A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo – Anciãos Conselheiros da Direcção Central (abreviadamente INSJCM-ACDC; oficialmente Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo «Os Tocoístas» – Anciãos Conselheiros da Direcção Central) é uma das três confissões religiosas tocoístas reconhecidas pelo Estado angolano através do Decreto Executivo n.º 14/92, de 10 de Abril. Tem sede no bairro da Palanca, em Luanda, e é liderada pelo bispo primaz Osório Marcos.
A Igreja reivindica a continuidade directa da direcção central instituída pelo próprio Simão Gonçalves Toco (1918–1984), razão pela qual os seus membros se consideram os «remanescentes» da Direcção Central da Igreja. Na imprensa e na literatura, é também designada por «Cúpula» ou simplesmente «Direcção Central».
Denominação A designação «Anciãos Conselheiros» remete para a categoria de Ancião Conselheiro, uma das categorias de membros da Igreja, e para o colégio de anciãos e conselheiros que integrava a direcção central durante a vida do fundador. A expressão «da Direcção Central» distingue a ala das restantes entidades com a mesma denominação — os «12 Mais Velhos» e as «18 Classes e 16 Tribos» —, bem como da corrente liderada por Afonso Nunes.
A Igreja é referida nas suas próprias publicações e na imprensa por variantes como «Anciãos e Conselheiros da Direcção Central» e pela sigla INSJCM-ACDC.
História Antecedentes: a Direcção Central em vida do fundador (até 1984) Segundo a Igreja, a Direcção Central foi constituída pelo próprio Simão Gonçalves Toco no momento da sua partida para o exílio nos Açores e manteve-se à frente da Igreja até à morte do Dirigente. Fontes tocoístas descrevem ainda a formação, em Luanda, de uma nova direcção designada «Cúpula da Igreja» (1977–1984), surgida após a destruição da Igreja Central e o retiro de Toco, num período de perseguição pelas autoridades do novo Estado independente; o Dirigente não a dissolveu e acrescentou-lhe novos membros.
Entre 1976 e 1979, segundo a Igreja, Toco foi preso quinze vezes em Luanda e a Igreja foi encerrada.
A morte do Dirigente e a questão do luto (1984) Simão Gonçalves Toco morreu a 1 de Janeiro de 1984, data que a Igreja assinala como o seu «desaparecimento físico». A sucessão abriu uma crise que a Igreja atribui à disputa pela liderança, à falta de conhecimento bíblico e à ausência de maturidade espiritual de alguns responsáveis.
A primeira divisão surgiu cerca de 60 dias após a morte do fundador, a propósito da duração do período de luto: uma parte defendia 60 dias e outra 90 dias, ambas com base em mensagens espirituais transmitidas por corpos-vate. O grupo dos 60 dias dividiu-se em seguida entre os «12 Mais Velhos» e as «18 Classes e 16 Tribos», enquanto a Direcção Central — que defendia os 90 dias — se manteve como ala própria, apresentando-se como a continuadora fiel da linha doutrinária do fundador. Segundo a Igreja, os outros dois grupos formaram inicialmente uma aliança de curta duração contra a Direcção Central.
Fragmentação e repressão (1984–1992) O período seguinte foi, nas palavras da própria Igreja, a fase mais dolorosa da sua história, com o surgimento de vários grupos a reclamar autenticidade e episódios que levaram à intervenção das forças da ordem e à detenção de fiéis, incluindo no campo prisional de São Nicolau. Em 1986 o Governo angolano ordenou o encerramento da Igreja, na sequência de confrontos entre crentes e forças policiais.
A própria Direcção Central conheceu dissidências internas, entre as quais a «Direcção Profética Mundial» e o «Tabernáculo»; no final da década de 1980 contavam-se cerca de nove igrejas tocoístas. Uma tentativa de reunificação conduzida por Tchiwale junto dos líderes das diferentes alas teve acolhimento da Direcção Central e das 18 Classes e 16 Tribos, mas foi recusada pelos 12 Mais Velhos.
