thumb|254px|Ascidiacea da espécie Atriolum robustum sobre coral mole da espécie Siphonogorgia godeffroyi. thumb|254px|Larva lecitotrófica e adulto. Ascídias (Filo: Chordata, Classe: Ascidiacea) compreendem a classe mais diversa do subfilo Tunicata (também conhecido como Urochordata). Foram descritas aproximadamente 3000 espécies em todos os habitats marinhos.SHENKAR, N., et al. World ascidiacea database. 2012. Disponível em: http://www.marinespecies.org/ascidiacea. Consultado em: 04/02/2013. Podem ser encontradas tanto solitárias como em colônias, apresentando diversas cores e formas, ou mesmo serem imperceptíveis. São animais bentônicos, sésseis quando adultos, porém quando no estágio larval, se locomovem para encontrar um substrato para fixação. Em algumas espécies podem fixar-se num substrato e voltar a nadar antes da fixação num substrato definitivo.KREMER, L. P. Potencial invasor de Didemnum perlucidum (Tunicata, Ascidiacea) em um ambiente de cultivo de mexilhões. Dissertação de mestrado em ciências biológicas; Universidade Federal do Paraná; 2008. Alimentam-se por filtração de alimentos em suspensão.

Descrição Os indivíduos adultos apresentam pouca semelhança com os típicos cordados, embora o seu estágio larval de curta duração apresente todas as características principais do filo Chordata: cordão nervoso dorsal tubular, notocorda, fendas faríngeas rudimentares e cauda pós-anal. Outra característica importante é a presença do endóstilo na faringe, que é considerado homólogo da glândula tireóidea dos vertebrados.FUJITA, H.; NANBA, H. Fine structure and its functional properties of the endostyle of ascidians, Ciona intestinalis: a part of phylogenetic studies of the thyroid gland. Z Zellforsch Mikrosk Anat 121:455–469; 1971. A larva lecitotrófica sofre metamorfose e perde todas essas características, exceto o endóstilo e as fendas faríngeas rudimentares, que tornam-se funcionais e multiplicam-se para formar os sacos branquiais. Todas as ascídias são hermafroditas, mas evitam autofertilização produzindo gametas femininos e gametas masculinos em momentos diferentes.NEWLON, A. W. I., YUND, P. O., STEWART, S. J. Phenotypic plasticity of reproductive effort in a colonial ascidian, Botryllus schlosseri. J Exp Zool A 297:180–188; 2003. Possuem alto potencial invasor, na maioria das vezes causando prejuízos ecológicos.CASTILLA, J., et al. Invasion of arocky intertidal shore by the tunicate Pyura praeputialis in the Bay of Antofagasta, Chile. Proc Natl Acad Sci USA 101(23):8517–8524; 2004.BLUM, J. C., et al. The non-native solitary ascidian Ciona intestinalis (L.) depresses species richness. J Exp Mar Biol Ecol 342:5–14; 2007.

Estudos químicos e bioquímicos de ascídias têm levado a descoberta de compostos com propriedades farmacológicas. A principal aplicação desses compostos têm sido como agentes antitumorais, assim como também estão sendo desenvolvidos agentes anti-HIV a partir desses compostos. Também foi descoberto que no esôfago da ascídia Styela clava existem células endócrinas que secretam um hormônio semelhante à insulina humana.ROCHA, M. R. Laboratório de Biologia de Ascidiacea. 2010. Disponível em: http://zoo.bio.ufpr.br/ascidia/ acessado em: 01/02/2013. Além disso, muitas espécies solitárias são cultivadas para a alimentação no Japão, Coréia, França e Chile LAMBERT, G. Ecology and natural history of protochordates. Can J Zool 83: 34-50; 2005. ou extraídas diretamente de costas rochosas para consumo humano ou isca.

