Anhanga, Anhangá ou Anhá (tupi: Anhanga; guarani: Aña; nheengatu: Anhanga; "espírito", "sombra", "fantasma")Trevisan, Rosana (Coord.). “anhangá”. Michaelis: Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, São Paulo: Melhoramentos, 1998. .é uma entidade presente na mitologia tupi-guarani como parte da cosmovisão de diversos povos originários do Brasil e da literatura indianista.
Tradição tupi Anhangá, comumente retratado como um cervídeo branco, de porte atroz e olhos vermelhos de fogo, reconhecido pelos tupis como o protetor da caça e da pesca, associado pelos colonizadores portugueses à figura do diabo para fins catequéticos.
Os diversos topônimos brasileiros de nome Anhangabaú receberam esse nome de Anhanga, vindo de anhanga + obá + 'y: "água da face do diabo".
Na cultura tupinambá Os tupinambás acreditavam que o Anhangá poderia assumir muitas formas diferentes. Apesar de ter considerado maior ameaça para os mortos, seria visto com frequência e mesmo os vivos podiam ter corpo e alma punidos. A mera lembrança dos sofrimentos impostos pelos anhangás bastava para atormentá-los. Os tupinambás afirmavam temer esse espírito maligno mais do que qualquer outra coisa. Esse espírito foi uma das maiores preocupações ao preparar os mortos para a viagem a Guajupiá. Ofereciam-se oferendas de comida e mantinham uma fogueira para aquecer o corpo. Comida era oferecida tanto para sustentar os mortos quanto para que o Anhangá consumisse a comida ao invés do morto. O fogo tinha como objetivo fornecer calor e proteção aos mortos, mantendo o Anhangá afastado. Os vivos também encorajaram os mortos, incentivando seus falecidos pais e avós, já em Guajupiá a não deixarem seus fogos se apagarem.
Embora seja um deus andarilho e metamorfo (sem forma física fixa), ele é mais comumente retratado como um veado enorme, de pelagem completamente branca, olhos vermelhos como fogo e chifres pontudos, mas pode se transformar em praticamente qualquer animal da selva (como porco-do-mato, tatu, boi, peixe, como o pirarucu, ou tartaruga) e até mesmo em seres humanos para despistar e afugentar caçadores e madeireiros.
O antropólogo e etnógrafo francês Pierre Clastres conta que, no último dos desafios criados por Mairatã antes de reconhecer Mairaíra e Mucuraíra como seus filhos, ele os incumbiu de buscar o anzol com o qual Anhanga (que ele chama "Agnen") pescava o peixe Alain, alimento dos mortos. Mucuraíra tentou primeiro, mas foi morto por Anhanga e seu irmão o trouxe de volta à vida, na forma e beleza originais; depois eles tentaram juntos (ou Mairaíra tentou sozinho) e tiveram sucesso na captura do anzol, sendo finalmente reconhecidos pelo pai como seus filhos.CLASTRES, Pierre. A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios Guarani. Tradução de Nícia Adan Bonatti. Campinas: Papirus, 1990. 144 p. Título original: "Le Grand Parler: mythes et chants sacrés des Indiens Guarani."
Na cultura mawé esquerda|miniaturadaimagem|Jovem sataré-mawé com instrumento de ritual de passagem. Para os mawés, Anhangás são retratados como uns dos vários demônios seguidores de Yurupari (Jurupari). Essas criaturas são conhecidas e temidas por se transformar em diversas formas para enganar as pessoas, amaldiçoá-las, possuí-las, sequestrá-las, matá-las e comê-las. Anhangá não sabe nadar ou tem medo de entrar na água por medo do Sukuyu'wera, espírito protetor das águas, seu inimigo.
Tradição guarani Anhá ou Anhã (também grafado Añá ou Añag) representa os poderes destrutivos da natureza e é responsável por desencadear forças brutais e hostis contra a humanidade. Assim como seu equivalente tupi Anhanga, ele foi considerado como o Diabo no sincretismo religioso com o cristianismo.
Mas, diferentemente da tradição tupi, na guarani Anhá é por vezes identificado com a entidade-jaguar chamada Xariã/Chariã ou Xivi (“Onça” na língua guarani) que matou e devorou Jaxi quando este e seu irmão Quaraí pregaram peças nele, atrapalhando sua pescaria (Jaxi foi depois ressuscitado pelo irmão, e sua morte e renascimento representam as fases da Lua e o eclipse lunar). Anhá/Xariã também matou um filho de Quaraí, e então este lutou com ele, e essa luta é representada pelo eclipse solar.CADOGAN, L. Ayvu rapyta: textos míticos de los Mbyá-Guaraní del Guairá. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1959. (Boletim n. 227 / Antropologia n. 5).GALANTE, Lilian. Investigação etnobotânica na comunidade Guarani Mbya de Tekoa Pyau. 2011. 170 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.
