Ainus ou ainos (Ainu: アィヌ, Аину, Aynu; Japonês: アイヌ Ainu; Russo: Айны Ajny), em textos históricos japoneses conhecidos como , são um grupo étnico indígena do Japão (Hokkaido e historicamente Tohoku) e da Rússia (ilhas Curilas, Sacalina e Kamchatka).
O número oficial de ainus é 25 mil, mas não-oficialmente estimado em 200 mil, pois muitos ainus foram assimilados às sociedades japonesa e russa e não possuem conhecimento de sua ancestralidade ou a omitem de propósito.
História
Pré-moderno
Pesquisas recentes sugerem que a cultura ainu surgiu da mistura das culturas Okhotsk, Satsumon e Pós-Jomon/Zoku-Jomon. Em 1264, os ainus invadiram as terras do povo Nivkh, controlados pela dinastia Yuan da China, resultando em conflitos entre os ainus e os chineses. Contatos ativos entre os japoneses e os ainus de Ezo (atual Hokkaido) iniciaram no século XIII. Os ainus eram caçadores-coletores, subsistindo principalmente da caça e da pesca. Sua religião era baseada em fenômenos naturais.
Durante o período Muromachi (1336–1573), as disputas entre os ainus e os japoneses se tornaram uma guerra. Takeda Nobuhiro matou um líder ainu, Koshamain. Isto levou à Revolta de Koshamain, em 1456.
Durante o período Edo (1601–1868), os ainus, que controlavam a parte norte de Hokkaido, se envolveram cada vez mais no comércio com os japoneses, que controlavam a parte sul da ilha. O Xogunato Tokugawa concedeu direitos exclusivos de comércio com os ainus ao clã Matsumae. Mais tarde, o clã começou a conceder direitos de negócios a comerciantes japoneses e o contato entre os ainus e os japoneses tornou-se mais comum. Neste período, os ainus tornaram-se cada vez mais dependentes de produtos importados pelos japoneses e sofriam de epidemias, como a varíola. Apesar do contato criado pelo comércio entre os dois povos ter levado a um entendimento mútuo, também levou a conflitos que às vezes se intensificavam em rebeliões violentas. A mais importante foi a Revolta de Shakushain (1669–1672), uma rebelião contra a autoridade japonesa. Outra rebelião de larga escala foi a Batalha de Menashi-Kunashir em 1789.
Restauração Meiji e posteriormente
No século XVIII, havia 80 mil ainus. Em 1868, havia aproximadamente 15 mil ainus em Hokkaido, 2 mil em Sacalina e por volta de 100 nas ilhas Curilas.
O início da Restauração Meiji em 1868 foi um ponto crítico para a cultura ainu. O governo japonês introduziu várias reformas políticas, sociais e econômicas na esperança de modernizar o país no estilo ocidental. Uma das inovações envolveu a anexação de Hokkaido. Sjöberg cita o relato de Baba (1980) sobre o pensamento do governo japonês:
... O desenvolvimento da grande ilha japonesa ao norte tinha vários objetivos: Primeiro, era visto como um meio de defender o Japão contra uma Rússia expansionista e que se desenvolvia rapidamente. Segundo ... ofereceu uma solução para o desemprego da antiga classe samurai ... Finalmente, o desenvolvimento prometia produzir os recursos naturais necessários para uma economia capitalista em crescimento.
Em 1899, o governo japonês aprovou um decreto que categorizava os ainus como "antigos aborígenes", com a ideia de que eles seriam assimilados—isto resultou no governo japonês tomando a terra em que viviam os ainus e a colocando desde então sob o controle do Japão. Poucos anos antes, em 1871, foi concedida cidadania japonesa aos ainus, porém visando o desenvolvimento de Hokkaido em detrimento do modo de vida ainu, que se deteriorou.
