Lutero Rodrigues da Silva (São Paulo, 8 de Agosto de 1950) é um maestro, professor universitário e pesquisador brasileiro. Destaca-se por sua atuação na regência, musicologia e ensino da música erudita brasileira. É membro da Academia Brasileira de Música e professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), com contribuições relevantes à pesquisa e edição crítica do repertório nacional.

Biografia

Formação e início da carreira Lutero Rodrigues nasceu na cidade de Regente Feijó (SP), em 7 de agosto de 1950. Iniciou seus estudos musicais através do violino e mais tarde, piano. Formou-se em Regência pela Universidade de São Paulo (USP) em 1980. Até então, atuou como educador em diversas instituições, dentre elas a Fundação das Artes de São Caetano do Sul e a Escola Municipal de Música, de São Paulo. Frequentou cursos de Regência coral com João Wilson Faustini e Klaus-Dieter Wolff, passando a reger alguns corais, destacando-se o “Madrigal Klaus-Dieter Wolff”, de São Paulo (1974-80). Este grupo recebeu o Prêmio da APCA, como “Melhor Coral de 1980”.

Nesta mesma época, teve aulas privadas de Regência orquestral com o maestro Ronaldo Bologna e em festivais, com o maestro Eleazar de Carvalho. Iniciou sua carreira de Regente orquestral à frente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (1979-80), cidade onde também regeu, no mesmo período, o “Madrigal Revivis” . Recebeu ainda algumas orientações do maestro Jamil Maluf, que há pouco havia retornado da Alemanha, interessando-se por também estudar naquele país.

Continuou seus estudos na Alemanha, na Escola Superior de Música de Detmold (Hochschule für Musik Detmold) (1981-83), sob orientação dos professores Martin Stephani (Regência orquestral) e Alexander Wagner (Regência coral). Ainda na Alemanha, em várias ocasiões assistiu aulas, ensaios e concertos de Sergiu Celibidache, maestro que mais o influenciou ao longo da vida.

Retornando a São Paulo ao início de 1984, passou a priorizar a atividade de Regente orquestral. Inicialmente, dedicou-se à formação de jovens músicos de orquestra, regendo a Orquestra Sinfônica Juvenil do Litoral (1984-91) e a Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí (1985-87). Lutero Rodrigues foi um dos líderes do grupo de regentes de criou a série denominada “Encontro de Orquestras Jovens” que ocorria ao início de cada ano, chegando a ter 5 edições (1984-88). O local era o Conservatório de Tatuí que abrigava os músicos das orquestras participantes durante cerca de 1 semana. Ali, eles recebiam aulas coletivas de seus respectivos instrumentos com professores muito qualificados. À noite, todos assistiam apresentações das orquestras que ali estavam.

Em 1987, quando o maestro Eleazar de Carvalho pediu demissão da Direção Artística dos “Festivais de Inverno de Campos do Jordão”, a Secretária Bete Mendes convidou Lutero Rodrigues para assumir o posto vacante. Foram 4 Festivais sob sua direção (1987-90). Ali decidiu a programação dos inúmeros eventos e regeu grandes obras sinfônicas com a seleta Orquestra do Festival, além de dar aulas de Regência pela primeira vez. Neste período, aproximou-se do compositor Camargo Guarnieri, convidando-o para o Festival de 1988, e tornaram-se grandes amigos.  

Carreira acadêmica Obteve o título de mestre em Música pela UNESP em 2001 e doutor em Musicologia pela USP em 2009. Sua tese, Carlos Gomes, os modernistas e Mário de Andrade, foi premiada pela Funarte e publicada pela Editora UNESP.

Desde 2010, é professor efetivo do Departamento de Música do Instituto de Artes da UNESP, atuando na graduação e na pós-graduação.

Atuação como regente Após Campos do Jordão, passou a atuar como Regente Convidado da maioria das orquestras sinfônicas de numerosos estados do Brasil, destacando-se o Rio de Janeiro. Ali regeu diversos concertos das “Bienais de Música Brasileira Contemporânea”, nos anos 1999, 2005, 2007, 2009 e 2011, estreando dezenas de obras de compositores brasileiros.  Assim, iniciou a carreira de Regente com repertório internacional, mas pouco a pouco foi dando preferência ao repertório brasileiro que, mais tarde, será sua marca registrada.