Reconhecimento oficial e liderança de Luzaísso António Lutango (1992–2000) Com a abertura política do início da década de 1990, o Estado angolano reconheceu 45 instituições religiosas através do Decreto Executivo n.º 14/92, de 10 de Abril (Diário da República, I Série, n.º 15), incluindo as três alas tocoístas: os 12 Mais Velhos, os Anciãos Conselheiros da Direcção Central e as 18 Classes e 16 Tribos. A Igreja considera o reconhecimento uma decisão sensata, que permitiu pela primeira vez um período de maior tranquilidade.
À data do reconhecimento, a ala dos Anciãos Conselheiros era liderada por Luzaísso António Lutango, que exerceu a função de representante desde a sua nomeação até 2000. Entre 1992 e 2000 registaram-se várias tentativas de reaproximação entre as três alas.
A crise de 2000 e a reorganização Em 2000 surgiu a corrente denominada «Direcção Universal», liderada por Afonso Nunes, a quem os seus seguidores atribuem a personificação espiritual de Simão Toco. A nova corrente atraiu responsáveis das três direcções reconhecidas, entre os quais o próprio Luzaísso António Lutango, que abandonou a liderança dos Anciãos Conselheiros e aderiu à Direcção Universal. Algumas fontes de imprensa descrevem a Direcção Universal como tendo absorvido o conjunto dos fiéis da «Cúpula»; a Igreja contesta essa leitura e sustenta que a sua estrutura se manteve.
Em resposta, a Igreja convocou um congresso extraordinário, que preencheu os cargos deixados vagos pelos dirigentes que a abandonaram, passando a ser liderada por Osório Marcos. Numa comunicação oficial, os Anciãos Conselheiros declararam não existir qualquer «Direcção Universal» da Igreja, mas sim três igrejas tocoístas reconhecidas pelo Governo em 1992, e rejeitaram a doutrina da encarnação.
Expansão internacional e consolidação institucional (2000–2014) A 19 de Junho de 2007 a Igreja foi registada oficialmente no Brasil, no estado do Rio de Janeiro, com actividade concentrada na cidade do Rio de Janeiro. Implantou-se igualmente na Namíbia, privilegiando a conversão de populações locais em detrimento de comunidades exclusivamente compostas por emigrantes angolanos.
O IV Congresso da Igreja, realizado em 2009, aprovou a Resolução n.º 9/9, de 26 de Julho, que alterou o mandato dos representantes gerais — até então de quatro anos renováveis — para tempo indeterminado, salvo motivo de força maior ou incompatibilidade comprovada pela Direcção Central.
A Igreja criou um centro de formação de obreiros, o Instituto Teológico Simão Gonçalves Toco, que oferece programas desde o catecismo até à licenciatura, ao mestrado e ao doutoramento em Teologia, incluindo ensino a distância à escala nacional, e mantém uma parceria com a FACTEL, instituição teológica interdenominacional brasileira.
Em Janeiro de 2012, uma delegação da Direcção Central — que incluía o bispo Dom Mário Cakuete e o reverendo Fernando Tchiwale — deslocou-se à província de Benguela para um culto provincial, a abertura do ano lectivo do Instituto Teológico e o lançamento da primeira pedra da terceira Missão da Igreja, no município da Catumbela, localidade com especial significado na história do Tocoísmo.
A unificação de 2015 e o acórdão do Tribunal Supremo (2015–2021) Por despacho de 30 de Outubro de 2015 do ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Rui Mangueira, publicado no Diário da República n.º 156, I Série, de 16 de Novembro de 2015, foi reconhecida uma única Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Os Tocoístas), liderada por Afonso Nunes, e revogado o reconhecimento de 1992 das três alas, incluindo o dos Anciãos Conselheiros da Direcção Central.
O despacho foi impugnado pela ala dos 12 Mais Velhos. No processo n.º 85/19, o Tribunal Supremo, reunido a 11 de Novembro de 2020, anulou o acto ministerial, entendendo que não existia união entre as três alas e que a unificação fora feita de forma unilateral, sem manifestação inequívoca de vontade das entidades envolvidas, tendo partido apenas da congregação dos Conselheiros da Direcção Central. A decisão, divulgada em 2021, restabeleceu a situação jurídica decorrente do Decreto Executivo n.º 14/92, sendo objecto de interpretações divergentes pelas diferentes alas.