Xariã também é conhecido como o Jaguar Azul (Jaguarovy) celeste, destinado a devorar o Sol e a Lua, levando o mundo ao fim dos tempos. Para os nhandevas (apapocuvas), é o guardião do paraíso de Yvy Marã Ey, dormindo sob a rede de Nhande Ru Vusu.NIMUENDAJÚ, Curt. As lendas da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani. Tradução de Charlotte Emmerich e Eduardo Viveiros de Castro. São Paulo: HUCITEC; Editora da Universidade de São Paulo, 1987.
Há ainda a tradição mbiá de que Anhá/Xariã é irmão ou companheiro de Nhanderu, pois que ambos vieram do mesmo lugar, mas com qualidades opostas, às vezes amigo e às vezes inimigo, e ambos são creditados como os criadores da nova terra depois do dilúvio universal.SILVA, Gabriel da; DOOLEY, Robert A. (comp.). Nosso pai e Xariã fizeram este mundo ("Nhanderu, ha'e Xariã ko yvy onhonoague"). Brasília: Summer Institute of Linguistics, 1988. Nhanderu colocou as plantas bem perto dos homens para facilitar a vida dos homens, mas Anhá/Xariã as roubou e espalhou bem distantes umas das outras para prejudicá-los; em outra história, Nhanderu ensinou uma forma fácil de pescar os peixes, mas Anhá/Xariã, para dificultar a pesca, determinou que se usasse o timbó para atordoar os peixes e então capturá-los. Parte das histórias da inimizade entre Nhanderu e Anhá/Xariã, onde este matara o filho de Nhanderu e mais tarde fora morto queimado ao usar o cocar flamejante de Nhanderu, renascido como a saracura e de suas cinzas surgiram pernilongos e borrachudos, têm paralelos com a inimizade de Anhá/Xariã com Quaraí registrada no Ayvú Rapyta (compilação de mitos orais dos mbyá-guaranis do Guairá, Paraguai), repetindo as mesmas narrativas.
Protetor dos animais miniaturadaimagem|Animal presente em contos que apresentam Anhangá como protetor. Anhanga é descrito como “gênio da floresta protetor da fauna e da flora na mitologia tupi”, que “[...] não devora nem mata. Vinga os animais vitimados pela insaciabilidade dos caçadores”.
Há descrições de que assume a forma de um veado branco com olhos de fogo e é o protetor da caça nas florestas, protegendo os animais contra os caçadores, sobretudo fêmeas com filhotes. Quando a caça conseguia fugir, os indígenas diziam que Anhangá a havia protegido e ajudado a escapar.
Tonicidade Quanto a pronúncia variável:
Colonialismo, Sincretismo e Indianismo
No missionarismo jesuíta O missionário José de Anchieta, nos seus auto Tupi-Medieval dá o nome Anhangupiara, palavra criada a partir da aglutinação dos substantivos anhangá e jupiara, a um anjo, cujo significado na tradução latinizante do tupi anchietano seria inimigo dos anhangás.
Outro jesuíta, António Vieira, descreveu “Anhangá” no Sermão das Incontinências, como entidade dúplice cultuada pelos indígenas.
Falso cognato banto Outra hibridização ocorreu com o banto:
Na literatura moderna e missionarismo contemporâneo Anhangá é presente nas obras indianistas do romanticista brasileiro Gonçalves Dias. Em "O Canto do Piaga" e "Deprecação" Anhangá é caracterizado como entidade cruel e impiedosa, aliado dos colonizadores. Em "Caramuru", o autor apresenta Anhangá ou Anhangás tomando papel de demônios, assim como apresenta Tupã com papel de criador, na criação de um mito colonialista paralelo ao mito de criação da doutrina católica.
Igrejas neopentecostais com forte presença em comunidades mawés fazem a releitura do Anhangá como anúncio do mal e manifestação demoníaca, a ser combatido por orações e cantos.
Uso na ciência taxonômica Um gênero de insetos pentatomídeos brasileiros foi nomeado . Uma espécie de peixe siluriforme da bacia amazonica foi nomeada Trichomycterus anhanga. Um vírus do gênero , que infecta bichos-preguiça, foi nomeado vírus Anhanga. Um vírus encontrado na Bacia de Campos teve sua família nomeada Anhangaviridae em homenagem à Anhangá. A espécie de peixe Bryconamericus agna foi assim nomeada em alusão a añá (outra grafia de Anhangá em tupi).
Ver também Animismo Caipora Curupira Jurupari Xariã
Bibliografia
Categoria:Mitologia tupi-guarani Categoria:Deuses com chifres Categoria:Deuses da caça Categoria:Deuses da morte Categoria:Deuses da natureza Categoria:Deuses da vingança Categoria:Deuses protetores Categoria:Deuses tutelares Categoria:Nomes de entidades de origem tupi