miniaturadaimagem|258x258px|Localização da região de Montalvânia. Lapa do Dragão é um sítio arqueológico localizado no norte de Minas Gerais, no município de Montalvânia. Trata-se de um grande anfiteatro natural, formado pelo desabamento de uma colina que abriu o flanco de um morro calcário, delimitando uma depressão em forma de ferradura, bem fechada, ao redor da qual se distribuem diversos abrigos. O sítio abriga uma das evidências mais antigas de presença humana no território brasileiro e conserva um amplo conjunto de materiais arqueológicos e zooarqueológicos, com datações que se estendem do final do Pleistoceno até o Holoceno superior

Em 1976, o Setor de Arqueologia da UFMG, com apoio da Missão Arqueológica Franco-Brasileira de Minas Gerais, realiza prospecções nos arredores de Montalvânia e elege o abrigo da Lapa do Dragão para ser escavado. A escavação e o levantamento dos grafismos pintados foram conduzidos em 1977, sob a coordenação de André Prous. No entanto, devido a problemas técnicos, os trabalhos não tiveram continuidade nos anos seguintes. O sítio apenas foi retomado no final da década de 1990, sob coordenação de Loredana Ribeiro, com ênfase especial na montagem dos registros de arte rupestre e na finalização do calque.

Importância Histórica Atualmente, sabe-se que a presença humana em território brasileiro data, em uma estimativa cautelosa, do final do Último Máximo Glacial. Ainda assim, são poucos os sítios arqueológicos que apresentam datações tão recuadas: para o período compreendido entre 19000 e 14000 BP as datações proveniem exclusivamente de três sítios localizados na Serra da Capivara. Posterior a este período, a quantidade de datações aumenta progressivamente conforme as datas se tornam mais recentes, entretanto, a Lapa do Dragão figura, junto da Caverna da Pedra Pintada e a Lapa do Boquete como os três sítios mais antigos deste conjunto mais recente. São, portanto, sítios com extrema relevância na confirmação da ocupação humana pleistocênica no Brasil.

As indústrias líticas para o período compreendido entre o final do Pleistoceno e o início do Holoceno da Lapa do Boquete e da Lapa do Dragão apresentam grandes semelhanças. Os dois sítios foram essencias na definção do tecno-complexo Itaparica, que caracteriza grande parte dos conjuntos artefactuais de sítios arqueológicos localizados no centro e norte do país pelos proximos milênios. Histórico das Escavações A região de Montalvânia, no vale do Alto Médio São Francisco foi sondada inicialmente pelo Instituto de Arqueologia Brasileira que realizava prospecções ao longo do curso do rio São Francisco em meados dos anos 1970, o que resultou no levantamento de 15 sítios arqueológicos (Labirinto de Zeus, Possêidon, Dragão e Mamoneira, entre outros).

Diante das datações entre 9000 e 9500 BP obtidas na década de 1960 para um abrigo em Cerca Grande, Minas Gerais, uma nova expedição franco-brasileira foi organizada com o objetivo de explorar a região e procurar dados mais completos sobre o povoamento inicial do país. Coordenada pela pesquisadora Annette Laming-Emperaire, uma extensa equipe de arqueólogos de diversas proeminências realizou escavações no sítio arqueológico Lapa Vermelha IV entre 1973 e 1976. Os achados desse sítio, entre esses aquele que por muito tempo foi considerado o esqueleto humano mais antigo das Américas(Luzia), comprovaram a antiguidade do povoamento humano no Brasil, assim como a das pinturas rupestres brasileiras. As datações obtidas para a presença humana no território brasileiro repercutiram em intensos debates acerca da antiguidade do povoamento das Américas.

É nesse momento das pesquisas arqueológicas brasileiras que a região do norte de Minas, no vale do rio Coxá, passa a ser explorada. Após prospecções, o sítio da Lapa do Dragão foi escolhido para escavação intensiva, devido às suas condições favoráveis à reocupação frequente e à estratigrafia marcadamente contrastante. Os abrigos sempre receberam papel proeminente nos estudos arqueológicos devido às condições que criam, nenhum sítio a céu aberto foi trabalhado em Montalvânia.

Em 1977 duas sondagens, de 4 e 1 m², assim como uma escavação de 23m² foram feitas. Os resultados apresentaram diversos contrastes entre as ocupações das serras do centro de Minas e a região norte. O material coletado foi analisado ao longo dos anos. As indústrias só foram estudadas detalhadamente ao final da década de 1990: a indústria lítica, por André Prous e Fernando Costa, e a cerâmica, por Paulo Jobim. Os vestígios de fauna e flora receberam uma classificação preliminar entre 1978 e 1981, sendo novamente analisados apenas em 2016. Nos anos 1990, as pinturas rupestres começaram a ser estudadas de forma mais sistemática, trabalho que só seria concluído ao longo da primeira década do século XXI, com os estudos de Loredana Ribeiro.

Em 1981, mesma equipe responsável pelas escavações na Lapa do Dragão iniciou um novo programa de pesquisas no vale do rio Peruaçu, cuja exploração arqueológica se estendeu até 1995. Desde então, outras equipes passaram a investigar a região, onde escavações seguem em curso até os dias atuais. Ainda no vale do Rio São Francisco, o vale do Peruaçu está mais ao sul em relação a Montalvânia, a aproximadamente 200km. A lapa do Boquete, principal sítio escavado na região, produziu datações com antiguidade semelhante as da Lapa do Dragão. Outras características do sítio contribuíram para um quadro comparativo e de referência relevante para todo o Brasil central e, particularmente, para o médio vale do São Francisco. As semelhanças entre os sítios ajudaram a elucidar aspectos ainda pouco compreendidos da Lapa do Dragão, além de permitir o delineamento dos desenvolvimentos cronológicos das tradições rupestres da região(ambos sítios apresentavam os mesmos estilos e tradições, na mesma sequência). Por outro lado, diferenças significativas nos grafismos levaram à formulação do chamado Complexo Montalvânia, distinto da tradição São Francisco.