Diversidade e ocorrência

As ascídias compreendem a maior e mais diversa classe do sub-filo Tunicata (Urochordata), totalizando aproximadamente 3000 espécies já descritas e todas de ambiente marinho. Os indivíduos adultos apesar de serem sésseis habitam uma grande diversidade de habitats como sedimentos moles, recifes de coral e substratos rochosos. Podem ser encontradas desde ambientes quentes até ambientes frios como na Antártica. Além disso, podem sobreviver em ambientes com salinidade abaixo de 20-25%SIMS, L. L. Osmoregulatory capabilities of three macrosympatric stolidobranch ascidians, Styela clava Herdman, S. plicata (Lesueur) and S. montereyensis (Dall). J Exp Mar Biol Ecol 82: 117–129; 1984.) ou acima de 44%.GAB ALLA AAFA. Distribution of the sea squirt Ecteinascidia thurstoni Herdman, 1890 (Ascidiacea: Perophoridae) along Suez Canal and Egyptian Red Sea Coasts. Oceanologia 50: 239–253; 2008. Espécies da Antártida podem tolerar baixas temperaturas da água como -1,9 °C, enquanto que outras espécies podem sobreviver em temperaturas acima de 35 °C no Golfo Pérsico. Tem ocorrência em todo o mundo, no Brasil foram encontradas 57 espécies.SHENKAR, N., SWALLA B. J. Global Diversity of Ascidiacea. Plos One 6(6): e20657. doi:10.1371/journal.pone.0020657; 2011.DIAS, G. M., et al. Fifty years of ascidian biodiversity research in São Sebastião, Brazil. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, 93(1), 273–282, 2013.

Parede do corpo e sustentação As ascídias possuem um epitélio simples recoberto por uma túnica bem desenvolvida e de matriz composta por um carboidrato chamado tunicina. A túnica fornece suporte e proteção, varia de macia e gelatinosa a resistente e coriácea, às vezes, inclui espículas calcárias. No entanto, esse revestimento não é inerte já que contém amebócitos e, em alguns casos, células e vasos sanguíneos. Algumas ascídias abrigam algas simbiontes em suas túnicas. Faixas musculares situam-se abaixo da epiderme, esses músculos localizam-se no interior de um mesênquima produzido pela ectoderme, chamado manto. Músculos longitudinais que se estendem ao longo da parede corpórea servem para puxar os sifões abertos junto do corpo, que são dois: o sifão inalante e o sifão exalante. Músculos circulares do esfíncter fecham as aberturas dos sifões. A cavidade do corpo foi perdida, concomitantemente, com a evolução de uma câmara de água denominada átrio, que funciona na filtração.BRUSCA, R. C., BRUSCA, G. J. Invertebrados. Editora Guanabara Koogan; segunda edição, 2006.

Digestão

Por serem animais filtradores de suspensão, sua alimentação está baseada em partículas alimentares suspensas na água. Algumas espécies como as da família Octacnemidae são consideradas em parte ou totalmente carnívoras,MONNIOT, C., MONNIOT, F., LABOUTE, P. Coral reef ascidians of New Caledonia. Orstom, Paris; 1991. mas todas as outras espécies de ascídias são alimentadas da captura de partículas em suspensão. Seu sistema digestório é composto por um esôfago, estômago e intestino. Em todas as ascídias estudadas até o momento o estômago é o principal local de digestão e absorção de alimentos.BURIGHEL, P., CLONEY, C. Urochordata: Ascidiacea. In “Microscopic Anatomy of Invertebrates Vol.15” Ed by Harrison, F. W. Woollacott, R. M. W., Wiley-Liss, New York, pp 221–347; 1997. Anteriormente ao seu trato digestório, localiza-se uma cesta branquial, que está conectada ao endóstilo que produz uma rede de muco e o transporta ao longo do interior da mesma. A água que entra nas ascídias é bombeada através do sifão inalante, com o auxílio de cílios localizados na cesta branquial que criam uma corrente de água, as partículas ao entrarem no sifão inalante são presas nessa rede de muco, permitindo assim que o animal faça uma seleção de partículas a serem ingeridas.PETERSEN, J. K. Ascidian suspension feeding. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 342 127–137; 2007. As partículas ingeridas se direcionam para o esôfago, depois para o estômago, onde vai ocorrer a digestão, por fim para o intestino para que os restos sejam liberados pelo ânus no átrio, para serem expulsos pelo sifão exalante.KOYAMA, H., TANEDA, Y., ISHII, T. The Postbranchial Digestive Tract of the Ascidian, Polyandrocarpa misakiensis (Tunicata: Ascidiacea). Zoological Science, 29(2):97-110. 2012.