Enquanto isso, assumiu a regência de algumas orquestras, em diferentes estados do país, por períodos variados. A mais longeva foi aquela que passará a ser chamada de “Orquestra de Câmara da Cidade de Curitiba” (1986-98). Seu repertório foi extenso e muito variado, com destaque para: tournée por várias cidades do México, incluindo a Capital (1990); tournée regional com o grupo de jazz Nouvelle Cuisine (1991); tournée nacional com grandes nomes da música instrumental brasileira contemporânea, como Egberto Gismonti, Wagner Tiso e o lendário baterista Luciano Perrone (Projeto Brasil Musical 1994-95). Destacou-se também a parceria da Orquestra com o compositor José Penalva (1924-2002), ou “Padre Penalva”, grande amigo e conselheiro, músico formidável que dedicou várias composições à Orquestra e foi o responsável por despertar o interesse de Lutero Rodrigues pelo compositor Carlos Gomes. Penalva era também Musicólogo e um grande Regente coral que preparou seu coro, o “Madrigal Vocale”, para a memorável estreia de seu Oratório “Os 4 Cavaleiros do Apocalipse”, para Coro, Solistas e Orquestra, apresentado no Teatro Guaíra, em 1992, regido por Lutero Rodrigues.    

Ainda em 1995, foi gravado um CD só com obras de compositores brasileiros, denominado “Música Brasileira I”. Em 1997, o grupo viajou para a Dinamarca com Egberto Gismonti, apresentando obras suas e de outros compositores, com a participação especial do célebre grupo vocal Ars Nova, daquele país. Durante todo o período de 12 anos, a Orquestra realizou concertos de destaque em todas as “Oficinas de Música de Curitiba”, enquanto Lutero Rodrigues integrava seu Corpo Diretivo e/ou atuava como Professor de Regência, à frente da “Orquestra da Oficina.”

Em 1992, Lutero Rodrigues assumiu também a Regência e Direção Artística da “Orquestra Sinfônica da Paraíba”.

Continuava o período de muitas viagens: a convite do amigo e Maestro Fredi Gerling, que viajava aos EUA para completar seu Doutorado, Lutero Rodrigues assumiu também a Direção da “Orquestra de Câmara Theatro São Pedro”, de Porto Alegre (1996-2003). Onde, preferiu conhecer e valorizar artistas locais, programando concertos com 3 grandes pianistas gaúchos: Ney Fialkow, Dirce Knijnik e Olinda Allessandrini. Quanto aos compositores, já conhecia obras de Bruno Kiefer e Flávio Oliveira, amigo de vários anos, vindo a conhecer composições de Luiz Cosme, Armando Albuquerque e Radamés Gnattali, consagrados mestres do passado recente. Programou também jovens compositores, destacando-se 3 deles: Dimitri Cervo, que desenvolve trajetória exitosa; Fernando Mattos, que será querido parceiro em diversos projetos musicais e Suzana Almada (Bettiol), jovem de talento promissor. No entanto, Fernando e Suzana, em diferentes ocasiões, faleceram precocemente alguns anos depois.

Em Porto Alegre, realizou concertos com os grandes pianistas brasileiros do momento: Nelson Freire, Yara Bernette, Caio Pagano, Gilberto Tinetti, entre outros. Também pianistas internacionais, como Ann Schein (EUA). Mais marcantes foram os 2 eventos operísticos e um cênico com Ballet: Concertos de estreia da “Turnê Brasileira” ds Soprano Coreana Sumi Jo em Santa Maria e Porto Alegre (1998), Regência de Lutero Rodrigues.  Apresentação da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, com 3 récitas de casa cheia, em junho de 2000. Por fim, em julho de 2001, a apresentação de “Novena à Senhora da Graça” que não se trata de música sacra; Senhora da Graça era a mulher amada. Texto do poeta modernista gaúcho, Theodemiro Tostes e música de Luiz Cosme, transcrita para Orquestra de Cordas e Piano, por Fernando Mattos. No palco: ator e bailarinas; Direção cênica de Décio Antunes e Direção musical de Lutero Rodrigues. Muito importante, para o entendimento da obra e seu contexto, foram os depoimentos da Sra. Zuleika Rosa Guedes (1919-2019), célebre Professora de Piano e escritora, que conheceu o poeta, o compositor e acompanhou a estreia da obra em sua versão original, na década de 1950.  

