilhões (81%) internacionais.

Quadro político e jurídico O Quénia buscou integrar as considerações sobre mudanças climáticas nos planos, políticas, estratégias, projetos e programas do país, e isso se traduziu na chamada "Visão Quénia 2030", que é um plano de desenvolvimento a longo prazo que engloba programas e projetos de adaptação e mitigação. alt=File:Worker in Olkaria Kenya.jpg|miniaturadaimagem|342x342px|Trabalhadores de uma planta geotérmica, Olkaria. O país tem como um de seus principais objetivos energéticos diversificar a matriz, priorizando fontes renováveis. Para isso, pretende reduzir gradualmente sua dependência de combustíveis fósseis, aproveitando ao máximo o enorme potencial geotérmico, solar, eólico e hidrelétrico de que dispõe. Nesse contexto, destaca‑se a meta ambiciosa de, até 2030, gerar 100% da eletricidade a partir de fontes limpas, posição que consolidaria o Quénia como referência continental em sustentabilidade.

Além da transição para energias renováveis, o governo busca garantir acesso universal à eletricidade até 2030, de modo que nenhuma comunidade permaneça sem fornecimento. Para isso, adotam‑se estratégias que combinam a expansão da rede convencional com soluções off‑grid, especialmente em áreas rurais e isoladas. Paralelamente, há um forte compromisso de promover uma transição energética justa e equitativa, alinhando as reformas setoriais às metas climáticas globais e assegurando que os benefícios cheguem a todos os grupos sociais sem agravar desigualdades pré‑existentes.

Por fim, reconhecendo que o crescimento da geração renovável exige infraestrutura robusta, o Quénia planeja ampliar a capacidade de transmissão e distribuição para 100 GW até 2040, fortalecendo a confiabilidade do sistema e atendendo à demanda futura. Em complemento, o país investirá em tecnologias limpas de cocção, como fogões eficientes e sistemas de aquecimento de baixo impacto, a fim de reduzir a dependência de biomassa tradicional — lenha e carvão vegetal — e mitigar os impactos ambientais e sanitários associados.

Alcançar essas ambiciosas metas energéticas exigirá um investimento estimado em 40 bilhões de dólares na próxima década.

As outras políticas-chave incluem a Estratégia Nacional de Resposta às Alterações Climáticas (NCCRS, na sigla em inglês), de 2010, que foi o primeiro documento de política nacional sobre as alterações climáticas. O objetivo é promover a integração das mudanças climáticas em todo o planejamento e orçamento do governo. Para operacionalizar o NCCRS, foi elaborado o Plano Nacional de Ação para as Alterações Climáticas (NCCAP, na sigla em inglês) um plano quinquenal que definiu um caminho para um desenvolvimento resiliente ao clima e com baixo teor de carbono. Em 2023, o país publicou seu terceiro NCCAP, que vigorará até 2027.

Para fornecer um quadro jurídico para as alterações climáticas, a Lei das Alterações Climáticas foi promulgada em 2016. A lei estabeleceu estruturas de governança para a gestão das alterações climáticas no país, incluindo o Conselho Nacional para as Alterações Climáticas. As outras políticas de apoio incluem a Política Nacional de Financiamento Climático; a Estratégia e o Plano de Implementação da Economia Verde; e a Lei das Alterações Climáticas de 2016.

Além disso, uma série de incentivos financeiros e fiscais foi criada para estimular ainda mais a participação do setor privado. Entre eles, encontram‑se opções de alívio fiscal, garantias de crédito, fundos de investimento subsidiados, feed‑in tariffs e sistemas de compensação de energia (net metering). Esses mecanismos não apenas reduzem os riscos percebidos pelos investidores estrangeiros, mas também promovem o investimento local, elevam a taxa de retorno projetada e fomentam o desenvolvimento de sistemas solares residenciais.

Em resposta à crise florestal, o Quénia lançou iniciativas de sustentabilidade, como a Política Nacional de Uso da Terra, que tem como objetivo coordenar a gestão territorial, promover o uso sustentável e equilibrar o desenvolvimento com a proteção ambiental.

O Marco de Agricultura Inteligente para o Clima do Quénia (Climate-Smart Agriculture – CSA Framework, 2018–2027) tem como objetivo promover uma agricultura resiliente às mudanças climáticas e de baixo carbono, garantindo a segurança alimentar e apoiando as metas de desenvolvimento estabelecidas na Visão 2030 do país.

Incentivos de investimento O Quénia vem avançando no campo do financiamento climático e dos investimentos sustentáveis ao alinhar-se a padrões internacionais de transparência, como a obrigatoriedade do relatório de sustentabilidade conforme as Normas Internacionais de Relato Financeiro (IFRS S2), prevista para 2027.

Em 2024, o país introduziu o regulamento climático sobre mercados de carbono, que estabelece uma base legal para a comercialização de créditos de carbono e cria um Registro Nacional de Carbono, voltado tanto para mercados voluntários quanto regulados.