miniaturadaimagem|Um grupo de ainu, em cerca de 1870Os ainus se tornaram cada vez mais marginalizados em sua própria terra — em pouco mais de apenas 36 anos, os ainus foram de um grupo relativamente isolado com sua própria terra, língua, costumes e religião assimilados nos dos japoneses. Além disso, a terra em que os ainus viviam foi distribuída para japoneses que decidiram viver em Hokkaido, encorajados pelo governo japonês para tomar proveito dos recursos naturais abundantes da ilha e para criar e manter fazendas no modelo industrial ocidental. Enquanto naquele tempo o processo era abertamente referido como colonização ("takushoku" 拓殖), tal conceito foi depois reformulado pela elite japonesa para a usagem atualmente comum de "kaitaku" (開拓), que em vez disso transmite o significado de abertura ou recuperação das terras dos ainus. Além disto, fábricas, como moinhos de farinha, cervejarias e práticas de mineração resultaram na criação de infraestrutura, como estradas e linhas ferroviárias, durante um período de desenvolvimento que durou até 1904. Durante este tempo, os ainus foram forçados a aprender japonês, a adotar nomes japoneses e a abandonar suas práticas religiosas, como o sacrifício de animais e tatuagens.
O decreto de 1899 foi substituído em 1997—até então, o governo não admitia a existência de minorias étnicas, neste marco legal reconheceu-se pela primeira vez o direito ainu ao usufruto de suas distintas cultura e tradição. Em 2008 o parlamento japonês os reconhece enquanto grupo indígena, mas somente em abril de 2019 o Japão formalmente realiza tal reconhecimento.
Acredita-se que a maioria dos colonos japoneses compeliu mulheres ainus a serem suas parceiras e esposas. O casamento com japoneses era aprovado pelos ainus para diminuir a discriminação de sua descendência. Como resultado, muitos são indistinguíveis dos japoneses, mas alguns ainu-japoneses se interessam na cultura ainu tradicional. Há várias pequenas cidades na parte sudeste de Hokkaido (região de Hidaka) em que atualmente vive certo número de ainus, como Nibutani.
Seu etnônimo mais conhecido é derivado da palavra aynu, que significa "humano" (em contraste com kamuy, seres divinos), alguns também se identificam como Utari ("companheiro" na língua ainu). Documentos oficiais utilizam ambos os nomes.
miniaturadaimagem|Um grupo de ainus levando presentes a japoneses em 1751, próximo a Hakodate, Hokkaido|955x955px
Reconhecimento oficial no Japão
miniaturadaimagem|Mapa da distribuição dos ainus em Hokkaido
miniaturadaimagem|Um casal ainu no Japão (1914)
Em 6 de junho de 2008, a Dieta Nacional do Japão aprovou uma resolução bipartidária e não vinculante, exigindo que o governo reconhecesse os ainus como indígenas do Japão, e instigando um fim para a discriminação contra o grupo. A resolução reconheceu o povo ainu como "um povo indígena com língua, cultura e religião distintos". O governo imediatamente seguiu com uma declaração confirmando o reconhecimento, dizendo "O governo gostaria de solenemente aceitar o fato de que muitos ainus sofreram discriminação e foram forçados à pobreza com o avanço da modernização, apesar de serem legalmente iguais aos japoneses.". Em fevereiro de 2019, o governo japonês consolidou o status legal do povo ainu ao aprovar uma lei que oficialmente os reconhece como um povo indígena. Além disso, o projeto de lei visa simplificar os procedimentos para obter várias permissões das autoridades em relação ao estilo de vida tradicional dos ainus.
Reconhecimento oficial na Rússia
Como resultado do Tratado de São Petersburgo (1875), as ilhas Curilas, juntamente com os habitantes ainu, passaram para a administração japonesa. Um total de 83 ainus das Curilas do norte chegaram em Petropavlovsk-Kamchatski em 18 de setembro de 1877, após terem decidido ficar sob o comando da Rússia. Eles recusaram a oferta dos oficiais russos para mudar-se a novas reservas nas Ilhas Komandorski. Finalmente, um tratado foi feito em 1881 e os ainus decidiram estabelecer-se no vilarejo de Yavin. Em março de 1881, o grupo deixou Petropavlovsk e iniciou a jornada a pé até Yavin. Quatro meses depois, eles chegaram em seus novos lares. Sob o governo soviético, ambos os vilarejos foram forçados a se desfazer e os moradores foram mudados ao assentamento agrícola de Zaporozhye (de maioria russa) no Raion de Ust-Bolsheretsky. Como o resultado de casamentos entre as três etnias – russos, ainus e Itelmen – houve a formação da comunidade Kamchadal. Em 1953, K. Omelchenko, o ministro da proteção de segredos militares e do estado na URSS, baniu a imprensa de publicar qualquer informação sobre os ainus vivendo na URSS. Esta ordem foi revogada vinte anos depois.