Quase ao mesmo tempo, em São Paulo, Lutero Rodrigues assumiu também a Regência da Sinfonia Cultura – Orquestra da Rádio e TV Cultura (1997-2005). Atuava em espaços alternativos e prestava serviços à Rádio e TV Cultura, gravando vinhetas, musicais e diferentes programas da emissora. Durante 5 anos (1999-2005), dedicou-se à formação de público, em parceria com o Sesc, realizando a séria dos “Concertos Sesc & Sinfonia Cultura”: cerca de 160 concertos, com programas que se renovavam após 1 repetição, tendo como palco o SESC Belenzinho. No mesmo Projeto, em 2 ocasiões realizou apresentações para grande público: no Ginásio do Ibirapuera (2001) e na Basílica de Aparecida (2002). A orquestra também prestou serviços a eventos externos: gravou 3 trilhas de cinema, com destaque dos filmes “Pelé Eterno” e “500 Almas”, este com música de Lívio Tragtenberg que recebeu o Prêmio de “Melhor Trilha Sonora”, do 37º Festival de Cinema de Brasília (2004); participou de 4 montagens de óperas (1998, 1999, 2000 e 2002) e 4 espetáculos de Ballet, destacando-se as 2 vezes em que acompanhou o célebre Ballet Bolshoi (1999 e 2001). Participou ainda de Festivais e eventos em grandes salas: “Festival de Inverno de Campos do Jordão” (1998, 1999, 2003); “Festival de Música Nova de Santos” (2003, 2004); Entrega do “Prêmio Carlos Gomes” (1998, 1999, 2001, 2004) e “Abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo” (1999), ambos na Sala São Paulo.

Após a extinção da Sinfonia Cultura, Lutero Rodrigues dedicou-se a outros projetos, destacando-se aquele em que, entre outras atribuições, exercia a atividade de Regente. Sob patrocínio da Petrobrás, em Projeto dirigido por Francisco Coelho, participou da edição e gravação, em CD e DVD, dos 3 Concertos para Violino e Orquestra, de Camargo Guarnieri, gravados ao vivo em agosto de 2008, no Teatro Municipal de São Paulo. Como solista, o jovem violinista brasileiro Luiz Filipe, destacado aluno da Profa. Elisa Fukuda. Ele é acompanhado pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, sob a Regência de Lutero Rodrigues.

Ainda durante o Doutorado, ingressou na UNESP como Professor substituto, assumindo também, em 2009, a direção da Orquestra Acadêmica da UNESP (OAUNESP), grupo que irá dirigir até o final de junho de 2025. Outras atividades regulares da OAUNESP, envolvendo diferentes setores do Instituto de Artes, foram os concertos de Natal que sempre contaram com a participação dos diversos Corais do Instituto, servindo também para os alunos de Canto terem destacadas participações como solistas. Independente do repertório desenvolvido com os alunos de Regência, em cada ano a Orquestra preparava novos repertórios executados em suas diversas apresentações, mas em algumas ocasiões, eram repertórios especiais. O primeiro deles, já em 2010, foi produto da pesquisa musicológica do Prof. Lutero Rodrigues, com grande colaboração dos pesquisadores André Cardoso (UFRJ) e Lenita W. M. Nogueira (UNICAMP), resultando na gravação de um CD, com a OAUNESP, contendo músicas do esquecido “Romantismo musical brasileiro”. A Direção Musical do Prof. Lutero Rodrigues encerrou-se ao final de junho de 2025. Em seu último concerto à frente da OAUNES, dia 26 de junho, escolheu um programa que sintetizasse as prioridades da programação desenvolvida ao longo dos anos:Camargo Guarnieri e Edino Krieger; estreia de obra de um jovem compositor, Caliel Augusto, ainda aluno do Instituto de Artes Unesp; obras monumentais de 2 consagrados mestres internacionais: Adagio e Fuga, de Mozart, e o Divertimento para Orquestra de Cordas, de Béla Bartók.