Características Gerais e Estratigrafia O sítio apresenta uma complexa morfologia, composta por uma depressão em forma de ferradura rodeada por abrigos e marcada por um cone central formado pelo desabamento de blocos calcários. Este anfiteatro natural abriga uma série de abrigos rochosos ao redor de seu perímetro, com condições microclimáticas distintas entre as áreas mais sombreadas e protegidas do sul e aquelas abertas e secas do centro e do norte. A parte sul do abrigo, mais protegida da insolação e com temperaturas mais amenas, mostrou evidências de uso humano prolongado e foi o foco das escavações principais. Os painéis de arte rupestre estão localizados sobre superfícies de rocha lisa e não calcificada, frequentemente em pontos de difícil acesso. A região possui vegetação típica do cerrado, com predomínio de pau-pintado e outras espécies adaptadas a solos rasos e pedregosos.

As escavações realizadas em 1977 revelaram uma estratigrafia arqueológica composta por dez camadas principais, distribuídas em setores com diferentes graus de preservação e perturbação. A sequência sedimentar atinge até 2,6 metros de profundidade e apresenta um mergulho em direção ao norte e, de maneira geral, o sedimento matricial é uma argila siltosa avermelhada, cuja cor e textura acabaram sendo modificadas pela ação dos animais e do Homem. A estratigrafia mais íntegra foi observada na região central-sul, sendo tomada como referência. As datações radiocarbônicas obtidas a partir de diferentes contextos (fogueiras, bolsões orgânicos e estruturas de combustão) variam de aproximadamente 970 BP até 11.000 BP, documentando uma longa história de ocupação humana na região

Camada por camada

Camada 0: Corresponde à superfície atual, marcada pela presença de dejeções de mocó, folhas secas e detritos orgânicos. Misturada ao sedimento foram encontrados cacos cerâmicos, lascas de sílex e blocos de calcário em decomposição. Camada I: Sedimento rico em cinzas, conchas de grandes caramujos (Strophocheilidae) esmagadas e queimadas, e diversas fogueiras com estruturas de blocos de calcário. Uma dessas fogueiras datada em 1100 ± 200 BP (CDTIN-1004), enquanto outro nível da mesma camada foi datado em 970 ± 60 BP. Foram identificadas marcas de poste, presença de cordas e fibras vegetais possivelmente relacionadas à estruturação de silos, além de pigmentos ocres. Houve intenso pisoteio que homogeneizou parte do sedimento. Camada II: Composta por argila avermelhada bastante misturada, especialmente próxima ao paredão (setor NO), onde a homogeneização por ação antrópica (possível preenchimento de negativo de silos) dificulta a distinção com a camada I. Contém estruturas de combustão e três buracos de poste. Na base da camada foram encontrados pigmentos amarelos. Camada III: Inicia-se com uma lente vermelha estéril, seguida por cinzas e argila queimada, indicando intensa atividade de queima. Contém carvões de coquinhos, conchas perfuradas e uma marca de esteio. Uma estrutura no contato entre as camadas III e IV foi datada em 2170 ± 60 BP, com calibração entre 240 e 155 anos cal BC. Camada IV: Sedimento pulverulento e heterogêneo, com matriz marrom-avermelhada marcada por cinzas e restos de combustão, possuí lentes estéreis. Apresenta presença de raízes, barro de cupim. No contato entre as camada IV e V há marcas de poste e pigmentos com aparência de córtex de sílex. O nível IV inferior foi datado em 5000 ± 100 BP. Camada V: Subdividida em nível superior de sedimento pulverulento bege a cinza e inferior com piso endurecido de cor marrom-escura, possivelmente queimado. Apresenta fogueiras, marcas de poste, blocos de pigmentos e pequenas depressões interpretadas como "ninhos" de caramujos em hibernação. A camada V superior forneceu datação de 3870 ± 60 BP (calibração 2260–2220 cal BC) Camada VI: Composta por cinzas de fogueiras no nível superior, com blocos de pigmento, e lentes avermelhadas a alaranjadas no nível inferior, com possíveis pigmentos. No setor correspondente à VI inferior, a datação foi de 4040 ± 60 BP (calibração 2620–2475 cal BC), uma das mais antigas da sequência estratigráfica escavada com contexto firme. Camada VII: Sedimento pulverulento, marrom, cinza ou avermelhado, contendo fogueiras e uma marca de poste. Não foi associada a datação específica, mas integra o perfil técnico-estratigráfico das ocupações médias. Camada VIII: Apresenta cinzas compactadas no topo e sedimento mais fofo abaixo. Contém fogueiras nos contatos com as camadas VII e IX. Um nível inferior desta camada foi datado em 11.000 ± 300 BP (CDTIN-1007), representando a data mais antiga da sequência principal. Neste nível foram encontrados um bloco de calcário com superfície picoteada (possivelmente gravada, mas de forma não inteligível) e o que pode ter sido uma uma concha contendo resquícios de pigmento, possivelmente usada como godê. Camada IX: Composta por argila amarelada a avermelhada, praticamente estéril. Contém blocos caídos e material infiltrado das camadas superiores. Apresenta verniz preto em alguns blocos e conchas com dendritos de manganês, indicando alterações químicas naturais. Camada X: Totalmente estéril, composta por argila semelhante à da camada anterior. Inclui uma lente preta (possivelmente dejetos de morcego) e indícios de antigas tocas. Foi considerada o limite inferior da escavação, pois sua continuidade não oferecia indícios de ocupação humana anterior ao Holoceno.