70.º aniversário da relembrança (2019) Em 2019 a Igreja celebrou os 70 anos da relembrança sob o lema «70 anos na preservação da aliança com Deus». As festividades centrais decorreram de 14 a 18 de Agosto de 2019 na Paróquia Nova Jerusalém, em Cacuaco, considerada o mais conhecido reduto da denominação, e incluíram palestras sobre as alianças bíblicas e a descida do Espírito Santo em África, a apresentação dos programas do Instituto Teológico e homenagens a fiéis em categorias como «Dedicação à Obra», «Defesa da Igreja» e «Heróis da Fé».
As comemorações contaram com uma delegação da Ordem dos Ministros Evangélicos no Brasil e no Exterior (OMEBE) e com o lançamento de obras do bispo Osório Marcos, entre as quais Esboços de Teologia Sistemática, Compêndio Bíblico Teológico Doutrinário e Ensaio Apologético. No mesmo ano, a Igreja participou na auscultação pública que precedeu a aprovação da Lei sobre a Liberdade de Religião, Crença e Culto.
Doutrina A Igreja define-se como uma instituição religiosa sem fins lucrativos, políticos ou subversivos, constituída por homens e mulheres que, dentro da doutrina cristã, professam o Tocoísmo como mensagem de salvação à luz da Bíblia, transmitida por Simão Gonçalves Toco pelo poder do Espírito Santo. Considera-se «relembrada» — e não fundada — a 25 de Julho de 1949, entendendo-se como a mesma Igreja fundada por Jesus Cristo em Jerusalém e confiada aos Apóstolos.
Os seus princípios de fé, segundo o Estatuto, são: o Credo Apostólico; a fé na Santíssima Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas da mesma substância, poder e eternidade; a fé na ressurreição de Cristo; a fé no baptismo; a fé na Santa Ceia.
A doutrina encontra-se sistematizada em três documentos declaratórios: os Princípios de Conduta Cristã Tocoísta, os Princípios de Doutrina Cristã Tocoísta e a Declaração de Fé Tocoísta, esta com 24 artigos. A observância dos Dez Mandamentos e dos Preceitos da Igreja é dever de todos os membros.
Quanto à figura do fundador, o bispo Osório Marcos considera secundária a questão de saber se Toco deve ser visto como profeta ou como «Cristo negro», sublinhando que o essencial é reconhecê-lo como enviado de Deus. A Igreja rejeita as reivindicações de pessoas que, após 1984, se apresentaram como mensageiros ou personificações do fundador. Sobre Ntaya, que outras alas consideram a «Cidade Santa» e sede espiritual, a Igreja declarou em 2019 que a questão não constitui preocupação da sua Direcção Central.
Culto e práticas O culto público realiza-se normalmente ao domingo e consiste sobretudo na pregação do Evangelho; ao longo da semana decorrem reuniões de oração, estudos bíblicos e doutrinários e comemorações especiais. A Igreja incentiva igualmente o culto doméstico e a devoção pessoal.
O louvor inclui o regozijo, internamente conhecido como nkembo, animado por diversos instrumentos musicais (Êxodo 15:20; Salmos 150). São hinos oficiais «Rei dos Céus Andará» (de abertura), «Quando a Vida Terreal Findar» e «Voluntários de Cristo em Fileira».
A admissão de membros exige a fé na Santíssima Trindade, a aceitação de Jesus Cristo como único Salvador, a confissão dos pecados perante testemunhas segundo o ritual da Igreja e a promessa de observância dos Dez Mandamentos e dos Preceitos. As crianças com menos de 11 anos e 2 meses não confessam, sendo apenas assinaladas; os filhos de membros são admitidos por dedicação ao 33.º dia (rapazes) ou ao 66.º dia (raparigas) após o nascimento (Levítico 12:4-5).
Os dirigentes e obreiros exercem as suas funções em regime de voluntariado, sem remuneração, subsídio ou outras regalias.
Símbolos Estrela: estrela de oito pontas, de linhas geométricas, verde sobre fundo branco, que simboliza a virtude do Espírito Santo sobre a humanidade e a esperança de uma vida melhor e eterna. O seu uso fora do contexto eclesial é proibido.