Em 2015, os ainus das Curilas do norte the Zaporozhye formavam o maior subgrupo ainu na Rússia. O clã Nakamura (ainu das Curilas do sul no lado paterno), o menor grupo, tem apenas seis integrantes que residem em Petropavlovsk. Em Sacalina, poucas dúzias de pessoas se identificam como ainus, mas muitos mais com ascendência parcial não reconhecem isso. A maioria dos 888 japoneses vivendo na Rússia (de acordo com o censo de 2010) são de ascendência mista ainu-japonesa, apesar de não reconhecerem isso (ascendência total japonesa os dá acesso livre e sem visto para o Japão).
No censo de 2010 da Rússia, cerca de 100 pessoas tentaram se registrar como ainus, mas o conselho governante do Krai de Kamtchatka recusou suas reivindicações e os categorizou como Kamchadals. Em 2011, o líder da comunidade ainu em Kamchatka, Alexei Vladimirovich Nakamura, pediu para que Vladimir Ilyukhin (governador de Kamchatka) e Boris Nevzorov (presidente da Duma Estatal) incluíssem os ainus na lista de "Povos indígenas de número reduzido do Norte, da Sibéria e do Extremo Oriente". Este pedido também foi recusado.
Os ainus do Oblast de Sacalina e do Krai de Khabarovsk não estão politicamente organizados. De acordo com Alexei Nakamura, em 2012, apenas 205 ainus vivem na Rússia (de 12 pessoas que se identificaram como ainu em 2008) e eles, juntamente dos Kamchadals das Curilas (Itelmen das Ilhas Curilas), estão lutando por reconhecimento oficial. Já que os ainus não são reconhecidos na lista oficial de povos vivendo na Rússia, eles são categorizados como pessoas sem nacionalidade, como russos (étnicos) ou Kamchadal.
Os ainus deram ênfase ao fato de que eles eram os nativos das Ilhas Curilas e que os japoneses e os russos eram invasores. Em 2004, a pequena comunidade de ainus russos no Krai de Kamchatka enviaram uma carta a Vladimir Putin, pedindo que ele repensasse qualquer decisão de conceder as Ilhas Curilas do sul ao Japão. Na carta eles culparam os japoneses, os russos czaristas e os soviéticos por crimes contra os ainus, como assassinatos e assimilação, e também pediram que ele reconhecesse o genocídio dos japoneses contra o povo ainu—que foi rejeitada por Putin.
Origem
Os ainus são frequentemente considerados descendentes diretos do povo Jōmon, que viveu no Japão durante o período Jōmon (~14 000 a.C. a 300 d.C.). Um de seus Yukar Upopo diz que "os ainus viveram neste lugar centenas de milhares de anos antes da chegada dos Filhos do Sol".
miniaturadaimagem|Caçadores ainus, século XIX
Pesquisas recentes sugerem que a cultura ainu resultou da união entre as culturas Okhotsk e Satsumon (considerada derivada de culturas do período Jōmon).
Ainus puros, comparados com os Yamato (japoneses), geralmente possuem pele mais clara e mais pelos corporais. Muitos estudiosos antigos propuseram uma ancestralidade caucasiana, mas testes de DNA recentes não mostram nenhuma similaridade com europeus modernos.
O antropólogo Joseph Powell da Universidade do Novo México escreveu "...nós concordamos com as visões de Brace e Hunt (1990) e de Turner (1990) de que os ainu são uma população do Sudeste Asiático derivada dos antigos povos Jomon do Japão, que têm afinidades genéticas mais próximas aos asiáticos do sul do que com Eurasiáticos ocidentais".
Uma pesquisa de DNA autossomal de 2017 resultou no agrupamento dos ainus e de outros remanescentes Jōmon com os asiáticos do nordeste (Sibéria Oriental).
Mark J. Hudson, professor de antropologia na Universidade Nishikyushu, em Kanzaki, Saga, defende que o Japão foi povoado por uma população "Proto-Mongol" no período pleistoceno que se tornou o povo Jōmon, e que suas características podem ser vistas nos ainus e nos ryukyuanos.