Circulação Nos tunicados o sistema circulatório é pouco desenvolvido, mas é bem visualizado nas ascídias, que possuem um coração tubular curto situado póstero-ventralmente no corpo, próximo ao estômago e atrás da cesta faríngea. O coração é circundado por uma cavidade pericárdica. Os vasos sanguíneos estendem-se anterior e posteriormente, abrindo-se em espaços em torno dos órgãos internos, e fornecem, também, suprimento sanguíneo à túnica. O batimento cardíaco é por ação peristáltica e a direção desse movimento é, periodicamente, revertida, fluindo sangue através do coração primeiro em uma direção e depois em outra. A fisiologia e a função sanguínea ainda não foi completamente compreendida, havendo apenas especulações. Trocas gasosas Ocorre através da parede do corpo, especialmente através dos revestimentos da faringe e do átrio. Pouco se conhece acerca da fisiologia respiratória desses animais.

Excreção Na maioria das ascídias originam-se duas evaginações da parede posterior da faringe, que se situam ao longo de cada lado do coração. Estas estruturas são denominadas cavidades epicardíacas, que em algumas espécies funciona no acúmulo de produtos residuais nitrogenados, pela formação de cápsulas de estocagem denominadas vesículas renais. Além destas vesículas e de certas células sanguíneas (nefrócitos), é provável que muito do resíduo metabólico seja eliminado do corpo por simples difusão. Sistema nervoso e órgãos do sentido Um pequeno gânglio cerebral situa-se dorsalmente à extremidade anterior da faringe, originando poucos nervos para várias partes do corpo, especialmente músculos e áreas dos sifões. Um tubo nervoso dorsal bem desenvolvido está presente na cauda de suas larvas, mas essa estrutura é perdida durante a metamorfose. Possuem uma glândula neural localizada entre o gânglio cerebral e a porção antero-dorsal da faringe. Essa glândula abre-se para a faringe através de um pequeno duto, mas sua função é desconhecida. Os receptores sensoriais são pouco desenvolvidos, embora prevaleçam neurônios sensoriais táteis em torno dos sifões.

Reprodução e desenvolvimento Embora as ascídias sejam hermafroditas, muitas espécies são incapazes de fecundar seus próprios ovos. A reprodução sexuada em ascídias coloniais ocorre através da produção de gametas do macho e da fêmea, logo depois ocorre o lançamento do esperma para o meio ambiente, levando os gametas masculinos para indivíduos femininos da colônia e por fim ocorre uma fecundação interna. A reprodução assexuada em formas coloniais ocorre de muitas maneiras: uma colônia pode dividir-se por fragmentação ou fissão, ou zoóides podem replicar-se dentro uma colônia por brotamento. Enquanto que ascídias coloniais normalmente retém a ninhada e seus ovos, as ascídias solitárias liberam seus ovos e esperma na água para a fertilização externa. Após a fertilização, o tipo de desenvolvimento encontrado nas ascídias é o desenvolvimento holoblástico bilateral, onde o primeiro plano de divisão estabelece o plano de simetria do embrião, dividindo o embrião em lado direito e lado esquerdo. Logo depois esse embrião irá se desenvolver numa larva lecitotrófica, que é um estágio de curta duração das ascídias. Essa larva possui um sistema nervoso central bem desenvolvido que se assemelha ao dos vertebrados, além disso, possui vários receptores sensoriais que funcionam na fixação, e provavelmente na seleção do substrato. Os indivíduos adultos apresentam pouca semelhança com os típicos cordados, embora o seu estágio larval de curta duração apresente todas as características principais do filo Chordata: cordão nervoso dorsal tubular, notocorda, fendas faríngeas rudimentares e cauda pós-anal, essa larva sofre metamorfose e posteriormente perde todas essas características, exceto o endóstilo e as fendas faríngeas rudimentares, que tornam-se funcionais e multiplicam-se para formar os sacos branquiais.RITZMANN, N. F., ROCHA, R. M., ROPER, J. J. Sexual and asexual reproduction in Didemnum rodriguesi (Ascidiacea, Didemnidae). Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, 99(1): 106-110 30 de março de 2009.

Importância ecológica